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Wellington Freire

Donald Trump fala como um cônsul romano?

Wellington Freire - 18 de Maio de 2026 | 07h 12
Donald Trump fala como um cônsul romano?
Foto: Reprodução/whitehouse.gov

“É melhor eles se mexerem rápido, ou não sobrará nada deles.” A frase pronunciada por Donald Trump a respeito do Irã poderia facilmente ser confundida com uma passagem da historiografia romana antiga. Há nela não apenas ameaça militar, mas algo mais profundo: uma encenação verbal do poder. Roma compreendia perfeitamente que impérios não governam apenas por meio da força material. Governam também pela construção simbólica do medo.

A retórica política de Trump frequentemente parece desconcertar analistas contemporâneos porque ela rompe com o vocabulário burocrático e diplomático típico das democracias liberais do pós-Guerra Fria. Sua linguagem é direta, hiperbólica, teatral, personalista e, acima de tudo, imperial. Não fala como um administrador tecnocrático. Fala como alguém investido de auctoritas.

Os romanos possuíam clara consciência da dimensão performática do poder. O comandante precisava parecer poderoso antes mesmo da batalha começar. Júlio César dominava isso magistralmente. Em seus comentários sobre a Guerra da Gália, o futuro ditador romano constrói continuamente a imagem de inevitabilidade da vitória romana. O objetivo não era apenas registrar acontecimentos militares. Era produzir intimidação psicológica. A guerra começava muito antes do choque das legiões.

Trump opera de maneira semelhante. Suas declarações não são simples opiniões improvisadas. Funcionam como instrumentos de dissuasão. Quando afirma que “o tempo está se esgotando” ou que “toda uma civilização pode morrer”, ele constrói uma dramaturgia de ultimato. O adversário deve sentir-se diante de uma potência capaz de destruir completamente sua existência histórica.

Roma utilizava amplamente esse mecanismo. A ameaça de destruição total não era exceção; era parte estrutural da política imperial. Cartago tornou-se o exemplo paradigmático. A famosa expressão atribuída a Catão - Carthago delenda est (“Cartago deve ser destruída”) - sintetizava uma mentalidade estratégica baseada não apenas na derrota do inimigo, mas na demonstração pública e exemplar da supremacia romana.

Naturalmente, os Estados Unidos não são Roma. Mas impérios frequentemente desenvolvem linguagens semelhantes. Toda ordem imperial necessita convencer aliados e inimigos de que sua capacidade de ação é ilimitada. O poder precisa parecer irresistível. Por isso a retórica imperial raramente é moderada. Ela tende ao absoluto.

Há ainda outro aspecto curioso. O vocabulário trumpista frequentemente emprega categorias morais e civilizacionais. Não se trata apenas de derrotar um adversário geopolítico específico. O conflito é apresentado como disputa existencial entre formas de civilização. Esse elemento também era profundamente romano. Os romanos não se viam apenas como uma potência militar entre outras. Consideravam-se portadores de uma missão ordenadora do mundo.

Talvez por isso Trump produza simultaneamente fascínio e repulsa. Ele reintroduz, no interior da política contemporânea, formas muito antigas de linguagem do poder. Em uma época dominada por relatórios técnicos, diplomacia protocolar e discursos cuidadosamente higienizados, sua retórica resgata algo que parecia enterrado sob décadas de racionalidade administrativa: a teatralidade imperial.

Isso não significa que Trump seja César. Muito menos que os Estados Unidos sejam simplesmente uma repetição de Roma. A história jamais se reproduz mecanicamente. Contudo, certas estruturas simbólicas reaparecem continuamente. Impérios mudam de idioma, bandeira e tecnologia. Mas conservam antigas liturgias do poder.

E talvez seja precisamente isso que hoje estamos ouvindo novamente: a voz ancestral do império falando através das linguagens da modernidade.



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