Amélio Amorim era amigo de meu pai, por terem origem comum,
em Coração de Maria. Nascido em 21 de abril de 1929, Amélio foi arquiteto
brilhante, dono de marca imemorial em nossa cidade. Dele, herdamos o monumental
projeto do Clube de Campo Cajueiro; a Galeria Caribé; o prédio da Casa das
Lâmpadas; a icônica casa suspensa, situada na Avenida Getúlio Vargas –
lamentavelmente, já demolida –, logo após o cruzamento com a Avenida Maria
Quitéria; e o seu sonho absoluto: o Complexo Carro de Boi.
Para colocar esse sonho de pé, Amélio sacrificou, muitas
vezes, a totalidade da renda familiar, como me confidenciou Irma Amorim, sua
esposa, já falecida — escritora, artesã, poetisa e amiga. Visionário, inquieto,
Amélio deu à cidade um restaurante marcado pela figura iconográfica do carro de
boi e pela inesquecível Boate Jerimum — palavra de origem tupi (yuru'mún), nome
popular para a abóbora.
Ele partiu, precocemente, em 15 de maio de 1982, em um
acidente automobilístico, mas consolidou-se como o grande pioneiro do
modernismo, em Feira. Há quem diga, com razão, que Amélio expressava em traços
de concreto a poesia de Irma, e que ela vestia em palavras a arquitetura dele.
Quando Amélio estava finalizando a construção, contou-me
Irma, pediu a meu pai que comprasse dois carros de boi para o Complexo. Meu pai
os comprou e lhe fez uma doação. Com o abandono do espaço, não sei
se permaneceram por lá, foram desmontados, ou doados a outra instituição.
Agora, após décadas de um descaso que roía a alma de quem
valoriza a nossa identidade, o governador Jerônimo
Rodrigues promoveu uma reforma, que é um ato de reparação histórica.
Devolver o Centro de Cultura Amélio Amorim à comunidade, com sua estrutura
recuperada e uma ornamentação convidativa, vai além de uma obra pública.
Ela resgata a "abóbora" do nosso imaginário
coletivo, reabrindo um centro de arte, convivência e vanguarda que parecia
perdido. Essa revitalização cura uma ferida urbana que não cansava de doer.
Não sei se os carros de boi voltaram à sua moradia natural. Ainda não fui ao novo Amélio. Se estiverem lá, encontrarei um fio de meu pai, um tempo dele ainda no meu. Se não estiverem, ficarei sem o encontro, mas continuarei guardando o detalhe da memória que ele deixou por ali. De todo modo, vou feliz ao novo Amélio Amorim, governador!
A dissonância cognitiva é o desconforto mental gerado quando mantemos crenças, ideias ou valores que entram em conflito com a realidade ou com as nossas próprias ações. Como a nossa mente busca, incessantemente, a coerência, esse conflito gera uma forte tensão psicológica, que nos motiva a buscar formas de aliviar o mal-estar.
O conceito, formulado pelo psicólogo social Leon Festinger,
em 1957, descreve um desconforto tão real, que o cérebro ativa o córtex frontal
posterior e a ínsula — áreas intimamente ligadas a reações emocionais e de
sobrevivência.
Não é à toa que os mecanismos de dominação política têm
explorado, historicamente, o fenômeno do confronto, a exacerbação do discurso e
o que podemos chamar de "coreografia moral" para justificar cenários
que, em tese, seriam inaceitáveis.
A cineasta italiana Lina Wertmüller explorou, magistralmente,
essa coreografia da degradação humana e do conformismo moral em face do
fascismo e do nazismo, notadamente, em sua obra-prima Pasqualino Sete Belezas (1975).
Com o advento da internet e a universalização da comunicação,
essa exploração do ódio político foi exacerbada e elevada ao estado da arte.
Hoje, todas as pessoas estão expostas a algoritmos sofisticados e a
"fazendas de celulares" programadas para emitir mensagens em massa,
muitas vezes financiadas ou instrumentalizadas por grupos de poder e governos.
Essa exacerbação do ódio como instrumento de dominação é
visível nas redes sociais e contamina, inclusive, jornalistas e intelectuais.
Sintomas dessa retórica violenta aparecem em declarações de
líderes opostos, como Jair Bolsonaro, quando falou em
"fuzilar a petralhada", e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, que,
em fala infeliz, disse, ao se referir a adversários políticos: "empurrar
na vala, com pá carregadeira".
Toda vez que o poder e seus satélites se veem ameaçados ou
expostos, partem para a desqualificação dos opositores, por meio da falácia do
argumento ad hominem — quando se
ataca o indivíduo, e não a matéria em debate. Todos nós, incluindo os
profissionais da informação, somos tentados a cair nessa armadilha,
diariamente, sendo fundamental um esforço consciente para resistir à
desumanização do outro.
No Brasil, esse fenômeno se repete, de forma cruel, na base
da sociedade. Costuma-se rotular eleitores de Lula ou Bolsonaro como
"jumentos", "gado" ou "mentecaptos", como se os
60 milhões de cidadãos que votaram em cada um deles fossem incapacitados
mentais.
Trata-se de arrogância intelectual e de um gene de
totalitarismo inaceitável. O fenômeno se torna ainda mais grave quando
praticado por intelectuais — embora saibamos, pela história, que mentes
brilhantes, frequentemente, se entregaram às perversões políticas e ao rebanho
ideológico, sem qualquer pudor.
A desqualificação indiscriminada do eleitor do espectro
oposto é um erro analítico e moral por três motivos centrais:
- Reducionismo sociológico: 60 milhões de votos não cabem em um único diagnóstico psicológico ou moral. Trata-se de realidades econômicas, medos legítimos, heranças culturais e aspirações distintas que movem o voto. Reduzi-los à burrice é fechar os olhos para as causas reais do voto.
- A erosão do tecido democrático: Quando transformamos o
vizinho, o colega de trabalho ou o familiar em um "inimigo incapaz",
destruímos as pontes mínimas de convivência social necessárias para a
democracia.
- A blindagem de ídolos: a ofensa ao eleitor adversário
funciona como cortina de fumaça, que impede o indivíduo de enxergar as
contradições e os erros escancarados de seus ídolos políticos, alimentando o
ciclo da dissonância cognitiva.
A desqualificação geral não legitima o argumento de ninguém. Em tempos de overdose de informação e manipulação algorítmica, a firmeza, a crítica e a opinião devem se construir sobre o esclarecimento, o dado concreto e o debate aprofundado.
Precisamos abandonar o Fla-Flu de adjetivos e focar na
robustez dos projetos de país, na consistência dos fatos e na indignação que
constrói, em vez de destruir. É possível que, sob pressão dessa indústria do
engajamento ou movidos por juvenis paixões ideológicas, caiamos no abismo dessa
conduta.
No entanto, devemos fincar os pés à beira desse precipício e
resistir, pois quando o argumento cai na desqualificação adjetiva, ele apenas
escancara a doutrinação e a servidão ideológica que nos transforma em massa de
manobra.
E quando cairmos em tentação — pois o ambiente digital é
feito para nos fazer cair —, é preciso fazer o exercício da autocrítica e
ajoelharmo-nos, figurativamente, sobre o milho, com o intuito de buscar a
contrição intelectual que nos redima e devolva a dignidade ao debate.
Há um ano, o Brasil testemunha o silêncio obsequioso de um ministro da mais alta corte diante de um escândalo que escarnece da inteligência nacional: o contrato de R$ 129 milhões envolvendo o escritório de advocacia da esposa do ministro- advogada sem maiores publicações técnicas- e o banqueiro Daniel Vorcaro, o devasso líder do maior escândalo financeiro do país. Não se trata de boato, mas de uma sequência de indícios que, segundo reportagens, apontam para encontros reservados, visitas ao apartamento particular do empresário e mensagens com a função de autodestruição ativada — prática que, para muitos, soa como tentativa de apagar rastros.
O núcleo da indignação não é
apenas o valor astronômico, mas a pretensa interferência nos bastidores com o
objetivo de viabilizar a compra do falido banco Master por instituições
bancárias públicas. O que está em jogo vai além de uma transação financeira: é
a ideia de que autoridades públicas possam usar o peso da toga para proteger
interesses privados. A mensagem publicada pelo jornal Globo, supostamente
enviada por Vorcaro antes de sua prisão — “Conseguiu bloquear?” —, é
apresentada como indicação de uma proteção indigna, um clarão que revela o que
muitos já temem: a intoxicação da independência do Judiciário.
Diante de tais relatos, Moraes
opta pelo silêncio. E, ao fazê-lo, alimenta a sensação de que as investigações
sofrem um entrave institucional: uma caçada para perseguir quem ousou trazer o
contrato à tona, enquanto colegas de toga no STF, de forma velada ou declarada,
parecem dificultar o andamento dos trabalhos. A reputação do Supremo Tribunal
Federal está profundamente abalada e a indiferença com o cidadão não é apenas
um gesto de descaso; é um insulto à essência do estado de direito.
O que está em jogo não é apenas a
imagem de Moraes, mas a credibilidade de todo o sistema judiciário, já abalada
pelas revelações sobre o ministro Dias Toffoli e seu resort familiar. Quanto mais silêncio, mais estrondosa é a
repercussão: a confiança pública, já fragilizada, encontra-se à beira do
colapso pela falta de transparência, explicações claras e apuração rigorosa- o
que não acontecerá se depender do omisso Procurador Geral da República.
Precisamos de respostas claras,
apuração independente e transparência total.
Exige-se de um magistrado da mais alta corte muito mais do que notório
saber jurídico; exige-se reputação ilibada. E ela não existe com esse esqueleto
inexplicado oculto no armário.
A ruína de Moraes é tão
gigantesca quanto o valor do contrato e o silêncio em que ele se esconde.
“Estou triste, porque disseram que nossos criminosos são terroristas.” (Lula, sobre a classificação do PCC e do CV pelo governo norte-americano. Talvez, vá sugerir tocar o Hino Nacional para cada bandido preso);
“Como é que eu vou fazer uma pessoa que comprou por R$ 2 mil entregar seu celular sem receber nada?” (Lula, defendendo remuneração aos receptadores, esse ramo em crescimento no Brasil);
“Isso me faz ser um pouco mais humano do que apenas um policial.” (Lula);
“Eu vou mandar o Messias outra vez”, ele é “um dos melhores advogados deste país”. (Lula, mostrando que não respeita o Congresso Nacional);
“A polícia não pode matar antes de conversar.” (Lula, sobre a letalidade policial, ressaltando a importância do diálogo cabuloso);
“O Haddad acreditava; realmente; que era uma coisa boa. Ele falou comigo com convicção.” (Lula, botando a culpa pela ‘taxa das blusinhas’ em Haddad. Lula nomeou o incompetente, para por a culpa no incompetente nomeado);
“Vai ter criança, sim!” (Nelson Matias Pereira, presidente da Parada LGBT de SP, atacando Projeto de Lei que proíbe crianças no evento);
“Encontre alguém que te ama como o Lula ama o CV e o PCC. Não são 'nossos' criminosos, Lula. São SEUS criminosos.” (Flávio Bolsonaro, separando os criminosos de cada um).
“Meta o pé do Brasil, até dezembro deste ano, porque senão... vai todo mundo ser preso ou vai ser neutralizado pelas nossas polícias.” (Flávio Bolsonaro, sem esclarecer se vai junto);
“Fala, irmãozão”, “estarei contigo sempre!” (Flávio Bolsonaro, declarando-se a Daniel Vorcaro, o gangster master);
“O atual plano de governo estadual, o Programa de Governo Participativo (PGP), é, em verdade, Plano de Governo Perdido.” (Senador Ângelo Coronel, criticando o governador, Jerônimo Rodrigues);
“O povo até aceita, de uma certa forma, a traição, mas não aceita o traidor.” (Jerônimo, respondendo a Coronel);
“Ele está meio perdido. A minha sensação é que ele está desorientado, sem saber o que fala e sem saber o que faz.” (O ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa, sobre ACM Neto);
“Roubaram R$ 48 milhões na compra dos respiradores. Se Rui Costa não for preso, não existe Justiça neste país.” (Marcelo Nilo, deputado);
“Tem esse debate marcado entre você e o Rui Costa? Não tem e nem vai ter. Claro que não! Porque Rui Costa, por mais que tenha feito tudo para puxar o tapete de Jerônimo..., o candidato a governador do estado da Bahia é Jerônimo.” (ACM Neto, do União Brasil);
“Havia uma menina que acreditava na democracia, em um país livre.” (Dayanne Bezerra, irmã de Deolane Bezerra, alegando perseguição política, após a irmã ser presa por suspeita de lavagem de dinheiro – democraticamente – para o crime organizado);
“O setor elétrico virou uma fábrica de penduricalhos sem sentido, que encarecem a produção, acabam com a competitividade das empresas e aumentam o custo de vida da população. É um modelo que penaliza o país e dá benefícios a um conjunto de parasitas.” (Lucien Belmonte, porta-voz do União Pela Energia. Faltou dar nome aos parasitas).