“É melhor eles se mexerem rápido, ou não sobrará nada deles.” A frase pronunciada por Donald Trump a respeito do Irã poderia facilmente ser confundida com uma passagem da historiografia romana antiga. Há nela não apenas ameaça militar, mas algo mais profundo: uma encenação verbal do poder. Roma compreendia perfeitamente que impérios não governam apenas por meio da força material. Governam também pela construção simbólica do medo.
A retórica política de Trump frequentemente parece desconcertar analistas contemporâneos porque ela rompe com o vocabulário burocrático e diplomático típico das democracias liberais do pós-Guerra Fria. Sua linguagem é direta, hiperbólica, teatral, personalista e, acima de tudo, imperial. Não fala como um administrador tecnocrático. Fala como alguém investido de auctoritas.
Os romanos possuíam clara consciência da dimensão performática do poder. O comandante precisava parecer poderoso antes mesmo da batalha começar. Júlio César dominava isso magistralmente. Em seus comentários sobre a Guerra da Gália, o futuro ditador romano constrói continuamente a imagem de inevitabilidade da vitória romana. O objetivo não era apenas registrar acontecimentos militares. Era produzir intimidação psicológica. A guerra começava muito antes do choque das legiões.
Trump opera de maneira semelhante. Suas declarações não são simples opiniões improvisadas. Funcionam como instrumentos de dissuasão. Quando afirma que “o tempo está se esgotando” ou que “toda uma civilização pode morrer”, ele constrói uma dramaturgia de ultimato. O adversário deve sentir-se diante de uma potência capaz de destruir completamente sua existência histórica.
Roma utilizava amplamente esse mecanismo. A ameaça de destruição total não era exceção; era parte estrutural da política imperial. Cartago tornou-se o exemplo paradigmático. A famosa expressão atribuída a Catão - Carthago delenda est (“Cartago deve ser destruída”) - sintetizava uma mentalidade estratégica baseada não apenas na derrota do inimigo, mas na demonstração pública e exemplar da supremacia romana.
Naturalmente, os Estados Unidos não são Roma. Mas impérios frequentemente desenvolvem linguagens semelhantes. Toda ordem imperial necessita convencer aliados e inimigos de que sua capacidade de ação é ilimitada. O poder precisa parecer irresistível. Por isso a retórica imperial raramente é moderada. Ela tende ao absoluto.
Há ainda outro aspecto curioso. O vocabulário trumpista frequentemente emprega categorias morais e civilizacionais. Não se trata apenas de derrotar um adversário geopolítico específico. O conflito é apresentado como disputa existencial entre formas de civilização. Esse elemento também era profundamente romano. Os romanos não se viam apenas como uma potência militar entre outras. Consideravam-se portadores de uma missão ordenadora do mundo.
Talvez por isso Trump produza simultaneamente fascínio e repulsa. Ele reintroduz, no interior da política contemporânea, formas muito antigas de linguagem do poder. Em uma época dominada por relatórios técnicos, diplomacia protocolar e discursos cuidadosamente higienizados, sua retórica resgata algo que parecia enterrado sob décadas de racionalidade administrativa: a teatralidade imperial.
Isso não significa que Trump seja César. Muito menos que os Estados Unidos sejam simplesmente uma repetição de Roma. A história jamais se reproduz mecanicamente. Contudo, certas estruturas simbólicas reaparecem continuamente. Impérios mudam de idioma, bandeira e tecnologia. Mas conservam antigas liturgias do poder.
E talvez seja precisamente isso que hoje estamos ouvindo novamente: a voz ancestral do império falando através das linguagens da modernidade.
A recorrência da descida ao submundo, em diferentes tradições
culturais, revela não apenas uma estrutura narrativa, mas uma verdadeira
gramática do sentido. Descer é, em muitos sistemas simbólicos, regressar à
origem. No mundo mesoamericano, essa lógica atinge uma formulação
particularmente densa: o submundo não é o lugar da morte definitiva, mas a
matriz da vida.
Em sítios como Teotihuacan, a construção de túneis rituais
sob o Templo de Quetzalcoatl sugere a encenação arquitetônica de uma catábase
regenerativa. A descida, nesse contexto, não é punição, mas acesso ao princípio
gerador do cosmos. Do mesmo modo, na tradição maia, o Xibalba figura como um
espaço de provação e transformação, onde a morte é condição de renascimento.
Esse modelo contrasta fortemente com o mundo greco-romano. Na
Eneida, a catábase de Eneias, embora fundamental para a legitimação de sua
missão, não implica regeneração ontológica. Ao encontrar Anquises, o herói
recebe a visão do futuro de Roma, mas não renasce: ele retorna investido de
conhecimento, não de nova existência. Já no universo do Antigo Testamento, a
descida é praticamente interditada. O submundo não é fonte, mas sombra; não
gera, não transforma, não legitima. A vida vem do alto, e não do interior da
terra.
Tem-se, assim, quatro regimes distintos: o submundo como
matriz (Mesoamérica), como arquivo (Virgílio), como punição (tradição grega) e
como silêncio (tradição bíblica). Essa tipologia permite compreender a
especificidade de uma questão moderna: o que acontece quando essas estruturas
deixam de operar?
É nesse ponto que a obra de Juraci Dórea se torna
particularmente reveladora. Suas figuras, isoladas em paisagens rarefeitas, não
parecem habitar um mundo funcional. Suspensas, imóveis, privadas de narrativa, elas
encenam não a travessia, mas sua interrupção. Se, nas cosmologias antigas, a
descida implicava transformação, em Dórea ela parece congelada no instante em
que nada ainda, ou nada mais, pode emergir.
Essa suspensão ganha maior densidade quando situada no
contexto do sertão contemporâneo. Longe de desaparecer, o sertão sofre um
processo de reconfiguração: a modernização não o elimina, mas o transforma em
espaço funcional, integrado a fluxos técnicos e econômicos que esvaziam sua
autonomia simbólica. O vaqueiro que agora conduz rebanhos sobre uma motocicleta
não representa uma ruptura absoluta, mas uma dissonância estrutural: o gesto
permanece, mas o mundo que lhe conferia sentido se dissolve.
Nesse cenário, a leitura do sertão como um “útero cósmico
invertido” adquire força interpretativa. Se em Teotihuacan a descida conduz à
origem e à regeneração, em Dórea o espaço parece reter sem gerar. Trata-se de
uma cornucópia falida: não o vazio puro, mas um vazio carregado da memória de
sua antiga fertilidade. A imagem aproxima-se, nesse sentido, da paisagem
fragmentada de The Waste Land, de T.
S. Eliot, onde os mitos persistem apenas como ruínas incapazes de restaurar o
mundo.
A força da obra de Dórea reside precisamente aí: ela não
representa o sertão empírico, mas o estado ontológico de um mundo após a
falência de seus mecanismos de regeneração simbólica. Suas figuras não são
habitantes de um submundo ativo, como em Xibalba, nem iniciados em busca de
revelação, como Eneias. Elas são resíduos de uma travessia interrompida, formas
que permanecem quando o ciclo já não se cumpre.
Se, nas tradições antigas, descer era regressar à fonte, na
modernidade figurada por Dórea já não há fonte acessível. O submundo não
desapareceu: ele emergiu à superfície, esvaziado de sua potência. E é nesse
espaço, nem plenamente vivo, nem definitivamente morto, que suas figuras
persistem, como testemunhas silenciosas de um mundo que continua a existir
depois da perda de seu princípio gerador.
As guerras modernas raramente terminam quando cessam os tiros. O combate prossegue em silêncio, alojado na memória dos sobreviventes. Muitos veteranos regressam do campo de batalha trazendo consigo uma guerra interior permanente, uma guerra invisível, travada não contra um inimigo externo, mas contra imagens, lembranças e fantasmas que insistem em permanecer vivos. O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) talvez seja a expressão mais dramática dessa continuidade subterrânea da guerra.
A recente discussão em torno da ibogaína, substância psicodélica estudada experimentalmente para o tratamento de veteranos traumatizados, revela algo profundo sobre nossa época: não estamos apenas diante de uma crise médica, mas de uma crise civilizacional da memória da guerra.
Na tradição épica antiga, o retorno do guerreiro era um problema central. Os gregos chamavam esse tema de Nostoi, os “retornos”. Após a destruição de Troia, os heróis precisavam reaprender a habitar o mundo dos vivos. A própria Odisseia é, em larga medida, um poema sobre as dificuldades do retorno. Odisseu não volta apenas para Ítaca; ele tenta regressar à própria condição humana após anos de violência, morte e errância.
É significativo que a épica grega jamais trate a guerra como experiência psicologicamente simples. O guerreiro homérico carrega luto, culpa, fúria e sofrimento. A diferença fundamental é que o herói antigo ainda retornava para uma comunidade capaz de compreender sua experiência. Havia rituais, memória coletiva, poesia, sacrifícios e narrativas compartilhadas que reintegravam o combatente à sociedade. O sofrimento encontrava linguagem simbólica.
O mundo contemporâneo, porém, produz algo diferente: soldados altamente treinados que regressam de guerras tecnológicas para sociedades profundamente distantes da experiência do combate. O veterano moderno frequentemente encontra incompreensão, isolamento e silêncio. Sua memória torna-se privada, fragmentada e intransmissível.
Talvez esteja aí uma das grandes tragédias das guerras contemporâneas. O guerreiro antigo sofria porque enfrentava a morte; o moderno sofre também porque retorna sozinho.
A experiência relatada por muitos veteranos submetidos à ibogaína impressiona justamente porque parece funcionar como uma espécie de descida interior às regiões subterrâneas da memória. Muitos descrevem encontros com mortos, revisões intensas da própria vida e confrontações emocionais profundas. Em linguagem simbólica, isso se aproxima das antigas catábases da literatura épica, as descidas ao mundo inferior presentes em narrativas como a Eneida ou a própria Odisseia.
Existe algo profundamente revelador nisso: mesmo em plena era da neurociência, o trauma continua assumindo formas quase míticas. A guerra produz fantasmas. E talvez o sofrimento psíquico dos veteranos seja precisamente a prova de que o ser humano não foi feito para atravessar a violência extrema sem consequências espirituais.
O TEPT mostra que a guerra não termina no território conquistado ou perdido. Ela continua habitando o corpo, os sonhos e a memória daqueles que sobreviveram. No fundo, muitos veteranos modernos permanecem presos no mesmo problema de Homero: como voltar para casa depois de ter visto o inferno?
A visita de Donald Trump ao complexo de Zhongnanhai talvez tenha produzido uma das imagens politicamente mais reveladoras do nosso tempo. Mais do que uma reunião diplomática entre chefes de Estado, o encontro pareceu uma encenação cuidadosamente calculada de poder civilizacional. Enquanto caminhava pelos jardins reservados da liderança chinesa, admirando árvores centenárias e rosas escolhidas por Xi Jinping, Trump não estava apenas visitando um centro administrativo. Estava sendo conduzido ao coração simbólico de uma civilização milenar que aprendeu a transformar estética em instrumento de autoridade.
O Ocidente frequentemente interpreta a ascensão chinesa em termos puramente econômicos ou militares. Fala-se de semicondutores, tarifas, rotas marítimas, inteligência artificial e poder naval. Tudo isso é importante. Mas talvez a China contemporânea compreenda algo que as democracias ocidentais modernas esqueceram: o poder duradouro também depende de ritual, arquitetura, memória histórica e imaginação simbólica.
Zhongnanhai é a expressão perfeita dessa lógica. Embora hoje funcione como sede do Partido Comunista Chinês, sua origem remonta aos jardins imperiais ligados à Cidade Proibida. O local preserva lagos silenciosos, pavilhões clássicos, árvores antigas e uma atmosfera de serenidade cuidadosamente cultivada. Não é apenas um centro de governo: é uma paisagem política construída para transmitir continuidade histórica.
Existe uma ironia fascinante nisso. O Partido Comunista Chinês nasceu como movimento revolucionário voltado para destruir a velha ordem imperial. No entanto, décadas depois, acabou incorporando muitos dos elementos simbólicos da própria tradição que pretendia superar. A China contemporânea continua oficialmente marxista, mas seu imaginário político tornou-se profundamente imperial. Xi Jinping governa não apenas como líder partidário, mas como guardião de uma civilização.
A cena das árvores talvez tenha sido o momento mais revelador da visita. Quando Xi explicou que algumas delas tinham entre duzentos e quatrocentos anos, e mencionou outras árvores milenares espalhadas pela China, a conversa ultrapassou completamente o terreno botânico. Aquilo era geopolítica em linguagem civilizacional.
A China pensa em séculos. Enquanto as democracias ocidentais frequentemente operam sob o ritmo frenético das eleições, pesquisas de opinião e ciclos midiáticos, Pequim projeta a si mesma como continuidade histórica. As árvores antigas tornam-se símbolos silenciosos de permanência. Elas comunicam estabilidade, profundidade temporal e resistência histórica. Trump admirava os jardins; Xi apresentava uma concepção de tempo.
Nesse sentido, Pequim talvez esteja se tornando uma espécie de “Roma asiática” do século XXI. Não apenas uma capital política, mas o centro simbólico de uma ordem civilizacional que deseja irradiar influência cultural, econômica e estratégica para além de suas fronteiras. Assim como Roma antiga transformava arquitetura, cerimônia e monumentalidade em instrumentos de poder, a China contemporânea utiliza ritual diplomático, paisagem urbana e memória imperial como formas sutis de afirmação geopolítica.
Nada naquela visita pareceu improvisado. O silêncio dos jardins, a raridade do convite, a caminhada entre lagos e árvores, as referências históricas, tudo compunha uma encenação sofisticada destinada a comunicar uma mensagem precisa: a China não deseja ser vista apenas como mais uma potência nacional. Ela deseja ser percebida como civilização contínua.
Talvez seja exatamente isso que torne a ascensão chinesa tão desafiadora para o Ocidente. Os Estados Unidos nasceram como projeto político; a China se apresenta como herdeira de cinco mil anos de história. O confronto entre ambos não envolve apenas comércio ou tecnologia. Trata-se também de duas formas diferentes de imaginar o tempo, o poder e a legitimidade.
No fundo, os jardins de Zhongnanhai dizem algo que nenhum comunicado diplomático ousaria afirmar explicitamente: impérios sobrevivem não apenas pela força das armas, mas pela capacidade de convencer o mundo de que pertencem à longa duração da História.
Durante décadas, a Coreia do Norte foi tratada pelo Ocidente como um problema periférico: um regime isolado, economicamente frágil e militarmente imprevisível, mas limitado por suas próprias debilidades estruturais. A guerra na Ucrânia, porém, parece estar alterando profundamente essa percepção. A aproximação acelerada entre Moscou e Pyongyang sugere que o mundo talvez esteja assistindo ao nascimento de algo maior e mais perigoso: um eixo militar revisionista disposto a desafiar diretamente a ordem internacional construída após o fim da Guerra Fria.
O envio de tropas norte-coreanas para auxiliar o esforço militar russo na Ucrânia marcou uma ruptura histórica silenciosa. Pela primeira vez em décadas, um Estado altamente militarizado e dotado de armas nucleares passou a participar indiretamente de um grande conflito europeu ao lado de outra potência nuclear. O gesto ultrapassa o simples pragmatismo militar. Ele possui significado geopolítico profundo.
A Rússia necessita de munições, efetivos humanos e capacidade industrial. A Coreia do Norte precisa de tecnologia, energia, alimentos e reconhecimento estratégico. A convergência de interesses produziu uma relação que vai muito além da cooperação circunstancial. O que emerge é um sistema de trocas militares capaz de alterar equilíbrios regionais e ampliar a capacidade ofensiva de ambos os regimes.
Os relatos sobre possível transferência de tecnologia nuclear e naval entre Moscou e Pyongyang tornam essa aproximação ainda mais inquietante. Se a Rússia estiver efetivamente auxiliando o programa estratégico norte-coreano, seja por meio de tecnologia submarina, sistemas de propulsão, satélites ou componentes nucleares, o impacto poderá ser profundo não apenas para a Ásia, mas para toda a arquitetura global de segurança.
A história mostra que grandes transformações geopolíticas frequentemente começam em cooperações militares aparentemente limitadas. Durante a Guerra Fria, a circulação de tecnologia, armamentos e treinamento entre potências ideologicamente alinhadas permitiu a expansão de blocos militares rivais em escala planetária. Hoje, ainda que a lógica ideológica seja menos rígida do que no século XX, volta a surgir um campo internacional unido sobretudo pela oposição à hegemonia ocidental.
Esse novo revisionismo não pretende necessariamente destruir a ordem global existente. Seu objetivo imediato parece ser corroê-la gradualmente, enfraquecendo mecanismos de contenção construídos pelos Estados Unidos e seus aliados desde 1991. Rússia, Coreia do Norte, Irã e, em certa medida, China compartilham uma percepção semelhante: a de que o sistema internacional contemporâneo concentra poder excessivo no Ocidente e limita suas ambições estratégicas.
Nesse contexto, guerras regionais deixam de ser conflitos isolados e passam a integrar uma disputa sistêmica mais ampla. A Ucrânia converte-se em laboratório militar para alianças anti-hegemônicas emergentes. Drones iranianos, munições norte-coreanas, tecnologia russa e redes financeiras alternativas começam a formar uma infraestrutura paralela de poder.
O mais inquietante é que essa transformação ocorre num cenário internacional muito mais instável do que o da antiga Guerra Fria. Na segunda metade do século XX, apesar das tensões extremas, existiam mecanismos relativamente estáveis de dissuasão, canais diplomáticos permanentes e linhas claras de influência geopolítica. Hoje, o mundo parece caminhar em direção oposta: alianças fluidas, guerras híbridas, operações clandestinas e crescente fragmentação da autoridade internacional.
O possível episódio do cargueiro russo Ursa Major, supostamente envolvido em transferência tecnológica para Pyongyang, simboliza precisamente essa nova realidade. A proliferação nuclear já não depende apenas de programas nacionais isolados. Ela passa a operar através de redes transnacionais de cooperação estratégica entre Estados revisionistas.
Talvez estejamos testemunhando o surgimento de uma nova geometria do poder global. Não mais organizada em torno de dois blocos ideológicos rígidos, como no século XX, mas estruturada por coalizões flexíveis unidas pela recusa da ordem liberal internacional.
Se essa tendência se consolidar, o século XXI poderá ser marcado não pelo triunfo definitivo da globalização liberal imaginada após 1991, mas pelo retorno brutal da política de poder entre grandes Estados armados nuclearmente.