Durante séculos, impérios compreenderam uma verdade elementar da política: poder precisa ser visto. Não basta vencer; é preciso exibir a vitória. O domínio imperial depende tanto da força material quanto da encenação da invulnerabilidade. Roma compreendeu isso cedo. Após cada grande campanha militar, generais atravessavam a cidade em cortejos triunfais, cercados por espólios, prisioneiros e legiões em marcha. O triunfo romano não era apenas celebração; era pedagogia política. O povo precisava acreditar que o império era irresistível.
A União Soviética herdou essa lógica simbólica. O Dia da Vitória, celebrado em 9 de maio, tornou-se mais do que uma comemoração da derrota do nazismo. Transformou-se no grande ritual civilizacional do Estado russo moderno. Não existe mito político mais poderoso na Rússia contemporânea do que a “Grande Guerra Patriótica”. A vitória de 1945 funciona simultaneamente como memória histórica, fundamento moral e legitimidade nacional. Vladimir Putin construiu boa parte de sua narrativa política sobre essa herança.
Por isso, o desfile militar na Praça Vermelha nunca foi apenas um desfile. Era uma declaração geopolítica. Tanques, mísseis balísticos, sistemas antiaéreos e colunas mecanizadas desfilavam diante do Kremlin para comunicar uma mensagem simples: a Rússia continua sendo uma potência militar capaz de impor sua vontade ao mundo.
Mas o desfile deste ano revelou algo profundamente diferente. Pela primeira vez em quase duas décadas, Moscou reduzirá drasticamente a exibição de equipamentos militares pesados. A justificativa oficial é operacional: os tanques estão sendo utilizados no front ucraniano e não podem ser deslocados para funções cerimoniais. Formalmente, a explicação faz sentido. Simbolicamente, porém, ela é devastadora.
Impérios confiantes exibem armas. Impérios pressionados as preservam. A ausência dos tanques na Praça Vermelha não comunica força. Comunica desgaste. Sobretudo porque ocorre no exato momento em que drones ucranianos alcançam cidades russas, atingem edifícios próximos ao Kremlin e forçam o governo a impor restrições digitais e medidas excepcionais de segurança. Moscou, o coração simbólico do poder russo, já não transmite plenamente a sensação de imunidade imperial que durante décadas cultivou.
O mais importante não é sequer a redução material do desfile, mas o que ela revela sobre a transformação psicológica da guerra. Em fevereiro de 2022, a invasão da Ucrânia foi apresentada como uma campanha rápida, decisiva e inevitável. O Kremlin esperava demonstrar superioridade esmagadora e reafirmar sua posição histórica sobre o espaço pós-soviético. Quatro anos depois, a guerra continua sem vitória conclusiva. E pior: começa a alterar o próprio comportamento simbólico do Estado russo.
Toda potência precisa preservar a aparência de controle. Quando isso começa a falhar, o ritual torna-se perigoso. Na Antiguidade, imperadores evitavam certas cerimônias públicas em momentos de crise porque compreendiam que símbolos podem se voltar contra o poder. Um triunfo reduzido corre o risco de produzir exatamente o efeito contrário ao desejado: em vez de força, revela limitação.
Existe ainda outro elemento importante. A guerra na Ucrânia está produzindo uma transformação militar comparável a outras grandes rupturas da história bélica. O tanque, símbolo absoluto do poder terrestre no século XX, tornou-se vulnerável a drones baratos, guerra eletrônica e vigilância permanente. Há algo quase histórico na ausência dessas máquinas da Praça Vermelha. Como a cavalaria aristocrática após o surgimento da pólvora, o tanque talvez esteja perdendo parte de seu valor simbólico como expressão máxima do domínio militar.
A Rússia continua sendo uma potência nuclear gigantesca. Continua avançando lentamente em algumas áreas da Ucrânia. Continua capaz de sustentar uma guerra longa. Mas já não consegue apresentar ao mundo a imagem de vitória inevitável que pretendia construir.
E isso importa. Guerras não são travadas apenas com artilharia, drones ou divisões mecanizadas. Elas também dependem de imaginação política. O poder imperial precisa convencer adversários, aliados e a própria população de que permanece sólido, disciplinado e destinado ao triunfo. Quando um Estado começa a adaptar seus grandes rituais públicos à lógica do medo, algo mudou profundamente.
O Kremlin ainda fala como potência triunfante. Mas começa, cada vez mais, a agir como potência sitiada.