Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, s�bado, 13 de junho de 2026

Wellington Freire

Mossul veio antes: o dia em que percebi que a guerra dos drones não começou na Ucrânia

Wellington Freire - 30 de Maio de 2026 | 08h 45
Mossul veio antes: o dia em que percebi que a guerra dos drones não começou na Ucrânia
Foto: Reprodução

Durante muito tempo, acreditei que a guerra da Ucrânia havia inaugurado uma nova era militar. Como milhões de pessoas ao redor do mundo, acostumei-me às imagens quase surreais de pequenos drones sobrevoando trincheiras, perseguindo blindados russos, lançando granadas sobre soldados escondidos em crateras enlameadas. Parecia algo inteiramente novo. Uma revolução nascida em 2022.

Mas então voltei a estudar a Batalha de Mossul, aquela batalha travada na segunda maior cidade do Iraque, em 2016. E foi então que percebi que a história começara antes. Muito antes. Para mim foi uma descoberta perturbadora. Em meio às ruínas da guerra contra o Estado Islâmico, havia algo que eu não enxergara devidamente, na época: os insurgentes já utilizavam drones adaptados para bombardear tropas americanas e iraquianas. Não se tratava de protótipos sofisticados produzidos por grandes potências. Eram drones civis, baratos, improvisados, muitas vezes adquiridos comercialmente e convertidos, artesanalmente, em instrumentos de ataque.

Pequenos objetos voadores carregando granadas. Hoje isso parece banal. Em 2016, era quase ficção científica. Talvez o maior erro do Ocidente tenha sido interpretar aquilo como mera gambiarra terrorista. Como uma excentricidade tecnológica produzida pelo caos do Oriente Médio. Mas Mossul continha, silenciosamente, o esboço da guerra do futuro. Os jihadistas compreendiam algo que muitos estrategistas ainda não haviam percebido: a aviação havia sido miniaturizada.

Durante mais de um século, o domínio aéreo pertenceu aos Estados. Era necessário possuir pistas, hangares, pilotos, combustível, indústria pesada, cadeias logísticas complexas e orçamentos bilionários. O poder aéreo era uma prerrogativa das grandes potências.

Então surgiram drones comerciais vendidos em lojas comuns. E, de repente, grupos insurgentes passaram a possuir algo que antes era monopólio estatal: capacidade aérea ofensiva. Esse talvez tenha sido o verdadeiro nascimento da era dos drones modernos.

Não porque o ISIS tenha criado a tecnologia. Evidentemente não criou. Os drones militares já existiam há décadas. Os próprios Estados Unidos haviam utilizado UAVs extensivamente no Afeganistão e no Iraque. MQ-1 Predator e MQ-9 Reaper já realizavam assassinatos seletivos muito antes de Mossul.

Mas havia uma diferença crucial. Os drones americanos eram expressão do monopólio tecnológico imperial. Os drones do ISIS representavam a democratização da guerra aérea. Foi isso que mudou tudo. A partir daquele momento, qualquer grupo relativamente organizado poderia adquirir “força aérea” por algumas centenas de dólares.

A guerra da Ucrânia apenas radicalizou essa transformação. O que vemos, hoje, entre russos e ucranianos é a industrialização daquilo que apareceu de forma embrionária em Mossul. Drones FPV baratos destruindo tanques multimilionários. Pequenos aparelhos guiando artilharia com precisão quase instantânea. Infantaria permanentemente observada do céu. Linhas defensivas transparentes. O campo de batalha transformado numa paisagem sem esconderijos.

O drone alterou a própria experiência psicológica da guerra. Durante séculos, soldados podiam, ao menos, acreditar na possibilidade do ocultamento. Florestas, colinas, fumaça ou trincheiras ofereciam alguma sensação de proteção. Agora, existe uma vigilância aérea quase contínua. O céu tornou-se habitado por olhos mecânicos baratos e descartáveis.

A consequência estratégica disso talvez ainda não tenha sido totalmente compreendida. O drone está fazendo com a guerra algo semelhante ao que o AK-47 fez no século XX: reduzindo drasticamente o custo do poder letal. O Kalashnikov democratizou a violência terrestre. O drone democratizou a violência aérea.

E isso muda não apenas guerras entre Estados, mas todo o conceito de insurgência. Talvez seja justamente por isso que Mossul mereça ser revisitada hoje. Não apenas como capítulo da Guerra ao Terror, mas como laboratório involuntário do século XXI militar.

Enquanto o mundo observava as bandeiras negras do califado e os combates urbanos, algo mais profundo estava acontecendo silenciosamente sobre os céus da cidade: a transformação da aviação numa tecnologia acessível às massas armadas. A Ucrânia tornou isso visível ao planeta. Mas as sombras dessa nova era já pairavam sobre Mossul há quase uma década.



Wellington Freire LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

charge

As mais lidas hoje