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Wellington Freire

As guerras que o mundo escolhe esquecer

Wellington Freire - 22 de Abril de 2026 | 07h 35
As guerras que o mundo escolhe esquecer
Foto: Reprodução

Há tragédias que entram para a história e tragédias que mal conseguem entrar no noticiário. Umas provocam discursos solenes, sessões extraordinárias, vigílias televisionadas, bandeiras nas varandas e campanhas digitais em dezenas de idiomas. Outras acumulam cadáveres no silêncio, sem comoção proporcional, sem mobilização duradoura, sem a liturgia pública da indignação. O Sudão, mergulhado há três anos numa guerra devastadora, converteu-se em símbolo cruel desse segundo destino: a catástrofe sem plateia.

Milhares morreram, 14 milhões foram deslocados, hospitais ruíram, a fome avança, crianças sucumbem à desnutrição e a violência sexual tornou-se arma recorrente. Ainda assim, o conflito permanece à margem da consciência global. Não por falta de horror, mas por falta de atenção. Em nossa época, o sofrimento não basta para ser visto. É preciso também ser midiaticamente legível.

Vivemos a era da instantaneidade moral. Em poucas horas, uma explosão em qualquer ponto do planeta pode gerar hashtags planetárias, avatares temáticos, manifestações espontâneas e a sensação de pertencimento a uma comunidade ética universal. Parece um avanço civilizacional. E em parte é. Mas há uma fissura incômoda nesse edifício: a sensibilidade contemporânea é profundamente seletiva. Algumas dores viralizam; outras mal conseguem conexão estável. Algumas vítimas recebem nome, rosto e biografia; outras aparecem apenas como número tardio em relatórios humanitários.

O Sudão expõe aquilo que preferimos não nomear: existe um apartheid da compaixão. Não se trata de decreto oficial nem de plano consciente, mas de uma estrutura invisível de atenção desigual. Certas vidas parecem mais próximas, mais reconhecíveis, mais “parecidas conosco”. Outras permanecem distantes, mesmo quando a distância é apenas imaginária. Uma guerra europeia tende a ser percebida como abalo da ordem mundial. Uma guerra africana, com frequência, é tratada como reincidência de um caos presumido, como se a violência ali brotasse da paisagem e não de decisões políticas, disputas militares e responsabilidades concretas.

Há, nesse mecanismo, um componente racial difícil de negar. O Ocidente pós-colonial gosta de proclamar universalismo moral, mas frequentemente reage com intensidade diferente conforme a cor, a geografia e a familiaridade cultural das vítimas. Corpos brancos, cidades reconhecíveis, igrejas semelhantes, ruas que lembram cartões-postais europeus produzem identificação imediata. Já populações africanas, árabes ou periféricas continuam muitas vezes aprisionadas no olhar distante da estatística.

A geopolítica reforça essa triagem emocional. Conflitos que envolvem potências nucleares, corredores energéticos decisivos ou impacto direto sobre mercados centrais recebem cobertura contínua. Guerras internas em países periféricos, ainda que matem mais, tendem a ser classificadas como ruído regional. O interesse estratégico decide a intensidade da empatia pública. Onde há risco para bolsas de valores, há urgência. Onde há apenas civis morrendo, costuma haver demora.

Também pesa a gramática narrativa. O público contemporâneo prefere guerras explicáveis em um minuto: mocinhos nítidos, vilões reconhecíveis, mapas simples, slogans exportáveis. O Sudão oferece o contrário: facções rivais, alianças móveis, rivalidades históricas, múltiplos centros de poder, fronteiras étnicas e regionais complexas. Como explicar exige esforço, muitos escolhem ignorar. A complexidade converte-se em abandono.

Mas o problema não está em sentir pelos conflitos que ocupam as manchetes. Toda solidariedade é valiosa. O escândalo está na solidariedade distribuída por critérios implícitos de proximidade e utilidade. Não precisamos sofrer menos por alguns; precisamos sofrer mais por outros.

Toda civilização revela sua ética pela forma como hierarquiza vidas. A nossa mede sofrimento por algoritmos, interesse estratégico e reconhecimento cultural. O resultado é um mundo em que nem toda morte produz comoção igual. E talvez esta seja uma das formas mais sofisticadas de barbárie contemporânea: não matar diretamente, mas acostumar-se a não olhar.

O Sudão arde longe das câmeras. Mas o incêndio moral não está apenas lá. Está em nós.



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