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Wellington Freire

Império em dúvida: o dia em que a Alemanha deixou de liderar a Europa

Wellington Freire - 06 de Maio de 2026 | 07h 30
Império em dúvida: o dia em que a Alemanha deixou de liderar a Europa

Uma silenciosa mudança geopolítica está em curso na Europa. A atual crise de popularidade do primeiro ministro Alemão, Friedrich Merz  deixa de ser apenas um problema doméstico e passa a revelar algo mais profundo: o deslocamento silencioso do centro de poder. A atual fragilidade de Friedrich Merz não é apenas a dificuldade de um líder em sustentar sua coalizão. Ela pode ser lida como sintoma de um fenômeno maior: a Alemanha já não exerce, com a mesma força, o papel de eixo organizador da Europa.

Durante décadas, talvez desde a reconstrução do pós-guerra, a Alemanha ocupou uma posição singular. Não era um império formal, mas funcionava como tal em termos econômicos, políticos e estratégicos. No contexto da Guerra Fria, seu território era a linha de fratura entre dois mundos, e sua estabilidade era condição para o equilíbrio continental. A República Federal Alemã não apenas resistia: ela estruturava. Sua economia ancorava o projeto europeu, sua disciplina fiscal ditava normas, sua política externa oferecia previsibilidade.

Hoje, essa centralidade vacila. A dificuldade de Berlim em impor direção dentro da própria União Europeia, seja em energia, defesa ou política econômica, sugere algo mais do que hesitação: indica perda de capacidade de comando. E a história é implacável com centros que deixam de organizar seu entorno.

Após a Guerra do Peloponeso, Atenas não desapareceu. Continuou culturalmente vibrante, intelectualmente dominante. Mas perdeu aquilo que realmente importa em termos de poder: a capacidade de coordenar alianças e impor direção ao sistema. O resultado não foi a substituição imediata por uma nova hegemonia estável, mas um período de fragmentação, instabilidade e guerras recorrentes entre cidades incapazes de produzir ordem duradoura.

O mesmo padrão se repete no declínio de Roma em sua fase tardia. O império não colapsa de uma vez; ele se esvazia progressivamente. As fronteiras tornam-se mais difíceis de controlar, as decisões mais lentas, as disputas internas mais frequentes. O centro continua existindo, mas já não decide. E quando o centro hesita, as periferias se movem.

É exatamente esse o risco europeu. A Alemanha, que por tanto tempo funcionou como eixo de estabilidade, hoje se vê paralisada por divisões internas, coalizões frágeis e dificuldades de formulação estratégica. Sua voz, antes normativa, torna-se apenas mais uma entre várias. E onde não há direção clara, o sistema tende ao ruído.

Nesse vazio, forças radicais encontram espaço. O crescimento de partidos como a Alternativa para a Alemanha não deve ser lido como um fenômeno isolado ou puramente ideológico. Ele segue uma lógica estrutural conhecida: quando o centro falha em organizar expectativas, econômicas, sociais e políticas, as margens ganham tração. Não porque ofereçam soluções melhores, mas porque oferecem respostas mais simples em um ambiente de crescente incerteza.

A história sugere que o problema não é apenas quem sobe, mas por que o espaço para subir se abriu. O caso alemão revela, portanto, uma transição delicada. Não se trata de um colapso abrupto, mas de um processo de erosão. A Alemanha continua sendo a maior economia da Europa, continua central em termos institucionais. Mas já não exerce o mesmo magnetismo político. Já não define, com clareza, o rumo coletivo.

E, como em Atenas após sua derrota ou em Roma em seus séculos finais, o que se segue não é imediatamente substituído por uma nova ordem. O que surge primeiro é a incerteza. A Europa entra, assim, em uma fase perigosa de sua história: aquela em que ainda existe um centro. mas ele já não comanda.



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