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Wellington Freire

Sete dias que revelam a lógica profunda da guerra

Wellington Freire - 07 de Março de 2026 | 07h 55
Sete dias que revelam a lógica profunda da guerra
Foto: Reprodução

Na história das guerras modernas, a primeira semana costuma ter um peso que ultrapassa o simples registro cronológico. É nesse curto intervalo que se revelam, muitas vezes de forma quase definitiva, as premissas estratégicas do conflito: quem errou nos cálculos iniciais, qual será o padrão de combate e até que ponto os objetivos políticos declarados são compatíveis com os meios militares empregados.

Esse fenômeno não é novo. Quando a Primeira Guerra Mundial começou, em agosto de 1914, as grandes potências europeias acreditavam que o conflito seria breve. A Alemanha apostava no sucesso do Plano Schlieffen e na rápida derrota da França. No entanto, bastaram poucas semanas para que a realidade da guerra industrial se impusesse: mobilizações gigantescas, frentes estáticas e uma guerra que duraria quatro anos. A primeira fase do conflito revelou que a guerra seria muito diferente do que seus planejadores imaginaram.

Algo semelhante ocorreu na Guerra do Iraque em 2003. A derrubada do regime de Saddam Hussein foi rápida e confirmou a superioridade militar americana. Contudo, os primeiros sinais da insurgência surgiram já nas semanas iniciais após a queda de Bagdá. Aquilo que parecia uma vitória decisiva revelou-se, na prática, o início de uma guerra muito mais longa e complexa.

A primeira semana da atual guerra entre os Estados Unidos e o Irã sugere um padrão semelhante. O cálculo inicial parecia claro: ataques aéreos intensivos, eliminação de lideranças do regime e pressão militar suficiente para provocar uma rápida desorganização do sistema político iraniano. No entanto, os acontecimentos dos primeiros dias já indicam que esse cenário não se confirmou.

O primeiro sinal é a sobrevivência do próprio regime. A morte do líder supremo, Ali Khamenei, representou uma escalada extraordinária, mas não provocou o colapso institucional esperado por alguns analistas. O sistema político iraniano foi concebido justamente para resistir a esse tipo de choque. Desde a Revolução de 1979, o poder não se concentra apenas na figura do líder supremo, mas se distribui entre instituições clericais, órgãos eleitos e estruturas militares como a Guarda Revolucionária. A continuidade das operações militares iranianas demonstra que o aparato estatal permanece funcional, mesmo diante de perdas significativas.

O segundo sinal é a rápida expansão regional do conflito. Em apenas uma semana, ataques e retaliações atingiram não apenas o território iraniano, mas também bases militares e aliados no Golfo Pérsico, além de provocar tensões na fronteira entre Israel e Líbano. Essa dinâmica confirma um padrão estratégico já conhecido: o Irã construiu, ao longo de décadas, uma rede de alianças e forças indiretas que permite ampliar o alcance de qualquer guerra em que esteja envolvido. O conflito deixa de ser bilateral e passa a assumir características regionais.

O terceiro elemento revelado nesses primeiros dias é o risco de uma guerra prolongada. A estratégia iraniana parece apontar para uma lógica clássica de desgaste: em vez de tentar derrotar diretamente um adversário militarmente superior, o objetivo é elevar progressivamente os custos do conflito. Esse tipo de abordagem foi observado em diversos conflitos contemporâneos, nos quais forças menos poderosas apostam no tempo como instrumento estratégico.

Para Donald Trump, que estimou inicialmente uma campanha de algumas semanas, esse cenário representa um desafio político e militar considerável. A história demonstra que guerras planejadas como operações rápidas podem transformar-se em conflitos longos justamente quando os objetivos políticos se mostram mais ambiciosos do que os meios militares disponíveis.

Assim, a primeira semana desta guerra já oferece pistas importantes sobre o seu possível desdobramento. O regime iraniano não entrou em colapso, a guerra começou a se expandir regionalmente e a lógica de desgaste começa a substituir a expectativa de uma vitória rápida. Na história militar, esses sinais iniciais raramente são irrelevantes. Muitas vezes, eles representam o primeiro indício de que uma guerra imaginada como breve poderá transformar-se em um conflito de consequências muito mais amplas e duradouras.




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