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Wellington Freire

Coreia do Norte e Rússia: a formação de um eixo nuclear revisionista

14 de Maio de 2026 | 07h 08
Coreia do Norte e Rússia: a formação de um eixo nuclear revisionista

Durante décadas, a Coreia do Norte foi tratada pelo Ocidente como um problema periférico: um regime isolado, economicamente frágil e militarmente imprevisível, mas limitado por suas próprias debilidades estruturais. A guerra na Ucrânia, porém, parece estar alterando profundamente essa percepção. A aproximação acelerada entre Moscou e Pyongyang sugere que o mundo talvez esteja assistindo ao nascimento de algo maior e mais perigoso: um eixo militar revisionista disposto a desafiar diretamente a ordem internacional construída após o fim da Guerra Fria.

O envio de tropas norte-coreanas para auxiliar o esforço militar russo na Ucrânia marcou uma ruptura histórica silenciosa. Pela primeira vez em décadas, um Estado altamente militarizado e dotado de armas nucleares passou a participar indiretamente de um grande conflito europeu ao lado de outra potência nuclear. O gesto ultrapassa o simples pragmatismo militar. Ele possui significado geopolítico profundo.

A Rússia necessita de munições, efetivos humanos e capacidade industrial. A Coreia do Norte precisa de tecnologia, energia, alimentos e reconhecimento estratégico. A convergência de interesses produziu uma relação que vai muito além da cooperação circunstancial. O que emerge é um sistema de trocas militares capaz de alterar equilíbrios regionais e ampliar a capacidade ofensiva de ambos os regimes.

Os relatos sobre possível transferência de tecnologia nuclear e naval entre Moscou e Pyongyang tornam essa aproximação ainda mais inquietante. Se a Rússia estiver efetivamente auxiliando o programa estratégico norte-coreano, seja por meio de tecnologia submarina, sistemas de propulsão, satélites ou componentes nucleares, o impacto poderá ser profundo não apenas para a Ásia, mas para toda a arquitetura global de segurança.

A história mostra que grandes transformações geopolíticas frequentemente começam em cooperações militares aparentemente limitadas. Durante a Guerra Fria, a circulação de tecnologia, armamentos e treinamento entre potências ideologicamente alinhadas permitiu a expansão de blocos militares rivais em escala planetária. Hoje, ainda que a lógica ideológica seja menos rígida do que no século XX, volta a surgir um campo internacional unido sobretudo pela oposição à hegemonia ocidental.

Esse novo revisionismo não pretende necessariamente destruir a ordem global existente. Seu objetivo imediato parece ser corroê-la gradualmente, enfraquecendo mecanismos de contenção construídos pelos Estados Unidos e seus aliados desde 1991. Rússia, Coreia do Norte, Irã e, em certa medida, China compartilham uma percepção semelhante: a de que o sistema internacional contemporâneo concentra poder excessivo no Ocidente e limita suas ambições estratégicas.

Nesse contexto, guerras regionais deixam de ser conflitos isolados e passam a integrar uma disputa sistêmica mais ampla. A Ucrânia converte-se em laboratório militar para alianças anti-hegemônicas emergentes. Drones iranianos, munições norte-coreanas, tecnologia russa e redes financeiras alternativas começam a formar uma infraestrutura paralela de poder.

O mais inquietante é que essa transformação ocorre num cenário internacional muito mais instável do que o da antiga Guerra Fria. Na segunda metade do século XX, apesar das tensões extremas, existiam mecanismos relativamente estáveis de dissuasão, canais diplomáticos permanentes e linhas claras de influência geopolítica. Hoje, o mundo parece caminhar em direção oposta: alianças fluidas, guerras híbridas, operações clandestinas e crescente fragmentação da autoridade internacional.

O possível episódio do cargueiro russo Ursa Major, supostamente envolvido em transferência tecnológica para Pyongyang, simboliza precisamente essa nova realidade. A proliferação nuclear já não depende apenas de programas nacionais isolados. Ela passa a operar através de redes transnacionais de cooperação estratégica entre Estados revisionistas.

Talvez estejamos testemunhando o surgimento de uma nova geometria do poder global. Não mais organizada em torno de dois blocos ideológicos rígidos, como no século XX, mas estruturada por coalizões flexíveis unidas pela recusa da ordem liberal internacional.

Se essa tendência se consolidar, o século XXI poderá ser marcado não pelo triunfo definitivo da globalização liberal imaginada após 1991, mas pelo retorno brutal da política de poder entre grandes Estados armados nuclearmente.




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