Há uma geografia silenciosa que poucos leem. Ela não está nas manchetes sobre tensões no Oriente Médio, nem nos debates sobre ogivas nucleares na Europa. Está gravada em mapas, placas e relatórios oficiais, disfarçada de mera informação logística. Refiro-me aos nomes das bases militares que os Estados Unidos espalham pelo mundo, 128 delas, em 51 países, segundo o levantamento mais recente do Congresso norte-americano. Al Udeid, Ramstein, Thule, Incirlik, Camp Bondsteel. O que esses nomes dizem? Muito mais do que supomos.
A toponímia militar é um gênero textual negligenciado. Como todo ato de nomear, ela revela relações de poder, narrativas de pertencimento e, não raro, um profundo estranhamento entre o nomeador e o território nomeado. Quando o Pentágono batiza uma instalação no deserto do Catar com o nome local Al Udeid, que designa a própria região onde a base se ergue, está operando uma estratégia de mimese: o nome árabe confere à presença estrangeira uma falsa aura de enraizamento, como se aquelas pistas de pouso e hangares sempre tivessem feito parte da paisagem. É a violência simbólica disfarçada de respeito toponímico.
Ramstein, na Alemanha, conta outra história. O nome vem da localidade renana onde a base foi construída, mas carrega camadas de significado que transcendem a geografia. Para os alemães, Ramstein evoca o desastre aéreo de 1988, quando um show aéreo terminou em tragédia com 70 mortos. Para os americanos, é sinônimo de comando e projeção de poder, a sede da Força Aérea dos EUA na Europa. O mesmo nome, dois mundos de significado. É o que Mikhail Bakhtin chamaria de heteroglossia: a palavra habitada por múltiplas vozes, muitas vezes conflitantes.
Thule talvez seja o caso mais fascinante. A base na Groenlândia, território autônomo dinamarquês que Donald Trump, não por acaso, tentou comprar, carrega um nome que remete à mitologia grega e medieval. Thule era, para os antigos, a terra mais setentrional, o limite do mundo conhecido. Ao batizar assim a instalação no Ártico, os americanos inscrevem sua presença numa linhagem mítica de exploração e conquista dos confins da Terra. É como se dissessem: aqui, onde o mundo acaba, começa o Império.
Há também os nomes que celebram heróis americanos em solo estrangeiro. A Base Aérea de Incirlik, na Turquia, homenageia um piloto turco? Não. "Incirlik" significa "figueira" em turco, mas a base abriga nomes de ruas e instalações internas que reverenciam figuras como o general Billy Mitchell, pioneiro da aviação militar. É a toponímia imperial em camadas: o nome local na fachada, a memória americana nos corredores.
Camp Bondsteel, no Kosovo, leva o nome de um sargento condecorado postumamente, mas para os sérvios locais a base permanece um símbolo de ocupação. O nome do herói americano soa, para ouvidos balcânicos, como lembrança da OTAN que bombardeou Belgrado em 1999. Novamente, o estranhamento: o que é homenagem para uns, é afronta para outros.
A literatura de guerra nos ajuda a ler esses nomes com outros olhos. Quando Michael Herr, em "Despachos do front", descreve as bases americanas no Vietnã, ele as retrata como bolhas flutuantes de americanidade em meio à paisagem hostil. Os nomes que os soldados davam aos locais, "Dogpatch", "The Rockpile", revelavam uma tentativa desesperada de domesticar o inóspito. As bases oficiais, com seus nomes burocráticos ou transliterações locais, operavam em registro oposto: impor ordem e permanência onde tudo era provisório e caótico.
Há ainda os nomes que mudam com o tempo, revelando mutações geopolíticas. A Base de Dhahran, na Arábia Saudita, foi palco da presença americana durante a Guerra do Golfo, mas os sauditas, pressionados por facções internas, pediram a retirada das tropas em 2003. O nome da base permanece nos registros históricos, mas sua sonoridade evoca agora um capítulo encerrado, ou temporariamente suspenso, das relações bilaterais.
O que a toponímia militar americana revela, em última análise, é a tensão insolúvel entre permanência e transitoriedade. As bases são concebidas como estruturas duráveis, mas sua presença em solo estrangeiro é sempre contingente, sempre negociada. Os nomes tentam fixar no território aquilo que a geopolítica constantemente desloca. São âncoras simbólicas num mundo de areias movediças.
Para os países anfitriões, esses nomes funcionam como lembretes diários de uma soberania partilhada ou violada. Para os soldados americanos, são endereços temporários que nunca se tornam realmente "lar". E para o observador atento, são textos culturais que, uma vez decifrados, revelam as camadas de significado que a linguagem burocrática da defesa insiste em ocultar.
Numa época em que a guerra se torna cada vez mais abstrata, travada por drones controlados a milhares de quilômetros de distância, os nomes das bases militares nos lembram que o poder ainda precisa de chão. Precisa de lugares. Precisa de palavras que os designem. E essas palavras, longe de serem neutras, carregam consigo séculos de conquista, resistência e negociação silenciosa.
Ler os mapas militares com olhos de crítico literário é, portanto, um ato de resistência intelectual. É recusar a transparência da informação geográfica e insistir na opacidade do simbólico. É perguntar, diante de cada nome: quem nomeou? Por quê? O que esse nome silencia? Que outras línguas foram apagadas para que este nome pudesse surgir?
Al Udeid, Ramstein, Thule. Palavras que designam bases, mas que também são bases fundamentos sobre os quais se ergue o discurso do poder americano. Cabe a nós, leitores do mundo, desmontá-las palavra por palavra, sílaba por sílaba, até que revelem aquilo que sempre esconderam: que por trás de cada nome há uma história de violência e negociação, de pertencimento negado e estranhamento imposto. E que, no final, as bases são feitas não apenas de concreto e aço, mas de linguagem, essa matéria tão frágil quanto as areias do deserto onde Al Udeid se ergue, esperando, talvez, o dia em que o vento da história leve embora não apenas as tendas, mas também os nomes.
Nota: ao longo do texto fiz uma citação: Herr, Michael. Despachos do Front. São Paulo: Editora Planeta, 2006
A obra do poeta baiano Fabrício Oliveira, ainda em processo de consolidação editorial, já se configura como um dos empreendimentos poéticos mais coerentes, orgânicos e ambiciosos da literatura baiana contemporânea. Desde Gramática das Pedras e Viração - os primeiros livros de um ciclo sertanejo - até Corações Arenosos, passando pela inflexão urbana de Noite Obscena e chegando ao romance poético ainda inédito A Mortalha das Águas, observa-se a persistência de uma instância enunciadora singular, cujas características a afastam das tipologias tradicionais do sujeito lírico regionalista ou urbano.
O que se vê no conjunto da obra do poeta em questão é a presença de um “eu” dotado de uma natureza anômala: uma presença que atravessa tempos, geografias e gêneros discursivos, deslocando-se com a liberdade errática de uma entidade não inteiramente humana. Uma entidade espectral que se desloca ao longo dos livros e que atua como uma espécie de testemunha silenciosa e inoperante. Esse sujeito não é apenas uma voz: é um fenômeno estético. Em sua trajetória textual, assume contornos espectrais, pairando sobre o vilarejo de Viração - cenário mítico em que se desenvolve grande parte da trilogia sertaneja - e sobre as cidades devastadas que surgem em Noite Obscena, até penetrar nas águas densas e fabulosas do romance poético A Mortalha das Águas. A despeito dessas mudanças espaciais e genéricas, permanece uma mesma consciência: silenciosa, vigilante, dotada de memória absoluta e incapaz de interferir nos acontecimentos que observa.
O que se evidencia é uma estranha combinação de onisciência e impotência, como se esse eu fosse simultaneamente arauto, sobrevivente e fantasma. A postura do narrador lembra a frieza documental de veteranos de guerra: alguém incapaz de intervir, obrigado a relatar o horror. A linguagem é construída como se fosse um relatório militar dos infortúnios da aldeia de Viração.
A hipótese que orienta este artigo é que tal instância narrativa compõe uma figura de herói trágico moderno, ou um aedo/espectro, cujos atributos dialogam com o imaginário da epopeia clássica, em especial com a figura de Eneias, mas cuja condição é radicalmente destituída de finalidade heroica ou fundadora. Se o herói de Virgílio carrega os mortos de Troia para assegurar o nascimento de Roma, o eu na obra de Fabrício Oliveira carrega os mortos da aldeia de Viração e das periferias urbanas sem qualquer promessa de redenção ou de futuro. Ele é condenado não à construção de uma cidade, mas à travessia infinita de uma memória coletiva dilacerada. Sua missão é a anti-missão; sua aventura, uma anti-epopeia que se espraia por toda uma obra.
Assim, o que se revela ao longo dos livros é uma monumental narrativa de sobrevivência espectral, na qual o protagonista se define por sua capacidade de ver e por sua incapacidade constitutiva de agir: ele apenas observa, rememora, evoca, narra mas se vê incapaz - ou destituído de meios - de interferir. Ao longo das obras, o eu espectral parece reunir traços de um ancestral mítico, de um psicopompo rural, de um relicário humano das tragédias alheias e de um narrador pós-moderno cuja identidade se estilhaça na experiência do trauma. Ele observa a morte de Lió Capado, o assassinato de Manuelzinho, a solidão de Seu Dimiro, osdramas da parteira que perde todos os bebês que tenta trazer ao mundo, os desastres naturais, os abortos, os suicídios urbanos, as violências anônimas das ruas, e jamais intervém. Sua frieza discursiva, que frequentemente lembra o relatório militar, a nota de campo etnográfica ou o laudo clínico, reforça sua condição de espectro: alguém que vê o horror demasiadamente de perto e que, por isso, teve suas afetividades amputadas.
Nesse sentido, este artigo propõe uma leitura que integra as diversas fases da obra de Fabrício Oliveira como partes de um único ciclo trágico-poético, sustentado pela presença constante desse eu deslocado. A trilogia sertaneja constrói o espaço mítico originário e a genealogia da dor; Cartas Manchadas desloca o espectro para a cidade, revelando que sua danação ultrapassa a geografia do sertão; A Mortalha das Águas leva esse processo ao limite ao inserir o mesmo narrador num romance poético que amplia sua interioridade e transforma sua voz em fluxo contínuo de espectralidade.
O herói espectral na obra de Fabrício Oliveira é, em última instância, um sobrevivente condenado a guardar a memória de um povo, de um território e de uma história que lhe atravessa o corpo e o dissolve. Sua travessia, longe de fundar uma nova ordem, revela a impossibilidade da esperança, o que o aproxima, paradoxalmente, tanto de Eneias quanto das figuras trágicas mais sombrias da antiguidade. A obra de Fabrício Oliveira compõe uma das mais potentes construções contemporâneas do herói trágico brasileiro, um herói sem glória, fadado não ao triunfo, mas à memória.
O espectro é a figura que guarda aquilo que a comunidade não pode elaborar: violência estrutural, lutos não resolvidos, perdas repetidas, traumas coletivos. Ele não fala em seu próprio nome, ele fala no lugar do que foi silenciado. Essa figura se reconhece por traços persistentes: impotência de agir, onisciência limitada pelo luto, frieza discursiva como mecanismo de sobrevivência,trânsito entre tempos, função de guardião do que resta. O eu espectral de Fabrício Oliveira se inscreve exatamente nessa linhagem: testemunha a tragédia dos outros, recolhe retalhos de vidas destruídas, e permanece condenado a narrá-los sem se manifestar emocionalmente.
É aqui que surge a categoria dos heróis falidos, isto é, dos personagens cuja missão é preservar ou reviver tradições irremediavelmente destruídas. Sua grandeza é inseparável de sua falência. Eles são jardineiros de desertos, cultivando símbolos que secaram antes mesmo de sua chegada. Sua dignidade está no gesto, não no resultado. Essa lógica ecoa de maneira surpreendente na obra de Fabrício Oliveira: o eu que percorre seus livros não luta pela restauração de um mundo sertanejo ideal; ao contrário, guarda a memória de um serrilhado de tragédias. Ele é guardião de uma tradição que não floresceu, de uma comunidade que se esfacela, de uma terra que produz mais cadáveres que colheitas
Há diagnósticos que valem mais pelo que silenciam do que pelo que dizem. Ao reconhecer que o Brasil não dispõe de defesa antiaérea capaz de produzir dissuasão credível diante de uma potência tecnológica - conforme divulgado ontem pelo jornal folha de São Paulo -, as Forças Armadas tocaram no nervo exposto da estratégia contemporânea: quem controla o ar controla o teatro de operações e, cada vez mais, controla também o ritmo político da crise.
A guerra moderna deixou de ser, há décadas, uma disputa primariamente territorial. Desde a Guerra do Golfo, consolidou-se um paradigma: a supremacia aérea precede, molda e muitas vezes substitui o combate terrestre. Em 1991, a campanha contra o Iraque demonstrou que sistemas integrados de ataque aéreo, mísseis de precisão e domínio eletrônico podem paralisar um Estado antes mesmo que suas forças terrestres entrem em choque decisivo. O campo de batalha tornou-se tridimensional e invisível.
Essa transformação não foi episódica. Ela se aprofundou nas intervenções do início do século XXI e reapareceu com contornos dramáticos na Guerra Russo-Ucraniana. Mesmo num conflito de alta intensidade e larga escala terrestre, o controle do espaço aéreo, ou sua negação eficaz, tem sido determinante. Drones, mísseis de longo alcance, guerra eletrônica e satélites redefiniram o conceito de frente. Hoje, cidades e infraestruturas estratégicas são vulneráveis não apenas ao avanço de colunas blindadas, mas a enxames autônomos e vetores lançados a centenas de quilômetros de distância.
No plano teórico, nada disso surpreenderia o autor de Da Guerra. Clausewitz advertia que a guerra é um fenômeno em permanente mutação, condicionado pela técnica e pela política. O que mudou foi o meio; o princípio permanece: a superioridade decisiva no ponto crucial. No século XXI, esse ponto crucial deslocou-se para o domínio do ar, do espectro eletromagnético e do espaço orbital.
O Brasil, entretanto, continua a pensar defesa com forte ênfase territorial. Nossa tradição estratégica, compreensível à luz da história, privilegia a vigilância de fronteiras terrestres, a presença dissuasória em áreas sensíveis e a integridade do território continental. Esse modelo foi funcional em um ambiente regional relativamente estável, no qual a hipótese de conflito interestatal convencional era remota. Mas ele revela seus limites quando o fator aéreo e tecnológico passa a ser o elemento estruturante do poder militar.
Não se trata de imaginar cenários fantasiosos de invasão. Trata-se de reconhecer que, sem uma rede robusta de defesa antiaérea e antimíssil, qualquer país de dimensões continentais permanece estruturalmente vulnerável a coerções rápidas, ataques de precisão ou demonstrações de força que alterem o cálculo político interno. A dissuasão moderna não exige apenas tropas; exige sensores, radares de longo alcance, integração de dados, interoperabilidade e capacidade de negação do espaço aéreo.
Além disso, a supremacia dos céus já não é apenas aérea. Ela é cibernética e orbital. Sistemas de comando e controle dependem de satélites; comunicações militares e civis compartilham infraestruturas; redes elétricas e aeroportos são alvos potenciais em qualquer escalada. A defesa aérea clássica, canhões, baterias e caças interceptadores, é apenas um fragmento de um ecossistema mais amplo que inclui guerra eletrônica, proteção cibernética e inteligência artificial aplicada ao monitoramento contínuo.
Nesse contexto, o Brasil enfrenta um dilema silencioso. Continuar a investir majoritariamente em presença física territorial pode produzir sensação de controle, mas não necessariamente gera dissuasão credível. A história recente demonstra que a capacidade de projetar poder pelo ar redefine a assimetria entre potências. Um Estado que não pode negar seu próprio espaço aéreo depende, em última instância, da ausência de intenção hostil por parte de outros.
A vulnerabilidade aérea não é apenas uma lacuna técnica; é uma questão de soberania estratégica. Se o século XIX foi o século das marinhas e o XX o das forças mecanizadas, o XXI é o da integração aeroespacial e informacional. Ignorar essa mutação equivale a preparar-se para a guerra passada, para lutar uma guerra anterior.
O debate que se impõe, portanto, não é sobre militarização ou belicismo. É sobre atualização estratégica. Um país continental, com responsabilidades regionais e ambições globais moderadas, precisa ao menos de uma dissuasão mínima capaz de elevar o custo de qualquer aventura externa. Caso contrário, continuará prisioneiro de uma concepção territorial da defesa em um mundo onde o poder já se exerce de cima e de além da atmosfera.
Em guerra, ensina Clausewitz, a defesa é a forma mais forte de combate. Mas só é forte quando acompanha a transformação dos meios. No nosso tempo, defender-se começa pelo céu.
A política externa contemporânea voltou a flertar com uma velha hipótese: a de que a imprevisibilidade pode ser um ativo estratégico. Ao elevar o tom contra o Irã e simultaneamente acenar com negociação, Donald Trump parece cultivar deliberadamente a imagem de líder capaz de qualquer decisão. A ambiguidade não é ruído é método.
Essa lógica remete diretamente à chamada “teoria do louco”, associada a Richard Nixon durante a Guerra do Vietnã. Nixon e seu assessor Henry Kissinger acreditavam que, se adversários como Hanói e Moscou estivessem convencidos de que o presidente americano era imprevisível e potencialmente irracional, tenderiam a fazer concessões para evitar uma escalada catastrófica. A encenação da incerteza funcionaria como forma extrema de coerção psicológica.
O contexto vietnamita era decisivo. Em 1969, os Estados Unidos estavam atolados em um conflito prolongado, politicamente desgastante e militarmente custoso. Nixon precisava simultaneamente reduzir o envolvimento direto, a chamada “vietnamização, e pressionar o Vietnã do Norte a aceitar termos favoráveis. A demonstração de força aérea maciça, os bombardeios no Camboja e até exercícios nucleares discretamente comunicados à União Soviética integravam essa dramaturgia estratégica: convencer o adversário de que o presidente poderia ultrapassar limites.
A teoria tinha uma lógica clara: se a dissuasão tradicional repousa na racionalidade previsível, a dissuasão do “louco” aposta no medo do imprevisível. O problema é que ela depende de um equilíbrio delicado. É preciso parecer capaz de tudo, mas não perder credibilidade junto a aliados; é necessário transmitir risco ao adversário, mas sem provocar reação automática.
Trump opera em terreno semelhante, mas sob condições estruturais distintas. Ao combinar ultimatos públicos, reforços militares e retórica maximalista, ele cria um ambiente de incerteza calculada. A mensagem implícita é simples: negociar agora pode ser menos custoso do que testar os limites de Washington. A diferença crucial é que o tabuleiro contemporâneo é mais fragmentado e nuclearmente mais sensível do que no auge da Guerra Fria.
No caso do Oriente Médio, a variável adicional é Israel, ator regional com capacidade militar robusta e interesses diretos na contenção iraniana. A imprevisibilidade americana não é percebida apenas por Teerã, mas também por aliados que precisam calibrar suas próprias ações. Se a ambiguidade é excessiva, ela pode gerar erros de cálculo em múltiplas direções.
Há ainda um contraste político relevante entre Nixon e Trump. Nixon utilizou a teoria do louco como instrumento tático dentro de uma estratégia geopolítica coerente: abertura à China, détente com Moscou, reconfiguração do equilíbrio global. A imprevisibilidade era meio, não fim. No caso atual, críticos argumentam que a ambiguidade tende a se tornar parte da identidade presidencial, o que pode dificultar distinguir sinal estratégico de impulso retórico.
Em ambiente nuclear, os limites da teoria tornam-se mais estreitos. A dissuasão clássica funciona porque os atores acreditam na racionalidade mínima do adversário. Se a imagem projetada ultrapassa certo limiar, o risco deixa de ser apenas instrumento de pressão e passa a ser fator de instabilidade sistêmica. A lógica do ultimato público, prazos, ameaças explícitas, declarações performáticas, reduz margens de recuo e aumenta o custo político de moderação.
Nixon conseguiu, ao final, negociar a saída americana do Vietnã, mas não obteve vitória estratégica duradoura. A guerra prolongou-se no Sudeste Asiático e o desgaste interno corroeu sua presidência. A teoria do louco produziu efeitos limitados e ambíguos. A lição histórica é que a imprevisibilidade pode acelerar acordos, mas raramente constrói estabilidade de longo prazo.
Trump parece apostar que a reputação de líder disposto a agir sem amarras institucionais ampliará sua capacidade de barganha. Pode funcionar em crises específicas, especialmente quando o adversário enfrenta vulnerabilidades internas. Contudo, o custo cumulativo pode ser alto: aliados inseguros, mercados voláteis, adversários propensos a antecipar confrontos antes que a janela de ambiguidade se feche.
A estratégia do imprevisível é, em última instância, um jogo de nervos. Ela transforma psicologia em instrumento de poder. Mas, como ensinou o século XX, quando todos acreditam que o outro pode apertar o botão, a margem para erro diminui drasticamente. A teoria do louco só é eficaz enquanto todos supõem que há, por trás da máscara, um cálculo frio. Se essa suposição se rompe, resta apenas o risco, e o risco, na era nuclear, não é metáfora.
Nota: ao leitor interessado em aprofundar o tema meramente esboçado remeto ao historiador militar britânico: Hastings, Max. Vietnan, uma tragédia épica. São Paulo: Intrínseca, 2021. É fundamental também a leitura das Memórias de Henry Kissinger. Obra publicada no Brasil pela Top Books editora. Uma outra referência é o brilhante e premiado documentário de Ken Burns sobre guerra do Vietnan.
Há cerca de um quarto de século, a paisagem de Feira de Santana vem sendo redesenhada por um fenômeno persistente: a proliferação de condomínios fechados como forma privilegiada de moradia das camadas médias e altas. O que começou como alternativa pontual tornou-se paradigma urbano. Nesse processo, não apenas novos bairros surgiram, como nas áreas da Noide Cerqueira, do SIM e do Papagaio, mas uma nova lógica de cidade passou a se impor, alterando centralidades, fluxos econômicos e formas de sociabilidade.
A consequência mais visível é a produção de vazios. Bairros outrora símbolos de status e distinção, como a Santa Mônica, exibem hoje dezenas de casas fechadas, ruas silenciosas, fachadas degradadas. A sensação de insegurança cresce justamente onde antes residia a elite econômica local. Não se trata apenas de decadência material, mas de erosão simbólica: o prestígio territorial migrou. O capital imobiliário e o capital social deslocaram-se para além do traçado consolidado da cidade.
Esse movimento atinge também o coração da vida noturna. A Rua São Domingos, que concentrava os bares mais célebres, perdeu vitalidade. O epicentro da boemia elegante transferiu-se para a Avenida Fraga Maia, situada no eixo da expansão urbanística. O que era centro torna-se periferia funcional; o que era periferia transforma-se em nova centralidade. A cidade reescreve seu mapa afetivo.
Mas esse fenômeno não pode ser compreendido apenas como resultado de escolhas individuais. Há forças sociais mais amplas em operação. Em primeiro lugar, a reconfiguração do mercado imobiliário nas últimas décadas, impulsionada por crédito facilitado, financeirização da terra urbana e estratégias agressivas de marketing, produziu um ideal aspiracional: viver em condomínio fechado passou a significar segurança, status e modernidade. A moradia tornou-se produto de consumo altamente segmentado.
Em segundo lugar, há a dimensão cultural da insegurança. Mesmo quando os índices objetivos não justificam pânico generalizado, a percepção de vulnerabilidade alimenta a busca por enclaves protegidos. O condomínio retoma, sob roupagem contemporânea, a velha lógica da cidade murada: controle de acesso, vigilância, homogeneidade social presumida. O espaço público, por contraste, é visto como território de risco. Assim, a rua, lugar clássico da convivência urbana, perde centralidade para o espaço privatizado.
Em terceiro lugar, a própria estrutura econômica da cidade média brasileira favorece esse deslocamento. A expansão horizontal, dependente do automóvel, permite que novas áreas se consolidem rapidamente como polos autossuficientes de comércio e lazer. A Avenida Fraga Maia não é apenas uma via; é a materialização de uma nova centralidade planejada para atender a um público específico, com bares, restaurantes e serviços alinhados a um perfil de consumo diferenciado. A sociabilidade acompanha o investimento.
Enquanto isso, a zona rural sofre pressão contínua. O avanço da mancha urbana ameaça dissolver limites historicamente estabelecidos entre campo e cidade. Terras antes dedicadas à produção agrícola tornam-se reserva de valor para loteamentos futuros. A paisagem rural, com suas dinâmicas próprias, corre o risco de ser absorvida como mera extensão imobiliária. A cidade cresce por incorporação, mas também por substituição: o que era espaço produtivo converte-se em mercadoria urbana.
Esse processo, observado em diversas cidades médias do país, revela uma tendência mais ampla de fragmentação socioespacial. A cidade deixa de ser organismo relativamente contínuo para tornar-se arquipélago de enclaves: condomínios fechados, centros comerciais especializados, corredores de consumo. Entre eles, vazios. A vitalidade urbana, aqui entendida como densidade de encontros, diversidade de usos, circulação espontânea, sofre abalos.
Há também implicações políticas. Quando parcelas significativas da população economicamente privilegiada se retiram do espaço público tradicional, a esfera comum enfraquece. Praças, ruas e bairros que perdem moradores e frequentadores perdem também capacidade de reivindicação e de cuidado coletivo. A insegurança percebida pode ser, paradoxalmente, resultado do esvaziamento: menos gente na rua significa menos olhos atentos, menos vida, menos laços.
Não se trata de demonizar a expansão ou o desejo legítimo de conforto e proteção. O problema emerge quando a lógica do refúgio substitui a lógica da convivência. A cidade, por definição, é espaço de fricção produtiva entre diferentes. Ao optar por enclaves homogêneos, a sociedade urbana arrisca reduzir essa fricção, empobrecendo a experiência coletiva.
Em Feira de Santana, como em tantas outras cidades brasileiras, parece estar em curso a formação de uma “nova cidade” superposta à antiga. A questão decisiva é saber se essa sobreposição resultará em integração ou em fragmentação permanente. Os vazios da Santa Mônica, o silêncio da Rua São Domingos e a vitalidade da Avenida Fraga Maia não são fenômenos isolados; são sinais de um rearranjo profundo das forças sociais, econômicas e culturais que moldam o espaço urbano. A história ensina que cidades são organismos resilientes. Mas também ensina que sua vitalidade depende da preservação e reinvenção do espaço comum.
Nota: sobre o tema em apreço sugiro o clássico estudo do urbanista MUMFORD, Lewis. A Cidade na História: suas perspectivas e transformações. São Paulo: Martins Fontes, 1998.