Na poesia de Juraci Dórea, o sertão não se move, e é justamente nessa suspensão que ele respira. Longe de ser espaço de aridez meramente geográfica ou de luta pela sobrevivência, o universo poético do autor se organiza como uma verdadeira cosmologia da quietude. Ali, o mundo não é sustentado pela força titânica de um Atlas, mas por uma delicada arquitetura de silêncios, intervalos e ausências. É um espaço onde o movimento parece ter sido retirado do real, como se a própria dinâmica da existência tivesse sido suspensa em nome de uma experiência mais profunda: a do contato com o sagrado.
Essa concepção encontra ressonância em tradições filosóficas antigas. A máxima dos Upanishads, segundo a qual o divino começa onde o movimento cessa, ecoa com força na construção desse sertão imobilizado. Em Dórea, a quietude não é ausência, mas plenitude. Ela se torna condição de possibilidade para uma experiência hierofânica: é na suspensão do tempo e da ação que o sagrado se insinua, não como epifania violenta, mas como presença difusa, dissolvida na paisagem.
A leitura do sertão como espaço sagrado aproxima-se das reflexões de Mircea Eliade, para quem determinadas geografias são eleitas como centros do mundo por carregarem vestígios de manifestações divinas primordiais. No caso de Juraci Dórea, esse espaço não é marcado por um evento fundador explícito, mas por uma atmosfera contínua de sacralidade. O sertão é, por assim dizer, um território consagrado por sua própria condição de apartar-se do mundo profano. Não há ruptura abrupta, mas uma tensão permanente entre o visível e o invisível, entre o natural e o sobrenatural.
Essa paisagem, contudo, não se constrói por via descritiva. Ao contrário, o poeta opta por uma representação radicalmente antinaturalista. Elementos da flora e da fauna sertanejas surgem como sugestões etéreas, quase espectrais. Juritis, algodoeiros, lobisomens e antílopes coexistem num mesmo plano de irrealidade, compondo uma geografia que não obedece a coordenadas empíricas, mas à lógica do mito. O sertão de Dórea não é um lugar: é um entre-lugar, onde tempos e espaços distintos se fundem num mesmo campo simbólico.
Essa fusão é particularmente evidente na presença recorrente de imagens arcaicas, mamutes, dilúvios, caçadas primordiais, que deslocam o leitor para uma temporalidade anterior à história. Trata-se de um tempo mítico, onde o humano ainda não se separou completamente do cosmos. Nesse sentido, a poesia de Dórea realiza um gesto que dialoga, ainda que indiretamente, com a lição de Paul Claudel: não se trata de aprender com a natureza, mas de impor a ela uma ordem simbólica. O poeta, aqui, é um organizador do caos, um criador de sentido.
O homem que habita esse universo é figura rarefeita. Sua presença é discreta, quase residual. Quando aparece, surge como cavaleiro solitário, caçador arcaico ou senhor de castelo, sempre envolto em uma aura de distanciamento. Trata-se de um sujeito que parece pertencer a uma ordem aristocrática, não apenas social, mas espiritual. Ele cultiva a medida, a contenção, a harmonia. Mesmo o erotismo, quando se insinua, o faz de maneira velada, subordinado a uma estética da sobriedade.
Essa dimensão aristocrática se manifesta também na linguagem. Os poemas de Juraci Dórea evitam o excesso, recusam a estridência, rejeitam a desordem. São construídos com precisão quase geométrica, como se cada verso obedecesse a uma ética da forma. Roberval Pereyr definiu essa dicção como “lâminas de brisa”, expressão que captura com exatidão a delicadeza cortante dessa poesia.
O silêncio, tema recorrente, não é apenas motivo, mas estrutura. Ele organiza o ritmo dos poemas, orienta suas pausas, define suas tensões. Em muitos momentos, a leitura sugere afinidades com tradições místicas orientais, como aquelas evocadas em A Voz do Silêncio, de Madame Blavatsky. No entanto, seria reducionista interpretar essa poética como expressão de um misticismo sistemático. O que se observa é antes uma disposição contemplativa, uma abertura ao enigma.
A natureza, por sua vez, não é idealizada. Embora domesticada, ela conserva traços de violência latente. A paisagem pode ser bela, mas não é inofensiva. Há nela uma memória de ferocidade, uma sombra de perigo que impede qualquer leitura idílica. O sertão de Dórea não é uma “terra sem males”, mas tampouco é uma terra devastada. Ele se situa num ponto intermediário, onde o equilíbrio é sempre precário.
No fundo, o que essa poesia constrói é uma imagem do humano. O sertão, com sua imobilidade carregada de sentido, funciona como metáfora de uma interioridade que busca ordem em meio ao caos. Ao mitificar a paisagem, Juraci Dórea não foge do mundo, ele o reconfigura. Seu sertão é menos um lugar geográfico do que um estado de espírito: um espaço onde o homem, ao suspender o movimento, talvez possa finalmente escutar o que há de mais essencial em si mesmo.
Há guerras que começam com um evento. Outras, mais complexas,
começam com uma interpretação. O que hoje se desenrola entre Irã, Israel e seus
múltiplos interlocutores armados não é, propriamente, uma guerra, mas um
sistema de guerras.
O aparente cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos não
interrompeu o conflito. Apenas revelou sua verdadeira natureza: fragmentada,
sobreposta e estruturalmente instável. Enquanto negociações diplomáticas se
desenrolam, bombardeios continuam no Líbano, ataques indiretos persistem e o
Estreito de Ormuz permanece sob tensão, como se cada frente obedecesse a uma
lógica própria. Essa dissociação não é um desvio: é o próprio modelo
contemporâneo de guerra.
O erro mais comum na leitura desses eventos é supor unidade
onde há multiplicidade. Não existe “o conflito”. Existem conflitos. O embate
entre Irã e Estados Unidos segue uma lógica estratégica clássica, dissuasão,
coerção, controle de rotas energéticas. Já o confronto entre Israel e o
Hezbollah opera em outro registro: guerra assimétrica, territorializada,
carregada de memória histórica e dinâmica de retaliação. Essas guerras
coexistem, mas não se subordinam umas às outras.
É nesse ponto que a noção de “teatro múltiplo” se torna
decisiva. Não estamos diante de um único palco com vários atores, mas de vários
palcos interligados, nos quais decisões tomadas em um espaço reverberam, de
forma imprevisível, em outros. Um bombardeio no sul do Líbano pode comprometer negociações
em Islamabad. Uma restrição no tráfego marítimo em Ormuz pode redefinir o custo
político de uma operação militar israelense. Um ataque de drones no Golfo pode
reconfigurar alianças que, à primeira vista, nada têm a ver com o episódio
inicial. A guerra deixa de ser linear e passa a ser sistêmica.
Essa configuração ecoa, em chave contemporânea, aquilo que
Carl von Clausewitz chamou de “fricção”: o conjunto de fatores imprevistos que
impedem que a guerra siga planos racionais. Mas aqui a fricção é elevada a um
novo patamar. Não se trata apenas de imprevistos no campo de batalha, trata-se
de uma multiplicidade de guerras que interferem umas nas outras, produzindo uma
instabilidade permanente.
Se, na tradição clássica, ainda era possível pensar a guerra
como um confronto delimitado, Atenas contra Esparta, Roma contra Cartago, o
cenário atual se aproxima mais de uma constelação de conflitos parcialmente
conectados, sem centro fixo e sem fronteiras claras. A unidade da guerra, nesse
contexto, é uma ficção analítica. Isso tem implicações profundas.
Primeiro, torna o cessar-fogo um instrumento limitado. Um
acordo entre dois atores não é suficiente para interromper dinâmicas que
envolvem cinco, seis ou sete agentes com agendas distintas. O que se observa,
portanto, não é o fim da guerra, mas sua redistribuição espacial: ela recua em
um front e avança em outro.
Segundo, dificulta a própria ideia de vitória. O que
significaria vencer uma guerra que não é uma, mas várias? Neutralizar o
programa nuclear iraniano não encerra o conflito no Líbano. Enfraquecer o
Hezbollah não reabre automaticamente o Estreito de Ormuz. Garantir a navegação
no Golfo não impede a proliferação de ataques por procuração. A vitória, aqui,
torna-se local e provisória, nunca total.
Por fim, essa fragmentação desloca o centro da decisão
estratégica. Já não basta dominar o campo de batalha principal; é preciso gerir
conexões, antecipar efeitos indiretos e operar em múltiplos níveis
simultaneamente. A guerra passa a exigir não apenas força, mas coordenação
sistêmica, algo que, historicamente, poucos atores conseguiram sustentar por
muito tempo.
Talvez este seja o dado mais inquietante: não há sinal de que
qualquer das partes envolvidas controle plenamente a dinâmica que ajudou a
desencadear. A guerra fragmentada não é apenas difícil de vencer. É, sobretudo,
difícil de conter. E é justamente por isso que ela tende a durar.
Há guerras que terminam com tratados. Outras, com ruínas. E há aquelas, mais perigosas, que terminam com declarações de vitória. O recente anúncio de cessar-fogo no conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã, mediado por potências como a China, expõe um fenômeno recorrente na história militar: a dissociação entre vitória proclamada e realidade estratégica. Enquanto Washington celebra uma “vitória esmagadora”, o controle do Estreito de Ormuz permanece incerto, o programa nuclear iraniano segue sem solução e o inimigo, longe de colapsar, reorganiza-se. A guerra, mais uma vez, escapa à narrativa de seus protagonistas.
Em Guerra do Peloponeso, Tucídides já havia demonstrado que os conflitos não se decidem apenas no campo de batalha, mas na capacidade de sustentar posições, controlar fluxos e moldar percepções. Atenas venceu combates decisivos e ainda assim perdeu a guerra. Não por falta de força, mas por incapacidade de converter vitórias táticas em estabilidade estratégica. O mesmo padrão reaparece agora.
O Irã, alvo de uma campanha militar intensa, respondeu não com superioridade bélica convencional, mas com aquilo que poderíamos chamar de inteligência estrutural da guerra: a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz. Por essa estreita faixa marítima circula uma parcela decisiva da energia mundial. Controlá-la não é apenas uma vantagem militar é uma forma de poder sistêmico. Não se trata de destruir o inimigo, mas de tornar sua vitória economicamente insustentável. Se a bomba nuclear representa o ápice da destruição, Hormuz representa o ápice da interrupção.
Essa lógica não é nova. Já no mundo antigo, os pontos de estrangulamento definiam o destino de impérios. Em Batalha das Termópilas, um exército reduzido foi capaz de conter uma força muito superior simplesmente por controlar o espaço de passagem. A geografia, aliada à estratégia, neutralizou a diferença de poder.
Hoje, a geografia persiste, mas ampliada por infraestruturas invisíveis: rotas marítimas, cabos submarinos, fluxos energéticos. A guerra deslocou-se do choque direto para a gestão dessas circulações. Nesse contexto, declarar vitória torna-se um ato político, não um fato militar.
A Eneida oferece uma chave interpretativa surpreendentemente atual. Ao narrar a fundação de Roma, Virgílio abandona o modelo heroico homérico, centrado no combate individual, e constrói uma nova ética: a do império. Eneias não vence por bravura momentânea, mas por suportar, recuar, negociar e, sobretudo, sobreviver. A verdadeira vitória não é o duelo vencido, mas a ordem estabelecida ao final.Entre Aquiles e Eneias, há uma transformação profunda na ideia de guerra: da glória imediata à eficácia duradoura.
O problema das guerras contemporâneas é que seus líderes ainda falam como Aquiles, mas operam em um mundo que exige Eneias.A retórica de aniquilação - “varrer uma civilização do mapa” - pertence ao universo da guerra absoluta, onde o inimigo deve ser destruído. Mas a realidade estratégica impõe limites: interdependência econômica, pressão internacional, vulnerabilidade energética. O resultado é uma dissonância: ameaça-se como se fosse possível exterminar; negocia-se porque não é.
Essa tensão produz o que estamos vendo: guerras que não terminam, apenas se suspendem.O cessar-fogo de duas semanas não resolve o conflito. Ele o administra. E, ao fazê-lo, revela uma verdade incômoda: a guerra contemporânea não se decide no momento do ataque, mas na capacidade de controlar o que vem depois, fluxos, mercados, narrativas, equilíbrios frágeis. Nesse cenário, a vitória deixa de ser um evento e torna-se uma disputa contínua de interpretação.
Os Estados Unidos declaram vitória para encerrar a guerra. O Irã reivindica vitória para sobreviver a ela. Ambos têm razões. Nenhum tem controle pleno da situação.Talvez porque, no fundo, a guerra já não pertença inteiramente a nenhum dos dois.Ela pertence ao estreito.E é ali, nesse espaço aparentemente secundário, que se decide o essencial: não quem vence uma batalha, mas quem consegue tornar a vitória do outro impossível.
Há na natureza humana uma antiga aspiração: a de que a palavra possa conter a espada. O cessar-fogo, nesse sentido, é o gênero nobre da diplomacia, o momento em que a linguagem, enfim, subjuga a força. Mas as notícias que nos chegam do Oriente Médio nas últimas horas sugerem uma verdade mais sombria e menos confortável: a de que o cessar-fogo, em nosso tempo, tornou-se menos um acordo de paz do que um dispositivo retórico para redistribuir a violência, não para extingui-la.
A primeira notícia, vinda do Pentágono, apresenta-nos a figura quase trágica de Pete Hegseth, secretário de Defesa dos Estados Unidos, ex-comentarista da Fox News, que conduz suas coletivas de imprensa como se fossem monólogos de auditório. "Morte e destruição vindas do céu o dia todo", ele celebra. "Uma vitória militar com V maiúsculo", ele proclama. Há aqui um fenômeno que o crítico literário norte-americano Wayne Booth, em A Retórica da Ficção, chamaria de "narrador não confiável, aquele cujo discurso, por mais enfático que seja, não se sustenta diante dos fatos que ele mesmo, inadvertidamente, revela. Pois a mesma notícia informa: treze militares americanos mortos, centenas de feridos, um bilhão de dólares por dia em custos, o Estreito de Ormuz fechado, o estoque de urânio enriquecido do Irã intacto sob os escombros, e um Líder Supremo substituído por seu filho, ou seja, a mudança de regime fracassou.
O "V maiúsculo" de Hegseth, assim, revela-se uma letra oca, um significante sem significado. É a vitória como pura performatividade: o que importa não é vencer, mas dizer que se venceu com entonação convincente. O filósofo britânico J. L. Austin, em Como Fazer Coisas com Palavras, distinguia entre enunciados constatativos (que descrevem a realidade) e performativos (que criam uma realidade ao serem pronunciados, como "eu vos declaro marido e mulher"). Hegseth opera inteiramente no registro performativo: ao declarar vitória, tenta instituí-la. O problema, como Austin notaria, é que performativos bem-sucedidos dependem de convenções sociais e circunstâncias adequadas. E as circunstâncias, aqui, recusam-se a cooperar.
É nesse ponto que a segunda notícia irrompe como uma refutação sangrenta de toda a retórica pentagonal. Mal o primeiro-ministro do Paquistão anuncia um cessar-fogo de duas semanas, mediado com pompa, abençoado por Washington, e eis que Israel lança "um ataque relâmpago de 10 minutos" sobre o Líbano. Mais de trezentos mortos. Mais de mil feridos. Um prédio residencial de dez andares no bairro nobre de Tallet el Khayat reduzido a pó. Uma enfermeira do Médicos Sem Fronteiras descreve pacientes chegando com "fragmentos de vidro, metal e entulho alojados em seus corpos". Um jovem percorre a sala de emergência com um celular na mão, mostrando a foto do irmão desaparecido.
O que há de mais profundamente perturbador nesse ataque não é apenas sua violência é sua intempestividade. Ele ocorre horas depois do anúncio da trégua. Ele surpreende não apenas as vítimas, mas a própria expectativa internacional de que um cessar-fogo significa, minimamente, a suspensão dos bombardeios. O governo israelense, em resposta, afirma que o acordo não incluía o Líbano. Trump, em sua habitual elasticidade semântica, classifica a guerra libanesa como "uma escaramuça à parte".
Eis aí o cerne da questão. O presidente norte-americano, ao mesmo tempo que celebra um cessar-fogo com o Irã, autoriza seu aliado a prosseguir a guerra em outro teatro. A violência não é interrompida; ela é compartimentalizada, gerenciada, redirecionada para uma zona de exceção onde as regras do acordo não se aplicam. O teórico político italiano Giorgio Agamben, em Homo Sacer, mostrou como o estado de exceção, a suspensão da ordem jurídica normal, tornou-se o paradigma oculto da governança contemporânea. O que vemos no Líbano é uma variante geopolítica desse fenômeno: a criação de teatros de exceção, onde a guerra prossegue sob o manto de um cessar-fogo que a excluiu de seu escopo.
Essa estratégia, contudo, ignora uma verdade elementar que a literatura sempre soube melhor do que a ciência política: a violência é recalcitrante à compartimentalização. O romance russo do século XIX, de Tolstói a Dostoiévski, demonstrou exaustivamente que as consequências das ações humanas não respeitam as fronteiras que os agentes tentam lhes impor. Um duelo, um adultério, um assassinato, cada ato irradia em ondas concêntricas que, mais cedo ou mais tarde, alcançam o que se pretendia proteger. No plano internacional, o fechamento do Estreito de Ormuz já elevou o preço da gasolina nos Estados Unidos e ameaça um "choque de preços" nos supermercados americanos. A guerra que Trump iniciou no Irã já retornou à sua própria casa na forma de inflação e descontentamento eleitoral. E o ataque israelense no Líbano, longe de ser uma "escaramuça à parte", é o mesmo conflito que se recusa a caber nos compartimentos que lhe destinam.
Há ainda uma dimensão narrativa que merece atenção. O ataque ao prédio residencial de Beirute, sem aviso prévio, em área até então poupada, ecoa, em escala menor, o ataque à escola em Minab que matou 168 pessoas, 110 delas crianças. Em ambos os casos, a resposta oficial é a mesma: "O Pentágono está investigando". Quase seis semanas depois, nenhuma conclusão. A investigação torna-se, ela própria, um dispositivo retórico: promete transparência no futuro para esvaziar a exigência de responsabilidade no presente.
O filósofo francês Paul Ricœur, em A Memória, a História, o Esquecimento, observou que o trabalho da memória é sempre ameaçado por duas patologias opostas: o esquecimento forçado e a obsessão mnemônica. A guerra contemporânea parece ter inventado uma terceira via: a investigação perpétua, que suspende a memória em um limbo burocrático onde nenhum fato é definitivamente estabelecido e nenhum responsável é definitivamente inocentado ou condenado. As 110 crianças de Minab aguardam, com os mortos do Líbano que ontem se juntaram a elas, que um laudo técnico decida se suas mortes foram acidente, efeito colateral ou crime. Enquanto isso, Hegseth sobe ao pódio e fala em "vitória com V maiúsculo".
Não sei, leitor, que nome dar a esse estado de coisas. Talvez os antigos gregos o reconhecessem como hybris, a arrogância que precede a queda. Cessar-fogos que não cessam fogo. Vitórias que não vencem nada. Investigações que nunca concluem. O "V maiúsculo" de Hegseth, afinal, talvez seja mesmo o mais adequado: não o V de victory, mas o V de vacuum, o vazio retórico no centro de uma guerra que ninguém pode declarar vencida, que ninguém pode conter, e cujos custos, como as 110 crianças de Minab e os 303 mortos de Beirute, não caberão jamais em nenhuma letra, maiúscula ou minúscula.
O terceiro recuo consecutivo do presidente americano não é um detalhe tático. É a certidão de óbito da credibilidade coercitiva dos Estados Unidos. Aprendi, em meus tempos de estudante de graduação, que a repetição, na tragédia grega, anuncia a catástrofe iminente. Édipo repete a pergunta sobre o assassinato de Laio até descobrir que ele próprio é o assassino. Agamenon repete o erro da hybris até cair morto na banheira. Na política internacional, a repetição também revela – mas o que ela revela, quando um presidente americano dá três ultimatos consecutivos e recua em todos, não é tragédia. É farsa. E farsa tem um custo estratégico que os manuais de relações internacionais ainda não aprenderam a calcular. Vamos aos fatos, nus e crus, como o leitor desta coluna merece.
Em 22 de março de 2026, Donald Trump deu ao Irã 48 horas para render-se incondicionalmente. Prazo expirado, recuou por cinco dias. No fim dos cinco dias, recuou por mais dez. No último domingo, após o Irã abater dois caças americanos, Trump ameaçou que "uma civilização inteira morreria esta noite" – uma frase que o Irã já denunciou na ONU como incitação ao genocídio. Na terça-feira, 7 de abril, poucas horas antes do prazo final, o presidente americano anunciou um cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão com intervenção de última hora da China, sem rendição, sem desarmamento, com o Irã declarando vitória e reabrindo o Estreito de Hormuz apenas temporariamente – "por duas semanas", nas palavras do chanceler iraniano Abbas Araghchi, "em coordenação com as Forças Armadas do Irã e considerando limitações técnicas".Traduzindo: o Irã continua no controle do gargalo por onde passa um quarto do petróleo mundial. Só vai deixar os navios passarem enquanto lhe convier.
Três recuos. Três vezes que a espada foi erguida e recolhida à bainha sem cortar. O historiador militar, que habita em mim, recorda que na arte da guerra, desde Sun Tzu a Clausewitz, a credibilidade da ameaça é um ativo tão valioso quanto porta-aviões e mísseis hipersônicos. Quando uma potência declara que vai fazer algo e não faz, repetidamente, ela não está poupando vidas. Está transferindo para o adversário a coisa mais preciosa que existe em uma relação de força: a capacidade de ditar o ritmo do conflito.
O Irã entendeu algo que os estrategistas de Washington, presos em sua própria retórica de "domínio de espectro total", parecem ter esquecido. Em um conflito assimétrico, o lado mais fraco vence quando redefine o que significa vencer.Para os Estados Unidos, vencer seria: o Irã se rende, desmantela seu programa nuclear, abre Hormuz incondicionalmente e abandona seus aliados regionais. Para o Irã, vencer é muito mais simples: sobreviver, manter o regime no poder, provar que pode fechar o estreito sempre que quiser e, sobretudo, obrigar os Estados Unidos a negociarem sob seus termos.
Pergunto ao leitor: qual dos dois alcançou seu objetivo?
O Irã não apenas sobreviveu como, segundo seu próprio Conselho de Segurança Nacional, os Estados Unidos aceitaram "a estrutura geral do plano de dez pontos iraniano". Esse plano inclui, ainda que apenas como abertura para negociação, demandas que há um mês seriam consideradas delírio: fim de todas as sanções econômicas, pagamento de indenizações por danos de guerra, retirada das forças militares americanas da região. O fato de esses pontos estarem sequer sobre a mesa já é uma vitória retórica e política para Teerã.
Como observou Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais do Berea College, em entrevista ao Estadão: "Trump que falava até outro dia em rendição incondicional, agora faz um post dizendo: 'tem algumas condições aqui que nós estamos discutindo'. Cadê a rendição incondicional?" A resposta, incômoda, é que nunca existiu. Era um blefe. E o Irã pagou para ver. Mas o elemento verdadeiramente sísmico desta crise – aquele que os telejornais vão mencionar de passagem, mas que o leitor atento precisa guardar na memória – é a intervenção de última hora da China.
Pequim manteve-se deliberadamente distante da escalada. Até que, no momento crítico, entrou em cena para salvar um acordo que os Estados Unidos, sozinhos, não conseguiam fechar. Três autoridades iranianas confirmaram ao New York Times: a mediação do Paquistão foi decisiva, mas a intervenção chinesa foi o fator que desempatou a negociação.O que significa, para a ordem global do século XXI, que a única superpotência remanescente não consegue resolver uma crise que ela mesma iniciou sem recorrer – mesmo que indiretamente – à ajuda de sua principal rival geopolítica?
Não é uma pergunta retórica. É o som do mundo multipolar batendo à porta.
A China agora acumula, em um único movimento diplomático: crédito com o Irã (seu aliado no corredor do Cinturão e Rota), gratidão tácita do Paquistão (seu "irmão de ferro"), um precedente para futuras mediações em crises onde os Estados Unidos estejam atolados e, ironia das ironias, um serviço prestado aos próprios americanos – que Pequim certamente não esquecerá de cobrar. O professor Vinicius Vieira, da FGV e FAAP, citado pelo Estadão, fez uma observação que merece ser repetida: "Essa falta de credibilidade não deve se estender apenas ao governo Trump, mas pode virar uma herança maldita para os seus sucessores, sejam eles democratas ou republicanos."
É isso. O custo do terceiro recuo não será pago apenas por Trump. Será pago pelo próximo presidente americano que precisar fazer uma ameaça crível a Teerã, ou a Pyongyang, ou a Pequim. O inimigo aprenderá a lição: o ultimato americano tem prazo de validade. E vence rápido.
O estreito de Hormuz será reaberto por duas semanas. O petróleo vai fluir. As bolsas vão subir. O mundo vai respirar aliviado. Mas, para quem sabe ler a história militar e as entrelinhas da geopolítica, a pergunta que fica é outra: o que o Irã pedirá em troca da próxima reabertura? E quando a China decidir que é hora de recolher o dividendo dessa intervenção, qual será o preço cobrado?
O século XXI, meus caros, não será americano. Também não será chinês – pelo menos não exclusivamente. Será uma negociação perpétua entre potências que já não sabem mais blefar sem tremer. E Donald Trump, com seus três ultimatos frustrados e sua retórica genocida, pode ter sido o catalisador involuntário desse novo mundo.
Restam quatorze dias para saber se a trégua vira paz ou se o intervalo entre dois atos da peça será preenchido por mais mísseis. De qualquer forma, a plateia já sabe: o herói americano, desta vez, saiu do palco vaiado. E o vilão, de turbante e fala mansa, fez uma reverência e ficou.