Há algo de profundamente antigo nas imagens que emergem agora de Pyongyang, capital da Coréia do Norte: muros cobertos por milhares de nomes, cemitérios militares recém-construídos, monumentos erguidos para soldados mortos numa guerra travada a milhares de quilômetros de casa. O memorial norte-coreano dedicado aos combatentes enviados à Rússia não é apenas um gesto funerário. É um documento histórico. Um daqueles raros momentos em que a arquitetura revela aquilo que a diplomacia tenta esconder.
O que se desenha entre Moscou e Pyongyang é menos uma aliança convencional do que uma troca brutal de natureza quase arcaica: tecnologia e recursos em troca de corpos humanos. A Coreia do Norte fornece homens. A Rússia oferece sobrevivência estratégica.
Ao longo da história, impérios pressionados frequentemente recorreram a esse tipo de relação. Roma o fez inúmeras vezes durante o Baixo Império. Incapaz de sustentar sozinha o peso militar de suas fronteiras gigantescas, passou a incorporar povos inteiros ao seu sistema de guerra. Godos, vândalos, francos e alamanos não eram apenas aliados ocasionais; tornaram-se fornecedores permanentes de combatentes.
Chamavam-nos foederati, povos federados. Em troca de terras, ouro, privilégios ou proteção, entregavam guerreiros ao exército imperial. O arranjo parecia pragmático. Mas carregava um sinal silencioso de desgaste estrutural: quando um império começa a terceirizar seu sangue, é porque já não consegue sustentar integralmente o próprio esforço militar. Há um eco perturbador desse modelo na guerra da Ucrânia.
É nesse ponto que surge Pyongyang. A Rússia, depois de anos de conflito, enfrenta aquilo que toda guerra prolongada inevitavelmente produz: erosão demográfica, fadiga social e necessidade crescente de reposição humana. A guerra moderna consome homens numa escala industrial, mesmo numa era dominada por drones, satélites e inteligência artificial. Nenhuma tecnologia aboliu a necessidade elementar de corpos ocupando trincheiras.
A Coreia do Norte descobriu que seu principal recurso de exportação talvez não sejam mísseis, carvão clandestino ou armamentos antigos mas soldados. Num regime em que a população já pertence integralmente ao Estado, o combatente torna-se ativo estratégico negociável. O país converte isolamento em utilidade geopolítica. Exporta obediência militar em troca de alimentos, moeda estrangeira, tecnologia balística e apoio diplomático.
Existe algo de quase medieval nessa lógica. Durante séculos, principados periféricos forneceram homens para guerras imperiais em troca de proteção ou reconhecimento. Povos balcânicos serviram aos otomanos; mercenários suíços lutaram pelas monarquias europeias; tribos fronteiriças alimentaram os exércitos persas e romanos. A periferia entregava sangue; o centro redistribuía poder.
Mas há uma diferença importante: no caso norte-coreano, o pacto ocorre entre dois Estados isolados pelo sistema internacional. Não é a relação entre centro civilizacional e margem bárbara, como os romanos imaginavam seus federados , mas a cooperação entre dois regimes submetidos a sanções, pressão econômica e cerco diplomático.
Por isso a parceria possui um significado maior do que aparenta. Ela indica que a guerra da Ucrânia já ultrapassou o estágio de conflito regional. Estamos vendo nascer uma rede militar alternativa entre potências marginalizadas pela ordem ocidental. Moscou fornece tecnologia estratégica; Pyongyang fornece massa humana disciplinada e politicamente controlável. Cada lado oferece aquilo que o outro mais necessita.
E o memorial em Pyongyang revela algo ainda mais profundo. Regimes autoritários sabem que mortos precisam ser administrados politicamente. Toda guerra prolongada ameaça produzir uma pergunta perigosa: “vale a pena morrer por isso?”. O monumento existe precisamente para impedir que essa dúvida se espalhe. Ele converte perdas humanas em narrativa épica. Transforma cadáveres em mártires da pátria.
Os gregos antigos eternizavam seus guerreiros na poesia. Roma gravava nomes em pedra. Os regimes modernos erguem memoriais monumentais e organizam liturgias nacionais da morte. A função permanece essencialmente a mesma: impedir que o sacrifício pareça inútil.
No fundo, o século XXI imaginava ter superado certas formas antigas de dependência militar. Falava-se em guerras tecnológicas, conflitos automatizados, supremacia cibernética. No entanto, diante do desgaste real, retornam estruturas quase imperiais: Estados periféricos fornecendo combatentes a potências exauridas; alianças baseadas em troca de proteção por sangue; mortos transformados em instrumento de coesão política. A modernidade mudou as armas. Não mudou inteiramente a lógica da guerra.
Durante séculos, impérios compreenderam uma verdade elementar da política: poder precisa ser visto. Não basta vencer; é preciso exibir a vitória. O domínio imperial depende tanto da força material quanto da encenação da invulnerabilidade. Roma compreendeu isso cedo. Após cada grande campanha militar, generais atravessavam a cidade em cortejos triunfais, cercados por espólios, prisioneiros e legiões em marcha. O triunfo romano não era apenas celebração; era pedagogia política. O povo precisava acreditar que o império era irresistível.
A União Soviética herdou essa lógica simbólica. O Dia da Vitória, celebrado em 9 de maio, tornou-se mais do que uma comemoração da derrota do nazismo. Transformou-se no grande ritual civilizacional do Estado russo moderno. Não existe mito político mais poderoso na Rússia contemporânea do que a “Grande Guerra Patriótica”. A vitória de 1945 funciona simultaneamente como memória histórica, fundamento moral e legitimidade nacional. Vladimir Putin construiu boa parte de sua narrativa política sobre essa herança.
Por isso, o desfile militar na Praça Vermelha nunca foi apenas um desfile. Era uma declaração geopolítica. Tanques, mísseis balísticos, sistemas antiaéreos e colunas mecanizadas desfilavam diante do Kremlin para comunicar uma mensagem simples: a Rússia continua sendo uma potência militar capaz de impor sua vontade ao mundo.
Mas o desfile deste ano revelou algo profundamente diferente. Pela primeira vez em quase duas décadas, Moscou reduzirá drasticamente a exibição de equipamentos militares pesados. A justificativa oficial é operacional: os tanques estão sendo utilizados no front ucraniano e não podem ser deslocados para funções cerimoniais. Formalmente, a explicação faz sentido. Simbolicamente, porém, ela é devastadora.
Impérios confiantes exibem armas. Impérios pressionados as preservam. A ausência dos tanques na Praça Vermelha não comunica força. Comunica desgaste. Sobretudo porque ocorre no exato momento em que drones ucranianos alcançam cidades russas, atingem edifícios próximos ao Kremlin e forçam o governo a impor restrições digitais e medidas excepcionais de segurança. Moscou, o coração simbólico do poder russo, já não transmite plenamente a sensação de imunidade imperial que durante décadas cultivou.
O mais importante não é sequer a redução material do desfile, mas o que ela revela sobre a transformação psicológica da guerra. Em fevereiro de 2022, a invasão da Ucrânia foi apresentada como uma campanha rápida, decisiva e inevitável. O Kremlin esperava demonstrar superioridade esmagadora e reafirmar sua posição histórica sobre o espaço pós-soviético. Quatro anos depois, a guerra continua sem vitória conclusiva. E pior: começa a alterar o próprio comportamento simbólico do Estado russo.
Toda potência precisa preservar a aparência de controle. Quando isso começa a falhar, o ritual torna-se perigoso. Na Antiguidade, imperadores evitavam certas cerimônias públicas em momentos de crise porque compreendiam que símbolos podem se voltar contra o poder. Um triunfo reduzido corre o risco de produzir exatamente o efeito contrário ao desejado: em vez de força, revela limitação.
Existe ainda outro elemento importante. A guerra na Ucrânia está produzindo uma transformação militar comparável a outras grandes rupturas da história bélica. O tanque, símbolo absoluto do poder terrestre no século XX, tornou-se vulnerável a drones baratos, guerra eletrônica e vigilância permanente. Há algo quase histórico na ausência dessas máquinas da Praça Vermelha. Como a cavalaria aristocrática após o surgimento da pólvora, o tanque talvez esteja perdendo parte de seu valor simbólico como expressão máxima do domínio militar.
A Rússia continua sendo uma potência nuclear gigantesca. Continua avançando lentamente em algumas áreas da Ucrânia. Continua capaz de sustentar uma guerra longa. Mas já não consegue apresentar ao mundo a imagem de vitória inevitável que pretendia construir.
E isso importa. Guerras não são travadas apenas com artilharia, drones ou divisões mecanizadas. Elas também dependem de imaginação política. O poder imperial precisa convencer adversários, aliados e a própria população de que permanece sólido, disciplinado e destinado ao triunfo. Quando um Estado começa a adaptar seus grandes rituais públicos à lógica do medo, algo mudou profundamente.
O Kremlin ainda fala como potência triunfante. Mas começa, cada vez mais, a agir como potência sitiada.
Uma silenciosa mudança geopolítica está em curso na Europa. A atual crise de popularidade do primeiro ministro Alemão, Friedrich Merz deixa de ser apenas um problema doméstico e passa a revelar algo mais profundo: o deslocamento silencioso do centro de poder. A atual fragilidade de Friedrich Merz não é apenas a dificuldade de um líder em sustentar sua coalizão. Ela pode ser lida como sintoma de um fenômeno maior: a Alemanha já não exerce, com a mesma força, o papel de eixo organizador da Europa.
Durante décadas, talvez desde a reconstrução do pós-guerra, a Alemanha ocupou uma posição singular. Não era um império formal, mas funcionava como tal em termos econômicos, políticos e estratégicos. No contexto da Guerra Fria, seu território era a linha de fratura entre dois mundos, e sua estabilidade era condição para o equilíbrio continental. A República Federal Alemã não apenas resistia: ela estruturava. Sua economia ancorava o projeto europeu, sua disciplina fiscal ditava normas, sua política externa oferecia previsibilidade.
Hoje, essa centralidade vacila. A dificuldade de Berlim em impor direção dentro da própria União Europeia, seja em energia, defesa ou política econômica, sugere algo mais do que hesitação: indica perda de capacidade de comando. E a história é implacável com centros que deixam de organizar seu entorno.
Após a Guerra do Peloponeso, Atenas não desapareceu. Continuou culturalmente vibrante, intelectualmente dominante. Mas perdeu aquilo que realmente importa em termos de poder: a capacidade de coordenar alianças e impor direção ao sistema. O resultado não foi a substituição imediata por uma nova hegemonia estável, mas um período de fragmentação, instabilidade e guerras recorrentes entre cidades incapazes de produzir ordem duradoura.
O mesmo padrão se repete no declínio de Roma em sua fase tardia. O império não colapsa de uma vez; ele se esvazia progressivamente. As fronteiras tornam-se mais difíceis de controlar, as decisões mais lentas, as disputas internas mais frequentes. O centro continua existindo, mas já não decide. E quando o centro hesita, as periferias se movem.
É exatamente esse o risco europeu. A Alemanha, que por tanto tempo funcionou como eixo de estabilidade, hoje se vê paralisada por divisões internas, coalizões frágeis e dificuldades de formulação estratégica. Sua voz, antes normativa, torna-se apenas mais uma entre várias. E onde não há direção clara, o sistema tende ao ruído.
Nesse vazio, forças radicais encontram espaço. O crescimento de partidos como a Alternativa para a Alemanha não deve ser lido como um fenômeno isolado ou puramente ideológico. Ele segue uma lógica estrutural conhecida: quando o centro falha em organizar expectativas, econômicas, sociais e políticas, as margens ganham tração. Não porque ofereçam soluções melhores, mas porque oferecem respostas mais simples em um ambiente de crescente incerteza.
A história sugere que o problema não é apenas quem sobe, mas por que o espaço para subir se abriu. O caso alemão revela, portanto, uma transição delicada. Não se trata de um colapso abrupto, mas de um processo de erosão. A Alemanha continua sendo a maior economia da Europa, continua central em termos institucionais. Mas já não exerce o mesmo magnetismo político. Já não define, com clareza, o rumo coletivo.
E, como em Atenas após sua derrota ou em Roma em seus séculos finais, o que se segue não é imediatamente substituído por uma nova ordem. O que surge primeiro é a incerteza. A Europa entra, assim, em uma fase perigosa de sua história: aquela em que ainda existe um centro. mas ele já não comanda.
Há uma ilusão confortável, e profundamente equivocada, segundo a qual a tortura nasce do excesso, do descontrole, do momento em que a disciplina falha e o homem cede ao impulso. Essa leitura preserva a instituição: transforma o crime em desvio individual, em patologia, em acidente. Mas os documentos recentemente revelados do acervo do coronel Cyro Etchegoyen, do exército brasileiro, sugerem outra coisa, mais inquietante: a tortura não irrompe, ela se aprende.
O dado é conhecido em linhas gerais, mas raramente apareceu com tal nitidez documental: militares brasileiros viajaram ao Reino Unido, em 1970, para um estágio junto a estruturas de inteligência vinculadas ao MI5. Ali, não receberam apenas instruções vagas sobre interrogatório. Receberam um método, uma gramática precisa da coerção. A violência, nesse contexto, não é improvisada; é ensinada como técnica.
As chamadas “Cinco Técnicas”, privação sensorial, controle absoluto de luz e som, privação de sono, manipulação alimentar e exposição ao frio, aparecem nos relatórios como procedimentos “sem violência”. A expressão não é um detalhe: é um instrumento. Não se trata de negar a violência, mas de reformulá-la linguisticamente. O sofrimento deixa de ser descrito como dor e passa a ser enquadrado como procedimento. O corpo não é apenas atingido: ele é reorganizado à força. A mente não é apenas pressionada: ela é desestruturada.
Essa racionalização não nasce no Brasil. Ela se inscreve numa tradição mais longa, que a erudição histórica permite rastrear. O mundo antigo conhecia a tortura, mas não a convertia em ciência exportável. Em Roma Antiga, por exemplo, o tormento era juridicamente delimitado, aplicado sobretudo a escravos, e não pretendia ocultar sua natureza violenta. O que a modernidade acrescenta é decisivo: a transformação da violência em saber transmissível, sistematizado, replicável.
O percurso é revelador. As técnicas difundidas pelo MI5 foram desenvolvidas, em grande medida, no contexto das guerras de descolonização, como na repressão britânica às insurgências na Malásia. Posteriormente, seriam empregadas também na Irlanda do Norte. Em ambos os casos, tratava-se de enfrentar um inimigo difuso, irregular, politicamente enraizado. A resposta foi a criação de métodos que não buscavam apenas extrair informação, mas desintegrar a resistência psicológica.
Quando essas técnicas chegam ao Brasil, não são adaptadas, são aplicadas. E esse deslocamento é crucial. O que fora concebido para contextos coloniais e de guerra irregular passa a ser utilizado contra cidadãos. A figura do “inimigo interno” permite essa transposição. A guerra não é declarada, mas é operada. E, como em toda guerra, exige técnica.
Há, nesse movimento, algo que ultrapassa o caso brasileiro. O que se revela é a existência de uma circulação internacional de práticas repressivas. Uma espécie de pedagogia transnacional da violência, na qual Estados ensinam outros Estados a gerir o dissenso por meio da coerção sistemática. Não se trata de conspiração difusa, mas de cooperação concreta, documentada, institucional.
Essa constatação desloca o problema moral. Se a tortura é ensinada, então ela é autorizada. Se é autorizada, então ela é política. E, sendo política, deixa de ser exceção para se tornar estrutura. A insistência em tratá-la como desvio, como obra de indivíduos que “exageraram,” perde sustentação diante da evidência de que havia instrução, protocolo, aprendizado.
O mais perturbador, porém, talvez esteja na linguagem. Ao denominar essas práticas como “técnicas”, ao descrevê-las em relatórios, ao ensiná-las em estágios internacionais, a modernidade política produz um fenômeno inquietante: a neutralização semântica da violência. O horror é deslocado para fora do vocabulário. Permanece na experiência das vítimas, mas desaparece da descrição oficial.
No fim, o que esses documentos expõem não é apenas um capítulo da história brasileira, mas uma verdade mais ampla: a violência, quando organizada, independe do ódio. Ela não precisa de fúria, basta-lhe método. E, uma vez ensinada, tende a perpetuar-se com a frieza de qualquer técnica bem aprendida.
O anúncio de que os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, passarão a escoltar navios no Estreito de Hormuz parece, à primeira vista, uma medida técnica, quase administrativa: garantir a livre navegação, evitar o colapso do fluxo energético global, conter um bloqueio. Mas a história militar ensina a desconfiar desses gestos que se apresentam como limitados. A contenção, muitas vezes, é apenas o primeiro nome da escalada.
O Estreito de Estreito de Hormuz não é um espaço neutro. É um gargalo geopolítico onde geografia e poder se comprimem até o limite. Por ali passa uma fração decisiva da energia que move o mundo contemporâneo. Controlá-lo não é apenas um ato militar, é uma forma de interferir no ritmo do planeta. E é justamente nesses pontos de estrangulamento que a guerra tende a nascer não como decisão, mas como acidente.
A lógica é conhecida. Primeiro, a escolta: uma potência se apresenta como garantidora da ordem. Depois, o incidente: um disparo mal interpretado, uma aproximação considerada hostil, um erro de cálculo. Por fim, a escalada: a necessidade de responder, de não recuar, de preservar a credibilidade. A guerra, nesse sentido, raramente começa com um ato inaugural claro. Ela emerge de uma sequência de pequenos gestos que, isoladamente, parecem controláveis, mas que, somados, tornam o conflito inevitável.
Esse padrão não é novo. Durante a Batalha do Atlântico, comboios escoltados por forças navais foram apresentados como medidas defensivas. No entanto, cada encontro com submarinos inimigos carregava o risco de transformar proteção em combate aberto. Antes disso, já na Antiguidade, passagens estreitas e rotas marítimas funcionavam como zonas de fricção permanente. Em Termópilas, o estreitamento do espaço impunha uma decisão: recuar ou enfrentar. Não havia neutralidade possível.
O que vemos em Hormuz é a atualização desse velho drama. A escolta americana não é apenas um gesto logístico; é uma afirmação de presença, uma inscrição de poder em um espaço contestado. Ao mesmo tempo, a resposta iraniana, seja por bloqueio, seja por negociação sob pressão, revela uma compreensão simétrica: quem controla o estreito controla o jogo.
Mas há algo mais profundo em curso. A guerra contemporânea raramente se declara. Ela se insinua. Ela começa enquanto ainda se fala em diplomacia, enquanto comunicados oficiais insistem na linguagem da estabilidade. A coexistência entre negociação e ameaça não é uma contradição é o próprio método. Nesse cenário, a paz não é ausência de conflito, mas um intervalo instável entre potenciais choques.
É aqui que a leitura épica ajuda a iluminar o presente. Na Ilíada, a guerra não começa no momento em que as armas se erguem. Ela já estava em curso nos gestos anteriores: na recusa, na honra ferida, na incapacidade de recuar sem perder prestígio. O conflito é sempre precedido por uma cadeia de decisões menores que, retrospectivamente, revelam sua inevitabilidade.
Hormuz hoje funciona como esse limiar. Não estamos ainda, necessariamente, diante de uma guerra total. Mas também já não estamos plenamente fora dela. O que se desenha é uma zona cinzenta, onde cada movimento é calculado e, justamente por isso, cada erro pode ser fatal.
A questão, portanto, não é apenas se haverá guerra. A questão é se o sistema de decisões em curso permite evitá-la. E a história sugere uma resposta incômoda: guerras raramente começam porque alguém as deseja plenamente. Elas começam porque, em algum ponto da cadeia, já não é mais possível interrompê-las.
Hormuz, mais uma vez, condensa essa verdade. Entre a escolta e o disparo, entre a proteção e o confronto, existe apenas um intervalo e é nesse intervalo que o futuro está sendo decidido.