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  • Feira de Santana, sexta, 12 de junho de 2026

André Pomponet

A jornada 7 por 0 e Bukowski

André Pomponet - 12 de Junho de 2026 | 08h 47
A jornada 7 por 0 e Bukowski
Foto: Divulgação

A proposta de redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40, com a adoção da escala 5 por 2 para boa parte dos trabalhadores, empacou no Senado. Na Câmara dos Deputados, apesar das resistências, as discussões andaram, os prazos foram céleres e a aprovação foi esmagadora. Mas Davi Alcolumbre (UB-AP) – presidente do Senado – resolveu colocar o projeto em banho-maria, retardando sua votação pelos senadores.

Noutra frente, senadores da oposição tentam emplacar uma proposta que institui o sistema de trabalho por horas. Nas mídias sociais, foi apelidado de “escala 7 por 0”. O argumento para aprová-lo é o de sempre: livre negociação entre patrões e empregados. Como se trabalhador dispusesse desse poder de barganha para impor suas condições.

O modelo por horas trabalhadas é comum nos Estados Unidos. O valor mínimo é de US$ 7.25, sem férias regulamentadas, sem décimo-terceiro salário, sem vale alimentação ou transporte e sem Fundo de Garantia. Demitir também é mais fácil do que aqui. Inspirados nesse modelo, os representantes do povo em Brasília querem aprovar algo similar, mas com direitos proporcionais, segundo dizem.

A visão que se dissemina sobre os Estados Unidos é sempre a da potência econômica, de um paraíso liberal, de riqueza disseminada. Pouco se sabe sobre a realidade do trabalhador, atual ou pretérita. Muito do que há possui forte ranço ideológico Fui encontrar um relato cru e contundente em Charles Bukowski, poeta e escritor de grande sucesso.

Bukowski relatou, em diversos romances, suas experiências como trabalhador pouco qualificado, às vezes braçal, em dezenas de empresas. Antes de consagrar-se como escritor, permaneceu mais de uma década nos Correios. As longas jornadas, os baixos salários, as condições aviltantes, as demissões frequentes, o desamparo de quem trabalha e a indiferença de quem contrata estão em suas páginas.

Na estreia, em “Cartas da Rua”, ele ofereceu um panorama da realidade dos Correios, onde trabalhava em ritmo frenético durante até 11 ou 12 horas diárias. Para suportar as jornada extensas, as tarefas enfadonhas e os movimentos repetitivos que corroeram sua saúde, ele recorria à bebida nos curtos períodos de folga.

Factotum”, um dos seus romances mais importantes, narra sua epopeia circulando por diversas cidades dos Estados Unidos em busca de trabalhos precários, disputados por multidões de desvalidos, mesmo no próspero período pós-guerra. Nua e crua, a literatura de Bukowski não oferece espaços para lamentações ou queixas, centrando-se em uma fria e estoica objetividade.

Ao contrário do que muitos podem imaginar, Bukowski não foi comunista, nem exerceu nenhum tipo de militância política. Apenas teve a oportunidade de, a partir funções braçais ou muito modestas, enxergar a realidade do mercado de trabalho norte-americano. Justamente a realidade engendrada pelo modelo que querem copiar por aqui.

Como se, no Brasil, precisássemos de mais precariedade ainda...

 

  



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