A declaração recente do United
States Department of State, segundo a qual facções brasileiras, como o
Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), constituem
“ameaças à segurança regional”, recoloca no debate internacional uma questão
conceitual que se tornou central no século XXI: a progressiva expansão do
significado de terrorismo.
Durante grande parte do século XX, terrorismo era entendido
como violência política praticada por atores não estatais com objetivo
explícito de produzir efeitos psicológicos e políticos amplos, pressionar
governos, desestabilizar regimes ou mobilizar populações. Era, em essência, um
instrumento político. A própria definição incorporada à legislação brasileira,
expressa na Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016), preserva essa lógica ao
vincular o terrorismo a motivações ideológicas, religiosas ou discriminatórias.
O cenário internacional começou a mudar radicalmente após os
atentados de 2001 nos Estados Unidos, conhecidos como Atentados de 11 de
Setembro. A partir desse momento, o terrorismo deixou de ser apenas uma
categoria jurídica ou acadêmica e passou a integrar o núcleo da doutrina
estratégica americana. A chamada “guerra global ao terror” ampliou gradualmente
o espectro de ameaças incluídas nessa classificação.
Nesse processo, a fronteira conceitual entre terrorismo e
crime organizado começou a se tornar mais difusa. Organizações criminosas
transnacionais passaram a ser analisadas não apenas como redes econômicas
ilegais, mas como potenciais fatores de desestabilização política, capazes de
controlar territórios, influenciar instituições e operar através de múltiplas
fronteiras.
Nos Estados Unidos, essa mudança de percepção já havia
aparecido no debate sobre os grandes cartéis mexicanos, frequentemente tratados
por setores do establishment de
segurança como ameaças equivalentes a organizações insurgentes. O raciocínio é
simples: quando grupos criminosos possuem capacidade de violência sistemática,
domínio territorial e alcance transnacional, sua natureza deixa de ser
exclusivamente policial e passa a adquirir dimensão estratégica.
É nesse contexto que surge a discussão atual envolvendo
facções brasileiras. O argumento implícito em parte do debate em Washington é
que organizações como o PCC evoluíram para estruturas logísticas globais do
narcotráfico, conectando rotas na América do Sul, África e Europa. Se essa
interpretação prevalecer, o enquadramento dessas redes como ameaça à segurança
internacional torna-se politicamente mais plausível ainda que juridicamente controverso.
A questão central, porém, permanece: terrorismo continua
sendo uma categoria jurídica precisa ou tornou-se um instrumento político
flexível da geopolítica contemporânea?
Essa pergunta nos leva a uma segunda dimensão do problema: a
tradição histórica da política de segurança hemisférica dos Estados Unidos.
Desde o século XIX, a estratégia americana para o continente
foi estruturada a partir da Doutrina Monroe, formulada em 1823. Seu princípio
fundamental era simples: impedir a presença ou interferência de potências
externas nas Américas. Ao longo do tempo, essa doutrina evoluiu para uma
concepção mais ampla segundo a qual a estabilidade política do hemisfério
ocidental constitui interesse vital de Washington.
Durante a Guerra Fria, essa lógica justificou intervenções
diretas ou indiretas em diversos países latino-americanos. Após o colapso da
União Soviética, o principal eixo de segurança regional deixou de ser o combate
ao comunismo e passou a ser a luta contra o narcotráfico — um processo
institucionalizado na chamada Guerra às Drogas dos Estados Unidos.
Programas como o Plano Colômbia demonstraram como o
narcotráfico podia ser tratado simultaneamente como problema policial,
econômico e militar. O combate às drogas passou a mobilizar forças armadas,
inteligência estratégica e cooperação internacional em larga escala.
O debate atual sobre facções brasileiras sugere que essa
lógica pode estar entrando em uma nova fase. Ao caracterizar organizações criminosas
como ameaças à segurança regional, Washington cria as bases conceituais para
ampliar instrumentos de ação que vão de
sanções financeiras e operações de inteligência até eventuais medidas de
natureza militar.
Para países da América Latina, essa evolução suscita
inevitavelmente preocupações relacionadas à soberania. Se o narcotráfico for
definitivamente enquadrado como ameaça estratégica hemisférica, o combate ao
crime organizado pode deixar de ser apenas uma questão de segurança interna e
passar a integrar o campo da segurança internacional.
Nesse cenário, o que está em jogo não é apenas a
classificação jurídica de determinadas organizações criminosas, mas a possível
redefinição da arquitetura de segurança nas Américas. Em outras palavras, a
pergunta mais relevante talvez não seja se certas facções são terroristas, mas
se o terrorismo se transformou, no século XXI, em uma categoria estratégica
capaz de reconfigurar a geopolítica do continente.
As guerras raramente são apenas aquilo que parecem ser. Em muitos momentos da história, os combates diretos ocultam um jogo mais amplo, no qual potências maiores medem forças sem se enfrentarem frontalmente. O conflito atual no Oriente Médio apresenta precisamente esse padrão: por trás dos ataques e das retaliações entre o Irã e seus adversários regionais, desenha-se uma guerra indireta, na qual diferentes atores operam como instrumentos de um confronto estratégico mais amplo.
Essa lógica não é nova. Durante grande parte do século XX, o mundo viveu sob o signo das chamadas guerras por procuração. Naquele período, os Estados Unidos e a União Soviética evitavam um confronto direto que poderia escalar para uma guerra nuclear e disputavam influência por meio de aliados regionais. Conflitos como os do Vietnã, do Afeganistão ou de Angola tornaram-se arenas onde potências globais testavam sua força sem entrar em combate direto. Algo semelhante começa a se desenhar novamente no Oriente Médio.
O Irã construiu, ao longo das últimas décadas, uma complexa rede de aliados armados e organizações militantes que ampliam seu alcance estratégico na região. Entre esses atores, destaca-se o Hezbollah, poderoso movimento político e militar libanês que funciona como uma das principais extensões da influência iraniana no Levante. Sua capacidade militar , construída ao longo de décadas de confrontos com Israel, permite a Teerã exercer pressão indireta contra adversários regionais.
Esse modelo de projeção de poder tornou-se um dos pilares da estratégia iraniana. Em vez de depender apenas de suas forças armadas convencionais, o país opera por meio de redes de aliados, milícias e grupos armados espalhados pela região. Assim, a influência iraniana alcança não apenas o Líbano, mas também o Iraque, a Síria e o Iêmen.
Essa estratégia cria uma situação peculiar: ataques e operações militares podem ser realizados por atores que formalmente não representam o Estado iraniano, mas que estão alinhados com seus objetivos estratégicos. O resultado é um sistema de pressão constante sobre rivais regionais, sem necessariamente provocar uma guerra aberta entre Estados.
Do outro lado desse tabuleiro geopolítico estão as monarquias árabes do Golfo e os Estados Unidos. A presença militar americana na região permanece significativa, com bases distribuídas em países como Qatar, Bahrein e Kuwait. Essas instalações militares constituem não apenas instrumentos de defesa regional, mas também pontos estratégicos de projeção de poder no Golfo Pérsico.
Nesse contexto, qualquer ataque a essas bases assume um significado que vai além do aspecto tático. Ele representa um recado político e estratégico dirigido a Washington. Mesmo quando executadas por forças indiretas ou milícias aliadas, essas ações sinalizam a capacidade de desafiar a presença americana na região.
As monarquias do Golfo, por sua vez, ocupam uma posição delicada nesse cenário. Países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos possuem alianças estratégicas com os Estados Unidos, mas também enfrentam diretamente a pressão regional exercida pelo Irã. Isso os transforma simultaneamente em parceiros de Washington e em alvos potenciais dentro dessa disputa indireta.
O resultado é um sistema de confrontos fragmentados. Ataques com drones, mísseis de médio alcance, operações de milícias e sabotagens contra infraestrutura energética tornam-se episódios de uma guerra difusa, na qual a linha entre conflito direto e indireto permanece deliberadamente ambígua.
Essa ambiguidade é estratégica. Ela permite aos atores envolvidos calibrar a intensidade da violência sem necessariamente ultrapassar o limiar de uma guerra total. Trata-se de uma forma de conflito controlado, no qual cada movimento é cuidadosamente calculado para evitar uma escalada irreversível.
A história demonstra que esse tipo de guerra indireta pode prolongar conflitos por décadas. Durante a Guerra Fria, a lógica das guerras por procuração transformou diversas regiões do mundo em campos de batalha prolongados. O Oriente Médio, marcado por rivalidades religiosas, disputas territoriais e competição energética, oferece hoje um terreno particularmente propício para esse tipo de dinâmica.
A escalada recente indica que a região pode estar entrando em uma nova fase dessa lógica estratégica. A diferença é que, ao contrário do passado, o sistema internacional atual envolve múltiplos centros de poder. Enquanto os Estados Unidos continuam sendo o principal ator militar externo na região, outras potências especialmente a China e a Rússia observam atentamente os desdobramentos do conflito.
Nesse cenário, o Oriente Médio volta a assumir um papel histórico recorrente: o de palco onde disputas globais são travadas de forma indireta. Como ocorreu tantas vezes ao longo do século XX, guerras aparentemente regionais revelam-se, na verdade, capítulos de uma competição geopolítica muito mais ampla.
E, como também ensina a história, guerras por procuração raramente permanecem limitadas por muito tempo. Quando múltiplos atores armados, interesses estratégicos e rivalidades ideológicas convergem no mesmo espaço, a fronteira entre conflito indireto e guerra aberta pode desaparecer com surpreendente rapidez.
Guerras raramente permanecem confinadas ao lugar onde começam. Mesmo quando não participam diretamente de um conflito, as grandes potências observam cada detalhe, erros, acertos, custos e reações internacionais. A atual guerra envolvendo o Irã tornou-se, nesse sentido, um laboratório estratégico para Pequim. A liderança chinesa acompanha a crise com atenção não apenas por causa do petróleo ou da estabilidade do Oriente Médio, mas sobretudo por um motivo mais sensível: Taiwan.
Para o governo de Xi Jinping, a reunificação com a ilha governada autonomamente permanece um objetivo histórico e estratégico. Pequim considera Taiwan parte inseparável da China, enquanto os Estados Unidos mantêm uma política ambígua de apoio militar e político à ilha. Nesse contexto, qualquer guerra envolvendo Washington fornece pistas sobre como a superpotência americana reage a crises militares internacionais.
O primeiro elemento que os estrategistas chineses observam é a velocidade da reação americana. A intervenção dos Estados Unidos ao lado de Israel mostra que Washington ainda possui capacidade de mobilização militar global em tempo relativamente curto. Bases espalhadas pelo Golfo, capacidade naval no Mediterrâneo e poder aéreo estratégico continuam permitindo aos EUA atuar rapidamente em diferentes teatros. Para Pequim, isso reforça uma realidade incômoda: em caso de crise no estreito de Taiwan, a presença militar americana no Pacífico ainda seria decisiva.
O segundo ponto é a eficácia do poder militar americano e de seus aliados. Conflitos contemporâneos têm revelado uma característica constante: a importância da supremacia tecnológica. Sistemas de defesa antimísseis, inteligência por satélite, drones e guerra eletrônica desempenham papel central. A China investe pesadamente nesses mesmos setores, mas observa atentamente como esses sistemas funcionam em combate real. A guerra no Oriente Médio fornece dados valiosos sobre defesa aérea, interceptação de mísseis e ataques de precisão — todos elementos cruciais em qualquer cenário envolvendo Taiwan.
Há também um terceiro fator, frequentemente subestimado, que interessa a Pequim: o custo político das guerras para os Estados Unidos. A política externa americana historicamente oscila entre momentos de intervenção ativa e períodos de retração estratégica. Após conflitos longos e impopulares, cresce a pressão doméstica por contenção. Se a guerra no Oriente Médio se prolongar, aumentando custos financeiros e desgaste político, Pequim poderá interpretar isso como um sinal de que Washington estaria menos disposto a abrir outro grande teatro de conflito no Indo-Pacífico.
A história oferece precedentes claros para esse tipo de cálculo estratégico. Durante a Guerra Fria, potências rivais frequentemente observavam conflitos periféricos para avaliar o comportamento do adversário. A União Soviética estudou atentamente a reação americana à Guerra do Vietnã. Da mesma forma, Washington analisou o desempenho soviético no Afeganistão. Hoje, em escala global, o mesmo mecanismo de observação estratégica está em funcionamento.
Isso não significa, naturalmente, que a China pretenda agir de imediato contra Taiwan. Pelo contrário, a tradição estratégica chinesa valoriza paciência e cálculo de longo prazo. O objetivo de Pequim é acumular vantagens econômicas, tecnológicas e militares antes de qualquer decisão irreversível. No entanto, cada guerra fornece informações importantes sobre a dinâmica do poder internacional.
Outro aspecto que interessa à liderança chinesa é a resposta da comunidade internacional. Sanções econômicas, alinhamentos diplomáticos e reações de aliados regionais revelam como diferentes países se posicionam diante de uma crise militar. Para Pequim, compreender o comportamento de potências intermediárias, especialmente no Sudeste Asiático e na Europa, é fundamental para prever o grau de isolamento que enfrentaria em um eventual conflito envolvendo Taiwan.
Nesse sentido, a guerra no Oriente Médio reforça uma lição clássica da geopolítica: conflitos regionais frequentemente produzem efeitos globais. Mesmo quando não participa diretamente, uma potência emergente como a China utiliza cada crise internacional como oportunidade de aprendizado estratégico.
No final das contas, a guerra atual talvez não altere imediatamente o equilíbrio de poder no Indo-Pacífico. Mas ela oferece algo igualmente valioso para os estrategistas chineses: um raro vislumbre de como os Estados Unidos reagirão quando confrontados com uma crise militar de grandes proporções no século XXI.
E, para Pequim, compreender esse comportamento pode ser tão importante quanto qualquer arma.
Toda biografia que se pretenda uma cartografia do espírito encontra, cedo ou tarde, a figura do pai como um acidente geográfico inevitável: uma cordilheira que define o horizonte, um rio que traça o limite entre territórios do ser. No caso de Roberval Pereyr, esse acidente é particularmente constitutivo. Manuel Alves Pereira (Seu Zinho) não é apenas um genitor; é uma categoria cosmogônica. Emerge das brumas do sertão como uma síntese viva de forças históricas: o comerciante nômade que trafega entre Arapiraca e Feira de Santana, o pecuarista que expande seu domínio territorial com a tenacidade silenciosa dos desbravadores, o delegado que encarna, na pequena comunidade das Umburanas, a própria ideia de Lei. Ele é, em essência, o self-made man sertanejo – arquétipo que migrou dos manuais de empreendedorismo norte-americano para se encarnar, com uma crueza própria, no solo árido da Bahia rural dos anos 1950. Mas como ler essa figura? Como decifrar sua presença tutelar na formação do poeta? É preciso evitarmos tanto a psicologia fácil quanto a mitificação vazia.
A relação de Roberval com o pai é marcada por um paradoxo profundo: amor e medo, admiração e dor. O homem era simultaneamente provedor, delegado da localidade, viajante frequente, e figura moralmente complexa. Um dos episódios mais traumáticos ocorreu quando, aos seis anos, passando de caminhão pela casa de Nice, uma das amantes do pai, o menino a xingou, ocultando a voz no ruído do motor. Dias depois, o pai o chamou cedo, mandou-o levar um recado a seu Friciano e, no retorno, aplicou-lhe castigo severo com a palmatória pesada que usava em sua função de autoridade local. Uma compreensão mais aprofundada dessa relação conflituosa talvez se encontre representada em um poema tardio que Pereyr dedicou a seu pai:
DIÁLOGO
Estou agora diante do meu pai.
Ele me olha, com seu rosto fundo
querendo anunciar a sua ausência
de logo mais, quando deixar o mundo.
Ele me olha e parece compreender:
seu olhar - tão fixo e persistente -
imprime no meu ser ternura imensa.
E entre a meia sombra e a meia luz,
sua imagem (imóvel, calma, densa)
emerge tão serena e tão madura
que posso adivinhar o que ele pensa.
O poema “Diálogo”, escrito por Pereyr para o pai, realiza uma operação rara e profunda: transforma a despedida em revelação. À primeira vista, trata-se de um registro íntimo de um filho diante do pai idoso, prestes a morrer. Mas o poema, em sua contenção e depuração extrema, é mais do que isso: ele firma um pacto tardio, um encontro que levou décadas para se consumar e que só se tornou possível à beira da extinção do corpo paterno. A palavra “diálogo”, paradoxalmente, denomina um texto onde não há fala; o encontro acontece pelo olhar, pela suspensão, pela claridade rarefeita que antecede a ausência definitiva. Logo no início, o eu lírico situa o leitor na gravidade do instante: “Estou agora diante do meu pai.” A força de “agora” institui um tempo fora do fluxo habitual; é o agora ritual, aquele que se abre quando o mundo se estreita e os vínculos essenciais emergem com nitidez repentina. O pai aparece com “seu rosto fundo”, expressão que concentra tanto o desgaste da idade quanto a profundidade simbólica de uma vida inteira que se condensa no semblante. Ele parece “querer anunciar a sua ausência de logo mais”, mas o anúncio não se faz em palavras: faz-se pela própria presença que já carrega o sinal de sua dissolução. A morte não é o tema, mas o horizonte inevitável onde a reconciliação se tornará possível.
O centro emocional do poema está concentrado no olhar do pai. Pereyr escreve: “Ele me olha e parece compreender.” É uma frase que, num só gesto, corrige décadas de incompreensões. A palavra “parece” carrega a delicadeza do instante: não afirma, não impõe, não reivindica, apenas percebe. O olhar é “fixo e persistente”, mas sua persistência não é autoritária; é a insistência silenciosa de quem, já sem força para qualquer gesto, encontra no olhar a última forma de dar-se. Esse olhar “imprime no meu ser ternura imensa”, diz o poeta. É significativo que a ternura venha não de um toque ou de uma palavra, mas de um olhar que nunca antes fora assim percebido. A ternura, que faltou à infância, surge agora como herança final, como reconhecimento mútuo que só a proximidade da morte permite depurar. A cena descrita se passa “entre a meia sombra e a meia luz”, imagem que, mais do que situar um ambiente físico, traduz um estado espiritual. A meia luz é o território intermediário entre o que ainda é e o que já deixa de ser. É o espaço onde o pai, outrora figura de força e autoridade, emerge “imóvel, calma, densa”. A tríade é de grande precisão: a imobilidade resulta da fragilidade, mas também da paz; a calma é a serenidade de quem não precisa mais impor nada; a densidade provém de tudo o que não pôde ser dito e, finalmente, se oferece sem palavra. Assim, a imagem do pai se torna “serena e madura”, e é justamente essa maturidade, que é, ao mesmo tempo, maturidade do filho, que torna possível “adivinhar o que ele pensa”.
Esse “adivinhar” é um dos verbos mais decisivos do poema. Não é decifrar, interpretar ou concluir; é sentir de dentro, acolher sem perguntas, intuir sem exigir clareza. A vida inteira da relação entre pai e filho talvez tenha sido marcada por opacidades, distâncias, ambiguidades emocionais e silêncios espessos. O poema, porém, nos mostra que a verdadeira comunicação só se torna possível quando ambos se encontram num campo onde a linguagem humana se desfaz e onde resta apenas a presença. Para Pereyr, que conviveu com a figura totêmica, temida e moralmente enigmática do pai, delegado das Umburanas, distribuidor de castigos, homem público e privado de arestas duras, esse momento final é a reconfiguração completa da figura paterna: o pai deixa de ser mito, deixa de ser sombra, e torna-se, enfim, homem. O poema é, portanto, muito mais que homenagem.
Diálogo, assim, é menos um poema e mais um rito. Nele, o pai, já à beira da morte, devolve ao filho aquilo que a vida inteira reteve sem saber: a ternura. E o filho devolve ao pai aquilo que, talvez, nunca conseguira oferecer: a compreensão. A morte não apaga o passado, mas abre o espaço de onde ele pode ser visto com uma clareza nova. O encontro final torna-se, paradoxalmente, o encontro inaugural; aquilo que faltou ao menino é dado ao adulto; aquilo que não coube na vida se realiza na despedida. E, nesse sentido, Diálogo não é um poema sobre o fim, mas sobre o recomeço interior que só ocorre quando o outro, pai, herói, sombra, se revela, enfim, como presença plena. Trata-se, afinal, de um poema que encerra e começa, que doa e recebe, que fecha e abre. Um poema em que o pai morre e, ao mesmo tempo, nasce para o filho como figura finalmente compreensível. E é esse duplo movimento, de despedida e revelação, que faz de Diálogo um dos gestos mais profundos e humanos da obra e da vida de Roberval Pereyr.
Na história das guerras modernas, a primeira semana costuma ter um peso que ultrapassa o simples registro cronológico. É nesse curto intervalo que se revelam, muitas vezes de forma quase definitiva, as premissas estratégicas do conflito: quem errou nos cálculos iniciais, qual será o padrão de combate e até que ponto os objetivos políticos declarados são compatíveis com os meios militares empregados.
Esse fenômeno não é novo. Quando a Primeira Guerra Mundial começou, em agosto de 1914, as grandes potências europeias acreditavam que o conflito seria breve. A Alemanha apostava no sucesso do Plano Schlieffen e na rápida derrota da França. No entanto, bastaram poucas semanas para que a realidade da guerra industrial se impusesse: mobilizações gigantescas, frentes estáticas e uma guerra que duraria quatro anos. A primeira fase do conflito revelou que a guerra seria muito diferente do que seus planejadores imaginaram.
Algo semelhante ocorreu na Guerra do Iraque em 2003. A derrubada do regime de Saddam Hussein foi rápida e confirmou a superioridade militar americana. Contudo, os primeiros sinais da insurgência surgiram já nas semanas iniciais após a queda de Bagdá. Aquilo que parecia uma vitória decisiva revelou-se, na prática, o início de uma guerra muito mais longa e complexa.
A primeira semana da atual guerra entre os Estados Unidos e o Irã sugere um padrão semelhante. O cálculo inicial parecia claro: ataques aéreos intensivos, eliminação de lideranças do regime e pressão militar suficiente para provocar uma rápida desorganização do sistema político iraniano. No entanto, os acontecimentos dos primeiros dias já indicam que esse cenário não se confirmou.
O primeiro sinal é a sobrevivência do próprio regime. A morte do líder supremo, Ali Khamenei, representou uma escalada extraordinária, mas não provocou o colapso institucional esperado por alguns analistas. O sistema político iraniano foi concebido justamente para resistir a esse tipo de choque. Desde a Revolução de 1979, o poder não se concentra apenas na figura do líder supremo, mas se distribui entre instituições clericais, órgãos eleitos e estruturas militares como a Guarda Revolucionária. A continuidade das operações militares iranianas demonstra que o aparato estatal permanece funcional, mesmo diante de perdas significativas.
O segundo sinal é a rápida expansão regional do conflito. Em apenas uma semana, ataques e retaliações atingiram não apenas o território iraniano, mas também bases militares e aliados no Golfo Pérsico, além de provocar tensões na fronteira entre Israel e Líbano. Essa dinâmica confirma um padrão estratégico já conhecido: o Irã construiu, ao longo de décadas, uma rede de alianças e forças indiretas que permite ampliar o alcance de qualquer guerra em que esteja envolvido. O conflito deixa de ser bilateral e passa a assumir características regionais.
O terceiro elemento revelado nesses primeiros dias é o risco de uma guerra prolongada. A estratégia iraniana parece apontar para uma lógica clássica de desgaste: em vez de tentar derrotar diretamente um adversário militarmente superior, o objetivo é elevar progressivamente os custos do conflito. Esse tipo de abordagem foi observado em diversos conflitos contemporâneos, nos quais forças menos poderosas apostam no tempo como instrumento estratégico.
Para Donald Trump, que estimou inicialmente uma campanha de algumas semanas, esse cenário representa um desafio político e militar considerável. A história demonstra que guerras planejadas como operações rápidas podem transformar-se em conflitos longos justamente quando os objetivos políticos se mostram mais ambiciosos do que os meios militares disponíveis.
Assim, a primeira semana desta guerra já oferece pistas importantes sobre o seu possível desdobramento. O regime iraniano não entrou em colapso, a guerra começou a se expandir regionalmente e a lógica de desgaste começa a substituir a expectativa de uma vitória rápida. Na história militar, esses sinais iniciais raramente são irrelevantes. Muitas vezes, eles representam o primeiro indício de que uma guerra imaginada como breve poderá transformar-se em um conflito de consequências muito mais amplas e duradouras.