Durante muito tempo, a geografia foi uma forma de proteção. Montanhas, desertos, oceanos e vastidões territoriais funcionavam como escudos naturais. Havia uma distinção relativamente clara entre a frente de combate e a retaguarda. Os exércitos guerreavam em determinados espaços e as cidades distantes do conflito podiam continuar suas rotinas, ainda que sob a sombra da guerra. Essa separação nunca foi absoluta, mas era suficientemente concreta para moldar a estratégia militar e a própria experiência humana dos conflitos.
Hoje, essa distinção está desaparecendo. Na madrugada desta quarta-feira, drones ucranianos atingiram um terminal petrolífero em São Petersburgo, cidade natal de Vladimir Putin e palco de um dos principais fóruns econômicos da Rússia. Quase simultaneamente, no Golfo Pérsico, novos ataques envolvendo Estados Unidos e Irã ampliaram a sensação de que não existem mais espaços verdadeiramente seguros em tempos de guerra. Do Báltico ao Estreito de Ormuz, uma mesma realidade emerge: a erosão da retaguarda como conceito estratégico.
Os historiadores militares costumam recordar que a profundidade territorial foi um dos fatores decisivos para a sobrevivência da Rússia diante de Napoleão, em 1812, e de Hitler, em 1941. O espaço funcionava como arma. A distância desgastava invasores. Moscou podia cair sem que o Estado necessariamente colapsasse. O território oferecia tempo, e o tempo era uma forma de defesa.
Mas o século XXI está alterando essa equação. Um drone lançado a centenas ou milhares de quilômetros pode atingir refinarias, aeroportos, centros logísticos e instalações militares localizadas muito além da linha de frente. A antiga profundidade estratégica torna-se progressivamente menos relevante quando a tecnologia permite que o campo de batalha seja projetado para dentro do território nacional adversário.
O caso de São Petersburgo é emblemático. O objetivo do ataque não parece ter sido apenas material. O terminal de petróleo possui importância econômica, mas o alvo verdadeiro talvez tenha sido algo mais abstrato: a sensação de normalidade. A guerra contemporânea busca destruir não apenas infraestrutura, mas também percepções. Busca demonstrar vulnerabilidade. Busca comunicar.
Clausewitz definiu a guerra como um ato de força destinado a compelir o adversário à nossa vontade. No século XXI, essa compulsão não ocorre apenas pela destruição física. Ela ocorre pela produção deliberada de insegurança. O cidadão que observa fumaça erguer-se sobre uma cidade considerada distante do front recebe uma mensagem estratégica tão importante quanto aquela transmitida pela destruição de um depósito de combustível.
Há aqui uma transformação histórica comparável à introdução da pólvora, da ferrovia ou da aviação. Durante séculos, a retaguarda representou um espaço relativamente preservado do combate direto. Mesmo durante as guerras mundiais, quando os bombardeios estratégicos alcançaram cidades inteiras, existiam limitações tecnológicas que restringiam a frequência e a precisão dos ataques. Hoje, sistemas relativamente baratos podem ser produzidos em larga escala e empregados contra alvos localizados a enormes distâncias.
O resultado é o surgimento de uma geografia militar radicalmente nova. As fronteiras continuam existindo nos mapas, mas o campo de batalha já não respeita os limites tradicionais da distância. A guerra tornou-se difusa, permanente e ubíqua. Ela atravessa mares, contorna montanhas, ignora linhas defensivas e surge repentinamente sobre aeroportos, refinarias e centros urbanos.
Talvez estejamos assistindo ao fim de uma das mais antigas certezas da história militar: a crença de que existe um lugar atrás das linhas. São Petersburgo, assim como Kiev, Tel Aviv, Teerã ou qualquer outra grande cidade contemporânea, revela uma verdade inquietante sobre nosso tempo. A tecnologia não aboliu a geografia. Os estreitos marítimos, os portos e as rotas comerciais continuam decisivos. Mas ela aboliu algo igualmente importante: a segurança proporcionada pela distância. A guerra, que outrora avançava como uma maré visível através dos territórios, agora pode surgir instantaneamente sobre qualquer horizonte.
E quando isso acontece, a própria ideia de retaguarda transforma-se em memória histórica. Não existem mais refúgios garantidos. Não existem mais santuários geográficos. Há apenas diferentes graus de vulnerabilidade. E essa talvez seja uma das características mais perturbadoras da guerra no século XXI.
Há datas que pertencem não apenas aos calendários, mas à consciência das nações. Para a Rússia, 22 de junho é uma delas. Na madrugada daquele dia, em 1941, teve início a Operação Barbarossa, a maior invasão terrestre da história.
Três milhões de soldados alemães atravessaram as fronteiras
da União Soviética. Em poucas semanas, cidades caíram, exércitos foram cercados
e centenas de milhares de homens desapareceram nos vastos espaços do Leste
Europeu. Era o começo daquilo que os russos ainda chamam de Grande Guerra
Patriótica.
O trauma foi tão profundo que moldou a identidade nacional
russa durante gerações. A memória da invasão tornou-se um elemento fundador da
consciência coletiva do país. O invasor estrangeiro, o sacrifício heroico, a
defesa da pátria e a vitória final passaram a ocupar lugar central na narrativa
histórica construída por Moscou.
Mas a história possui um gosto particular pela ironia.
Oitenta e poucos anos depois, a Rússia se encontra do outro lado da fronteira.
Em 1941, as colunas blindadas alemãs avançavam sobre a Ucrânia. Em 2022,
colunas blindadas russas avançaram sobre a Ucrânia.
Em 1941, Kiev se preparava para resistir a um exército
invasor. Em 2022, Kiev voltou a se preparar para resistir a um exército
invasor. Em 1941, a população civil fugia dos bombardeios alemães. Hoje, foge
dos mísseis e drones russos. A
geografia permanece a mesma. Mudaram apenas os uniformes.
É precisamente aí que reside um dos grandes paradoxos do
nosso tempo. O Kremlin continua recorrendo à memória da Segunda Guerra Mundial
para justificar suas ações. O vocabulário da luta contra o fascismo, da defesa
histórica da pátria e da libertação dos povos ocupa posição central na retórica
oficial russa. A guerra atual é, frequentemente, apresentada como uma continuação
moral da luta travada contra Hitler.
Entretanto, existe uma diferença fundamental, que nenhum
discurso consegue apagar. Em 1941, a União Soviética lutava para sobreviver a
uma invasão estrangeira. Em 2022, foi a Federação Russa que atravessou uma fronteira
internacionalmente reconhecida. A memória da vítima e a realidade do agressor
passaram a coexistir dentro da mesma narrativa política.
Talvez, esse seja um fenômeno mais comum do que gostaríamos
de admitir. Povos costumam lembrar com extraordinária precisão as violências
que sofreram. Já as violências que praticam tendem a ser envolvidas por
justificativas, eufemismos e racionalizações.
A memória é seletiva. A história, nem sempre. Ao observar o
aniversário da Operação Barbarossa, não consigo evitar a sensação de que
estamos diante de uma das mais notáveis inversões históricas do último século.
O país que construiu parte de sua identidade nacional sobre a lembrança de uma
invasão devastadora tornou-se protagonista de uma guerra que muitos, fora de suas
fronteiras, enxergam precisamente como uma invasão.
Isso não diminui o sofrimento russo de 1941. Tampouco
relativiza o horror da agressão nazista. Pelo contrário. Apenas nos recorda que
a experiência de ter sido vítima não imuniza nenhuma sociedade contra a
tentação do poder.
A história militar está repleta desses espelhos
desconfortáveis. Impérios derrotados tornam-se conquistadores. Povos ocupados
transformam-se em ocupantes. Revolucionários convertem-se em burocratas.
Libertadores assumem o papel de dominadores.
Talvez, a maior lição de 22 de junho não esteja nos
movimentos das divisões blindadas ou nos mapas das campanhas militares. Talvez
ela resida numa verdade mais simples e mais amarga. A história não garante
virtude a ninguém. Ela apenas oferece, de tempos em tempos, a oportunidade de
escolher entre recordar uma tragédia ou repeti-la. E nem sempre as nações fazem
a escolha correta.
Quando pensamos na Guerra ao Terror, é comum que nossa memória evoque os atentados de 11 de setembro, a invasão do Afeganistão ou a queda de Bagdá em 2003. Entretanto, talvez o verdadeiro legado militar daquele período não esteja nos grandes acontecimentos políticos, mas em duas cidades iraquianas cujos nomes se tornaram sinônimos de devastação: Fallujah e Mossul.
Separadas por mais de uma década, ambas as batalhas parecem pertencer à mesma família histórica. E, vistas em retrospecto, revelam algo ainda mais importante: elas anteciparam muitas das características que definem os conflitos do século XXI.
Durante grande parte da história moderna, os estrategistas imaginaram a guerra como um confronto entre exércitos regulares disputando territórios em campos relativamente abertos. As guerras mundiais do século XX foram marcadas por frentes de batalha identificáveis, linhas defensivas e movimentos de grandes formações militares. Em Fallujah e Mossul, contudo, a geografia do combate mudou radicalmente.
A cidade transformou-se em campo de batalha. Ruas estreitas, edifícios residenciais, escolas, hospitais, mesquitas e mercados passaram a constituir o terreno operacional. Cada apartamento podia ocultar um franco-atirador. Cada esquina podia esconder uma emboscada. Cada túnel podia servir de rota para combatentes insurgentes.
Em Fallujah, em 2004, os fuzileiros navais americanos enfrentaram uma insurgência entrincheirada em uma das mais ferozes batalhas urbanas desde a Segunda Guerra Mundial. Em Mossul, entre 2016 e 2017, a coalizão liderada pelos Estados Unidos combateu o Estado Islâmico em uma campanha que se estendeu por meses e produziu níveis impressionantes de destruição.
Mas existe uma diferença fundamental entre as duas batalhas. Em Fallujah, o drone ainda era uma ferramenta periférica. Em Mossul, ele já começava a se tornar protagonista. Combatentes do Estado Islâmico passaram a empregar drones comerciais adaptados para lançar granadas e explosivos improvisados sobre tropas iraquianas. O valor militar dessas aeronaves era relativamente modesto quando comparado ao de sistemas militares sofisticados. Seu significado histórico, porém, era enorme. Pela primeira vez, uma organização insurgente utilizava drones em larga escala de maneira sistemática e criativa. Não era apenas uma questão tecnológica. Era uma mudança de paradigma. O monopólio estatal sobre a capacidade aérea começava a ruir.
Hoje, essa transformação é visível nos céus da Ucrânia, onde drones baratos destroem blindados que custam milhões de dólares. Mas suas raízes podem ser encontradas nos bairros devastados de Mossul. Outro aspecto que aproxima Fallujah e Mossul é a extrema assimetria do combate. De um lado estavam algumas das forças armadas mais poderosas do planeta. Do outro, organizações insurgentes sem aviação, sem marinha e frequentemente sem armamento pesado. Ainda assim, essas forças irregulares conseguiram impor custos elevados aos seus adversários.
A explicação não está apenas nas armas. Está na adaptação. Os insurgentes compreenderam que não precisavam derrotar militarmente seus inimigos. Bastava sobreviver, prolongar o conflito e explorar as vulnerabilidades psicológicas, políticas e midiáticas das democracias ocidentais. Essa lógica permanece viva. Muitos dos conflitos contemporâneos são travados não para conquistar capitais inimigas, mas para desgastar adversários mais fortes.
Talvez seja por isso que Fallujah e Mossul continuem tão relevantes. Elas não representam apenas capítulos da Guerra ao Terror. Funcionam como janelas para o presente. Nelas encontramos a urbanização da guerra, a proliferação de drones, a dissolução das fronteiras entre combatentes e civis, o uso intensivo da informação como arma e a persistência da assimetria como princípio estratégico. O século XXI ainda está escrevendo sua história militar. Mas há razões para acreditar que, quando os historiadores do futuro procurarem os primeiros sinais das guerras que hoje conhecemos, voltarão seus olhos para duas cidades iraquianas.
E descobrirão que muito do nosso presente já estava sendo anunciado entre as ruínas de Fallujah e Mossul.
Vivemos numa época curiosa. Nunca produzimos tantos registros
e, paradoxalmente, nunca esquecemos tão depressa. Fotografamos tudo, arquivamos
tudo, compartilhamos tudo. Ainda assim, algo essencial parece escapar. Como se
a abundância de imagens tivesse produzido uma nova forma de ausência. Nesse
contexto, a pintura de Nanja Brasileiro surge como um gesto de resistência. Não
contra a modernidade, mas contra o esquecimento.
Ao observar suas telas, tenho a impressão de estar diante de
objetos que guardam algo. Não apenas formas ou cores, mas vestígios. Memórias.
Presenças. As figuras que habitam sua obra parecem carregar uma biografia
silenciosa, uma história que não se deixa traduzir integralmente em palavras.
O símbolo que melhor sintetiza esse universo é o vaso. O vaso
aparece explicitamente em algumas obras; em outras, manifesta-se de maneira
indireta, sugerido por formas ovais, recipientes imaginários, estruturas de
acolhimento ou campos visuais que parecem destinados a conter algo precioso.
Trata-se de uma imagem antiga. Talvez uma das mais antigas da experiência
humana. Antes de ser objeto artístico, o vaso foi instrumento de sobrevivência.
Guardou água, sementes, alimentos, remédios, cinzas e relíquias. Guardou a
vida.
Não surpreende que tenha se tornado um poderoso símbolo
cultural. Em muitas tradições, o recipiente representa a memória coletiva. É o
lugar onde uma comunidade deposita aquilo que não deseja perder. Ao recuperar
essa imagem em sua pintura, Nanja Brasileiro parece formular uma pergunta
discretamente filosófica: o que ainda merece ser preservado?
Essa questão atravessa toda a sua produção. Os rostos que
surgem em suas telas não são retratos no sentido convencional. Não procuram
reproduzir uma fisionomia específica nem registrar uma identidade individual.
São rostos que lembram máscaras rituais, fragmentos de cerâmicas ancestrais ou
personagens emergidos de uma memória coletiva. Possuem algo de familiar e, ao
mesmo tempo, de enigmático.
Talvez porque pertençam menos ao domínio da representação e
mais ao da evocação. Ao contemplá-los, recordo uma observação de Paul Ricoeur:
a memória nunca é uma reprodução fiel do passado; é sempre uma reconstrução. Os
rostos de Nanja parecem nascer exatamente nesse espaço intermediário onde
lembrança e imaginação se encontram. Eles não mostram quem fomos. Mostram
aquilo que permanece de nós depois que o tempo fez seu trabalho de erosão.
Há também uma presença constante do feminino. Mas seria um equívoco
reduzir essa presença a uma temática de gênero. O feminino, em sua obra,
aparece sobretudo como princípio criador. Está nas flores que brotam, nos
recipientes que acolhem, nas formas curvas que organizam a composição. Está na
lógica da fecundidade que atravessa as telas.
As flores merecem atenção especial. Não são elementos
decorativos. Funcionam como sinais de continuidade. Enquanto os rostos evocam a
memória, as flores sugerem renovação. Elas estabelecem uma ponte entre aquilo
que foi preservado e aquilo que ainda está por nascer.
Memória e futuro. Raiz e florescimento. Talvez seja por isso
que suas composições transmitam uma sensação tão peculiar de serenidade. Não há
nelas a angústia característica de grande parte da arte contemporânea,
frequentemente marcada pela fragmentação, pela ruptura e pelo colapso dos
sentidos. Isso não significa ingenuidade estética. Significa outra escolha.
Nanja Brasileiro parece interessar-se menos pela destruição
das formas do que pela investigação dos vínculos que ainda nos sustentam.Seu
trabalho não ignora a fragmentação do mundo moderno; apenas se recusa a
transformá-la em destino. Essa postura torna-se ainda mais evidente na
utilização da cor. Azuis profundos, vermelhos intensos, amarelos luminosos e
verdes delicados não obedecem a critérios naturalistas. As cores não descrevem
o mundo. Criam atmosferas emocionais. São estados de espírito convertidos em
matéria visual.
Existe algo de musical em suas telas. Como acontece na
música, a compreensão não depende exclusivamente do significado racional. Antes
de entender, sentimos. Antes de interpretar, somos afetados. É nesse ponto que
a pintura de Nanja Brasileiro alcança sua dimensão mais interessante. Ela nos
recorda que a arte não existe apenas para representar a realidade. Existe
também para conservar aquilo que a realidade ameaça apagar.
Seus vasos guardam mais do que flores. Guardam memórias e
Guardam ancestralidades. Guardam afetos. Guardam identidades em permanente
transformação. Num tempo em que tudo parece destinado à velocidade do consumo e
ao desaparecimento imediato, sua pintura realiza um gesto raro: cria lugares de
permanência. Talvez seja essa a sensação que acompanha o observador ao final de
cada tela. A impressão de ter encontrado um pequeno abrigo contra o
esquecimento.
E, em tempos como os nossos, não há gesto artístico mais necessário.
Durante muito tempo, acreditei que a guerra da Ucrânia havia
inaugurado uma nova era militar. Como milhões de pessoas ao redor do mundo,
acostumei-me às imagens quase surreais de pequenos drones sobrevoando trincheiras, perseguindo blindados russos,
lançando granadas sobre soldados escondidos em crateras enlameadas. Parecia
algo inteiramente novo. Uma revolução nascida em 2022.
Mas então voltei a estudar a Batalha de Mossul, aquela
batalha travada na segunda maior cidade do Iraque, em 2016. E foi então que
percebi que a história começara antes. Muito antes. Para mim foi uma descoberta
perturbadora. Em meio às ruínas da guerra contra o Estado Islâmico, havia algo
que eu não enxergara devidamente, na época: os insurgentes já utilizavam drones adaptados para bombardear tropas
americanas e iraquianas. Não se tratava de protótipos sofisticados
produzidos por grandes potências. Eram drones
civis, baratos, improvisados, muitas vezes adquiridos comercialmente e
convertidos, artesanalmente, em instrumentos de ataque.
Pequenos objetos voadores carregando granadas. Hoje isso
parece banal. Em 2016, era quase ficção científica. Talvez o maior erro do
Ocidente tenha sido interpretar aquilo como mera gambiarra terrorista. Como uma
excentricidade tecnológica produzida pelo caos do Oriente Médio. Mas Mossul
continha, silenciosamente, o esboço da guerra do futuro. Os jihadistas
compreendiam algo que muitos estrategistas ainda não haviam percebido: a
aviação havia sido miniaturizada.
Durante mais de um século, o domínio aéreo pertenceu aos
Estados. Era
necessário possuir pistas, hangares, pilotos, combustível, indústria pesada,
cadeias logísticas complexas e orçamentos bilionários. O poder aéreo era uma
prerrogativa das grandes potências.
Então surgiram drones
comerciais vendidos em lojas comuns. E, de repente, grupos insurgentes passaram
a possuir algo que antes era monopólio estatal: capacidade aérea ofensiva. Esse
talvez tenha sido o verdadeiro nascimento da era dos drones modernos.
Não porque o ISIS tenha criado a tecnologia. Evidentemente
não criou. Os drones militares já
existiam há décadas. Os próprios Estados Unidos haviam utilizado UAVs
extensivamente no Afeganistão e no Iraque. MQ-1 Predator e MQ-9 Reaper já
realizavam assassinatos seletivos muito antes de Mossul.
Mas havia uma diferença crucial. Os drones americanos eram expressão do monopólio tecnológico imperial.
Os drones do ISIS representavam a
democratização da guerra aérea. Foi isso que mudou tudo. A partir daquele
momento, qualquer grupo relativamente organizado poderia adquirir “força aérea”
por algumas centenas de dólares.
A guerra da Ucrânia apenas radicalizou essa transformação. O que vemos, hoje, entre russos e
ucranianos é a industrialização daquilo que apareceu de forma embrionária em
Mossul. Drones FPV baratos destruindo
tanques multimilionários. Pequenos aparelhos guiando artilharia com precisão
quase instantânea. Infantaria permanentemente observada do céu. Linhas
defensivas transparentes. O campo de batalha transformado numa paisagem sem
esconderijos.
O drone alterou a
própria experiência psicológica da guerra. Durante séculos, soldados podiam, ao
menos, acreditar na possibilidade do ocultamento. Florestas, colinas, fumaça ou
trincheiras ofereciam alguma sensação de proteção. Agora, existe uma vigilância
aérea quase contínua. O céu tornou-se habitado por olhos mecânicos baratos e
descartáveis.
A consequência estratégica disso talvez ainda não tenha sido
totalmente compreendida. O drone está
fazendo com a guerra algo semelhante ao que o AK-47 fez no século XX: reduzindo
drasticamente o custo do poder letal. O Kalashnikov democratizou a violência
terrestre. O drone democratizou a
violência aérea.
E isso muda não apenas guerras entre Estados, mas todo o
conceito de insurgência. Talvez seja justamente por isso que Mossul mereça ser
revisitada hoje. Não apenas como capítulo da Guerra ao Terror, mas como
laboratório involuntário do século XXI militar.
Enquanto o mundo observava as bandeiras negras do califado e
os combates urbanos, algo mais profundo estava acontecendo silenciosamente
sobre os céus da cidade: a transformação da aviação numa tecnologia
acessível às massas armadas. A Ucrânia tornou isso visível ao planeta. Mas
as sombras dessa nova era já pairavam sobre Mossul há quase uma década.