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Wellington Freire

Morrer duas vezes: no campo e na propaganda

Wellington Freire - 29 de Abril de 2026 | 09h 21
Morrer duas vezes: no campo e na propaganda

Hoje, li uma notícia que me pareceu vinda de outro século. Vi um relato cerca de que soldados norte-coreanos enviados ao front russo teriam recebido a ordem tácita, ou explícita, de se matar para evitar a captura. Essa notícia não pertence apenas ao noticiário da guerra na Ucrânia. Ele nos devolve a uma longa tradição histórica em que o Estado reivindica o direito supremo sobre o corpo de seus combatentes: não apenas ordenar que matem, mas decidir também como devem morrer.

A guerra sempre produziu cadáveres; alguns regimes, porém, exigem algo mais: produzem mortos obedientes. O suicídio do soldado para escapar ao cativeiro não nasce na Coreia do Norte. Ele reaparece, sob formas diversas, em múltiplas civilizações militares. Em Esparta, a vergonha da derrota podia ser pior que a morte. Em Roma, a virtus e a dignitas tornavam a captura um estigma profundo para comandantes. Na tradição samurai japonesa, o seppuku ritualizou a ideia de que a honra vale mais que a sobrevivência. No século XX, o Japão imperial levou esse princípio ao paroxismo com os kamikazes e com guarnições inteiras instruídas a lutar até o último homem.

Mas há uma diferença crucial entre morrer por convicção pessoal e morrer por engenharia ideológica. O guerreiro antigo podia internalizar códigos de honra; o Estado totalitário os industrializa. Na Coreia do Norte, onde o indivíduo existe em função da dinastia e do partido, o soldado é educado desde cedo a considerar a captura como traição metafísica. Cair prisioneiro não seria apenas fracassar militarmente; seria contaminar a pureza política do regime. O corpo do combatente deixa de ser seu. Ele pertence ao Estado em vida e continua pertencendo-lhe na morte.

É aqui que ocorre a segunda morte.A primeira é física: a granada detonada no peito, o disparo final, o corpo abandonado na lama de uma guerra distante. A segunda é simbólica: o cadáver convertido em monumento, desfile, estátua, discurso, medalha póstuma. O homem desaparece; nasce a peça de propaganda.

Nenhum regime autoritário desperdiça seus mortos. Eles são politicamente úteis porque não contradizem versões oficiais, não narram medo, não descrevem incompetência logística, não confessam desejo de voltar para casa. O morto é o cidadão ideal da tirania: silencioso, imóvel e reutilizável.

A história militar está cheia desses processos de transfiguração. Os túmulos heroicos de Esparta, as inscrições romanas, os memoriais napoleônicos, os cenotáfios nacionais do século XX, todos procuram dar sentido coletivo ao aniquilamento individual. Contudo, em sistemas fechados, esse rito torna-se mais sombrio: não se homenageia apenas o sacrifício; normaliza-se sua repetição.

Por isso, quando um líder exalta soldados que “preferiram morrer a serem capturados”, não está apenas descrevendo coragem. Está ensinando aos vivos qual morte espera deles. A honra, nesse caso, torna-se uma tecnologia de poder. O vocabulário nobre encobre a nudez brutal da coerção. Fala-se em glória para evitar a palavra desperdício; fala-se em lealdade para não dizer medo; fala-se em patriotismo para ocultar que homens foram enviados a morrer em terras alheias por interesses que jamais escolheram.

No fundo, toda tirania sonha com o mesmo soldado: aquele que aceita morrer sem perguntar por quê. Eis a tragédia permanente. O combatente morre uma vez no campo de batalha. Depois morre novamente quando sua vida singular é apagada e substituída por uma narrativa oficial. Entre a honra proclamada e a carne destruída, quase sempre está o abismo da mentira.




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