Há uma tendência recorrente em nossa época de acreditar que cada nova tecnologia militar inaugura uma guerra completamente nova. O surgimento dos drones, da inteligência artificial e dos sistemas autônomos parece reforçar essa impressão. As imagens que chegam da guerra entre Rússia e Ucrânia mostram pequenos artefatos voadores perseguindo caminhões em estradas distantes, identificando alvos por algoritmos e atacando depósitos de combustível a centenas de quilômetros da linha de frente. Para muitos observadores, trata-se do nascimento de uma nova era militar.
Mas a História costuma ser menos impressionável do que os noticiários. Por trás dos drones guiados por inteligência artificial empregados pela Ucrânia contra a logística russa, encontra-se uma ideia muito antiga. Tão antiga que remonta ao século XIX. Talvez até mais. Trata-se da percepção de que exércitos não sobrevivem apenas de coragem, patriotismo ou poder de fogo. Exércitos vivem de suprimentos. Alimentam-se de combustível, munição, alimentos, peças de reposição e fluxos contínuos de transporte. A guerra, em última instância, é uma disputa entre sistemas logísticos.
Ao ler as recentes declarações de oficiais ucranianos sobre a campanha de ataques contra caminhões, trens e tanques de combustível russos, não pude evitar a lembrança de uma figura histórica: o general William Tecumseh Sherman. Durante a Guerra Civil Americana, Sherman compreendeu algo que muitos de seus contemporâneos ainda relutavam em aceitar. A destruição do exército inimigo não era suficiente. Era necessário destruir também a infraestrutura que sustentava sua capacidade de continuar lutando.
Sua famosa Marcha para o Mar, que tanto me impressionou, realizada entre novembro e dezembro de 1864, não foi apenas uma operação de deslocamento militar. Foi uma campanha sistemática contra a capacidade logística da Confederação. Ferrovias foram arrancadas do solo, pontes destruídas, depósitos incendiados, armazéns esvaziados e centros de transporte reduzidos a ruínas.
Sherman não estava simplesmente atacando soldados. Estava atacando a circulação de recursos. Mais de um século e meio depois, a Ucrânia parece ter chegado à mesma conclusão. A diferença está apenas nos instrumentos empregados.
Sherman enviava colunas de infantaria para destruir trilhos ferroviários. Os ucranianos enviam drones equipados com inteligência artificial para localizar caminhões-tanque em movimento. Sherman derrubava pontes. Os operadores de drones procuram interromper corredores logísticos que ligam Rostov, Mariupol, Donetsk e a Crimeia. Sherman buscava sufocar o sistema circulatório da Confederação. Os ucranianos falam explicitamente em atingir aquilo que chamam de “o sangue da guerra”: o combustível.
Mudou a tecnologia. Permaneceu a lógica. Essa continuidade histórica revela algo importante. Frequentemente confundimos os meios com os fins. Ficamos fascinados pelos drones porque eles são novos. Mas os objetivos estratégicos que perseguem seriam perfeitamente compreensíveis para um comandante do século XIX.
Na verdade, talvez fossem compreensíveis até para um general romano. Os exércitos de Roma dependiam de estradas. Os exércitos napoleônicos dependiam de comboios. Os exércitos da Primeira Guerra Mundial dependiam de ferrovias. Os exércitos da Segunda Guerra Mundial dependiam de caminhões e combustíveis fósseis. Os exércitos do século XXI dependem de redes logísticas ainda mais complexas e vulneráveis. A forma muda, mas a dependência permanece.
Existe uma ironia histórica particularmente interessante nesse processo. Durante décadas, muitos analistas acreditaram que os avanços tecnológicos tornariam a logística menos relevante. A precisão dos armamentos, a velocidade das comunicações e a sofisticação dos sistemas de combate pareciam deslocar o foco para o campo tático. A guerra na Ucrânia demonstrou exatamente o contrário.
Quanto mais sofisticado se torna um exército, mais dependente ele se torna de uma cadeia logística extensa e frágil. Tanques precisam de combustível. Drones precisam de baterias. Sistemas eletrônicos precisam de geradores. Mísseis precisam ser transportados. Nenhuma inovação tecnológica aboliu essa realidade. Ao contrário, tornou-a ainda mais evidente.
Por isso, ao observarmos drones ucranianos perseguindo caminhões russos em estradas distantes, talvez não estejamos contemplando o futuro da guerra. Talvez estejamos observando uma de suas mais antigas verdades. Sherman teria compreendido imediatamente o que está acontecendo. Talvez até sorrisse diante da engenhosidade técnica dos novos meios. Mas reconheceria sem dificuldade a lógica subjacente. Afinal, aquilo que os drones fazem hoje não é muito diferente daquilo que suas tropas fizeram nas ferrovias da Geórgia em 1864.
A inteligência artificial impressiona. Os algoritmos despertam fascínio. Os drones ocupam as manchetes. Mas, por trás de toda essa modernidade, continua a mesma guerra. A velha guerra dos trilhos, das estradas, dos depósitos e dos suprimentos. A guerra que Sherman conhecia tão bem. A guerra que, aparentemente, nunca deixou de existir.
*Nota: em tempos de anti-intelectualismo o rigor de pesquisa faz-se mais do que nunca necessário. A Partir de hoje passo a incluir uma bibliografia mínima para cada artigo publicado. O que faço aqui são apenas esboços de análises mais aprofundadas. Os títulos ao fim de cada texto publicado funcionarão como um convite a um aprofundamento posterior por parte de um leitor interessado.
Como decisões tomadas em 1947 continuam matando em 2026
Há guerras que terminam quando cessam os disparos. Outras sobrevivem aos seus soldados. Acompanhei nos últimos dias as notícias vindas da Caxemira. Protestos, confrontos, mortos, tropas mobilizadas, discursos inflamados.
À primeira vista, trata-se apenas de mais um episódio de tensão
entre Índia e Paquistão. Mas a aparência engana. O que vemos hoje não pertence
inteiramente ao presente. Os homens que marcham pelas ruas de Muzaffarabad ou
patrulham as fronteiras do Himalaia caminham, em certa medida, por estradas
abertas por pessoas que já não existem. Os mortos não assinam armistícios.
Costumamos imaginar a História como uma sucessão de épocas
claramente separadas. Os vivos ocupam o palco enquanto os mortos se retiram
para os bastidores. A realidade é menos ordenada. Os mortos permanecem entre
nós. Nem sempre como lembrança. Muitas vezes como estrutura.
A Caxemira é um dos exemplos mais impressionantes dessa
persistência. Em 1947, quando o Império Britânico abandonou a Índia, uma linha
foi traçada sobre mapas, relatórios e documentos oficiais. A partilha deu
origem à Índia e ao Paquistão, mas também produziu uma das mais profundas
feridas geopolíticas do século XX. Milhões de pessoas foram deslocadas.
Centenas de milhares morreram. E uma questão aparentemente administrativa, a
qual Estado pertenceria a Caxemira, transformou-se num problema que
atravessaria gerações.
Os protagonistas daquela decisão desapareceram há muito
tempo. General Lord Mountbatten pertence aos livros de História Militar.
Jawaharlal Nehru tornou-se estátua. Muhammad Ali Jinnah repousa em seu
mausoléu. No entanto, as consequências de suas escolhas continuam
extraordinariamente vivas.
Os mortos foram embora. Seus problemas ficaram. O historiador
francês Marc Bloch observou que a incompreensão do presente nasce fatalmente
da ignorância do passado. Talvez o caso da Caxemira demonstre também o
contrário: há passados que se recusam a passar.
A fronteira que, hoje, separa indianos e paquistaneses não é
apenas uma linha militar. É uma memória fossilizada. Um vestígio transformado em paisagem
política. Soldados vigiam montanhas porque homens mortos tomaram decisões há
quase oitenta anos. Crianças crescem aprendendo a desconfiar do outro lado da
fronteira porque seus avós herdaram um conflito que nunca encontrou uma
conclusão definitiva.
Existe algo de profundamente homérico nisso. Na Ilíada,
a guerra prossegue porque os vivos carregam promessas, juramentos e ofensas
recebidas dos mortos.
Os combatentes não lutam apenas por si mesmos. Lutam em nome de uma herança. A
guerra torna-se uma corrente que atravessa gerações. A modernidade imaginou que
a racionalidade burocrática substituiria esse mundo antigo. Não substituiu.
Mudaram os uniformes, os mapas e as bandeiras. Permaneceu a lógica da herança.
Talvez por isso a Caxemira exerça tamanho fascínio sobre
historiadores. Ela nos recorda uma verdade desconfortável: o passado raramente
está morto. Em certos lugares, ele sequer é passado. Os confrontos desta semana
parecem novos apenas para quem observa a superfície dos acontecimentos. Em
profundidade, trata-se da mesma história que se desenrola desde 1947. Os atores
mudam. O roteiro permanece.
Enquanto escrevo estas linhas, novos protestos ocorrem, novas
patrulhas são mobilizadas e novas declarações são emitidas. Tudo parece
contemporâneo. Mas, sob a névoa das montanhas do Himalaia, ainda ecoam vozes
antigas.
São as vozes daqueles que dividiram territórios, desenharam
fronteiras e imaginaram que seus atos permaneceriam confinados ao seu próprio
tempo. Enganaram-se. Os homens morrem. As decisões sobrevivem.
E algumas guerras, como a da Caxemira, continuam sendo travadas muito depois que seus primeiros combatentes desceram ao silêncio dos túmulos. Afinal, os mortos não assinam armistícios. Eles apenas legam aos vivos a tarefa de conviver com as consequências.
Há riquezas que não aparecem nos balanços econômicos. Não podem ser medidas em toneladas de ouro, barris de petróleo ou reservas cambiais. Ainda assim, sustentam impérios, derrubam governos e influenciam guerras. Uma delas é a credibilidade.
Poucos conceitos são tão importantes para a política internacional e, ao mesmo tempo, tão difíceis de enxergar. Ela não ocupa território. Não produz alimento. Não abastece exércitos. Mas quando desaparece, até as maiores potências descobrem que sua força possui limites.
Os acontecimentos recentes no Oriente Médio oferecem um exemplo revelador. Muito se discutiu sobre a capacidade militar do Irã, sobre os danos provocados pelos ataques e sobre os riscos de escalada regional. Mas talvez a questão central estivesse em outro lugar. Talvez o verdadeiro alvo da operação não fosse apenas Israel. Talvez fosse a preservação de algo mais abstrato: a credibilidade de Teerã perante seus aliados.
Durante anos, a liderança iraniana construiu uma rede de parceiros armados e movimentos políticos espalhados pela região. Hezbollah, milícias iraquianas, houthis e outros grupos não são apenas instrumentos de influência. Eles representam uma espécie de sistema de alianças informal que amplia o alcance estratégico da República Islâmica. Mas alianças não sobrevivem apenas pela convergência de interesses. Elas dependem de confiança. Um aliado precisa acreditar que não será abandonado quando a crise chegar.
Na Antiguidade, Tucídides já compreendia essa dinâmica. Ao narrar a Guerra do Peloponeso, ele mostrou que o poder de Atenas não dependia exclusivamente de seus navios ou de suas muralhas. Dependia da convicção de seus aliados de que Atenas continuaria sendo uma protetora confiável. Quando essa confiança começava a vacilar, a própria arquitetura do império era ameaçada.
A história está repleta de exemplos semelhantes. Roma construiu boa parte de sua expansão sobre uma complexa rede de aliados italianos. As legiões eram formidáveis, mas a credibilidade romana era igualmente importante. Os povos submetidos ou associados à República precisavam acreditar que Roma cumpriria suas promessas de proteção e puniria aqueles que desafiassem sua autoridade.
A força militar era visível. A credibilidade era invisível. Mas ambas eram indispensáveis. Essa lógica continua operando no mundo contemporâneo. Quando os Estados Unidos reafirmam seus compromissos com a OTAN, não estão apenas fazendo declarações diplomáticas. Estão preservando uma reputação construída ao longo de décadas. O valor estratégico do Artigo 5 não reside apenas na existência formal do tratado. Reside na crença de que Washington realmente cumprirá aquilo que prometeu.
Toda aliança repousa, em alguma medida, sobre um ato de fé. Por isso as potências frequentemente reagem a eventos que, à primeira vista, parecem periféricos ou desproporcionais. Muitas guerras não começam por causa da importância intrínseca de um território, mas pelo receio de que a inação seja interpretada como fraqueza. É uma lógica dura e frequentemente perigosa.
Em 1914, líderes europeus tomaram decisões que ajudaram a desencadear a Primeira Guerra Mundial porque temiam perder credibilidade perante aliados e adversários. Nenhuma potência queria ser vista como hesitante. Nenhuma queria transmitir a impressão de que seus compromissos eram negociáveis. O resultado foi uma catástrofe.
A credibilidade é uma moeda valiosa. Mas pode cobrar juros devastadores. Existe, contudo, uma ironia profunda nesse mecanismo. Quanto mais uma potência investe na manutenção de sua reputação, mais ela se torna prisioneira dela. O prestígio que fortalece também restringe. A promessa feita ontem transforma-se na obrigação de amanhã.
Talvez seja isso que torna a política internacional tão diferente da vida comum. Indivíduos podem se dar ao luxo de admitir dúvidas, rever posições ou reconhecer erros. Estados raramente possuem esse privilégio. Eles habitam um ambiente no qual cada gesto é observado, interpretado e arquivado por aliados e adversários. Uma ameaça não cumprida enfraquece. Uma promessa abandonada gera desconfiança. Um silêncio pode ser entendido como rendição.
Por trás dos arsenais, das bases militares e dos discursos oficiais, existe esse patrimônio invisível que as potências procuram preservar a qualquer custo. Não aparece nos mapas. Não surge nas fotografias dos campos de batalha. Não pode ser capturado por satélites.
Mas frequentemente decide o destino das guerras. Porque, no fim das contas, impérios não são sustentados apenas por exércitos. São sustentados pela crença, compartilhada por amigos e inimigos, de que suas palavras ainda possuem valor. E, no grande mercado da política internacional, poucas moedas são mais preciosas do que essa.
Quando um míssil iraniano cruza os céus em direção a Israel,
a atenção do noticiário costuma se concentrar na trajetória do projétil, nos
danos provocados e no risco de escalada militar. Mas, muitas vezes, o aspecto
mais importante de um ataque não está na explosão. Está na mensagem política
que ele carrega.
A recente justificativa apresentada por Teerã para sua ação
militar contém uma ideia que atravessa séculos de história: a de que um ataque
contra um aliado pode ser interpretado como um ataque contra o próprio Estado.
Os mapas mostram fronteiras. A história mostra outra coisa.
À primeira vista, parece uma formulação moderna. Na
realidade, é uma das mais antigas lógicas da política internacional. Impérios
raramente se limitam ao território que controlam diretamente. Eles costumam
construir ao redor de si uma zona de influência composta por aliados, clientes,
protetorados e parceiros estratégicos. Com o tempo, esses espaços passam a ser
percebidos não apenas como amigos, mas como extensões da própria segurança
nacional.
Atenas compreendeu isso há mais de dois mil anos. Após as
Guerras Médicas, os atenienses organizaram a Liga de Delos, uma aliança
destinada, em teoria, à defesa coletiva contra os persas. Com o passar das
décadas, porém, Atenas passou a enxergar qualquer ameaça às cidades aliadas
como uma ameaça à própria cidade. O império ateniense não terminava nos limites
da Ática. Suas fronteiras reais estavam espalhadas pelo mar Egeu.
Roma agiu de forma semelhante. Os romanos desenvolveram uma
vasta rede de reinos clientes e povos aliados. Muitos desses territórios
permaneciam formalmente independentes. Na prática, porém, qualquer agressão
contra eles podia justificar uma intervenção das legiões. O império expandia
sua influência muito antes de expandir suas fronteiras.
A lógica permaneceu viva nos séculos seguintes.
Em 1914, a Áustria-Hungria utilizou o assassinato do arquiduque Francisco
Ferdinando para pressionar a Sérvia. A Rússia, por sua vez, considerava os
sérvios parte de sua esfera de influência. O resultado foi uma reação em cadeia
que transformou uma crise balcânica em uma guerra mundial. O problema não
estava apenas na Sérvia. Estava naquilo que a Sérvia representava para outras
potências.
O mesmo princípio continua operando no século XXI. Quando um
membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte sofre um ataque, os demais
integrantes consideram que todos foram atacados. O famoso Artigo 5 da aliança
transforma uma agressão local em uma questão coletiva. Nesse sentido, as
fronteiras estratégicas dos Estados Unidos não terminam na Califórnia ou na
Flórida. Elas alcançam Varsóvia, Tallinn, Vilnius e dezenas de outros pontos
espalhados pelo globo.
É justamente essa lógica que parece emergir na atual postura
iraniana. Ao sugerir que uma ação israelense contra o Hezbollah exige uma
resposta iraniana, Teerã está tentando redesenhar as linhas do confronto. O
recado é simples: o Hezbollah não deve ser visto apenas como um aliado
distante. Deve ser percebido como parte de um espaço estratégico cuja violação
terá custos.
Se essa interpretação vier a ser aceita pelos adversários, a
geografia política do Oriente Médio sofrerá uma alteração importante. O Líbano
deixará de ser apenas o Líbano. Passará a funcionar, aos olhos de muitos
estrategistas, como uma extensão da própria fronteira iraniana.
A história ensina que os impérios raramente começam
expandindo seus territórios. Eles começam expandindo suas definições de
segurança. Primeiro surgem os aliados. Depois aparecem os compromissos. Em
seguida vêm as garantias. E, por fim, nasce uma nova fronteira, invisível nos
mapas, mas extremamente real nos cálculos da guerra.
Os cartógrafos desenham linhas. As potências desenham zonas
de influência. E, muitas vezes, é nessa fronteira invisível que as grandes
guerras começam.
Algumas datas possuem a estranha capacidade de convocar fantasmas. O 6 de junho é uma delas. Todos os anos, quando o calendário alcança esse dia, minha memória não retorna primeiro às praias da Normandia, aos paraquedistas dispersos sobre os campos franceses ou às embarcações que avançavam sob fogo inimigo. Ela retorna aos livros. Aos velhos livros que, ainda na adolescência, me apresentaram aquele acontecimento que mudaria o curso da Segunda Guerra Mundial.
Antes dos arquivos, das monografias acadêmicas e dos debates historiográficos, conheci o Dia D através de duas obras que ocuparam durante décadas um lugar quase obrigatório na biblioteca dos apaixonados por História Militar: O Mais Longo dos Dias, de Cornelius Ryan, e Invasão 44, de Paul Carell. Hoje percebo que aqueles livros eram mais do que simples narrativas de uma batalha. Eram duas portas distintas para o mesmo acontecimento. Duas formas de olhar a mesma praia.
Cornelius Ryan escrevia a partir do lado dos vencedores. Seu livro possui o ritmo de uma epopeia moderna. A narrativa avança por dezenas de personagens, alternando perspectivas, acompanhando generais, marinheiros, pilotos, paraquedistas e soldados comuns. A operação Overlord surge como um gigantesco drama coletivo, uma das grandes empresas militares da história humana.
Ao jovem leitor que eu era, aquelas páginas transmitiam a sensação de estar diante de um momento decisivo da civilização ocidental. O desembarque aparecia como o instante em que a maré da guerra finalmente começava a empurrar o Terceiro Reich em direção ao colapso.
Mas havia o outro livro. Invasão 44, de Paul Carell, contava uma história diferente. Não porque os fatos fossem outros. As praias eram as mesmas. Os tiros eram os mesmos. Os mortos eram os mesmos. O que mudava era o lugar de observação. Ryan observava a Normandia a partir das embarcações que chegavam. Carell observava a mesma Normandia a partir dos bunkers que tentavam resistir.
Nas páginas de Carell surgiam a confusão dos estados-maiores alemães, as hesitações do alto comando, as dificuldades de comunicação, as decisões tomadas tarde demais. O leitor era levado para dentro da máquina militar que tentava impedir a invasão e que, aos poucos, descobria estar diante de uma força impossível de deter.
Hoje sabemos que o livro deve ser lido com cautela. A historiografia posterior revelou limitações importantes em sua interpretação e mostrou como parte da literatura militar alemã do pós-guerra procurou preservar a imagem de eficiência profissional da Wehrmacht. Ainda assim, a obra conserva valor. Ela permite compreender como aquela batalha era percebida pelos homens que ocupavam o lado oposto da linha de fogo.
Talvez sem perceber, aqueles dois livros ensinaram ao adolescente que eu era uma das lições mais importantes da História Militar. Nenhuma batalha possui uma única narrativa. Os acontecimentos são os mesmos. As experiências não.
O soldado que desembarca sob o fogo das metralhadoras está vivendo uma história. O defensor que observa a aproximação das embarcações está vivendo outra. O general que acompanha os relatórios em um quartel distante vive uma terceira. Décadas depois, o historiador tentará reunir esses fragmentos dispersos, como quem recolhe pedaços de um vaso antigo, sabendo que jamais conseguirá reconstruí-lo integralmente.
Talvez seja por isso que a guerra exerce fascínio tão duradouro sobre a memória humana. Ela produz não apenas eventos, mas também narrativas concorrentes. Cada exército constrói suas lembranças. Cada geração reorganiza seus significados. Cada livro acrescenta uma nova camada de interpretação sobre os mesmos acontecimentos.
Passaram-se mais de oitenta anos desde aquele amanhecer de 1944.Muitos dos homens que lutaram na Normandia já desapareceram. Os veteranos transformaram-se em fotografias amareladas. As praias permanecem. Os bunkers permanecem. Os cemitérios permanecem. E permanecem também alguns livros. Ao recordar o 6 de junho, descubro que não me lembro apenas de uma batalha. Lembro-me igualmente do jovem leitor que atravessava aquelas páginas tentando compreender os mecanismos da guerra e da história. De certo modo, ele também pertence agora ao passado.
Os anos passam. Os homens passam. Os exércitos passam. Mas alguns livros continuam de guarda sobre a memória dos mortos. Talvez seja essa a sua mais nobre missão. Não apenas explicar o que aconteceu, mas impedir que o silêncio conquiste definitivamente o terreno onde um dia marcharam os vivos.