Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, s�bado, 13 de junho de 2026

Wellington Freire

A guerra que continua dentro do soldado

16 de Maio de 2026 | 08h 15
A guerra que continua dentro do soldado

As guerras modernas raramente terminam quando cessam os tiros. O combate prossegue em silêncio, alojado na memória dos sobreviventes. Muitos veteranos regressam do campo de batalha trazendo consigo uma guerra interior permanente, uma guerra invisível, travada não contra um inimigo externo, mas contra imagens, lembranças e fantasmas que insistem em permanecer vivos. O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) talvez seja a expressão mais dramática dessa continuidade subterrânea da guerra.

A recente discussão em torno da ibogaína, substância psicodélica estudada experimentalmente para o tratamento de veteranos traumatizados, revela algo profundo sobre nossa época: não estamos apenas diante de uma crise médica, mas de uma crise civilizacional da memória da guerra.

Na tradição épica antiga, o retorno do guerreiro era um problema central. Os gregos chamavam esse tema de Nostoi, os “retornos”. Após a destruição de Troia, os heróis precisavam reaprender a habitar o mundo dos vivos. A própria Odisseia é, em larga medida, um poema sobre as dificuldades do retorno. Odisseu não volta apenas para Ítaca; ele tenta regressar à própria condição humana após anos de violência, morte e errância.

É significativo que a épica grega jamais trate a guerra como experiência psicologicamente simples. O guerreiro homérico carrega luto, culpa, fúria e sofrimento. A diferença fundamental é que o herói antigo ainda retornava para uma comunidade capaz de compreender sua experiência. Havia rituais, memória coletiva, poesia, sacrifícios e narrativas compartilhadas que reintegravam o combatente à sociedade. O sofrimento encontrava linguagem simbólica.

O mundo contemporâneo, porém, produz algo diferente: soldados altamente treinados que regressam de guerras tecnológicas para sociedades profundamente distantes da experiência do combate. O veterano moderno frequentemente encontra incompreensão, isolamento e silêncio. Sua memória torna-se privada, fragmentada e intransmissível.

Talvez esteja aí uma das grandes tragédias das guerras contemporâneas. O guerreiro antigo sofria porque enfrentava a morte; o moderno sofre também porque retorna sozinho.

A experiência relatada por muitos veteranos submetidos à ibogaína impressiona justamente porque parece funcionar como uma espécie de descida interior às regiões subterrâneas da memória. Muitos descrevem encontros com mortos, revisões intensas da própria vida e confrontações emocionais profundas. Em linguagem simbólica, isso se aproxima das antigas catábases da literatura épica, as descidas ao mundo inferior presentes em narrativas como a Eneida ou a própria Odisseia.

Existe algo profundamente revelador nisso: mesmo em plena era da neurociência, o trauma continua assumindo formas quase míticas. A guerra produz fantasmas. E talvez o sofrimento psíquico dos veteranos seja precisamente a prova de que o ser humano não foi feito para atravessar a violência extrema sem consequências espirituais.

O TEPT mostra que a guerra não termina no território conquistado ou perdido. Ela continua habitando o corpo, os sonhos e a memória daqueles que sobreviveram. No fundo, muitos veteranos modernos permanecem presos no mesmo problema de Homero: como voltar para casa depois de ter visto o inferno?





Wellington Freire LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

charge

As mais lidas hoje