O povo Kajkwakratxi ou Tapayuna sofreu diversas violências, ao logo do tempo, sendo expulso de seu território tradicional por garimpeiros, madeireiros e seringueiros, até ser forçado, pelo Estado, a se mudar para o Parque Indígena do Xingu
A Justiça Federal no estado do Mato Grosso determinou um prazo de 24 meses para que a União e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) concluam o processo de demarcação da Terra Indígena Kajkwakratxi (Tapayuna), etnia originária da região do rio Arinos, próxima ao município de Diamantino, mas que foi expulsa de sua terra, diversas vezes, ao longo do tempo, por garimpeiros, madeireiros e seringueiros, até ser alocada, forçosamente, na década de 1970, pelo Estado brasileiro, no Parque Indígena do Xingu.
Em sua sentença, o juiz federal
Pablo Kipper Aguilar também ordenou o pagamento de R$ 10 milhões em danos
morais coletivos e a realização de uma cerimônia pública de pedido de desculpas
aos indígenas.
O magistrado reconheceu várias violações de direitos humanos
cometidas contra o povo Kajkwakratxi. Em função disto, mandou a União reunir
toda a documentação disponível no Arquivo Nacional sobre violências ocorridas
durante o processo de colonização da região do Rio Arinos e a remoção arbitrária
dos 41 indivíduos da etnia, que sobreviveram a um envenenamento coletivo
cometido por invasores, à referida reserva.
LUTA COLETIVA – No processo, os indígenas contaram
com o apoio da Defensoria Pública da União (DPU) e do Ministério Público
Federal (MPF). O juiz afastou o argumento apresentado pela Funai e pela União.
Ambas alegaram que o Supremo Tribunal Federal (STF) já estabeleceu prazo de dez
anos para a conclusão das demarcações em andamento.
No entendimento do magistrado, tal prazo tem natureza administrativa,
não impedindo a atuação da Justiça quando há demora excessiva. Em mensagem
divulgada pela Defensoria Pública da União, Wetaktxi Tapayuna, presidente da
Associação Indígena Tapayuna (AIT), celebrou a decisão judicial. “Agradeço a
luta coletiva, fico muito feliz, a comunidade fica muito feliz, é uma
surpresa”, disse.
O líder indígena também ressaltou que a comunidade considera
a decisão emocionante. “É muita alegria ver toda essa trajetória que passamos
até chegar nesse ponto tão importante, com relação ao nosso povo, com as
gerações que estão lutando pelo território tradicional, para demarcação do
território tradicional, com expectativa de viver em cima dos seus parentes que
deixaram naquele tempo. Para defender nossa ancestralidade, para viver com a
alma dos parentes”, enfatizou.
DISPERSÃO E ENFRAQUECIMENTO CULTURAL – De acordo
com o Ministério Público Federal, o povo Kajkwakratxi (Tapayuna) foi alvo de uma série de atrocidades, ao longo do século 20, que
resultaram na desestruturação social do grupo. Isto porque, inicialmente, foram
viver na aldeia dos K?sêdjê (Suyá), mas acabaram dispersos entre várias
etnias.
Uma Reserva Indígena Tapayuna chegou a ser criada em 1968,
mas acabou sendo extinta, em 1976, sob o argumento de que não haveria indígenas
na área. No entanto, há indícios de que indígenas da etnia viviam, em situação
de isolamento, na região de ocupação tradicional.
A grande dispersão ocorreu, sobretudo, nos anos de 1980, a
partir da morte de um importante líder e pajé. Com isto, parte do povo foi
morar com os Mebengôkrê (Kayapó), na Terra Indígena Capoto-Jarina.
Tantos deslocamentos e assimilações, no entendimento do Poder
Judiciário, provocou o enfraquecimento da língua e, consequentemente, da
cultura Tapayuna. Em 2010, a população desta etnia foi estimada em cerca de 160
pessoas, distribuídas em aldeias na Terra Indígena Wawi e na Terra Indígena
Capoto-Jarina.