O envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford ao entorno do Irã,
enquanto a ajuda direta americana à Ucrânia é drasticamente reduzida, não
constitui mera coincidência conjuntural. Trata-se de um mesmo movimento
estratégico observado a partir de dois teatros distintos. A chave
interpretativa não está na soma dos episódios, mas na leitura sistêmica:
contenção simultânea da Rússia e do Irã, sinalização indireta à China e gestão
calculada dos limites materiais do poder americano.
A tradição estratégica dos Estados Unidos sempre oscilou
entre a concentração decisiva de forças e a dispersão preventiva. Durante a
Guerra Fria, a contenção de George Kennan operava sobre o pressuposto de que o
tempo favoreceria o bloco ocidental. Hoje, a lógica parece invertida:
Washington busca impedir que seus adversários consolidem ganhos regionais
enquanto redistribui os custos da ordem. No Leste Europeu, transfere a conta à
Europa; no Oriente Médio, reafirma a presença naval como instrumento de
coerção.
A simultaneidade dos movimentos é reveladora. A pressão sobre
Moscou continua, mas sem o protagonismo financeiro anterior. Ao mesmo tempo, a
demonstração de força contra Teerã cria uma arquitetura de dissuasão que
dialoga com Pequim. O cálculo é duplo: manter o equilíbrio na Eurásia sem
deslocar integralmente o eixo estratégico para o Indo-Pacífico. Não é
coincidência que, dos 11 grupos de porta-aviões americanos, apenas quatro
estejam no mar, um dado que revela não apenas prudência operacional, mas limite
estrutural.
Aqui emerge a pertinência da tese de Paul Kennedy sobre a
“sobre-extensão imperial”. Em Ascensão e Queda das Grandes Potências,
Kennedy advertia que impérios declinam quando compromissos estratégicos superam
capacidades econômicas. A história militar oferece paralelos eloquentes: a
Espanha dos Habsburgos sustentando guerras simultâneas em Flandres e no
Mediterrâneo; a Grã-Bretanha do início do século XX administrando o peso de sua
marinha global; a Alemanha hitlerista abrindo frentes demais antes de
consolidar vitórias decisivas. Em todos os casos, a geografia do poder superou
sua base material.
Os Estados Unidos parecem conscientes desse risco. Em vez de
ampliar frentes, procuram modular custos. O conflito ucraniano ilustra essa
transição. Se, nos três primeiros anos de guerra, Washington rivalizou com os
europeus no volume de assistência militar, a inflexão recente indica mudança de
paradigma: manter influência sem arcar com a maior parte da despesa. A guerra
torna-se, assim, progressivamente financeirizada. Países europeus compram
armamentos americanos para repassá-los a Kiev, convertendo solidariedade
estratégica em fluxo industrial transatlântico.
No Oriente Médio, a lógica é distinta, mas complementar. O
Irã aposta na dissuasão indireta, milícias, drones, pressão assimétrica, e no
desgaste político do adversário. Trata-se de uma estratégia antiga: evitar o
confronto frontal e prolongar o tempo até que o custo político da coerção se
torne insustentável. A Rússia, por sua vez, joga no cansaço europeu, confiando
que a fadiga econômica e social corroa o consenso ocidental. Em ambos os casos,
o tempo é arma estratégica.
A pergunta que se impõe é se ingressamos numa era de guerras
prolongadas nas quais a vitória tática importa menos que a sustentabilidade
econômica. Clausewitz via a guerra como continuação da política por outros
meios; no século XXI, ela pode estar se convertendo em continuação da economia
por meios armados. O objetivo deixa de ser a capitulação do inimigo e passa a
ser sua exaustão fiscal e psicológica.
A experiência histórica sugere cautela. Guerras longas tendem
a produzir efeitos imprevistos: radicalização interna, rupturas de alianças,
inovação tecnológica acelerada. A Primeira Guerra Mundial começou sob
expectativas de campanha breve; tornou-se laboratório de desgaste industrial. A
Guerra Fria, concebida como confronto ideológico, transformou-se em disputa
econômica sistêmica. O padrão recorrente é claro: quando a guerra se prolonga,
ela redefine a própria ordem que buscava preservar.
No presente, a contenção simultânea na Eurásia e a
redistribuição de custos indicam que Washington tenta evitar o destino clássico
da sobre-extensão. Mas o equilíbrio é delicado. Se a Europa não sustentar o
esforço ucraniano, Moscou colherá dividendos estratégicos. Se a coerção naval
no Golfo Pérsico escalar, os custos militares podem crescer rapidamente. E se a
China interpretar a dispersão americana como oportunidade, o cálculo global se
alterará.
Entre Teerã e Kiev, desenha-se um mesmo dilema: como manter a
primazia sem assumir integralmente seu preço? A hegemonia contemporânea já não
se mede apenas em divisões ou tonelagem naval, mas na capacidade de financiar
conflitos prolongados sem comprometer a própria coesão interna. Se a história
militar ensina algo, é que o poder não declina apenas por derrota, declina
quando a equação entre ambição e recursos deixa de fechar.?
Nessa sequência de artigos que tenho publicado neste órgão
informativo, apenas esboço temas. A quem deseja um aprofundamento seguem duas
obras fundamentais: CLAUSEWITZ, Carl Von. Da
Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010; KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências.
Campinas: Campus Editora, 1998.
O anúncio, feito ontem, de uma nova missão da Otan no Ártico, com foco na Groenlândia, poderia ser lido como mais um capítulo previsível da rivalidade com Rússia e China. Mas essa leitura é insuficiente e confortável demais. O dado verdadeiramente novo não é a presença militar ocidental no extremo Norte, mas o fato de que ela surge como resposta indireta à ameaça de um aliado: os Estados Unidos.
Quando Donald Trump sugere, ainda que em tom mitigado, a
anexação da Groenlândia por razões de “segurança nacional”, ele rompe um dos
tabus centrais do pós-1945: o de que as fronteiras no interior do bloco
ocidental são intocáveis. A reação da Otan, coordenação, vigilância, comando
integrado, funciona menos como dissuasão externa e mais como mecanismo de
contenção interna. A aliança passa a operar não apenas contra inimigos
declarados, mas contra a instabilidade produzida por sua própria potência
hegemônica.
Há um precedente histórico que ilumina esse momento: o Alasca
durante a Guerra Fria. Incorporado aos Estados Unidos em 1959, o território
tornou-se rapidamente peça-chave do sistema de alerta antecipado contra mísseis
soviéticos. Radares, bases aéreas e sensores transformaram um espaço remoto em
nervo vital da dissuasão nuclear. A Groenlândia cumpre função análoga desde os
anos 1950, com a base de Thule, mas com uma diferença crucial: ela não pertence
aos EUA. E é justamente essa diferença que agora gera fricção.
A Crise dos Mísseis de 1962 também oferece uma chave
interpretativa. Naquele episódio, o mundo chegou à beira da guerra nuclear não
por uma invasão clássica, mas pela instalação de meios de vigilância e ataque
em um espaço considerado sensível demais para ser controlado pelo adversário.
Hoje, o Ártico reaparece como esse espaço liminar: não plenamente ocupado, não
plenamente regulado, mas decisivo para a arquitetura estratégica global. Quem
controla o Ártico vê antes, reage antes e, portanto, dissuade melhor.
A missão anunciada pela Otan revela ainda outra transformação
histórica: a passagem da ocupação territorial para a dominação informacional.
Pouco se fala em grandes contingentes. Fala-se em drones, aeronaves, sensores, comando unificado. A guerra
contemporânea, como já intuía Paul Virilio, não se trava apenas no espaço, mas
na velocidade da percepção. Ver primeiro é quase tão decisivo quanto atirar
primeiro.
Nesse contexto, a Groenlândia deixa de ser periferia e
torna-se centro. O degelo abre rotas marítimas, expõe recursos minerais e
encurta distâncias estratégicas entre América do Norte, Europa e Ásia. O que
era margem geográfica vira eixo geopolítico. Não por acaso, Rússia e China
ampliam sua presença na região e não por acaso, Washington reage de forma cada
vez mais direta.
O paradoxo é evidente: a Otan tenta preservar a estabilidade
de uma ordem internacional que seu principal fiador parece disposto a corroer.
Ao responder à retórica expansionista americana com mais institucionalização e
coordenação, a aliança atua como amortecedor de um sistema em fadiga. Trata-se
menos de preparar uma guerra iminente e mais de administrar um risco difuso: o
da normalização do uso da força como linguagem política entre aliados.
No século XX, o gelo do Ártico funcionava como barreira
natural e estratégica. No século XXI, seu derretimento expõe não apenas novas
rotas e ameaças, mas as fissuras profundas da ordem liberal. Quando o gelo
derrete, o que vem à tona não é apenas água, é a verdade incômoda de que a
estabilidade internacional depende, cada vez mais, de conter os impulsos
daqueles que juraram defendê-la.
A analogia entre Donald Trump e o Kaiser Guilherme II da Alemanha, não é um recurso retórico fácil nem uma provocação superficial. Trata-se de um paralelo historicamente defensável, sustentado por uma mesma gramática psicológica do poder: a do líder narcisista, impulsivo e histriônico, que converte a política, interna e externa, em extensão de seus desequilíbrios emocionais. Ambos pertencem a uma tipologia recorrente da história: a do governante que não administra o Estado, mas reage ao mundo.
Guilherme II não governava; explodia. Trump tampouco governa; encena. O Kaiser alemão era dominado por vaidade crônica, necessidade obsessiva de afirmação e incapacidade estrutural de autocontenção. Sua política externa foi marcada por bravatas, discursos contraditórios e gestos agressivos improvisados, que refletiam menos interesses estratégicos do Reich do que o temperamento volátil do monarca. Trump reproduz esse padrão com notável fidelidade: ataques infantis a aliados, desprezo pelas alianças tradicionais, idolatria por autocratas e uso constante da ameaça como linguagem política primária.
A crise de Agadir, em 1911, oferece um exemplo quase clínico dessa lógica. O envio do navio de guerra Panther à costa marroquina não respondia a qualquer ameaça concreta a interesses alemães. Foi um gesto teatral, concebido para intimidar França e Reino Unido e, sobretudo, para alimentar a autoimagem de firmeza do Kaiser. Tratou-se menos de diplomacia e mais de encenação: um ato de força vazio, guiado pela emoção e pelo medo patológico de parecer fraco. O resultado foi previsível, isolamento diplomático, fortalecimento da Entente e a consolidação da imagem da Alemanha como potência instável e perigosa.
Trump opera sob lógica semelhante. Sua política externa não é orientada por cálculo racional, mas por impulsos de afirmação pessoal. A agressividade não é instrumento estratégico; é compensação psicológica. Como Guilherme II, Trump confunde respeito com temor, liderança com intimidação, previsibilidade com fraqueza. Em ambos, o mundo exterior funciona como espelho narcísico: parceiros devem submeter-se, adversários devem ser humilhados, e qualquer resistência é vivida como afronta pessoal.
No plano interno, o paralelo torna-se ainda mais inquietante. Guilherme II não aboliu formalmente as instituições do Reich, mas esvaziou-as politicamente, cercando-se de bajuladores e subordinando decisões de Estado a humores pessoais. Trump seguiu o mesmo roteiro: não rasgou a Constituição americana, mas corroeu sua substância ao desacreditar eleições, atacar sistematicamente a imprensa, instrumentalizar o Judiciário e estimular a deslegitimação do próprio processo democrático.
O traço decisivo aqui é psicológico: a incapacidade de aceitar limites. Guilherme II acreditava ser escolhido pela História; Trump acredita ser perseguido por ela. Um se via como imperador messiânico; o outro como salvador injustiçado. Ambos, porém, reagem da mesma forma quando contrariados: escalada, agressão, negação da realidade. O erro jamais é admitido; o recuo é vivido como humilhação intolerável.
O colapso do equilíbrio europeu anterior a 1914 não pode ser explicado apenas por estruturas geopolíticas: a personalidade de Guilherme II foi fator ativo de desestabilização. Da mesma forma, a atual corrosão da democracia americana não é apenas sistêmica. Ela tem rosto, voz e temperamento. O trumpismo não é um acidente, mas a manifestação política de um narcisismo autoritário que prospera em ambientes de polarização, ressentimento e espetáculo midiático.
Guilherme II terminou seus dias no exílio, irrelevante e amargurado, observando a ruína da ordem que ajudou a incendiar. Trump permanece como advertência histórica em tempo real: democracias não colapsam apenas por conspirações silenciosas, mas também sob os aplausos ruidosos de líderes emocionalmente descontrolados, que transformam o poder em palco e o Estado em extensão de seus distúrbios de personalidade.
Os grandes exércitos do mundo contemporâneo são produtos de uma longa tradição histórica que associa vitória militar à superioridade técnica, à disciplina organizacional e à capacidade de impor uma derrota decisiva ao inimigo no campo de batalha. Essa concepção, herdada do chamado modo ocidental de guerrear, pressupõe que a guerra seja um instrumento racional a serviço de objetivos políticos claramente definidos e que seu desfecho se dê pela aniquilação, ou ao menos pela neutralização, da força armada adversária. O problema surge quando esse modelo é empregado contra inimigos que se recusam a jogar segundo tais regras.
A atual guerra em Gaza ilustra com rara nitidez essa
dissonância estrutural. De um lado, as Forças de Defesa de Israel (FDI), um dos
exércitos mais tecnologicamente sofisticados do planeta, dotado de
superioridade aérea, inteligência em tempo real, poder de fogo preciso e uma
cadeia de comando altamente profissionalizada. Do outro, os combatentes do
Hamas, organizados segundo princípios clássicos da guerra irregular:
fragmentação, mobilidade, ocultação no terreno humano e recusa sistemática ao
combate decisivo.
Não se trata, portanto, de uma assimetria meramente material,
mas de um choque entre concepções incompatíveis de guerra. O Hamas não busca
derrotar militarmente Israel no sentido clausewitziano do termo. Seu objetivo
não é a conquista de terreno, a destruição das forças inimigas ou a imposição
de uma capitulação formal. Sua estratégia repousa na sobrevivência, no desgaste
prolongado e na capacidade de transformar o tempo em arma política. Cada dia
adicional de combate, cada operação inconclusiva, cada baixa civil amplificada
no plano simbólico representa, para a lógica da guerra irregular, um ganho
estratégico.
Esse padrão não é novo. Ele se insere numa linhagem histórica
que remonta às guerras tribais, às insurgências coloniais e às lutas de
libertação nacional do século XX. Exércitos regulares, moldados para vencer
batalhas, tendem a fracassar quando confrontados com inimigos que não oferecem batalhas.
A busca obsessiva pela decisão, núcleo duro da tradição militar ocidental,
torna-se um fardo quando o adversário faz da evasão e da fluidez o seu
princípio operacional fundamental.
O caso iraniano aprofunda essa lógica em escala regional.
Desde a Revolução de 1979, o Irã desenvolveu um sofisticado sistema de projeção
de poder indireto baseado em milícias, forças paramilitares e atores não
estatais aliados. Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque, Houthis no
Iêmen e o próprio Hamas em Gaza integram um ecossistema estratégico que permite
a Teerã confrontar adversários muito mais poderosos sem jamais recorrer a um
embate convencional direto. Trata-se de uma arquitetura de guerra irregular
deliberadamente pensada para neutralizar as vantagens tecnológicas do inimigo e
diluir a responsabilidade política do confronto.
Nesse modelo, a simplicidade é uma virtude. Túneis, foguetes
artesanais, células autônomas e comando descentralizado mostram-se capazes de
desorganizar sistemas militares cuja eficácia depende da integração perfeita
entre informação, logística e poder de fogo. Quanto mais complexo o aparato
bélico, maior sua vulnerabilidade a inimigos que operam fora de seus parâmetros
normativos.
A dificuldade dos exércitos modernos em vencer guerras “simples”
decorre, assim, menos de falhas táticas do que de um erro conceitual. Não se
pode derrotar decisivamente um inimigo que não reconhece a validade da decisão.
Em guerras desse tipo, sobreviver já é vencer; persistir é impor derrota moral
e política ao adversário. Gaza, como tantas outras antes dela, não é apenas um
campo de batalha, é um lembrete incômodo de que a história militar não premia
necessariamente os mais fortes, mas os mais adaptáveis.
Ao leitor interessado em aprofundar o debate, remeto a:
Hanson, Davis. Porque o Ocidente Venceu:
mortandade e cultura. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
A história raramente repete seus cenários, mas insiste em preservar suas lógicas. Mudam os territórios, os recursos e as tecnologias; permanece, quase intacta, a gramática do poder. A comparação entre a Guatemala de 1954 e a Groenlândia do século XXI revela essa continuidade incômoda. O que separa uma república centro-americana dominada por uma empresa bananeira de uma ilha ártica coberta por gelo não é a natureza do conflito, mas apenas o recurso estratégico em disputa.
Na Guatemala, a soberania foi corroída não por uma invasão formal, mas pela atuação de uma corporação privada convertida em infraestrutura estratégica informal: a United Fruit Company. Seus portos, ferrovias, plantações e canais de influência política constituíam uma verdadeira rede logística, essencial não apenas à economia local, mas aos interesses estratégicos dos Estados Unidos no hemisfério. Quando o governo de Jacobo Árbenz ameaçou esse sistema por meio da reforma agrária, a disputa econômica foi rapidamente transfigurada em ameaça existencial.
Carl von Clausewitz ajuda a compreender esse mecanismo. Para ele, a guerra não é um fim em si mesma, mas a continuação da política por outros meios. Em 1954, esses “outros meios” não exigiram divisões blindadas ou ocupação territorial: bastaram operações psicológicas, pressão diplomática, demonstrações navais e a construção de uma narrativa de cerco. O essencial não era conquistar a Guatemala, mas impedir que ela escapasse à órbita estratégica americana.
Sete décadas depois, a Groenlândia ocupa papel análogo, embora em escala geopolítica ampliada. Se na Guerra Fria tropical o ativo central eram bananas, terras e portos, hoje são minerais críticos, rotas marítimas emergentes e posição geográfica absoluta. A ilha não é apenas um território remoto: é um ponto-chave entre América do Norte, Europa e Rússia, fundamental para sistemas de alerta antecipado e defesa antimísseis. Na linguagem da estratégia clássica, trata-se de terreno decisivo.
Aqui, Alfred Thayer Mahan torna-se indispensável. Ao defender que o controle das rotas marítimas é a base do poder global, Mahan antecipou um mundo em que gargalos oceânicos e pontos de passagem definiriam hierarquias internacionais. A Groenlândia, situada no coração do Atlântico Norte e próxima à Lacuna GIUK ( a Lacuna GIUK é o estreito invisível por onde passa a dissuasão nuclear do Atlântico Norte), encaixa-se perfeitamente nessa lógica. Onde passam navios e submarinos, passa também a dissuasão e, com ela, o imperativo do controle.
Mas a Groenlândia não é apenas mar. É também terra. E nisso ecoa Halford Mackinder. Seu famoso conceito de “pivô geográfico da história” alertava que determinadas regiões, pela combinação de posição, recursos e acesso, condicionam o equilíbrio global. No século XXI, o degelo transforma o Ártico em um novo pivô móvel, onde fronteiras antes congeladas se tornam transitáveis. Controlar a Groenlândia significa influenciar esse novo centro de gravidade estratégico antes que ele se consolide plenamente.
A diferença entre Guatemala e Groenlândia está menos no método do que na transparência. Em 1954, o poder americano agia por intermediação: empresas, serviços secretos, forças locais. Hoje, age por meio de doutrina declarada. A lógica que antes se ocultava sob o anticomunismo agora se apresenta como segurança nacional explícita. Do lobby empresarial silencioso passou-se à ameaça pública; da rádio clandestina, à coerção visual permanente.
Ainda assim, o padrão permanece reconhecível para qualquer leitor de História Militar. Trata-se de uma estratégia de coerção contínua, na qual a guerra raramente se materializa, mas nunca deixa de ser insinuada. O míssil substituiu a banana porque a economia global substituiu o mundo agrário pelo industrial-tecnológico; porque terras-raras valem mais que plantações; porque a dissuasão nuclear exige posições fixas, não mercados instáveis. Mas o gesto é o mesmo: elevar um recurso à condição de vital e, com isso, relativizar a soberania de quem o controla.
A Guatemala oferece, contudo, uma advertência que a teoria estratégica muitas vezes ignora. A intervenção bem-sucedida no curto prazo produziu instabilidade duradoura. O vazio político aberto em 1954 gerou décadas de violência, migração e criminalidade, ameaças mais profundas do que aquelas que se pretendia evitar. Clausewitz lembrava que a guerra nunca é um ato isolado; ela gera consequências que escapam ao cálculo inicial.
Entre bananas e mísseis, o que atravessa o tempo não é o objeto da disputa, mas a estrutura do poder. Quando um recurso é definido como indispensável, a soberania torna-se negociável. O século XXI apenas deslocou o palco da selva ao gelo. A gramática estratégica, essa, permanece intacta.
Nota: a quem deseja aprofundar os temas aqui esboçados recomendo: Clausewitz, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes: 2010; Aron, Raymond. A Paz e a Guerra entre As Nações. Brasília: UNB, 2002.