Há notícias que parecem administrativas, técnicas,
burocráticas. Uma nova diretriz de defesa, aumento de contingentes, metas de
recrutamento, reforço logístico. No papel, tudo soa frio. Mas certas decisões
carregam séculos dentro de si. Quando a Alemanha anuncia uma estratégia
militar inédita desde o pós-guerra e reorganiza suas forças de olho na ameaça
russa, não se trata apenas de orçamento ou quartéis. Trata-se de História em
movimento.
Durante décadas, a Alemanha foi a grande potência econômica
que recusava a linguagem das armas. O século XX havia deixado cicatrizes
profundas demais. Depois de 1945, Berlim construiu sua legitimidade sobre
fábricas, exportações, prudência diplomática e uma memória dolorosa de seus
próprios excessos. A locomotiva da Europa preferiu os trilhos do comércio às
marchas militares. O soldado cedeu lugar ao engenheiro; o general, cedeu
espaço ao tecnocrata.
Essa escolha parecia definitiva. Muitos acreditaram que a
guerra, ao menos no coração da Europa, havia se tornado peça de museu.
Restariam crises periféricas, conflitos distantes, operações limitadas. A
integração continental, o mercado comum e a interdependência energética seriam
antídotos suficientes contra velhos demônios. Era uma tese confortável, e por
isso mesmo sedutora.
A invasão da Ucrânia pela Rússia demoliu essa ilusão. De repente, tanques voltaram a
cruzar fronteiras, cidades europeias voltaram a ser bombardeadas, milhões
voltaram a fugir. Descobriu-se que a paz não era uma conquista irreversível,
mas uma construção frágil sustentada por equilíbrio de forças, alianças e
vigilância permanente.
Quando a Alemanha volta a pensar militarmente, algo profundo mudou. O país que por décadas temeu qualquer sombra de rearmamento agora é instado por seus aliados a liderar a defesa do continente. Há ironia histórica nisso. Em 1945, a Europa temia uma Alemanha forte demais. Em 2026, teme uma Alemanha fraca demais.
E nesse movimento, outro espectro se ergue: 1914. Naquele verão distante, a Europa também vivia sob a confiança do progresso. Havia comércio intenso, ciência avançando, capitais interligadas, elites cosmopolitas. Muitos julgavam impossível uma guerra geral entre nações tão dependentes umas das outras. Bastaram algumas semanas para que alianças rígidas, rivalidades acumuladas e cálculos errados incendiassem o continente.
É evidente que 2026 não é 1914. Há instituições internacionais, armas nucleares, opinião pública global, memória das catástrofes passadas. Mas os mecanismos psicológicos permanecem inquietantemente familiares: corrida armamentista, medo recíproco, discursos nacionalistas, desconfiança estratégica, a crença de que o adversário só entende a linguagem da força.
O perigo não está apenas nas armas, mas na normalização delas. Quando sociedades inteiras passam a considerar inevitável um confronto futuro, começam a moldar-se para ele. Orçamentos mudam, prioridades mudam, vocabulários mudam. O que ontem parecia impensável hoje vira prudência; amanhã poderá parecer pouco.
A Alemanha sabe, talvez melhor do que qualquer outro país
europeu, o preço dessa transformação. Por isso seu rearmamento possui peso
simbólico singular. Não é apenas mais um Estado reforçando fronteiras. É a
nação que conheceu o auge e a ruína do militarismo sendo empurrada novamente
para o centro da questão estratégica europeia.
Toda época tem seus sinais. Alguns vêm em discursos inflamados; outros, em colunas de números e planos de defesa. Este é um deles. Quando a Alemanha volta a marchar, ainda que em passos administrativos e não em botas nas ruas, o fantasma de 1914 abre os olhos. E a Europa, mais uma vez, precisa decidir se aprendeu algo com seus mortos.
Abril costuma guardar fantasmas. Em abril de 1982, a junta
militar argentina desembarcou nas Ilhas Malvinas e iniciou uma guerra breve,
dramática e profundamente simbólica contra o Reino Unido. Em abril de 2026,
passados 44 anos, quase ninguém se lembra dela com a intensidade necessária. E
esse esquecimento talvez seja mais perigoso do que parece.
A Guerra das Malvinas foi, ao mesmo tempo, conflito
territorial, cálculo político desesperado e choque entre memórias imperiais.
Para os generais argentinos, enfraquecidos por crise econômica e desgaste
interno, recuperar as ilhas parecia uma aposta patriótica capaz de reacender
legitimidade. Para Londres, sob Margaret Thatcher, responder militarmente era
reafirmar prestígio, autoridade e alcance global. Em poucas semanas, homens
morreram em mares gelados e campos varridos pelo vento por razões que
misturavam honra nacional, sobrevivência política e símbolos históricos.
As guerras raramente começam apenas por território. Começam
por narrativas. Um mapa antigo, uma humilhação lembrada, uma soberania repetida
em livros escolares, uma promessa feita ao orgulho coletivo. Quando a memória
histórica é manipulada, ela deixa de ser advertência e se converte em munição.
As Malvinas deveriam ser estudadas como laboratório do
nacionalismo moderno. Um regime autoritário tentou usar a causa nacional para
salvar-se. Uma democracia utilizou a vitória para reconstruir liderança
interna. Jovens conscritos argentinos, mal preparados e mal equipados, pagaram
preço altíssimo. Famílias britânicas enterraram seus mortos a milhares de
quilômetros de casa. Ao final, os governos seguiram; os cemitérios ficaram.Mas
o mundo esquece rápido. E quando esquece, repete mecanismos antigos com nomes
novos.
Hoje vemos o retorno de velhos reflexos: disputas por ilhas
no Pacífico, revisionismos territoriais na Europa, memórias imperiais reacendidas
na Ásia, fronteiras tratadas como feridas abertas. Em muitos países, líderes
percebem que a política identitária externa mobiliza mais do que reformas
internas difíceis. A bandeira continua sendo recurso barato e poderoso.
As novas gerações, frequentemente afastadas do estudo sério
da história, recebem versões simplificadas: heróis puros de um lado, vilões
absolutos do outro. Sem contexto, sem tragédia humana, sem complexidade. Isso
produz cidadãos emocionalmente inflamáveis e intelectualmente desarmados.
A lembrança de 1982 importa justamente por isso. A Guerra das
Malvinas não foi epopeia romântica; foi aviso. Mostrou como governos em crise
recorrem ao passado para administrar o presente. Mostrou como sociedades podem
aplaudir decisões impensadas quando vestidas de patriotismo. Mostrou como a
distância geográfica não impede proximidade da morte.
Quarenta e quatro anos depois, o melhor tributo aos mortos
daquela guerra não é repetir slogans de soberania, mas compreender o mecanismo
que os matou. Memória não existe para alimentar rancores. Existe para impedir
recaídas.
Quando a memória morre, a guerra volta, primeiro, como discurso. Depois, como desfile. Por fim, como luto.
Os navios chineses que, recentemente, cruzaram rotas
sensíveis próximas ao arquipélago japonês não transportavam apenas mísseis,
radares e marinheiros. Levavam consigo algo mais antigo e mais pesado: memória.
No Extremo Oriente, nenhuma manobra naval é puramente técnica. Toda
movimentação de frota também desloca fantasmas.
Entre China e Japão, 1937 jamais terminou inteiramente. Foi
naquele ano que a Segunda Guerra Sino-Japonesa explodiu em escala total. O
Império Japonês, já instalado na Manchúria desde 1931, lançou nova ofensiva
sobre a China continental. Seguiram-se Xangai em chamas, Nanquim devastada,
cidades destruídas, populações massacradas e uma ferida histórica que Pequim
jamais permitiu cicatrizar por completo. Para a China contemporânea, a
lembrança da invasão japonesa não é apenas passado: é fundamento político.
Toda potência precisa de mitos de origem. A China de Xi
Jinping possui um deles: o “século das humilhações”, narrativa que vai das
Guerras do Ópio às agressões estrangeiras do século XX. Nesse roteiro nacional,
o Japão ocupa papel central como agressor asiático que explorou a fraqueza
chinesa. Não surpreende que cada gesto militar de Tóquio seja lido em Pequim
não só como cálculo estratégico, mas como eco histórico.
Do lado japonês, o movimento é inverso. O Japão do pós-1945
construiu-se sobre uma identidade pacifista, limitada por sua Constituição e
protegida pela sombra estratégica americana. Durante décadas, Tóquio preferiu
fábricas a quartéis, Toyota a couraçados, semicondutores a porta-aviões. Mas a
História, como o mar, nunca permanece imóvel. O crescimento militar chinês, a
pressão sobre Taiwan, a imprevisibilidade dos Estados Unidos e a guerra em
outras regiões convenceram parte da elite japonesa de que o pacifismo absoluto
tornou-se luxo perigoso.
O resultado está diante de nós: um Japão que se rearma
gradualmente e uma China que interpreta esse rearmamento à luz de 1937. É aqui
que reside o perigo. Armas são mensuráveis; memórias, não. Um míssil possui
alcance definido. Um ressentimento histórico, não. Estratégias podem ser negociadas;
traumas nacionais tendem a reaparecer nos momentos de crise. Quando navios
chineses cruzam novas rotas e o Japão amplia exportações militares, ambos
enviam sinais ao presente, mas ambos escutam ruídos do passado.
Os estrategistas chamam de “primeira cadeia de ilhas” a linha
geográfica que vai do Japão às Filipinas e limita a projeção naval chinesa no
Pacífico. A expressão é correta, porém incompleta. Existe também uma segunda
cadeia, invisível e muito mais perigosa: a cadeia das memórias não resolvidas.
Essa prende China e Japão a ciclos recorrentes de suspeita.
A Europa, depois de 1945, investiu em reconciliação
institucional entre antigos inimigos. A Ásia Oriental jamais concluiu processo
semelhante. Houve comércio, investimentos, interdependência industrial. Faltou
catarse histórica. Faltou algo equivalente ao gesto franco-alemão. Onde não há
reconciliação, o passado permanece mobilizável.
Por isso, o fantasma de 1937 navega hoje no Pacífico. Não
aparece nos radares, não surge nas imagens de satélite, não consta nos
comunicados oficiais. Mas influencia decisões, endurece discursos e amplia
riscos.
O século XXI talvez seja decidido menos por batalhas abertas
do que por crises mal administradas entre potências armadas e orgulhosas. Se
isso ocorrer no Leste Asiático, entenderemos tarde demais que certos anos nunca
acabam. Alguns apenas mudam de uniforme.
Há tragédias que entram para a história e tragédias que mal
conseguem entrar no noticiário. Umas provocam discursos solenes, sessões
extraordinárias, vigílias televisionadas, bandeiras nas varandas e campanhas
digitais em dezenas de idiomas. Outras acumulam cadáveres no silêncio, sem
comoção proporcional, sem mobilização duradoura, sem a liturgia pública da
indignação. O Sudão, mergulhado há três anos numa guerra devastadora,
converteu-se em símbolo cruel desse segundo destino: a catástrofe sem plateia.
Milhares morreram, 14 milhões foram deslocados, hospitais
ruíram, a fome avança, crianças sucumbem à desnutrição e a violência sexual
tornou-se arma recorrente. Ainda assim, o conflito permanece à margem da
consciência global. Não por falta de horror, mas por falta de atenção. Em
nossa época, o sofrimento não basta para ser visto. É preciso também ser
midiaticamente legível.
Vivemos a era da instantaneidade moral. Em poucas horas, uma explosão em
qualquer ponto do planeta pode gerar hashtags
planetárias, avatares temáticos, manifestações espontâneas e a sensação de
pertencimento a uma comunidade ética universal. Parece um avanço
civilizacional. E em parte é. Mas há uma fissura incômoda nesse edifício: a
sensibilidade contemporânea é profundamente seletiva. Algumas dores
viralizam; outras mal conseguem conexão estável. Algumas vítimas recebem nome,
rosto e biografia; outras aparecem apenas como número tardio em relatórios
humanitários.
O Sudão expõe aquilo que preferimos não nomear: existe um apartheid da compaixão. Não se trata de
decreto oficial nem de plano consciente, mas de uma estrutura invisível de
atenção desigual. Certas vidas parecem mais próximas, mais reconhecíveis, mais
“parecidas conosco”. Outras permanecem distantes, mesmo quando a distância é
apenas imaginária. Uma guerra europeia tende a ser percebida como abalo da
ordem mundial. Uma guerra africana, com frequência, é tratada como reincidência
de um caos presumido, como se a violência ali brotasse da paisagem e não de
decisões políticas, disputas militares e responsabilidades concretas.
Há, nesse mecanismo, um componente racial difícil de negar. O
Ocidente pós-colonial gosta de proclamar universalismo moral, mas
frequentemente reage com intensidade diferente conforme a cor, a geografia e a
familiaridade cultural das vítimas. Corpos brancos, cidades reconhecíveis,
igrejas semelhantes, ruas que lembram cartões-postais europeus produzem identificação
imediata. Já populações africanas, árabes ou periféricas continuam muitas vezes
aprisionadas no olhar distante da estatística.
A geopolítica reforça essa triagem emocional. Conflitos que
envolvem potências nucleares, corredores energéticos decisivos ou impacto
direto sobre mercados centrais recebem cobertura contínua. Guerras internas em
países periféricos, ainda que matem mais, tendem a ser classificadas como ruído
regional. O interesse estratégico decide a intensidade da empatia pública. Onde
há risco para bolsas de valores, há urgência. Onde há apenas civis morrendo,
costuma haver demora.
Também pesa a gramática narrativa. O público contemporâneo
prefere guerras explicáveis em um minuto: mocinhos nítidos, vilões
reconhecíveis, mapas simples, slogans exportáveis. O Sudão oferece o contrário:
facções rivais, alianças móveis, rivalidades históricas, múltiplos centros de
poder, fronteiras étnicas e regionais complexas. Como explicar exige
esforço, muitos escolhem ignorar. A complexidade converte-se em abandono.
Mas o problema não está em sentir pelos conflitos que ocupam
as manchetes. Toda solidariedade é valiosa. O escândalo está na solidariedade
distribuída por critérios implícitos de proximidade e utilidade. Não precisamos
sofrer menos por alguns; precisamos sofrer mais por outros.
Toda civilização revela sua ética pela forma como hierarquiza
vidas. A nossa mede sofrimento por algoritmos, interesse estratégico e
reconhecimento cultural. O resultado é um mundo em que nem toda morte
produz comoção igual. E talvez esta seja uma das formas mais sofisticadas de
barbárie contemporânea: não matar diretamente, mas acostumar-se a não olhar.
O Sudão arde longe das câmeras. Mas o incêndio moral não está apenas lá. Está em nós.
Durante muito tempo, a imaginação política foi dominada por imagens monumentais. O poder tinha bandeiras, fronteiras nítidas, uniformes impecáveis, colunas de tanques e frotas oceânicas. Impérios se reconheciam pela arquitetura da força. Roma tinha legiões; a Grã-Bretanha, navios; os Estados Unidos, porta-aviões. O poder parecia inseparável da massa, da visibilidade e da capacidade de ocupar territórios.
O século XXI começou a desmontar essa iconografia. O novo poder, cada vez mais, atua nas sombras. Não avança necessariamente com divisões blindadas, mas com redes flexíveis, milícias terceirizadas, drones baratos, ataques cibernéticos, sabotagens logísticas e grupos capazes de negar autoria. Hezbollah no Líbano, Houthis no Iêmen, milícias xiitas no Iraque, mercenários privados em diferentes continentes: são peças de uma geopolítica indireta, onde o centro de comando raramente coincide com o campo de batalha.
Chamamos isso de guerra por procuração, mas talvez o nome seja modesto demais. Não se trata apenas de terceirizar combates. Trata-se de uma transformação estrutural da soberania. Estados descobriram que podem projetar força sem arcar integralmente com os custos políticos de uma guerra formal. Podem ferir sem declarar guerra, pressionar sem invadir, desestabilizar sem assinar a autoria. A violência torna-se difusa, modular, plausivelmente negável.
Essa lógica corrói um dos pilares da ordem internacional moderna: a distinção entre paz e guerra. Em teoria, havia tempos de paz interrompidos por guerras oficialmente declaradas. Hoje proliferam zonas cinzentas: hostilidade permanente abaixo do limiar da guerra total. Um navio explode, uma rede elétrica cai, uma rota marítima é ameaçada, drones surgem do nada, mercados entram em pânico. Ninguém sabe exatamente quando começou, tampouco quando termina.
É por isso que o século XXI talvez seja o século dos pequenos perturbadores. Não é preciso possuir a maior economia, a aviação mais sofisticada ou o maior arsenal nuclear para produzir efeitos mundiais. Basta identificar o ponto vulnerável de sistemas complexos. Um estreito marítimo congestionado, um cabo submarino, uma cadeia logística dependente, uma opinião pública fatigável, um mercado sensível ao medo. O fraco já não precisa derrotar o forte; basta desorganizar-lhe o funcionamento.
A lição é antiga. Davi não venceu Golias tornando-se maior que Golias. Venceu recusando o tipo de combate que o gigante esperava. Toda guerra assimétrica repete esse gesto fundador: negar ao adversário o terreno no qual ele é superior. O forte prepara couraças; o fraco escolhe a funda. Há, porém, um preço civilizacional nessa mutação. Quando atores pequenos descobrem como paralisar sistemas gigantescos, todos se tornam vulneráveis. A interdependência global, celebrada como promessa de prosperidade, converte-se também em arquitetura da fragilidade. Quanto mais conectados, mais expostos.
Talvez este seja o paradoxo de nosso tempo: nunca houve poderes tão grandes, e nunca foi tão fácil perturbá-los. O império contemporâneo continua poderoso, mas agora precisa temer sombras.