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Wellington Freire

A Figura do Pai em um poema de Roberval Pereyr

08 de Março de 2026 | 06h 07
A Figura do Pai em um poema de Roberval Pereyr

Toda biografia que se pretenda uma cartografia do espírito encontra, cedo ou tarde, a figura do pai como um acidente geográfico inevitável: uma cordilheira que define o horizonte, um rio que traça o limite entre territórios do ser. No caso de Roberval Pereyr, esse acidente é particularmente constitutivo. Manuel Alves Pereira (Seu Zinho) não é apenas um genitor; é uma categoria cosmogônica. Emerge das brumas do sertão como uma síntese viva de forças históricas: o comerciante nômade que trafega entre Arapiraca e Feira de Santana, o pecuarista que expande seu domínio territorial com a tenacidade silenciosa dos desbravadores, o delegado que encarna, na pequena comunidade das Umburanas, a própria ideia de Lei. Ele é, em essência, o self-made man sertanejo – arquétipo que migrou dos manuais de empreendedorismo norte-americano para se encarnar, com uma crueza própria, no solo árido da Bahia rural dos anos 1950. Mas como ler essa figura? Como decifrar sua presença tutelar na formação do poeta? É preciso evitarmos tanto a psicologia fácil quanto a mitificação vazia. 

A relação de Roberval com o pai é marcada por um paradoxo profundo: amor e medo, admiração e dor. O homem era simultaneamente provedor, delegado da localidade, viajante frequente, e figura moralmente complexa. Um dos episódios mais traumáticos ocorreu quando, aos seis anos, passando de caminhão pela casa de Nice, uma das  amantes do pai, o menino a xingou, ocultando a voz no ruído do motor. Dias depois, o pai o chamou cedo, mandou-o levar um recado a seu Friciano e, no retorno, aplicou-lhe castigo severo com a palmatória pesada que usava em sua função de autoridade local. Uma compreensão mais aprofundada dessa relação conflituosa talvez se encontre representada em um poema tardio que Pereyr dedicou a seu pai:

DIÁLOGO

Estou agora diante do meu pai.
Ele me olha, com seu rosto fundo
querendo anunciar a sua ausência
de logo mais, quando deixar o mundo.
Ele me olha e parece compreender:
seu olhar - tão fixo e persistente -
imprime no meu ser ternura imensa.
E entre a meia sombra e a meia luz,
sua imagem (imóvel, calma, densa)
emerge tão serena e tão madura
que posso adivinhar o que ele pensa.

O poema “Diálogo”, escrito por Pereyr para o pai, realiza uma operação rara e profunda: transforma a despedida em revelação. À primeira vista, trata-se de um registro íntimo de um filho diante do pai idoso, prestes a morrer. Mas o poema, em sua contenção e depuração extrema, é mais do que isso: ele firma um pacto tardio, um encontro que levou décadas para se consumar e que só se tornou possível à beira da extinção do corpo paterno. A palavra “diálogo”, paradoxalmente, denomina um texto onde não há fala; o encontro acontece pelo olhar, pela suspensão, pela claridade rarefeita que antecede a ausência definitiva. Logo no início, o eu lírico situa o leitor na gravidade do instante: “Estou agora diante do meu pai.” A força de “agora” institui um tempo fora do fluxo habitual; é o agora ritual, aquele que se abre quando o mundo se estreita e os vínculos essenciais emergem com nitidez repentina. O pai aparece com “seu rosto fundo”, expressão que concentra tanto o desgaste da idade quanto a profundidade simbólica de uma vida inteira que se condensa no semblante. Ele parece “querer anunciar a sua ausência de logo mais”, mas o anúncio não se faz em palavras: faz-se pela própria presença que já carrega o sinal de sua dissolução. A morte não é o tema, mas o horizonte inevitável onde a reconciliação se tornará possível.

O centro emocional do poema está concentrado no olhar do pai. Pereyr escreve: “Ele me olha e parece compreender.” É uma frase que, num só gesto, corrige décadas de incompreensões. A palavra “parece” carrega a delicadeza do instante: não afirma, não impõe, não reivindica, apenas percebe. O olhar é “fixo e persistente”, mas sua persistência não é autoritária; é a insistência silenciosa de quem, já sem força para qualquer gesto, encontra no olhar a última forma de dar-se. Esse olhar “imprime no meu ser ternura imensa”, diz o poeta. É significativo que a ternura venha não de um toque ou de uma palavra, mas de um olhar que nunca antes fora assim percebido. A ternura, que faltou à infância, surge agora como herança final, como reconhecimento mútuo que só a proximidade da morte permite depurar. A cena descrita se passa “entre a meia sombra e a meia luz”, imagem que, mais do que situar um ambiente físico, traduz um estado espiritual. A meia luz é o território intermediário entre o que ainda é e o que já deixa de ser. É o espaço onde o pai, outrora figura de força e autoridade, emerge “imóvel, calma, densa”. A tríade é de grande precisão: a imobilidade resulta da fragilidade, mas também da paz; a calma é a serenidade de quem não precisa mais impor nada; a densidade provém de tudo o que não pôde ser dito e, finalmente, se oferece sem palavra. Assim, a imagem do pai se torna “serena e madura”, e é justamente essa maturidade, que é, ao mesmo tempo, maturidade do filho, que torna possível “adivinhar o que ele pensa”.

Esse “adivinhar” é um dos verbos mais decisivos do poema. Não é decifrar, interpretar ou concluir; é sentir de dentro, acolher sem perguntas, intuir sem exigir clareza. A vida inteira da relação entre pai e filho talvez tenha sido marcada por opacidades, distâncias, ambiguidades emocionais e silêncios espessos. O poema, porém, nos mostra que a verdadeira comunicação só se torna possível quando ambos se encontram num campo onde a linguagem humana se desfaz e onde resta apenas a presença. Para Pereyr, que conviveu com a figura totêmica, temida e moralmente enigmática do pai, delegado das Umburanas, distribuidor de castigos, homem público e privado de arestas duras, esse momento final é a reconfiguração completa da figura paterna: o pai deixa de ser mito, deixa de ser sombra, e torna-se, enfim, homem. O poema é, portanto, muito mais que homenagem. 

Diálogo, assim, é menos um poema e mais um rito. Nele, o pai, já à beira da morte, devolve ao filho aquilo que a vida inteira reteve sem saber: a ternura. E o filho devolve ao pai aquilo que, talvez, nunca conseguira oferecer: a compreensão. A morte não apaga o passado, mas abre o espaço de onde ele pode ser visto com uma clareza nova. O encontro final torna-se, paradoxalmente, o encontro inaugural; aquilo que faltou ao menino é dado ao adulto; aquilo que não coube na vida se realiza na despedida. E, nesse sentido, Diálogo não é um poema sobre o fim, mas sobre o recomeço interior que só ocorre quando o outro,  pai, herói, sombra, se revela, enfim, como presença plena. Trata-se, afinal, de um poema que encerra e começa, que doa e recebe, que fecha e abre. Um poema em que o pai morre e, ao mesmo tempo, nasce para o filho como figura finalmente compreensível. E é esse duplo movimento, de despedida e revelação, que faz de Diálogo um dos gestos mais profundos e humanos da obra e da vida de Roberval Pereyr.



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