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Wellington Freire

O Império e o Jardim: a estética do poder chinês

15 de Maio de 2026 | 08h 33
O Império e o Jardim: a estética do poder chinês

A visita de Donald Trump ao complexo de Zhongnanhai talvez tenha produzido uma das imagens politicamente mais reveladoras do nosso tempo. Mais do que uma reunião diplomática entre chefes de Estado, o encontro pareceu uma encenação cuidadosamente calculada de poder civilizacional. Enquanto caminhava pelos jardins reservados da liderança chinesa, admirando árvores centenárias e rosas escolhidas por Xi Jinping, Trump não estava apenas visitando um centro administrativo. Estava sendo conduzido ao coração simbólico de uma civilização milenar que aprendeu a transformar estética em instrumento de autoridade.

O Ocidente frequentemente interpreta a ascensão chinesa em termos puramente econômicos ou militares. Fala-se de semicondutores, tarifas, rotas marítimas, inteligência artificial e poder naval. Tudo isso é importante. Mas talvez a China contemporânea compreenda algo que as democracias ocidentais modernas esqueceram: o poder duradouro também depende de ritual, arquitetura, memória histórica e imaginação simbólica.

Zhongnanhai é a expressão perfeita dessa lógica. Embora hoje funcione como sede do Partido Comunista Chinês, sua origem remonta aos jardins imperiais ligados à Cidade Proibida. O local preserva lagos silenciosos, pavilhões clássicos, árvores antigas e uma atmosfera de serenidade cuidadosamente cultivada. Não é apenas um centro de governo: é uma paisagem política construída para transmitir continuidade histórica.

Existe uma ironia fascinante nisso. O Partido Comunista Chinês nasceu como movimento revolucionário voltado para destruir a velha ordem imperial. No entanto, décadas depois, acabou incorporando muitos dos elementos simbólicos da própria tradição que pretendia superar. A China contemporânea continua oficialmente marxista, mas seu imaginário político tornou-se profundamente imperial. Xi Jinping governa não apenas como líder partidário, mas como guardião de uma civilização.

A cena das árvores talvez tenha sido o momento mais revelador da visita. Quando Xi explicou que algumas delas tinham entre duzentos e quatrocentos anos, e mencionou outras árvores milenares espalhadas pela China, a conversa ultrapassou completamente o terreno botânico. Aquilo era geopolítica em linguagem civilizacional.

A China pensa em séculos. Enquanto as democracias ocidentais frequentemente operam sob o ritmo frenético das eleições, pesquisas de opinião e ciclos midiáticos, Pequim projeta a si mesma como continuidade histórica. As árvores antigas tornam-se símbolos silenciosos de permanência. Elas comunicam estabilidade, profundidade temporal e resistência histórica. Trump admirava os jardins; Xi apresentava uma concepção de tempo.

Nesse sentido, Pequim talvez esteja se tornando uma espécie de “Roma asiática” do século XXI. Não apenas uma capital política, mas o centro simbólico de uma ordem civilizacional que deseja irradiar influência cultural, econômica e estratégica para além de suas fronteiras. Assim como Roma antiga transformava arquitetura, cerimônia e monumentalidade em instrumentos de poder, a China contemporânea utiliza ritual diplomático, paisagem urbana e memória imperial como formas sutis de afirmação geopolítica.

Nada naquela visita pareceu improvisado. O silêncio dos jardins, a raridade do convite, a caminhada entre lagos e árvores, as referências históricas, tudo compunha uma encenação sofisticada destinada a comunicar uma mensagem precisa: a China não deseja ser vista apenas como mais uma potência nacional. Ela deseja ser percebida como civilização contínua.

Talvez seja exatamente isso que torne a ascensão chinesa tão desafiadora para o Ocidente. Os Estados Unidos nasceram como projeto político; a China se apresenta como herdeira de cinco mil anos de história. O confronto entre ambos não envolve apenas comércio ou tecnologia. Trata-se também de duas formas diferentes de imaginar o tempo, o poder e a legitimidade.

No fundo, os jardins de Zhongnanhai dizem algo que nenhum comunicado diplomático ousaria afirmar explicitamente: impérios sobrevivem não apenas pela força das armas, mas pela capacidade de convencer o mundo de que pertencem à longa duração da História.




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