Algumas datas possuem a estranha capacidade de convocar fantasmas. O 6 de junho é uma delas. Todos os anos, quando o calendário alcança esse dia, minha memória não retorna primeiro às praias da Normandia, aos paraquedistas dispersos sobre os campos franceses ou às embarcações que avançavam sob fogo inimigo. Ela retorna aos livros. Aos velhos livros que, ainda na adolescência, me apresentaram aquele acontecimento que mudaria o curso da Segunda Guerra Mundial.
Antes dos arquivos, das monografias acadêmicas e dos debates historiográficos, conheci o Dia D através de duas obras que ocuparam durante décadas um lugar quase obrigatório na biblioteca dos apaixonados por História Militar: O Mais Longo dos Dias, de Cornelius Ryan, e Invasão 44, de Paul Carell. Hoje percebo que aqueles livros eram mais do que simples narrativas de uma batalha. Eram duas portas distintas para o mesmo acontecimento. Duas formas de olhar a mesma praia.
Cornelius Ryan escrevia a partir do lado dos vencedores. Seu livro possui o ritmo de uma epopeia moderna. A narrativa avança por dezenas de personagens, alternando perspectivas, acompanhando generais, marinheiros, pilotos, paraquedistas e soldados comuns. A operação Overlord surge como um gigantesco drama coletivo, uma das grandes empresas militares da história humana.
Ao jovem leitor que eu era, aquelas páginas transmitiam a sensação de estar diante de um momento decisivo da civilização ocidental. O desembarque aparecia como o instante em que a maré da guerra finalmente começava a empurrar o Terceiro Reich em direção ao colapso.
Mas havia o outro livro. Invasão 44, de Paul Carell, contava uma história diferente. Não porque os fatos fossem outros. As praias eram as mesmas. Os tiros eram os mesmos. Os mortos eram os mesmos. O que mudava era o lugar de observação. Ryan observava a Normandia a partir das embarcações que chegavam. Carell observava a mesma Normandia a partir dos bunkers que tentavam resistir.
Nas páginas de Carell surgiam a confusão dos estados-maiores alemães, as hesitações do alto comando, as dificuldades de comunicação, as decisões tomadas tarde demais. O leitor era levado para dentro da máquina militar que tentava impedir a invasão e que, aos poucos, descobria estar diante de uma força impossível de deter.
Hoje sabemos que o livro deve ser lido com cautela. A historiografia posterior revelou limitações importantes em sua interpretação e mostrou como parte da literatura militar alemã do pós-guerra procurou preservar a imagem de eficiência profissional da Wehrmacht. Ainda assim, a obra conserva valor. Ela permite compreender como aquela batalha era percebida pelos homens que ocupavam o lado oposto da linha de fogo.
Talvez sem perceber, aqueles dois livros ensinaram ao adolescente que eu era uma das lições mais importantes da História Militar. Nenhuma batalha possui uma única narrativa. Os acontecimentos são os mesmos. As experiências não.
O soldado que desembarca sob o fogo das metralhadoras está vivendo uma história. O defensor que observa a aproximação das embarcações está vivendo outra. O general que acompanha os relatórios em um quartel distante vive uma terceira. Décadas depois, o historiador tentará reunir esses fragmentos dispersos, como quem recolhe pedaços de um vaso antigo, sabendo que jamais conseguirá reconstruí-lo integralmente.
Talvez seja por isso que a guerra exerce fascínio tão duradouro sobre a memória humana. Ela produz não apenas eventos, mas também narrativas concorrentes. Cada exército constrói suas lembranças. Cada geração reorganiza seus significados. Cada livro acrescenta uma nova camada de interpretação sobre os mesmos acontecimentos.
Passaram-se mais de oitenta anos desde aquele amanhecer de 1944.Muitos dos homens que lutaram na Normandia já desapareceram. Os veteranos transformaram-se em fotografias amareladas. As praias permanecem. Os bunkers permanecem. Os cemitérios permanecem. E permanecem também alguns livros. Ao recordar o 6 de junho, descubro que não me lembro apenas de uma batalha. Lembro-me igualmente do jovem leitor que atravessava aquelas páginas tentando compreender os mecanismos da guerra e da história. De certo modo, ele também pertence agora ao passado.
Os anos passam. Os homens passam. Os exércitos passam. Mas alguns livros continuam de guarda sobre a memória dos mortos. Talvez seja essa a sua mais nobre missão. Não apenas explicar o que aconteceu, mas impedir que o silêncio conquiste definitivamente o terreno onde um dia marcharam os vivos.
Há alguns dias, relendo Dom Quixote, detive-me numa passagem aparentemente simples. Depois de ser espancado em uma de suas primeiras aventuras, o cavaleiro da Mancha é encontrado por um lavrador vizinho. O homem tenta ajudá-lo, mas Dom Quixote já não fala como Alonso Quijano. Sua fala é composta por fragmentos de romances de cavalaria. Ele responde ao camponês utilizando as mesmas palavras de personagens que conhecera nos livros.
O vizinho tenta trazê-lo de volta à realidade:
– Eu sou Pedro Alonso, seu vizinho. E Vossa Mercê não é
Rodrigo de Narváez nem Valdovinos. É o senhor Quijana.
A resposta de Dom Quixote é uma das mais extraordinárias de
toda a literatura:
— Quem eu sou, sei eu. E sei que posso ser não só os que já
disse, senão todos os doze pares de França e até todos os nove da fama.
A frase parece loucura. Mas talvez contenha algo mais.
Ao lê-la, ocorreu-me uma pergunta incômoda: e se Dom Quixote
estivesse realizando, de forma desastrosa, a mesma operação mental que
caracteriza o escritor?
Afinal, o que faz um romancista? Ele lê histórias, absorve
personagens, incorpora vozes alheias e, depois, transforma tudo isso em
narrativa. Nenhum escritor cria do nada. Toda literatura nasce de outras
literaturas. Todo autor é, em alguma medida, um herdeiro e um reorganizador de
vozes. Dom Quixote faz exatamente isso.
Ele absorveu tantos romances de cavalaria que passou a
enxergar o mundo através deles. Sua linguagem tornou-se uma colagem de
discursos herdados.
Sua identidade passou a ser composta por personagens literários. Ele já não
fala apenas sobre cavaleiros; fala como eles.
O problema é que existe uma diferença fundamental entre o
escritor e o cavaleiro da Mancha. O escritor transforma imaginação em texto.
Dom Quixote transforma imaginação em realidade. O romancista cria gigantes no
papel. Dom Quixote pega moinhos de vento e os converte em gigantes reais. O
poeta sabe que está operando no campo do símbolo. O cavaleiro manchego tenta
transportar o símbolo para o mundo concreto.
Talvez seja por isso que a fronteira entre genialidade
criativa e delírio sempre tenha sido tão fascinante. Ambas as experiências
partem da mesma faculdade humana: a imaginação. O que muda é a existência,
ou ausência, de uma mediação estética.
Fernando Pessoa multiplicou-se em heterônimos. Criou
personalidades inteiras, com biografias, estilos e visões de mundo próprias.
Ninguém o chamou de louco por isso. Arthur Rimbaud escreveu que “eu é um
outro”. Também não foi internado por tal afirmação. Ambos converteram a
fragmentação do eu em literatura.
Dom Quixote faz o movimento contrário. Em vez de escrever a
ficção, decide habitá-la. É por isso que a sua famosa loucura parece, em certos
momentos, tão próxima da criação artística. Quando ele afirma “posso ser todos
eles”, está reivindicando algo que pertence ao território da arte: a capacidade
de assumir múltiplas identidades. O escritor pode ser simultaneamente rei e
mendigo, herói e traidor, criança e ancião. Sua consciência torna-se uma morada
para muitas vidas. Dom Quixote deseja exatamente isso. Mas não dentro de um
livro, dentro do mundo.
Talvez Cervantes tenha percebido algo que continua atual
quatro séculos depois. Nossa identidade não é uma estrutura rígida. Somos
feitos de narrativas, memórias, leituras, exemplos e vozes que acumulamos ao
longo da existência. Em alguma medida, todos carregamos personagens dentro de
nós.
A diferença é que a maioria sabe que eles são personagens.
Dom Quixote esquece essa distinção. Por isso sua figura continua tão poderosa.
Ele não é apenas um louco ridicularizado por Cervantes. É também uma reflexão
profunda sobre o poder das histórias. Afinal, os livros não apenas descrevem o
mundo. Eles moldam a forma como o percebemos.
Talvez a tragédia de Alonso Quijano tenha sido esta: possuía
a imaginação de um escritor, mas escolheu utilizá-la como protagonista. Em vez
de escrever um romance de cavalaria, decidiu viver dentro dele.
E assim se tornou uma personagem muito maior do que qualquer cavaleiro que havia lido.
*Nota: a citação que fiz foi extraída de: Cervantes, Miguel de. ‘O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha’. Tradução de Conde Visconde de Castilho. São Paulo: Martin Claret, 2016. p. 91.
Há uma ilusão recorrente na análise das relações
internacionais: a de que os países pequenos são meros peões movidos pelas mãos
das grandes potências. Nos mapas, parecem insignificantes. Nos gráficos
econômicos, quase desaparecem. Nos balanços militares, raramente impressionam.
Contudo, a história demonstra que, em determinadas circunstâncias, Estados
relativamente fracos podem influenciar, constranger e até manipular atores
muito mais poderosos do que eles próprios.
É um fenômeno antigo. Tão antigo quanto a própria política. A
recente aproximação entre China e Coreia do Norte oferece um exemplo
contemporâneo dessa realidade. Durante décadas, analistas ocidentais repetiram
que Pyongyang dependia de Pequim para sobreviver. A afirmação continha uma
verdade econômica, mas escondia uma simplificação política. Dependência não é
sinônimo de submissão.
Kim Il-sung compreendeu isso ainda durante a Guerra Fria.
Quando a ruptura sino-soviética dividiu o bloco comunista, o líder
norte-coreano transformou sua posição geográfica em instrumento diplomático.
Situada entre duas potências rivais, a Coreia do Norte passou a extrair
recursos, armas e apoio de ambos os lados sem se converter em satélite integral
de nenhum deles. Moscou e Pequim disputavam influência; Pyongyang recolhia os
dividendos.
Seu neto, Kim Jong-un, parece ter herdado essa tradição.
Hoje, a Coreia do Norte explora simultaneamente as necessidades estratégicas da
China, da Rússia e dos Estados Unidos. Pequim deseja evitar o colapso do regime
e uma eventual reunificação da península sob influência americana. Moscou
necessita de munições, mísseis e soldados para sustentar sua campanha na
Ucrânia. Washington busca impedir a proliferação nuclear e conter crises
regionais. Cada uma dessas preocupações amplia o espaço de manobra
norte-coreano.
O fenômeno possui inúmeros precedentes históricos. Durante a
Guerra Fria, a Iugoslávia de Josip Broz Tito transformou-se em mestre dessa
arte. Rompido com Joseph Stalin em 1948, Tito recusou-se a ingressar na órbita
ocidental, mas também não retornou à submissão soviética. Ao ocupar uma posição
intermediária, recebeu ajuda econômica do Ocidente enquanto preservava sua
autonomia política. Sua fraqueza relativa converteu-se em vantagem estratégica.
Algo semelhante ocorreu com o Egito de Gamal Abdel Nasser.
Durante os anos 1950 e 1960, Nasser alternou aproximações com Washington e
Moscou, utilizando a rivalidade entre as superpotências para financiar projetos
nacionais e fortalecer as forças armadas egípcias. A crise de Suez, em 1956,
mostrou que um Estado regional podia transformar as tensões globais em
instrumento de sobrevivência.
Mesmo Israel, frequentemente visto apenas como aliado dos
Estados Unidos, soube explorar habilmente as disputas da Guerra Fria. Em
diferentes momentos, sua importância estratégica elevou seu valor geopolítico
muito além do que sua dimensão territorial ou demográfica sugeriria.
Mais recentemente, o Catar demonstrou como riqueza,
diplomacia e posicionamento geográfico podem ampliar desproporcionalmente a influência
de um pequeno Estado. Hospeda bases americanas, mantém canais com adversários
dos Estados Unidos e atua como mediador em conflitos que envolvem atores muito
maiores do que ele.
A história militar oferece uma explicação para esse padrão.
Em guerras e alianças, a importância de um ator raramente depende apenas de seu
tamanho. Depende de sua posição. Um estreito marítimo, uma passagem montanhosa,
uma fronteira estratégica ou uma localização crítica podem conferir a um Estado
pequeno um valor que nenhuma estatística consegue captar plenamente.
Foi assim com Bizâncio controlando os estreitos entre Europa
e Ásia. Foi assim com a Bélgica nas guerras europeias. Foi assim com a
Finlândia diante da União Soviética. E continua sendo assim com a Coreia do Norte.
Talvez a grande lição seja que o poder não reside apenas na
força. Reside também na capacidade de tornar-se indispensável. Quando grandes
potências passam a necessitar de um pequeno Estado para atingir seus objetivos,
a relação de dependência deixa de ser unilateral.
É nesse momento que ocorre uma das mais curiosas inversões da
política internacional: o cachorro continua maior, mais forte e mais rico. Mas
é o rabo que começa a determinar a direção do movimento.
Há uma fotografia recorrente em quase todas as guerras contemporâneas. Não mostra tanques avançando nem soldados assaltando trincheiras. Mostra apartamentos sem fachadas, escolas reduzidas a escombros, ruas transformadas em corredores de concreto quebrado. A imagem tornou-se tão comum que já quase não a percebemos. No entanto, ela revela uma das transformações mais profundas da arte da guerra: cada vez mais, vence-se não apenas destruindo exércitos, mas destruindo os lugares onde as pessoas vivem.
A ideia não é nova. Na verdade, é tão antiga quanto a própria guerra. Quando os romanos destruíram Cartago em 146 a.C., não se limitaram a derrotar um adversário militar. Procuraram apagar as condições materiais que tornavam possível a existência daquela potência rival. A cidade foi arrasada, suas muralhas derrubadas, sua infraestrutura destruída. A mensagem era clara: algumas vitórias só parecem completas quando deixam para trás um vazio. Durante séculos, porém, a destruição de cidades foi frequentemente consequência da guerra. Hoje, em muitos casos, ela se tornou um de seus objetivos.
Na campanha do general William Tecumseh Sherman através da Geórgia, durante a Guerra Civil Americana, consolidou-se uma nova lógica. Sherman compreendeu que não bastava derrotar os exércitos confederados. Era necessário destruir ferrovias, depósitos, colheitas e centros logísticos. O alvo já não era apenas o soldado inimigo, mas a estrutura que sustentava sua capacidade de continuar lutando. Sua famosa Marcha para o Mar inaugurou uma forma moderna de guerra contra a infraestrutura.
O século XX ampliou essa tendência até limites antes impensáveis. Dresden, Hamburgo, Coventry, Tóquio. A guerra industrial transformou cidades inteiras em alvos legítimos. A distinção clássica entre combatente e não combatente começou a dissolver-se sob as bombas. O raciocínio era brutal, mas simples: destruir a capacidade produtiva, administrativa e psicológica do inimigo seria um caminho mais rápido para a vitória.
Após 1945, muitos acreditaram que o horror da Segunda Guerra Mundial teria estabelecido limites mais rígidos. O desenvolvimento do direito internacional humanitário parecia apontar nessa direção. Entretanto, a história seguiu outro caminho.
Grozny, na Chechênia, foi praticamente pulverizada pelas forças russas. Aleppo, na Síria, tornou-se símbolo da devastação urbana do século XXI. Mariupol sofreu destino semelhante durante a guerra na Ucrânia. Gaza e partes do sul do Líbano apresentam hoje paisagens que recordam as ruínas das cidades europeias de 1945.
Em todos esses casos, observa-se um padrão recorrente. A destruição da infraestrutura não aparece apenas como dano colateral. Ela passa a integrar a lógica operacional. Casas deixam de ser apenas casas. Estradas deixam de ser apenas estradas. Hospitais, sistemas elétricos, redes de abastecimento e centros de comunicação passam a ser vistos como elementos de uma arquitetura militar ampliada. O objetivo não é apenas matar. É tornar impossível a vida normal.
Existe uma dimensão profundamente estratégica nisso. Populações deslocadas geram pressão política. Cidades destruídas dificultam o abastecimento de forças adversárias. A ruína física produz desgaste psicológico. A infraestrutura converte-se em um centro de gravidade militar tão importante quanto divisões blindadas ou baterias de artilharia.
Mas há também uma dimensão moral que não pode ser ignorada. Quando uma casa é destruída, perde-se mais do que um edifício. Perde-se um espaço de memória. Fotografias desaparecem sob os escombros. Livros queimam. Objetos herdados de gerações anteriores são reduzidos a pó. Cada parede derrubada representa uma pequena derrota da permanência humana diante da violência.
Talvez seja por isso que as ruínas provoquem fascínio e desconforto ao mesmo tempo. Elas nos lembram que a guerra não destrói apenas exércitos. Destrói biografias. Ao contemplarmos as imagens que chegam diariamente de Gaza, Mariupol ou do sul do Líbano, somos levados a uma conclusão inquietante. Apesar de todos os avanços tecnológicos, apesar dos discursos sobre armas inteligentes e ataques de precisão, continuamos muito próximos da velha lógica de Cartago.
Mudaram os mísseis. Mudaram os uniformes. Mudaram os discursos. Mas permanece a antiga convicção de que, para vencer uma guerra, às vezes é preciso destruir o lugar onde alguém chama de lar.
Durante mais de três mil anos, a guerra foi uma atividade
profundamente humana. As armas mudaram. Os impérios surgiram e desapareceram. A
pólvora substituiu a lança; o tanque substituiu a cavalaria; o míssil
substituiu parte da artilharia. Contudo, uma constante permaneceu: no centro do
combate encontrava-se um ser humano tomando decisões.
Talvez estejamos assistindo ao fim dessa longa tradição. As
notícias sobre inteligência artificial costumam enfatizar seus impactos
econômicos, suas aplicações médicas ou sua capacidade de transformar o mercado
de trabalho. Menos atenção recebe uma questão igualmente importante: a
inteligência artificial está alterando a própria natureza da guerra.
Na Ilíada, o mais antigo grande poema militar do
Ocidente, a guerra possui rosto. Aquiles entra em combate e o destino dos
exércitos se modifica. Heitor cai diante das muralhas de Troia e uma cidade
inteira aproxima-se de sua ruína. A força decisiva é a coragem individual. O herói
é, simultaneamente, arma, comandante e símbolo.
Séculos depois, Virgílio apresenta uma realidade diferente.
Na Eneida, Eneias continua sendo um guerreiro, mas já não combate apenas por
glória pessoal. Ele serve a um projeto histórico. O indivíduo começa a ceder
espaço à coletividade política. Roma surge no horizonte como uma máquina de
poder muito maior que qualquer homem.
A história militar posterior pode ser lida, em certa medida,
como a ampliação contínua dessa lógica. Exércitos tornaram-se mais complexos.
Estados desenvolveram burocracias gigantescas. Sistemas de comunicação
permitiram coordenar operações em escalas antes inimagináveis. Ainda assim, no
momento decisivo, havia sempre alguém decidindo.
Alguém avaliava informações. Alguém assumia responsabilidades.
Alguém apertava o gatilho. Hoje, essa premissa começa a ser questionada.
Sistemas baseados em inteligência artificial já são capazes de identificar
padrões em volumes colossais de dados, rastrear movimentações inimigas,
selecionar alvos potenciais e recomendar respostas táticas em velocidades
inalcançáveis para operadores humanos. Em conflitos recentes, algoritmos
passaram a desempenhar funções que, até há poucos anos, pertenciam
exclusivamente ao julgamento humano.
Estamos diante do surgimento de uma nova figura histórica: o
General Algoritmo. Não se trata de um comandante sentado em uma tenda, como
Agamêmnon. Tampouco de um estrategista imperial à moda romana. O General
Algoritmo não possui rosto, biografia ou medalhas. Ele existe na forma de redes
neurais, centros de processamento de dados, satélites, sensores e softwares que
operam continuamente, analisando cenários e produzindo decisões em frações de
segundo.
Essa transformação produz uma consequência filosófica
raramente discutida. O que acontece com o heroísmo quando a guerra deixa de
depender do herói?A literatura ocidental nasceu celebrando guerreiros. Homero
cantou Aquiles. Virgílio cantou Eneias. Durante séculos, poetas, cronistas e
historiadores procuraram identificar indivíduos cujas ações alteraram o curso
dos acontecimentos. A memória da guerra sempre foi, em larga medida, a memória
de pessoas.
Mas uma guerra conduzida por sistemas autônomos desafia essa
tradição. O protagonista deixa de ser o combatente e passa a ser a arquitetura
tecnológica que o cerca. A coragem continua existindo, evidentemente. Soldados
continuarão enfrentando riscos e tomando decisões difíceis. Contudo, sua
centralidade tende a diminuir à medida que algoritmos assumem funções cada vez
mais estratégicas.
Há uma ironia inquietante nesse processo. Durante séculos,
comandantes buscaram reduzir o peso das emoções, do medo e do erro humano nos
campos de batalha. A inteligência artificial representa o ápice desse esforço.
No entanto, ao substituir parte do julgamento humano por sistemas extremamente
complexos, criamos uma nova fonte de incerteza. Nem sempre compreendemos
plenamente como esses sistemas chegam às suas conclusões.
Talvez este seja o grande paradoxo militar do século XXI.
Quanto mais racional tentamos tornar a guerra, mais opaco se torna seu
funcionamento. Diante das muralhas de Troia, era possível apontar para Aquiles
e dizer: ali está a força que move esta batalha. No mundo que se aproxima, a
força decisiva pode estar escondida em linhas de código dispersas por
servidores localizados a milhares de quilômetros do campo de combate.
A guerra não deixará de ser humana. Mas, pela primeira vez
desde Homero, ela talvez deixe de ser inteiramente nossa.