Hoje, li uma notícia que me pareceu vinda de outro século. Vi um relato cerca de que soldados norte-coreanos enviados ao front russo teriam recebido a ordem tácita, ou explícita, de se matar para evitar a captura. Essa notícia não pertence apenas ao noticiário da guerra na Ucrânia. Ele nos devolve a uma longa tradição histórica em que o Estado reivindica o direito supremo sobre o corpo de seus combatentes: não apenas ordenar que matem, mas decidir também como devem morrer.
A guerra sempre produziu cadáveres; alguns regimes, porém, exigem algo mais: produzem mortos obedientes. O suicídio do soldado para escapar ao cativeiro não nasce na Coreia do Norte. Ele reaparece, sob formas diversas, em múltiplas civilizações militares. Em Esparta, a vergonha da derrota podia ser pior que a morte. Em Roma, a virtus e a dignitas tornavam a captura um estigma profundo para comandantes. Na tradição samurai japonesa, o seppuku ritualizou a ideia de que a honra vale mais que a sobrevivência. No século XX, o Japão imperial levou esse princípio ao paroxismo com os kamikazes e com guarnições inteiras instruídas a lutar até o último homem.
Mas há uma diferença crucial entre morrer por convicção pessoal e morrer por engenharia ideológica. O guerreiro antigo podia internalizar códigos de honra; o Estado totalitário os industrializa. Na Coreia do Norte, onde o indivíduo existe em função da dinastia e do partido, o soldado é educado desde cedo a considerar a captura como traição metafísica. Cair prisioneiro não seria apenas fracassar militarmente; seria contaminar a pureza política do regime. O corpo do combatente deixa de ser seu. Ele pertence ao Estado em vida e continua pertencendo-lhe na morte.
É aqui que ocorre a segunda morte.A primeira é física: a granada detonada no peito, o disparo final, o corpo abandonado na lama de uma guerra distante. A segunda é simbólica: o cadáver convertido em monumento, desfile, estátua, discurso, medalha póstuma. O homem desaparece; nasce a peça de propaganda.
Nenhum regime autoritário desperdiça seus mortos. Eles são politicamente úteis porque não contradizem versões oficiais, não narram medo, não descrevem incompetência logística, não confessam desejo de voltar para casa. O morto é o cidadão ideal da tirania: silencioso, imóvel e reutilizável.
A história militar está cheia desses processos de transfiguração. Os túmulos heroicos de Esparta, as inscrições romanas, os memoriais napoleônicos, os cenotáfios nacionais do século XX, todos procuram dar sentido coletivo ao aniquilamento individual. Contudo, em sistemas fechados, esse rito torna-se mais sombrio: não se homenageia apenas o sacrifício; normaliza-se sua repetição.
Por isso, quando um líder exalta soldados que “preferiram morrer a serem capturados”, não está apenas descrevendo coragem. Está ensinando aos vivos qual morte espera deles. A honra, nesse caso, torna-se uma tecnologia de poder. O vocabulário nobre encobre a nudez brutal da coerção. Fala-se em glória para evitar a palavra desperdício; fala-se em lealdade para não dizer medo; fala-se em patriotismo para ocultar que homens foram enviados a morrer em terras alheias por interesses que jamais escolheram.
No fundo, toda tirania sonha com o mesmo soldado: aquele que aceita morrer sem perguntar por quê. Eis a tragédia permanente. O combatente morre uma vez no campo de batalha. Depois morre novamente quando sua vida singular é apagada e substituída por uma narrativa oficial. Entre a honra proclamada e a carne destruída, quase sempre está o abismo da mentira.
A tragédia de Chernobyl permanecem viva como uma fumaça invisível que atravessa décadas, reaparecendo sempre que o mundo volta a flertar com os mesmos erros. Quarenta anos depois da explosão do reator número 4, ocorrida em 26 de abril de 1986, o nome da usina ucraniana volta a circular não como lembrança arqueológica da Guerra Fria, mas como advertência contemporânea. O passado radioativo tornou a assombrar o presente.
Durante muito tempo, Chernobyl pareceu um episódio encerrado. Era evocada como símbolo final da decadência soviética: um regime obcecado pela aparência de eficiência, incapaz de admitir falhas, lento em informar a população e prisioneiro da lógica burocrática que transformava verdade em ameaça política. O acidente nuclear não foi apenas um desastre técnico. Foi também um desastre moral e administrativo. O reator explodiu porque sistemas falharam, protocolos foram ignorados e a cultura do segredo prevaleceu sobre a responsabilidade pública. Em certo sentido, o que se incendiou ali não foi apenas grafite e urânio, mas a credibilidade de um império.
Parecia, então, uma tragédia datada. Uma relíquia sombria do século XX. A guerra na Ucrânia dissolveu essa sensação de distância.
Desde a invasão russa iniciada em 2022, o vocabulário nuclear regressou ao cotidiano europeu. Tropas ocuparam áreas próximas a instalações atômicas. Alarmes soaram em torno de usinas. Especialistas discutiram riscos de interrupção energética, falhas de refrigeração, danos colaterais e vulnerabilidade de estruturas críticas em zonas de combate. Drones passaram a integrar o imaginário do medo. O que antes era objeto de séries documentais e turismo memorialístico voltou a ser matéria de urgência geopolítica.
Não é necessário que um novo acidente ocorra para que o trauma retorne. Basta a percepção de que ele voltou a ser possível. O medo nuclear opera precisamente assim: ele se alimenta menos do fato consumado do que da iminência. Chernobyl foi uma catástrofe concreta, mas seu legado psicológico é a lembrança de que certas combinações, erro humano, arrogância técnica, opacidade estatal e crise política, permanecem sempre disponíveis.
A guerra moderna agravou esse quadro ao introduzir um paradoxo perturbador. Nunca dispusemos de tantos recursos tecnológicos para monitorar riscos, prever danos e proteger instalações sensíveis. Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão evidente que tecnologia alguma neutraliza a irracionalidade política. Satélites, sensores, inteligência artificial e sistemas automatizados coexistem com decisões tomadas por líderes movidos por cálculo bruto, ressentimento histórico e vontade de poder. A sofisticação das máquinas não eliminou a precariedade moral de seus operadores.
Chernobyl, nesse sentido, continua atual porque revela uma verdade profunda da modernidade: o aumento do poder técnico amplia também a escala potencial da falha humana. Em eras antigas, governantes podiam arruinar cidades. No século XX, puderam contaminar continentes. No XXI, continuam capazes de colocar infraestruturas críticas sob risco em nome de objetivos estratégicos imediatos. Mudam os instrumentos, persiste a velha imprudência.
Há ainda uma ironia histórica de rara crueldade. A Ucrânia, palco da tragédia de 1986, tornou-se novamente cenário do temor nuclear. A terra que herdou cicatrizes radioativas vê-se outra vez cercada por discursos de dissuasão atômica, disputas territoriais e ameaças contra instalações energéticas. O território permanece o mesmo; apenas os uniformes, as bandeiras e os sistemas políticos mudaram.
Por isso, aos quarenta anos, Chernobyl não é apenas memória. É espelho. Reflete uma civilização capaz de maravilhas científicas e, simultaneamente, vulnerável aos impulsos mais antigos da política humana: conquista, propaganda, soberba e desprezo pelo custo coletivo das decisões. O reator destruído continua emitindo uma mensagem silenciosa ao mundo: o passado não passa quando suas causas permanecem intactas.
Talvez essa seja a grande lição deste aniversário sombrio. Não basta construir contenções de aço e concreto ao redor das ruínas. É preciso conter aquilo que as produziu: a irresponsabilidade do poder, o culto da força e a crença de que consequências podem sempre ser controladas depois. Chernobyl prova o contrário. Há erros que atravessam gerações. Há explosões cujo eco dura décadas. E há fantasmas históricos que despertam toda vez que os homens insistem em não aprender.
Há um momento em toda guerra em que o combate deixa de ocorrer apenas entre exércitos e começa a instalar-se dentro da consciência humana. Nesse estágio, o inimigo já não ocupa somente trincheiras, ruas ou colinas: passa a habitar a imaginação moral do combatente. É então que não apenas corpos são atingidos, mas também imagens, templos, túmulos, altares e tudo aquilo que, em tempos ordinários, uma civilização chama de sagrado.
A recente cena de soldados destruindo uma imagem de Cristo no sul do Líbano não deve ser lida apenas como episódio disciplinar, ato de vandalismo ou insolência individual. Ela pode ser interpretada como sintoma de algo mais profundo e antigo: o instante em que a guerra amplia suas fronteiras e invade a alma.
Guerras longas possuem um efeito corrosivo sobre os freios internos. O homem submetido por meses ou anos ao medo constante, à adrenalina extrema, à lógica da sobrevivência e à repetição da morte sofre uma transformação silenciosa. O sistema nervoso adapta-se ao perigo; a sensibilidade retrai-se; a empatia se esgota. O outro deixa de ser pessoa e converte-se em ameaça. Depois, tudo o que pertence ao outro também se contamina: sua casa, sua língua, sua memória, sua religião.
É nesse ponto que uma estátua deixa de ser pedra esculpida e passa a ser percebida como extensão do adversário. Um santuário deixa de ser lugar de oração e converte-se, aos olhos embrutecidos, em território inimigo. A guerra produz essa alquimia sombria: transmuta símbolos humanos em alvos.
Os antigos conheciam bem esse fenômeno. Na tragédia grega, a hybris, o excesso violento que cega o homem, surgia quando o guerreiro, embriagado pela força, perdia a medida das coisas. Em Troia vencida, não bastou incendiar muralhas: violaram-se templos, profanaram-se altares, insultaram-se deuses. Virgílio compreendeu o mesmo drama ao narrar a queda da cidade: quando o fogo militar sobe demais, consome também o invisível.
A modernidade, apesar de sua técnica, não se libertou dessa herança arcaica. Apenas a mecanizou. Hoje há drones, satélites, fuzis inteligentes e protocolos jurídicos; contudo, o coração humano continua sujeito à mesma degradação moral quando submetido ao longo convívio com a violência. Freud observou que a civilização é uma fina película sobre impulsos destrutivos. A guerra rasga essa película.
Atacar símbolos religiosos revela, portanto, mais que hostilidade externa: revela desordem interior. Quem golpeia uma imagem sagrada talvez já tenha sido golpeado, antes, pela rotina psíquica do combate. Isso não absolve o gesto. Explicá-lo não é perdoá-lo. Significa apenas reconhecer que certos atos nascem de mentes progressivamente moldadas pela brutalidade.
Toda sociedade que envia jovens para aprender a matar deveria perguntar-se também o que eles desaprendem enquanto matam. Muitos retornam com o corpo intacto e a alma em ruínas. Outros nem percebem o estrago. Continuam de pé, fardados, funcionais, porém incapazes de distinguir entre ameaça real e símbolo humano.
Quando uma guerra chega ao ponto de transformar uma imagem religiosa em inimigo, ela já ultrapassou a geografia. Instalou-se no espírito. E poucas ocupações são tão perigosas quanto essa.
Há homens que vivem numa cidade sem jamais habitá-la. Caminham por suas ruas, conhecem seus horários, atravessam suas praças, escutam seus ruídos, mas permanecem estrangeiros. O passaporte civil lhes garante endereço; a alma, porém, segue sem domicílio. Entre esses homens, encontra-se o poeta.
Toda grande cidade produz riqueza, trânsito, anúncios
luminosos, pressa e esquecimento. Mas produz, também, um tipo singular de
desterrado: aquele que não consegue adaptar o espírito ao regime da utilidade.
Enquanto os outros negociam, calculam, ascendem, disputam e
celebram pequenas vitórias administrativas, ele escuta coisas invisíveis. Vê
fissuras onde os demais enxergam paredes sólidas. Percebe o cansaço moral
escondido sob roupas elegantes. Identifica, no brilho das vitrines, a sombra da
carência. Por isso incomoda. Por isso se isola. Por isso, tantas vezes, é
empurrado para a margem.
No universo poético de Wilson Pereira, essa condição aparece
com nitidez pungente. Seu eu lírico não se sente simplesmente só: sente-se
deslocado ontologicamente, como se tivesse sido lançado numa paisagem errada.
Não é apenas um homem triste entre outros homens; é um homem incompatível com a
lógica do lugar. Quando escreve versos em meio a “tantos monstros”, não está
praticando mero exagero retórico. Está nomeando uma experiência espiritual: a
percepção de que a cidade moderna pode converter pessoas em engrenagens sem
rosto, sujeitos funcionalmente vivos e interiormente devastados.
Há, nessa tradição, algo antigo. Já os profetas bíblicos
atravessavam cidades corrompidas como vozes sem pátria. Sócrates caminhava por
Atenas como um estranho entre cidadãos satisfeitos. Dante fez de Florença uma
ferida. Baudelaire transformou Paris num laboratório de spleen. T. S.
Eliot viu Londres como multidão espectral. O poeta, quase sempre, pertence
menos ao mapa urbano do que ao território invisível da dissidência.
Wilson Pereira inscreve-se, à sua maneira, nessa linhagem dos
desencontrados. Sua poesia não exibe rebeldia teatral; antes revela uma dor
contida, de homem que percebeu cedo demais o custo da convivência social. A
cidade, para ele, não é ágora
luminosa, mas arena de ruídos, desentendimentos e imposturas. Seu drama não
nasce do desejo de fama negada, e sim de uma inadequação mais funda: ele espera
densidade onde encontra superfície; espera verdade onde encontra pose; espera
comunhão onde encontra trânsito.
Há monstros na Cidade Moderna. Mas quem são esses
monstros? Não convém imaginá-los como figuras excepcionais. O monstro urbano
raramente tem presas. Usa gravata, sorri em fotografias, domina protocolos,
frequenta repartições e sabe cumprimentar com urbanidade. Sua monstruosidade
consiste noutra coisa: a normalização da indiferença.
É monstruoso o homem que já não se espanta com a humilhação
alheia. Monstruosa a inteligência que só calcula vantagens. Monstruosa a alma
que perdeu a faculdade de reverência. Monstruosa a coletividade que
ridiculariza o sensível e premia o cínico. A cidade moderna, quando adoece,
deixa de fabricar cidadãos e passa a produzir caricaturas eficientes.
Wilson Pereira percebeu esse processo. Seu poeta sente-se
sitiado por códigos hostis. Fala uma língua que quase ninguém deseja ouvir: a
língua da interioridade. Em tempos de barulho, isso soa subversivo. Em tempos
de marketing pessoal, a sinceridade
parece defeito. Em tempos de aceleração, a contemplação vira suspeita.
Contudo, há uma ironia silenciosa. São justamente esses
exilados, os poetas, os inquietos, os inadequados, que preservam a parte humana
da cidade. Sem eles, restariam apenas concreto, comércio e administração. São
eles que recordam que ruas também precisam de memória, que praças exigem
beleza, que multidões necessitam de sentido.
Toda cidade deveria temer o dia em que seus poetas se calam.
Porque quando o último exilado desiste, os monstros vencem sem batalha.
Há lugares onde uma nação representa a si mesma. Não apenas
governa, legisla ou administra, mas encena seus próprios valores. O Jantar dos
Correspondentes da Casa Branca era um desses lugares. Durante décadas, o evento
simbolizou algo raro: a convivência ritualizada entre poder e crítica.
Presidentes dividiam o palco com jornalistas; eram satirizados, respondiam com
humor, sorriam diante da imprensa que os investigava. Não se tratava de
frivolidade, mas de liturgia republicana. A democracia também vive de símbolos.
Quando tiros ecoam nas proximidades de um salão assim, não é
apenas a segurança que falha. É o teatro institucional que se rompe. O episódio
ocorrido neste fim de semana, em Washington, possui força maior do que a
crônica policial. Ele revela uma verdade incômoda: os Estados Unidos já não
conseguem preservar seus próprios espaços simbólicos da contaminação da
violência política e social. O país que exportou ao mundo a imagem de
estabilidade constitucional convive, hoje, com cercas, detectores de metal,
protocolos de evacuação e candidatos protegidos como generais em zona de
guerra.
A frase atribuída a Donald Trump – “deixemos o show continuar” – condensa o espírito do
tempo. Tudo se converteu em espetáculo: a política, a imprensa, a
indignação, o medo. Mesmo diante dos disparos, a linguagem já não é a da
gravidade republicana, mas a da continuidade da cena. O evento precisa
prosseguir, porque a máquina da visibilidade não pode parar.
Roma conheceu algo semelhante. Na fase final da República, os
ritos públicos continuavam existindo: eleições, discursos no Senado, cerimônias
cívicas. Mas, por trás da aparência institucional, cresciam facções armadas,
culto à personalidade, manipulação das massas e normalização da violência. As
formas permaneciam; a substância se esvaziava. A toga ainda circulava entre
punhais.
Nenhuma comparação histórica é perfeita, mas algumas são
instrutivas. Quando a política deixa de ser disputa regulada e passa a ser
guerra moral entre inimigos absolutos, a violência deixa de pé, porém em estado
nervoso.
Há algo particularmente simbólico no fato de o incidente
ocorrer diante da imprensa. O jantar dos correspondentes representava a tensão
produtiva entre governo e jornalistas. Democracias maduras não eliminam esse
conflito; civilizam-no. Quando esse espaço se converte em pânico, percebe-se
que o problema não é apenas um homem armado, mas uma cultura pública
deteriorada.
Os impérios raramente percebem o momento exato em que começam
a envelhecer. Continuam
ricos, poderosos, militarmente superiores. Mas seus sinais de desgaste aparecem
em detalhes: linguagem brutalizada, instituições desacreditadas, medo
cotidiano, cidadãos que já não reconhecem adversários como legítimos.
Quando os tiros entram no salão, eles não atingem somente
paredes ou portas. Atingem o imaginário nacional. E quando uma democracia
perde seus rituais, começa, lentamente, a perder também sua alma.