Há guerras travadas para vencer. Outras, para não perder. O Irã parece pertencer à segunda categoria. Observando os primeiros dias do conflito atual, pode parecer que a balança militar pesa esmagadoramente contra Teerã.
A supremacia aérea de Estados Unidos e Israel é evidente; as
defesas antiaéreas iranianas foram duramente atingidas; bases e infraestruturas
sofrem ataques constantes. No plano estritamente militar convencional, o
desequilíbrio é evidente.
Mas a história das guerras ensina que desigualdade militar
não determina, automaticamente, o resultado político. A doutrina
estratégica iraniana parece partir, justamente, dessa premissa.
Seu objetivo não é derrotar os adversários em campo aberto,
algo praticamente impossível diante da superioridade tecnológica americana e
israelense. O objetivo é outro: sobreviver tempo suficiente para tornar a
guerra cara demais para quem a iniciou.
Essa lógica não é nova. O Vietnã do Norte aplicou-a, com
disciplina implacável, contra os Estados Unidos. Washington possuía superioridade
absoluta em aviação, tecnologia e poder de fogo.
Ainda assim, o regime de Hanói não buscava vencer batalhas
decisivas, no sentido clássico. Seu cálculo era mais frio: resistir, dispersar
forças, absorver perdas e prolongar o conflito até que o custo político se
tornasse insustentável para o adversário. Em outras palavras, transformar a
superioridade militar do inimigo em um problema político.
Algo semelhante ocorreu nas insurgências que enfrentaram os
Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Durante duas décadas, forças
americanas dominaram os céus, o espaço eletrônico e a tecnologia militar. Mesmo
assim, insurgentes com recursos incomparavelmente menores conseguiram manter o
conflito vivo e caro por anos. A estratégia iraniana parece ecoar
esse mesmo princípio.
Um dos pilares dessa lógica é a dispersão dos meios
militares. Diferentemente de exércitos convencionais, que dependem de
grandes bases ou centros industriais facilmente identificáveis, o Irã
construiu, ao longo de décadas, uma arquitetura militar fragmentada. Lançadores
móveis de mísseis, depósitos subterrâneos, redes logísticas descentralizadas e
produção distribuída dificultam a destruição completa de sua capacidade
ofensiva.
A geografia também joga a favor dessa estratégia. O
território iraniano é vasto, três vezes o tamanho da França, com
montanhas, desertos e cidades densas, que oferecem inúmeras possibilidades de
ocultação. Mas, talvez, o elemento mais visível dessa doutrina seja a aposta em
armamentos relativamente baratos e produzidos em massa, como os drones de ataque.
Aqui, surge uma das ironias da guerra contemporânea: sistemas
relativamente simples podem impor custos gigantescos a adversários
tecnologicamente superiores. Um drone
de algumas dezenas de milhares de dólares pode obrigar o uso de um interceptor
que custa milhões.
A matemática estratégica torna-se assimétrica. Essa lógica,
saturar defesas caras com ataques baratos, já foi observada na guerra entre
Rússia e Ucrânia, e aparece, novamente, no conflito atual.
Outro componente essencial da estratégia iraniana está fora
de suas fronteiras. Ao longo de décadas, Teerã construiu uma rede de aliados e
parceiros armados na região: Hezbollah, no Líbano; milícias, no Iraque; houthis,
no Iêmen. Esses atores ampliam o campo de batalha e fragmentam a atenção do
adversário. Em vez de uma guerra concentrada em um único front, surge um sistema de conflitos interligados, onde
ataques podem surgir em diferentes pontos do Oriente Médio.
Para potências militares acostumadas a campanhas rápidas e
decisivas, esse tipo de guerra representa um desafio, particularmente, difícil.
A superioridade tecnológica resolve batalhas, mas nem sempre resolve o problema
político fundamental: quando e como encerrar o conflito.
No fundo, a estratégia iraniana parece apostar em uma lição
recorrente da história militar: a vitória não depende apenas da força
disponível, mas da capacidade de suportar o desgaste.
Napoleão descobriu isso na Rússia. Os Estados Unidos
aprenderam no Vietnã. E, novamente, no Afeganistão. Guerras assim raramente terminam
com desfiles triunfais. Elas terminam quando um dos lados conclui que continuar
lutando deixou de fazer sentido.
Se essa é, de fato, a aposta de Teerã, então, a pergunta central do conflito atual, talvez, não seja militar, mas política: quem está mais preparado para suportar o tempo da guerra?
Há uma forma clássica de ler a política externa americana recente que a reduz a improvisação, voluntarismo ou simples impulsividade presidencial. Essa interpretação, embora sedutora, talvez seja superficial. Observada a partir de uma perspectiva geopolítica mais longa, a política externa conduzida por Donald Trump pode ser lida como algo diferente: uma estratégia sistemática de contenção periférica da ascensão chinesa.
O ponto de partida dessa hipótese é simples. A China tornou-se a maior potência industrial do mundo e depende estruturalmente de fluxos externos de energia, minerais e matérias-primas. Sua expansão global consiste, em grande medida, na construção de redes estáveis de abastecimento, petróleo, gás, metais críticos e infraestrutura logística, capazes de sustentar essa base industrial nas próximas décadas.
É nesse contexto que regiões periféricas do sistema internacional adquirem importância estratégica. Países como Venezuela e Irã não são apenas regimes politicamente controversos; são polos energéticos capazes de sustentar a segurança material da economia chinesa.
A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do planeta. Ao longo das últimas duas décadas, tornou-se um dos principais receptores de financiamento chinês na América Latina, com dezenas de bilhões de dólares em empréstimos vinculados à produção futura de petróleo.
Grande parte dessa produção passou a ser direcionada para o mercado chinês, transformando o país em um parceiro estratégico de Pequim no hemisfério ocidental.
Sob essa ótica, a intervenção americana que levou à captura de Nicolás Maduro em 2026 não pode ser interpretada apenas como política regional. Analistas observaram que a operação teve também um efeito geopolítico claro: enviar a mensagem de que a expansão chinesa no hemisfério ocidental tem limites impostos por Washington.
Trata-se, em essência, de uma reativação da velha lógica da Doutrina Monroe, a ideia de que o hemisfério ocidental constitui um espaço estratégico cuja configuração não pode ser definida por potências externas. Não por acaso, alguns observadores passaram a falar em uma espécie de “Monroe Doctrine 2.0”, voltada especificamente para conter a presença chinesa na América Latina.
Nesse quadro, a derrubada de Maduro pode ser interpretada como algo mais do que mudança de regime. Ela funciona como cobertura de flanco. Retira de Pequim um parceiro energético crucial e, ao mesmo tempo, sinaliza aos demais governos da região que a penetração estratégica chinesa terá custos políticos crescentes.
A mesma lógica pode ser aplicada ao Oriente Médio. O Irã ocupa posição central no sistema energético da Eurásia e mantém cooperação econômica e tecnológica crescente com a China. A eventual neutralização do regime iraniano ou de sua liderança estratégica teria efeitos que ultrapassam o equilíbrio regional: reduziria drasticamente a capacidade de Pequim de diversificar suas fontes energéticas fora da órbita marítima controlada pelos Estados Unidos.
Visto sob esse ângulo, o padrão de ação americana torna-se mais inteligível. Não se trata de uma estratégia de confronto direto com a China algo que seria economicamente devastador e militarmente arriscado. Trata-se de algo mais indireto: impedir que a China consolide periferias estratégicas estáveis.
Essa política funciona como uma forma ampliada de “negação de área”. Não no sentido técnico militar, baseado em mísseis ou sistemas de defesa integrados, mas em sentido geopolítico: tornar determinados espaços demasiadamente instáveis ou politicamente arriscados para que um rival os transforme em plataformas duradouras de poder.
A lógica é simples. Se Pequim precisa de estabilidade política para garantir contratos energéticos de longo prazo, corredores logísticos e investimentos bilionários em infraestrutura, então a instabilidade torna-se um instrumento estratégico.
Assim, ao pressionar ou reconfigurar regimes em polos energéticos periféricos, Caracas, Teerã ou outros, Washington estaria operando uma estratégia de interdição indireta. Não bloqueia fisicamente o acesso chinês aos recursos, mas eleva os custos e os riscos de sua consolidação.
Essa abordagem lembra menos as doutrinas militares contemporâneas e mais a velha geopolítica do poder marítimo. Desde o início do século XX, estrategistas americanos compreenderam que a forma mais eficaz de preservar a primazia global não era necessariamente dominar todos os territórios, mas impedir que rivais organizassem redes estáveis de recursos e alianças capazes de desafiar o sistema existente.
Se essa leitura estiver correta, a política externa de Trump não é apenas errática ou personalista. Ela pode representar o início de uma fase mais explícita da competição sistêmica entre Estados Unidos e China uma disputa travada não apenas nas grandes potências, mas sobretudo nas periferias estratégicas onde se decide quem controlará os fluxos fundamentais da economia mundial.
Costumo dedicar esta coluna à História Militar e à alta cultura. Hoje, entretanto, as notícias envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente alvo de investigações relacionadas a supostas fraudes financeiras, convidam a uma reflexão de outra natureza. Mais do que os valores em disputa, chamam atenção as mensagens divulgadas pela imprensa, nas quais se mencionam possíveis agressões contra jornalistas. Se confirmadas, tais declarações indicariam uma disposição inquietante: a substituição do debate público pela intimidação.
A evocação de Al Capone surge menos como acusação literal e mais como metáfora histórica. O gangsterismo clássico ensinou que poder econômico e violência não são esferas estanques. A modernidade apenas sofisticou seus instrumentos. O ponto central, portanto, não é a biografia de um indivíduo, mas o que episódios como este sugerem sobre a saúde institucional do país. Quando elites econômicas flertam com a linguagem da força, reabre-se uma velha pergunta: a civilidade é convicção ou mera conveniência?
As informações agora tornadas públicas acrescentam um elemento qualitativamente novo ao episódio. Segundo a Polícia Federal, integrantes do grupo ligado a Daniel Vorcaro teriam acessado indevidamente sistemas restritos da própria PF, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais como o FBI e a Interpol, mediante uso de credenciais de terceiros. Se confirmados, tais atos não configuram apenas desvio empresarial ou fraude financeira: sugerem uma tentativa de captura informacional do próprio aparato estatal.
A história ensina que o poder se consolida quando controla três dimensões: recursos, narrativa e vigilância. O que as investigações descrevem é a possível convergência dessas três esferas numa estrutura privada de monitoramento e intimidação. A chamada “Turma”, segundo a decisão do ministro André Mendonça, operaria como núcleo de extração de dados, definição de alvos e execução de estratégias de pressão contra jornalistas e autoridades.
É aqui que a analogia histórica deixa de ser mero recurso retórico. Quando se evoca Al Capone, não se trata de equiparar personagens, mas de reconhecer um padrão: organizações que combinam aparência de legalidade, poder econômico e práticas de coerção paralela. O gangsterismo clássico dependia da violência física ostensiva; o contemporâneo, se assim podemos chamar, apoia-se na assimetria informacional, na infiltração institucional e na intimidação seletiva.
O dado talvez mais perturbador não seja a cifra bilionária mencionada nas investigações, mas a estrutura descrita: núcleos organizados, funções distribuídas, uso de expertise policial para obtenção de informações sigilosas, estratégias de remoção de conteúdos considerados prejudiciais. Se tais elementos se comprovarem, não estaremos diante de um escândalo financeiro isolado, mas de um arranjo que tensiona a própria distinção entre esfera pública e poder privado.
A degeneração institucional raramente começa com tanques nas ruas. Ela se insinua quando atores economicamente poderosos passam a agir como se a lei fosse obstáculo gerenciável e o Estado, um repositório de dados a ser explorado. A invasão de sistemas restritos, se confirmada nos termos da investigação, representaria algo simbolicamente grave: a transformação de mecanismos de proteção pública em instrumentos de vigilância privada.
O episódio coloca, portanto, uma questão que transcende indivíduos. O que acontece com uma república quando parte de sua elite econômica deixa de ver a imprensa como contrapoder legítimo e passa a tratá-la como inimiga a ser neutralizada? O que significa para a ordem institucional que sistemas destinados à segurança pública possam ter sido utilizados, segundo a investigação, como fonte de monitoramento clandestino?
A resposta não é simples nem deve ser precipitada. Há investigação em curso, direito de defesa assegurado e devido processo legal a ser observado. Mas o debate público não pode ser adiado sob o pretexto da prudência. Democracias não se fragilizam apenas por atos consumados; enfraquecem-se quando se normaliza a ideia de que poder econômico autoriza vigilância, intimidação ou manipulação de fluxos institucionais.
Se o século XX nos legou a figura do gangster armado, o XXI talvez nos confronte com algo mais sofisticado: redes privadas capazes de transitar entre finanças, informação e influência institucional. A diferença é de método; a lógica de poder permanece reconhecível.
A questão, em última instância, não é se estamos diante de um novo Capone. É se estamos dispostos a encarar o fato de que a violência pode mudar de forma sem perder sua essência e de que a defesa das instituições depende menos de mitos sobre a civilidade das elites e mais da vigilância permanente da sociedade sobre qualquer concentração excessiva de poder.
O caso em curso será julgado nos tribunais. Mas a reflexão sobre o que ele revela a respeito de nossas estruturas de poder precisa começar agora.
Quando Donald Trump declarou ao Irã “rendam-se ou enfrentem a morte certa”, não falava apenas a Teerã. Falava a Michigan, à Pensilvânia e ao Arizona. Em democracias de massas saturadas por imagens, a guerra deixou de ser apenas instrumento de política externa para converter-se também em coreografia de política interna. Não se trata apenas de vencer o inimigo; trata-se de produzir a percepção de força, decisão e controle.
A tradição clássica, sintetizada por Carl von Clausewitz, ensinou que a guerra é continuação da política por outros meios. O que assistimos agora parece inversão inquietante: a política eleitoral torna-se continuação da guerra por outros meios. A ofensiva preventiva, justificada em termos estratégicos, neutralizar capacidades, eliminar lideranças, dissuadir ameaças, opera simultaneamente como mecanismo de consolidação doméstica. A guerra como demonstração de autoridade.
Historicamente, presidentes americanos recorrem ao expediente externo em momentos de tensão interna. O choque externo tende a comprimir dissensos e elevar índices de aprovação. Mas essa dinâmica contém armadilha: se o êxito for rápido e cirúrgico, o governante colhe dividendos; se o conflito se alonga, o capital político evapora.
É aqui que o espectro do Vietnã retorna. A palavra “atoleiro” não é mera metáfora jornalística; é categoria traumática da cultura estratégica americana. A Guerra do Vietnã não foi apenas derrota militar foi fratura psicológica. Desde então, cada intervenção é julgada à luz daquele pântano: tropas presas, objetivos difusos, custos crescentes, legitimidade corroída. O Afeganistão e o Iraque reavivaram esse fantasma. O eleitorado conservador que hoje aplaude retórica firme é o mesmo que rejeita compromissos prolongados.
Por isso, a aposta contemporânea privilegia a guerra sem botas no chão: bombardeios de precisão, drones, mísseis de longo alcance. O espetáculo tecnológico substitui a ocupação territorial. A promessa implícita é sedutora: infligir dor estratégica sem pagar o preço humano de um desembarque. A guerra torna-se evento audiovisual ,flashes de satélite, gráficos de alvos atingidos, pronunciamentos solenes.
A retórica do ultimato cumpre papel central nesse teatro. “Rendam-se ou morram” simplifica o conflito em termos morais absolutos. O maniqueísmo não é descuido; é recurso. Ele mobiliza emoções primárias, orgulho, medo, ressentimento, e obscurece ambiguidades. Ao dramatizar o confronto, o líder projeta imagem de decisão incontestável. O cálculo eleitoral está embutido na frase curta.
Mas há variável menos controlável: o mercado. Guerras podem ser curtas; choques energéticos raramente o são. O Irã não precisa vencer militarmente para produzir efeitos sistêmicos. Basta tensionar gargalos logísticos, encarecer seguros marítimos, reduzir oferta global. Petróleo alto significa inflação persistente. E inflação corrói popularidade com eficiência superior à propaganda.
Aqui reside tensão estrutural: o tempo militar e o tempo econômico obedecem a lógicas distintas. Uma campanha aérea pode durar dias; o impacto sobre preços pode estender-se por meses. Eleições legislativas não esperam estabilização geopolítica. O governante que inicia conflito precisa encerrá-lo antes que a curva de preços invada o cotidiano do eleitor combustível, supermercado, crédito.
Há ainda paradoxo adicional. A guerra preventiva busca projetar controle. Porém, ao desencadear forças regionais imprevisíveis, amplia incerteza sistêmica. Mercados detestam incerteza. A tentativa de disciplinar o adversário pode desorganizar a própria base de apoio. O gesto de força externa converte-se em vulnerabilidade interna.
Nada disso significa que cálculos estratégicos sejam inexistentes. O Irã possui capacidades que preocupam Washington e aliados. Mas, numa democracia hiperconectada, estratégia e espetáculo tornam-se indissociáveis. A ação militar precisa produzir narrativa. Sem narrativa convincente, vitória tática não se converte em ganho político.
O medo do “novo Vietnã” funciona, portanto, como limitador invisível. Ele impede mobilizações terrestres extensas, encurta horizontes estratégicos e reforça preferência por choques rápidos. Contudo, também gera dilema: guerras breves exigem objetivos modestos; transformações de regime raramente são modestas.
No fundo, o dilema é clássico: líderes buscam moldar eventos externos para estabilizar arenas internas. Mas eventos externos possuem autonomia. A política pode iniciar a guerra; não controla plenamente seus desdobramentos. Ao inverter Clausewitz, corre-se risco de esquecer que a guerra, uma vez deflagrada, escapa à coreografia eleitoral.
Entre o atoleiro e o espetáculo, a liderança caminha sobre fio estreito. Se a campanha for rápida e os mercados absorverem o choque, a imagem de comando se consolida. Se o conflito se arrastar ou o petróleo disparar, o espetáculo transforma-se em fardo. A história americana ensina que o eleitor tolera demonstrações de força; não tolera guerras sem fim.
Quando Winston Churchill chamou o Mediterrâneo de “o flácido baixo-ventre do Eixo”, não fazia apenas descrição geográfica. Enunciava uma estratégia: evitar o confronto frontal e golpear as margens vulneráveis do adversário. A pergunta que se impõe hoje é inevitável: os ataques americanos à Venezuela de Nicolás Maduro e ao Irã de Ali Khamenei podem ser lidos como algo semelhante, não apenas ações pontuais contra regimes específicos, mas golpes dirigidos às periferias da influência chinesa? A hipótese não é descabida, conforme tentarei demonstrar.
A China expandiu sua presença econômica e diplomática na América Latina e no Oriente Médio nas últimas duas décadas com notável pragmatismo. Energia venezuelana, petróleo iraniano, acordos de infraestrutura, créditos bilaterais, não se trata de alianças militares formais, mas de uma rede de dependências funcionais. Pequim não construiu um bloco ideológico; construiu corredores de fluxo. Se assim é, atacar Caracas e Teerã não seria apenas pressionar governos hostis a Washington, mas tensionar nós periféricos de uma arquitetura estratégica chinesa ainda em consolidação.
Mas aqui é preciso rigor conceitual. Nem Venezuela nem Irã são equivalentes ao “coração industrial” de uma potência rival. Não são Berlim em 1943. São, no máximo, pontos de apoio, plataformas energéticas e diplomáticas. A China não possui com eles compromissos de defesa mútua, tampouco depende existencialmente de sua sobrevivência política. O vínculo é utilitário.
É justamente isso que torna esses espaços vulneráveis. A grande potência estabelecida, os Estados Unidos, detém capacidade expedicionária global. Pode projetar força rapidamente em teatros distantes, demonstrando que nenhum alinhamento periférico está imune à sua ação. Não se trata apenas de derrubar um regime; trata-se de sinalizar que redes alternativas de poder continuam sujeitas à primazia americana.
Nesse sentido, os ataques operam como pedagogia estratégica. Mostram aos parceiros de Pequim que o custo de alinhamento pode ser elevado. Reafirmam que, apesar da retórica multipolar, a capacidade coercitiva imediata ainda pertence a Washington.
Mas há outro lado. Se fosse de fato um ataque ao “baixo-ventre” chinês, esperar-se-ia reação mais contundente de Pequim. O que se observa é contenção. Protestos diplomáticos, apelos à estabilidade, nenhuma escalada militar. Isso revela algo essencial: para a China, essas áreas são importantes, mas não vitais.
O núcleo estratégico chinês está no Indo-Pacífico. É ali que se concentra a modernização naval, a capacidade de negação de área, a pressão sobre Taiwan. É ali que Pequim aceitaria risco maior. América Latina e Oriente Médio compõem um cinturão de interesses energéticos e comerciais, não um perímetro existencial.
Essa diferença de hierarquia estratégica explica a aparente inércia chinesa. Não se trata de fraqueza, mas de seleção de prioridades. Envolver-se militarmente para defender Caracas ou Teerã significaria deslocar foco do teatro central e arriscar confronto direto com os EUA em terreno escolhido por Washington.
Há também cálculo mais sutil. Ao não reagir de forma simétrica, a China preserva sua narrativa de não-intervenção e evita legitimar a lógica de blocos militares rígidos. Enquanto os EUA operam pela projeção imediata de poder, Pequim aposta na erosão estrutural de longo prazo: comércio, infraestrutura, tecnologia, interdependência.
Isso não invalida a leitura de que Washington atua nas bordas do sistema chinês. Mas talvez o objetivo americano não seja cortar o “baixo-ventre” de um império emergente e sim lembrar ao mundo que o centro do sistema ainda possui alcance global.
Há, contudo, risco inerente nessa estratégia. Golpear periferias pode produzir instabilidade que transcende o cálculo original. Mercados energéticos reagem, alianças se reconfiguram, ressentimentos se acumulam. A demonstração de força pode reforçar a percepção, em terceiros países, de que dependem excessivamente de um sistema coercitivo.
A metáfora de Churchill ilumina, mas também engana. O Mediterrâneo era corredor logístico crucial para a Alemanha. Venezuela e Irã são peças relevantes, mas substituíveis, no tabuleiro chinês. Não são seu coração industrial nem seu flanco indefeso são extensões de uma estratégia mais ampla.
Talvez estejamos menos diante de um ataque ao “baixo-ventre” do eixo sino-periférico e mais diante de uma reafirmação da capacidade americana de agir onde quiser. Uma potência consolidada mostrando que ainda pode escolher o campo de batalha.
A questão decisiva não é se Washington atinge periferias chinesas. É se isso altera o equilíbrio estrutural de poder. Até agora, a resposta parece ser que não. A China observa, ajusta e preserva seu foco central.
No fim, o verdadeiro confronto não está em Caracas nem em Teerã. Está no Pacífico. O resto pode ser teatro estratégico, importante, ruidoso, mas não decisivo. E talvez seja essa a diferença fundamental entre um império que ainda opera globalmente e outro que ascende calculando cada movimento.