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Wellington Freire

Quando a memória morre, a guerra volta

Wellington Freire - 24 de Abril de 2026 | 11h 14
Quando a memória morre, a guerra volta
Foto: Reprodução

Abril costuma guardar fantasmas. Em abril de 1982, a junta militar argentina desembarcou nas Ilhas Malvinas e iniciou uma guerra breve, dramática e profundamente simbólica contra o Reino Unido. Em abril de 2026, passados 44 anos, quase ninguém se lembra dela com a intensidade necessária. E esse esquecimento talvez seja mais perigoso do que parece.

A Guerra das Malvinas foi, ao mesmo tempo, conflito territorial, cálculo político desesperado e choque entre memórias imperiais. Para os generais argentinos, enfraquecidos por crise econômica e desgaste interno, recuperar as ilhas parecia uma aposta patriótica capaz de reacender legitimidade. Para Londres, sob Margaret Thatcher, responder militarmente era reafirmar prestígio, autoridade e alcance global. Em poucas semanas, homens morreram em mares gelados e campos varridos pelo vento por razões que misturavam honra nacional, sobrevivência política e símbolos históricos.

As guerras raramente começam apenas por território. Começam por narrativas. Um mapa antigo, uma humilhação lembrada, uma soberania repetida em livros escolares, uma promessa feita ao orgulho coletivo. Quando a memória histórica é manipulada, ela deixa de ser advertência e se converte em munição.

As Malvinas deveriam ser estudadas como laboratório do nacionalismo moderno. Um regime autoritário tentou usar a causa nacional para salvar-se. Uma democracia utilizou a vitória para reconstruir liderança interna. Jovens conscritos argentinos, mal preparados e mal equipados, pagaram preço altíssimo. Famílias britânicas enterraram seus mortos a milhares de quilômetros de casa. Ao final, os governos seguiram; os cemitérios ficaram.Mas o mundo esquece rápido. E quando esquece, repete mecanismos antigos com nomes novos. 

Hoje vemos o retorno de velhos reflexos: disputas por ilhas no Pacífico, revisionismos territoriais na Europa, memórias imperiais reacendidas na Ásia, fronteiras tratadas como feridas abertas. Em muitos países, líderes percebem que a política identitária externa mobiliza mais do que reformas internas difíceis. A bandeira continua sendo recurso barato e poderoso.

As novas gerações, frequentemente afastadas do estudo sério da história, recebem versões simplificadas: heróis puros de um lado, vilões absolutos do outro. Sem contexto, sem tragédia humana, sem complexidade. Isso produz cidadãos emocionalmente inflamáveis e intelectualmente desarmados.

A lembrança de 1982 importa justamente por isso. A Guerra das Malvinas não foi epopeia romântica; foi aviso. Mostrou como governos em crise recorrem ao passado para administrar o presente. Mostrou como sociedades podem aplaudir decisões impensadas quando vestidas de patriotismo. Mostrou como a distância geográfica não impede proximidade da morte.

Quarenta e quatro anos depois, o melhor tributo aos mortos daquela guerra não é repetir slogans de soberania, mas compreender o mecanismo que os matou. Memória não existe para alimentar rancores. Existe para impedir recaídas.

Quando a memória morre, a guerra volta, primeiro, como discurso. Depois, como desfile. Por fim, como luto.



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