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Wellington Freire

22 de junho: quando a história muda de lado

Wellington Freire - 02 de Junho de 2026 | 14h 08
22 de junho: quando a história muda de lado
Crédito: Reprodução/BBC Brasil

Há datas que pertencem não apenas aos calendários, mas à consciência das nações. Para a Rússia, 22 de junho é uma delas. Na madrugada daquele dia, em 1941, teve início a Operação Barbarossa, a maior invasão terrestre da história.

Três milhões de soldados alemães atravessaram as fronteiras da União Soviética. Em poucas semanas, cidades caíram, exércitos foram cercados e centenas de milhares de homens desapareceram nos vastos espaços do Leste Europeu. Era o começo daquilo que os russos ainda chamam de Grande Guerra Patriótica.

O trauma foi tão profundo que moldou a identidade nacional russa durante gerações. A memória da invasão tornou-se um elemento fundador da consciência coletiva do país. O invasor estrangeiro, o sacrifício heroico, a defesa da pátria e a vitória final passaram a ocupar lugar central na narrativa histórica construída por Moscou.

Mas a história possui um gosto particular pela ironia. Oitenta e poucos anos depois, a Rússia se encontra do outro lado da fronteira. Em 1941, as colunas blindadas alemãs avançavam sobre a Ucrânia. Em 2022, colunas blindadas russas avançaram sobre a Ucrânia.

Em 1941, Kiev se preparava para resistir a um exército invasor. Em 2022, Kiev voltou a se preparar para resistir a um exército invasor. Em 1941, a população civil fugia dos bombardeios alemães. Hoje, foge dos mísseis e drones russos. A geografia permanece a mesma. Mudaram apenas os uniformes.

É precisamente aí que reside um dos grandes paradoxos do nosso tempo. O Kremlin continua recorrendo à memória da Segunda Guerra Mundial para justificar suas ações. O vocabulário da luta contra o fascismo, da defesa histórica da pátria e da libertação dos povos ocupa posição central na retórica oficial russa. A guerra atual é, frequentemente, apresentada como uma continuação moral da luta travada contra Hitler.

Entretanto, existe uma diferença fundamental, que nenhum discurso consegue apagar. Em 1941, a União Soviética lutava para sobreviver a uma invasão estrangeira. Em 2022, foi a Federação Russa que atravessou uma fronteira internacionalmente reconhecida. A memória da vítima e a realidade do agressor passaram a coexistir dentro da mesma narrativa política.

Talvez, esse seja um fenômeno mais comum do que gostaríamos de admitir. Povos costumam lembrar com extraordinária precisão as violências que sofreram. Já as violências que praticam tendem a ser envolvidas por justificativas, eufemismos e racionalizações.

A memória é seletiva. A história, nem sempre. Ao observar o aniversário da Operação Barbarossa, não consigo evitar a sensação de que estamos diante de uma das mais notáveis inversões históricas do último século. O país que construiu parte de sua identidade nacional sobre a lembrança de uma invasão devastadora tornou-se protagonista de uma guerra que muitos, fora de suas fronteiras, enxergam precisamente como uma invasão.

Isso não diminui o sofrimento russo de 1941. Tampouco relativiza o horror da agressão nazista. Pelo contrário. Apenas nos recorda que a experiência de ter sido vítima não imuniza nenhuma sociedade contra a tentação do poder.

A história militar está repleta desses espelhos desconfortáveis. Impérios derrotados tornam-se conquistadores. Povos ocupados transformam-se em ocupantes. Revolucionários convertem-se em burocratas. Libertadores assumem o papel de dominadores.

Talvez, a maior lição de 22 de junho não esteja nos movimentos das divisões blindadas ou nos mapas das campanhas militares. Talvez ela resida numa verdade mais simples e mais amarga. A história não garante virtude a ninguém. Ela apenas oferece, de tempos em tempos, a oportunidade de escolher entre recordar uma tragédia ou repeti-la. E nem sempre as nações fazem a escolha correta.



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