Há homens que vivem numa cidade sem jamais habitá-la. Caminham por suas ruas, conhecem seus horários, atravessam suas praças, escutam seus ruídos, mas permanecem estrangeiros. O passaporte civil lhes garante endereço; a alma, porém, segue sem domicílio. Entre esses homens, encontra-se o poeta.
Toda grande cidade produz riqueza, trânsito, anúncios
luminosos, pressa e esquecimento. Mas produz, também, um tipo singular de
desterrado: aquele que não consegue adaptar o espírito ao regime da utilidade.
Enquanto os outros negociam, calculam, ascendem, disputam e
celebram pequenas vitórias administrativas, ele escuta coisas invisíveis. Vê
fissuras onde os demais enxergam paredes sólidas. Percebe o cansaço moral
escondido sob roupas elegantes. Identifica, no brilho das vitrines, a sombra da
carência. Por isso incomoda. Por isso se isola. Por isso, tantas vezes, é
empurrado para a margem.
No universo poético de Wilson Pereira, essa condição aparece
com nitidez pungente. Seu eu lírico não se sente simplesmente só: sente-se
deslocado ontologicamente, como se tivesse sido lançado numa paisagem errada.
Não é apenas um homem triste entre outros homens; é um homem incompatível com a
lógica do lugar. Quando escreve versos em meio a “tantos monstros”, não está
praticando mero exagero retórico. Está nomeando uma experiência espiritual: a
percepção de que a cidade moderna pode converter pessoas em engrenagens sem
rosto, sujeitos funcionalmente vivos e interiormente devastados.
Há, nessa tradição, algo antigo. Já os profetas bíblicos
atravessavam cidades corrompidas como vozes sem pátria. Sócrates caminhava por
Atenas como um estranho entre cidadãos satisfeitos. Dante fez de Florença uma
ferida. Baudelaire transformou Paris num laboratório de spleen. T. S.
Eliot viu Londres como multidão espectral. O poeta, quase sempre, pertence
menos ao mapa urbano do que ao território invisível da dissidência.
Wilson Pereira inscreve-se, à sua maneira, nessa linhagem dos
desencontrados. Sua poesia não exibe rebeldia teatral; antes revela uma dor
contida, de homem que percebeu cedo demais o custo da convivência social. A
cidade, para ele, não é ágora
luminosa, mas arena de ruídos, desentendimentos e imposturas. Seu drama não
nasce do desejo de fama negada, e sim de uma inadequação mais funda: ele espera
densidade onde encontra superfície; espera verdade onde encontra pose; espera
comunhão onde encontra trânsito.
Há monstros na Cidade Moderna. Mas quem são esses
monstros? Não convém imaginá-los como figuras excepcionais. O monstro urbano
raramente tem presas. Usa gravata, sorri em fotografias, domina protocolos,
frequenta repartições e sabe cumprimentar com urbanidade. Sua monstruosidade
consiste noutra coisa: a normalização da indiferença.
É monstruoso o homem que já não se espanta com a humilhação
alheia. Monstruosa a inteligência que só calcula vantagens. Monstruosa a alma
que perdeu a faculdade de reverência. Monstruosa a coletividade que
ridiculariza o sensível e premia o cínico. A cidade moderna, quando adoece,
deixa de fabricar cidadãos e passa a produzir caricaturas eficientes.
Wilson Pereira percebeu esse processo. Seu poeta sente-se
sitiado por códigos hostis. Fala uma língua que quase ninguém deseja ouvir: a
língua da interioridade. Em tempos de barulho, isso soa subversivo. Em tempos
de marketing pessoal, a sinceridade
parece defeito. Em tempos de aceleração, a contemplação vira suspeita.
Contudo, há uma ironia silenciosa. São justamente esses
exilados, os poetas, os inquietos, os inadequados, que preservam a parte humana
da cidade. Sem eles, restariam apenas concreto, comércio e administração. São
eles que recordam que ruas também precisam de memória, que praças exigem
beleza, que multidões necessitam de sentido.
Toda cidade deveria temer o dia em que seus poetas se calam.
Porque quando o último exilado desiste, os monstros vencem sem batalha.