Durante muito tempo, acreditei que a guerra da Ucrânia havia
inaugurado uma nova era militar. Como milhões de pessoas ao redor do mundo,
acostumei-me às imagens quase surreais de pequenos drones sobrevoando trincheiras, perseguindo blindados russos,
lançando granadas sobre soldados escondidos em crateras enlameadas. Parecia
algo inteiramente novo. Uma revolução nascida em 2022.
Mas então voltei a estudar a Batalha de Mossul, aquela
batalha travada na segunda maior cidade do Iraque, em 2016. E foi então que
percebi que a história começara antes. Muito antes. Para mim foi uma descoberta
perturbadora. Em meio às ruínas da guerra contra o Estado Islâmico, havia algo
que eu não enxergara devidamente, na época: os insurgentes já utilizavam drones adaptados para bombardear tropas
americanas e iraquianas. Não se tratava de protótipos sofisticados
produzidos por grandes potências. Eram drones
civis, baratos, improvisados, muitas vezes adquiridos comercialmente e
convertidos, artesanalmente, em instrumentos de ataque.
Pequenos objetos voadores carregando granadas. Hoje isso
parece banal. Em 2016, era quase ficção científica. Talvez o maior erro do
Ocidente tenha sido interpretar aquilo como mera gambiarra terrorista. Como uma
excentricidade tecnológica produzida pelo caos do Oriente Médio. Mas Mossul
continha, silenciosamente, o esboço da guerra do futuro. Os jihadistas
compreendiam algo que muitos estrategistas ainda não haviam percebido: a
aviação havia sido miniaturizada.
Durante mais de um século, o domínio aéreo pertenceu aos
Estados. Era
necessário possuir pistas, hangares, pilotos, combustível, indústria pesada,
cadeias logísticas complexas e orçamentos bilionários. O poder aéreo era uma
prerrogativa das grandes potências.
Então surgiram drones
comerciais vendidos em lojas comuns. E, de repente, grupos insurgentes passaram
a possuir algo que antes era monopólio estatal: capacidade aérea ofensiva. Esse
talvez tenha sido o verdadeiro nascimento da era dos drones modernos.
Não porque o ISIS tenha criado a tecnologia. Evidentemente
não criou. Os drones militares já
existiam há décadas. Os próprios Estados Unidos haviam utilizado UAVs
extensivamente no Afeganistão e no Iraque. MQ-1 Predator e MQ-9 Reaper já
realizavam assassinatos seletivos muito antes de Mossul.
Mas havia uma diferença crucial. Os drones americanos eram expressão do monopólio tecnológico imperial.
Os drones do ISIS representavam a
democratização da guerra aérea. Foi isso que mudou tudo. A partir daquele
momento, qualquer grupo relativamente organizado poderia adquirir “força aérea”
por algumas centenas de dólares.
A guerra da Ucrânia apenas radicalizou essa transformação. O que vemos, hoje, entre russos e
ucranianos é a industrialização daquilo que apareceu de forma embrionária em
Mossul. Drones FPV baratos destruindo
tanques multimilionários. Pequenos aparelhos guiando artilharia com precisão
quase instantânea. Infantaria permanentemente observada do céu. Linhas
defensivas transparentes. O campo de batalha transformado numa paisagem sem
esconderijos.
O drone alterou a
própria experiência psicológica da guerra. Durante séculos, soldados podiam, ao
menos, acreditar na possibilidade do ocultamento. Florestas, colinas, fumaça ou
trincheiras ofereciam alguma sensação de proteção. Agora, existe uma vigilância
aérea quase contínua. O céu tornou-se habitado por olhos mecânicos baratos e
descartáveis.
A consequência estratégica disso talvez ainda não tenha sido
totalmente compreendida. O drone está
fazendo com a guerra algo semelhante ao que o AK-47 fez no século XX: reduzindo
drasticamente o custo do poder letal. O Kalashnikov democratizou a violência
terrestre. O drone democratizou a
violência aérea.
E isso muda não apenas guerras entre Estados, mas todo o
conceito de insurgência. Talvez seja justamente por isso que Mossul mereça ser
revisitada hoje. Não apenas como capítulo da Guerra ao Terror, mas como
laboratório involuntário do século XXI militar.
Enquanto o mundo observava as bandeiras negras do califado e
os combates urbanos, algo mais profundo estava acontecendo silenciosamente
sobre os céus da cidade: a transformação da aviação numa tecnologia
acessível às massas armadas. A Ucrânia tornou isso visível ao planeta. Mas
as sombras dessa nova era já pairavam sobre Mossul há quase uma década.