A imagem dominante deste conflito não é a do soldado que avança entre ruínas, mas a do bombardeiro invisível riscando o céu noturno. O protagonismo pertence a plataformas como o Northrop B-2 Spirit, a mísseis guiados por satélite e a sistemas de vigilância capazes de identificar alvos em tempo real. É a guerra sem botas no chão, uma promessa tecnológica de eficácia cirúrgica sem o ônus político da ocupação.
Desde o trauma do Iraque e do Afeganistão, consolidou-se no Ocidente a aversão à presença terrestre prolongada. A ocupação desgasta, multiplica baixas, gera insurgência e corrói legitimidade doméstica. A alternativa foi apostar na supremacia aérea e na precisão: eliminar centros de comando, neutralizar infraestruturas críticas, decapitar lideranças. A guerra torna-se remota, quase asséptica. Mas pode-se transformar um regime apenas do alto?
O precedente frequentemente invocado é o de Guerra do Kosovo. Em 1999, a OTAN conduziu uma campanha aérea de 78 dias contra a então Iugoslávia de Slobodan Miloševi?, sem invasão terrestre. Ao final, Belgrado cedeu e retirou forças do Kosovo. O caso alimentou a crença de que o poder aéreo, isoladamente, poderia produzir resultados políticos decisivos.
Entretanto, o Kosovo foi exceção moldada por circunstâncias específicas: um adversário isolado, vulnerável economicamente e sob intensa pressão diplomática russa e europeia. Além disso, não houve ali transformação estrutural profunda imediata, mas coerção para mudança comportamental. O regime de Miloševi? só cairia posteriormente, por dinâmica interna.
A extrapolação desse modelo para cenários mais complexos pode ser ilusória. Regimes ideológicos com forte aparato repressivo e redes descentralizadas tendem a absorver choques iniciais. A eliminação de lideranças não necessariamente paralisa a máquina estatal; pode, ao contrário, reforçar coesão nacionalista diante do ataque externo. A guerra aérea produz destruição material; raramente produz legitimidade política.
A doutrina da “decapitação” repousa numa premissa racionalista: remover o topo para colapsar a base. Contudo, Estados contemporâneos, especialmente os que aprenderam com intervenções anteriores, distribuem poder decisório, automatizam cadeias de comando e preparam sucessões. A morte de indivíduos não dissolve estruturas.
Há ainda limite operacional. Bombardeiros como o B-2 e mísseis de cruzeiro são instrumentos extraordinários para suprimir defesas, destruir instalações nucleares, atingir arsenais. Mas território é poder. Quem controla cidades, estradas e instituições controla o cotidiano. Sem presença física, a transformação política depende de revolta interna ou negociação. O poder aéreo pode abrir fissuras; não garante quem ocupará o espaço resultante.
A promessa da “guerra limpa” insere-se na tradição liberal de minimizar custos humanos próprios e evitar ocupações coloniais. Ela dialoga com a sensibilidade democrática: sociedades abertas toleram menos baixas militares prolongadas. A tecnologia surge como solução moral e política. Se é possível neutralizar ameaças à distância, por que arriscar vidas?
O problema é que a distância moral acompanha a distância física. Bombas inteligentes reduzem danos colaterais, mas não os eliminam. Infraestruturas destruídas significam hospitais sem energia, cadeias logísticas interrompidas, economias paralisadas. A guerra remota preserva soldados do agressor, mas transfere integralmente o sofrimento para o território alvo. A assimetria ética torna-se invisível na tela de radar.
Além disso, a ausência de ocupação não elimina a necessidade de arranjo pós-conflito. Se o objetivo é apenas degradar capacidades militares, a estratégia aérea pode ser suficiente. Se o objetivo é reformar ou derrubar um regime, a equação complica-se. Transformações políticas exigem atores locais organizados, instituições alternativas e capacidade de governança. Bombardeios não constroem partidos, tribunais ou consensos.
Há também risco de ilusão estratégica. A eficácia inicial, radares destruídos, bases neutralizadas, navios afundados, cria sensação de controle total. Contudo, guerras são processos adaptativos. O adversário dispersa ativos, aposta em guerra de atrito, mobiliza narrativas de resistência. A superioridade tecnológica pode degenerar em impasse prolongado, no qual nenhum lado obtém decisão clara.
O limite da guerra à distância manifesta-se justamente na lacuna entre destruição e construção. É relativamente simples destruir instalações; é extraordinariamente difícil reconstruir legitimidades. A história recente sugere que regimes podem sobreviver governando sobre ruínas, desde que mantenham aparato coercitivo e discurso mobilizador.
A guerra sem botas no chão responde a exigência política das democracias contemporâneas: agir externamente sem repetir ocupações traumáticas. Mas ela não aboliu a dimensão territorial do poder. Apenas a deslocou. Ao substituir presença por precisão, criou-se a expectativa de que tecnologia possa resolver dilemas essencialmente políticos.
Talvez a questão não seja se a guerra aérea funciona, mas para quê. Como instrumento de coerção limitada, é poderosa. Como mecanismo de engenharia política profunda, é incerta. A tentação ocidental de acreditar na neutralidade moral da tecnologia ignora que toda guerra, mesmo remota, é experiência humana concreta para quem a sofre.
Entre a eficácia cirúrgica e a transformação estrutural existe abismo. A guerra à distância pode vencer batalhas decisivas. Resta saber se consegue vencer a paz que vem depois.
A história militar é, em larga medida, a história da desigualdade. Raros foram os conflitos travados entre forças equivalentes; quase sempre, um dos lados dispõe de mais homens, mais recursos, mais tecnologia. Diante disso, o lado mais fraco enfrenta uma escolha elementar: submeter-se ou reinventar a própria forma de combater. É nesse ponto que nasce aquilo que, no vocabulário contemporâneo, chamamos de guerra assimétrica.
Em Da Guerra, Carl von Clausewitz não emprega o termo moderno, mas oferece sua chave conceitual: a guerra é a continuação da política por outros meios, e sua forma concreta deriva da relação de forças e dos objetivos políticos. Quando o objetivo é resistir e sobreviver, e os meios são escassos, a guerra tende a abandonar a busca da decisão fulminante e a abraçar o desgaste, a dispersão, a erosão moral do inimigo. A defesa, dizia Clausewitz, é a forma mais forte da guerra, não porque ataque menos, mas porque escolhe quando e onde fazê-lo.
A Espanha ocupada por Napoleão ilustra essa mutação. A guerrilha, palavra que nasce ali, dissolveu o campo de batalha clássico. O soldado imperial, treinado para a manobra e o choque, enfrentou uma sociedade armada, difusa, que recusava a batalha decisiva e preferia a emboscada, o corte de suprimentos, o ataque noturno. O fraco não imitava o forte; negava-lhe o terreno de excelência.
No século XX, essa lógica se expandiu. Da Indochina ao Afeganistão, a guerra assimétrica tornou-se a gramática dos movimentos que enfrentavam impérios ou superpotências. O cálculo é simples: se não posso vencer seu exército, corroerei sua vontade política. A vitória não será militar, mas temporal.
É nesse arco histórico que se insere a doutrina da República Islâmica do Irã. Desde 1979, o regime compreendeu que não poderia competir simetricamente com os Estados Unidos nem com Israel. Sua força aérea é limitada; sua marinha, incapaz de projetar poder global; sua economia, sujeita a sanções. A resposta não foi a resignação, mas a institucionalização da assimetria como política de Estado.
A Guarda Revolucionária Islâmica tornou-se o eixo dessa estratégia. Mais do que uma força armada paralela, ela é um aparelho político-militar destinado a exportar influência por meios indiretos. Sua Força Quds articulou uma rede de milícias e aliados, do Hezbollah no Líbano ao Hamas em Gaza, que funcionam como extensões externas da segurança iraniana. Não se trata apenas de proxies; trata-se de uma arquitetura regional de dissuasão.
O raciocínio é coerente: cercar o adversário com múltiplos focos de pressão, elevar o custo de qualquer ataque direto, fragmentar o teatro de operações. Ao invés de confrontar Israel em campo aberto, criar um “cinturão de fogo”. Ao invés de desafiar a marinha americana no oceano, ameaçar o tráfego no Estreito de Ormuz. Ao invés de competir em caças de quinta geração, investir em mísseis balísticos, drones e saturação de defesas.
Há, porém, um elemento adicional na versão iraniana da guerra assimétrica: sua institucionalização. Diferentemente das guerrilhas clássicas, que emergem de movimentos sociais ou nacionais, aqui o Estado assume formalmente a guerra indireta como instrumento regular de política externa. A assimetria deixa de ser expediente provisório e converte-se em doutrina permanente.
Essa escolha produz efeitos ambíguos. De um lado, compensa fraquezas estruturais e permite projetar poder com custos relativamente baixos. De outro, cristaliza uma dependência da instabilidade. A guerra indireta precisa de zonas cinzentas, de Estados frágeis, de conflitos prolongados. Quando o adversário consegue neutralizar essas redes ou deslocar o confronto para o centro, atacando infraestrutura, liderança e território, a assimetria revela seus limites.
A história ensina que a guerra dos fracos pode humilhar impérios, mas raramente constrói ordens estáveis. Ela é eficaz como negação, menos como fundação. A guerrilha espanhola expulsou Napoleão, mas não criou uma nova arquitetura europeia. Os movimentos insurgentes do século XX conquistaram independências, mas muitas vezes herdaram Estados exaustos pela militarização prolongada.
No caso iraniano, a pergunta decisiva é se a institucionalização da guerra indireta fortaleceu o regime ou o aprisionou numa lógica de confronto permanente. A assimetria, ao prolongar conflitos e multiplicar frentes, também prolonga vulnerabilidades. O fraco aprende a ferir; mas, ao fazê-lo, pode legitimar respostas devastadoras.
Clausewitz advertia que a guerra tem sua própria gramática, mas não sua própria lógica. A lógica permanece política. Quando a política se confunde com a guerra permanente, a assimetria deixa de ser estratégia e se torna destino. E destinos estratégicos, como a história demonstra, raramente são benignos para quem os abraça como única possibilidade.
Nota: ao leitor interessado remeto: CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010; ARON, Raymond. A Paz e a Guerra entre as Nações. Brasilia: UNB Editora, 2002.
O que se desenha no Oriente Médio não é apenas mais um episódio de escalada militar. É algo potencialmente mais profundo: a consolidação de uma doutrina de coerção estratégica que dispensa ocupação territorial e aposta na supremacia aérea absoluta como instrumento de transformação política.
A operação conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã não apresenta, até o momento, os traços clássicos de uma guerra convencional. Não há mobilização de grandes contingentes terrestres, não há anúncio de invasão, não há construção de uma arquitetura de ocupação. O que há é outra coisa: uma campanha aérea de alta intensidade voltada para a desarticulação do comando e do centro decisório do regime.
A eliminação do líder supremo Ali Khamenei e de parte significativa da cúpula da Guarda Revolucionária Islâmica não foi um efeito colateral. Foi o objetivo central. A lógica não é territorial, é vertical. Não se busca conquistar províncias; busca-se decapitar o vértice do poder.
O primeiro pilar dessa nova gramática estratégica é a supremacia aérea absoluta. O espaço aéreo deixa de ser apenas meio de apoio à manobra terrestre para se tornar o teatro decisivo. A precisão tecnológica permite atingir não apenas instalações nucleares e bases militares, mas centros de comando, redes de comunicação e indivíduos-chave. O ataque físico e o impacto psicológico tornam-se indissociáveis.
O segundo pilar é a precisão como instrumento de desmantelamento de comando e controle. Diferentemente das campanhas de bombardeio do século XX, voltadas à destruição massiva de infraestrutura, o foco recai sobre alvos de alto valor político e militar. A mensagem implícita é clara: o regime é vulnerável no seu núcleo. Ao atingir a liderança, procura-se produzir não apenas dano material, mas desorganização sistêmica.
O terceiro elemento é talvez o mais inovador: o incentivo explícito à sublevação interna. A retórica do presidente Donald Trump não se limitou a justificar os ataques; ela se dirigiu diretamente à população e às forças de segurança iranianas, oferecendo imunidade a quem depusesse as armas. Trata-se de uma fusão entre guerra aérea, guerra psicológica e política de regime change.
A estratégia parece operar com uma hipótese ousada: ao demonstrar que o topo do regime pode ser eliminado, abre-se espaço para fissuras internas. A coerção externa funcionaria como catalisador de fragmentação doméstica. Não é um golpe interno clássico, tampouco uma invasão tradicional. É uma tentativa de provocar implosão política por meio de pressão militar cirúrgica.
O quarto pilar é a ausência deliberada de ocupação terrestre. A experiência do Iraque em 2003 ensinou o custo colossal, humano, financeiro e político, de administrar um país após a queda do regime. Naquela campanha, a supremacia aérea precedeu uma invasão e uma ocupação prolongada. Aqui, o cálculo parece outro: maximizar o efeito do poder aéreo e minimizar o compromisso em terra.
A comparação com a Líbia em 2011 também é instrutiva. Ali, o apoio aéreo externo combinou-se com uma insurgência interna que levou ao colapso do regime. Mas o resultado foi fragmentação e instabilidade duradoura. O caso iraniano difere porque o ataque externo se antecipa ao levante, tentando criá-lo por meio da demonstração de vulnerabilidade do poder central.
Há ainda um precedente retórico na Venezuela: discursos sobre mudança de regime sem invasão. A diferença é que, no caso iraniano, o discurso veio acompanhado de poder de fogo efetivo e de um gesto de decapitação concreta.
O elemento novo, portanto, é a combinação entre ataque militar esmagador, apelo direto à população e promessa de imunidade a desertores. É uma síntese entre coerção estratégica e engenharia política indireta. O objetivo não é ocupar para transformar; é golpear para desorganizar, esperando que o próprio sistema colapse.
Resta a pergunta central: pode um regime profundamente enraizado ser derrubado apenas “do alto”? A história sugere cautela. Bombardeios raramente produzem mudança política automática. A eliminação de líderes pode gerar fragmentação, mas também pode provocar fechamento de fileiras e radicalização.
Se esta doutrina se consolidar, estaremos diante de uma inflexão relevante na política internacional: o uso da supremacia aérea não apenas como instrumento militar, mas como mecanismo de remodelação política externa. Uma guerra sem botas no solo mas com ambição explícita de mudar regimes.
O êxito ou o fracasso dessa estratégia no Irã não definirá apenas o futuro do Oriente Médio. Definirá se a coerção cirúrgica se tornará o paradigma dominante de intervenção no século XXI.
Se confirmada a morte de Ali Khamenei, não estaremos apenas
diante da eliminação de um líder, mas da possível consolidação de uma prática:
a decapitação seletiva como instrumento ordinário de política internacional.
Os próprios contornos da operação indicam algo significativo.
Não se trata, ao menos até o momento, de guerra declarada, invasão territorial
ou ocupação prolongada. Estados Unidos e Israel parecem ter conduzido uma ação
limitada, com objetivo preciso: atingir o centro decisório do regime. Uma
operação cirúrgica destinada não a destruir o Estado iraniano em sua
materialidade, mas a produzir um vazio no topo. O gesto é militar; o efeito
pretendido é político.
Historicamente, a eliminação deliberada de chefes de Estado
sempre foi tratada com extremo cuidado. O precedente frequentemente lembrado é
o abate do almirante Isoroku Yamamoto, em 1943, um comandante militar em teatro
ativo de guerra, morto numa operação de inteligência que visava enfraquecer a
Marinha Imperial Japonesa. Ainda assim, Yamamoto não era o chefe político do
Japão.
Durante a Segunda Guerra Mundial, não houve doutrina aliada
sistemática de assassinato de Adolf Hitler ou Benito Mussolini como política
oficialmente assumida. Mesmo quando Mussolini caiu, foi capturado por seus
próprios compatriotas. O tabu existia, não por sentimentalismo, mas por
cálculo: matar o chefe supremo de um Estado alterava a natureza do conflito e
criava precedentes perigosos.
A distinção clássica era clara: eliminar um comandante
militar em combate é ato de guerra; eliminar o soberano é um gesto que toca o
cerne da soberania. O primeiro pertence ao campo operacional; o segundo, ao
simbólico e ao jurídico.
O que parece emergir agora é o colapso dessa distinção. A
“operação cirúrgica” substitui a guerra formal. O ataque limitado substitui a
campanha prolongada. A linguagem da precisão tecnológica mascara o que, na
substância, pode ser um ato de regicídio internacional. Se a liderança suprema
torna-se alvo legítimo sob a justificativa de ameaça estratégica,
nuclear, regional ou ideológica , abre-se uma nova etapa na prática do poder
global.
Há, evidentemente, argumentos pragmáticos a favor da
decapitação estratégica. Eliminar o vértice decisório pode reduzir a capacidade
de coordenação do inimigo, produzir desorientação interna e abreviar confrontos
maiores. No caso iraniano, a reação observada até aqui sugere cálculo: uma
retaliação suficientemente visível para preservar honra e dissuasão, mas
aparentemente calibrada para evitar guerra total. Isso reforça a hipótese de
que a ofensiva não buscava um conflito amplo, mas uma alteração controlada do
equilíbrio interno.
Ainda assim, a questão central não é apenas tática; é
estrutural. Se o assassinato seletivo do chefe máximo de um Estado passa a
integrar o repertório aceitável das grandes potências, a imunidade soberana
sofre erosão profunda. O que impede que outros líderes, considerados ameaças
existenciais por seus adversários, passem a figurar como alvos legítimos? A
fronteira entre dissuasão e eliminação preventiva torna-se perigosamente tênue.
Alguns argumentarão que não há novidade: mudanças de regime
sempre fizeram parte da política internacional. Mas há diferença entre fomentar
pressões internas, apoiar opositores ou intervir em guerras civis e atingir
diretamente o líder supremo de um Estado funcional, sem declaração formal de
guerra. A primeira lógica pertence ao campo da influência; a segunda, ao da
supressão física do soberano.
Nesse sentido, não estamos simplesmente diante de um retorno
ao passado. O regicídio era prática comum em eras pré-modernas, quando a
política era personalista e dinástica. A ordem internacional contemporânea,
estruturada sobre a ideia de soberania jurídica, buscou afastar essa lógica. A
possível morte de Khamenei sinaliza, talvez, o retorno de uma política
personalizada em ambiente tecnológico avançado: precisão balística combinada
com cálculo geopolítico.
A pergunta que se impõe é inevitável: estamos assistindo à
formação de uma doutrina informal de mudança de regime por decapitação
seletiva? Se a resposta for afirmativa, o sistema internacional ingressa em
fase de maior volatilidade. Chefes de Estado passam a viver sob ameaça
permanente; crises deixam de ser apenas disputas entre aparelhos militares e
tornam-se confrontos diretos entre vértices de poder.
Não se trata apenas do destino de um homem. Trata-se do destino de um princípio. Se a liderança suprema pode ser removida por ataque externo em nome da estabilidade, a própria ideia de estabilidade passa a depender da capacidade de cada regime proteger fisicamente seu topo. A política internacional, então, aproxima-se menos do direito e mais da anatomia.
A decisão de Donald Trump de atacar o Irã em conjunto com
Benjamin Netanyahu, mesmo após o anúncio de nova rodada de negociações
nucleares, não é apenas uma escalada militar. É um gesto conceitual: indica que
a força deixou de ser o último recurso da diplomacia para tornar-se seu
substituto.
Desde a Paz de Vestfália, em 1648, a ordem internacional
moderna se organizou em torno de um princípio simples e revolucionário: Estados
soberanos reconhecem-se mutuamente e limitam o uso da força a circunstâncias
extremas. O monopólio da violência é interno; externamente, vigora o
reconhecimento recíproco. A guerra, embora nunca abolida, passa a ser
enquadrada por regras, ritos e justificativas.
Quando uma potência decide atacar no meio de negociações em
curso, a mensagem não se limita ao adversário imediato. O recado é sistêmico: o
diálogo é contingente; a coerção, decisiva. A diplomacia deixa de ser arena
principal de resolução de disputas estratégicas e passa a funcionar como
intervalo entre demonstrações de poder.
O argumento apresentado é o da prevenção: impedir que Teerã
consolide capacidade nuclear. Aqui reside a inflexão crucial. Preempção e
prevenção não são equivalentes. A preempção responde a uma ameaça iminente,
quase tangível; a prevenção elimina uma ameaça potencial futura. O direito
internacional, herdeiro da tradição de Grotius, tolera a primeira sob critérios
estritos de necessidade e proporcionalidade. A segunda abre espaço para guerras
de escolha, nas quais a percepção do risco substitui sua materialidade.
Ao diluir essa distinção, amplia-se perigosamente o campo da
autodefesa. Se a mera possibilidade de fortalecimento estratégico do outro
autoriza o ataque, qualquer Estado pode reivindicar igual prerrogativa. A
segurança deixa de ser produto da contenção recíproca e passa a depender da iniciativa
unilateral.
O precedente é ainda mais perturbador se considerarmos a
hipótese, mesmo não confirmada — de eliminação direta de um chefe de Estado em
exercício. Nem mesmo no auge da Guerra Fria Washington assumiu formalmente a
morte de um líder adversário como objetivo central de política externa. Se isso
se torna aceitável, ingressamos numa era de decapitação de regimes como
instrumento legítimo de gestão estratégica. A soberania, pilar da ordem
vestfaliana, torna-se condicional à tolerância das grandes potências.
A experiência histórica recomenda ceticismo quanto às
promessas implícitas nesse tipo de operação. A derrubada de Saddam Hussein
desestruturou o Estado iraquiano e abriu espaço para guerra sectária
prolongada. A queda de Muammar Gaddafi fragmentou a Líbia em milícias rivais. O
vazio de poder raramente produz ordem liberal espontânea; produz competição
armada por legitimidade e controle territorial.
Há ainda o fator estrutural frequentemente subestimado na
retórica moral: o Estreito de Hormuz. Por ali transita parcela decisiva do
comércio global de energia. Um bloqueio, mesmo temporário, afetaria cadeias
produtivas, mercados financeiros e segurança energética em escala planetária. O
conflito, portanto, não é apenas regional. É sistêmico. A guerra no Golfo nunca
permanece no Golfo.
O que se desenha é a erosão progressiva da arquitetura
construída após 1945, cujo objetivo era conter a tentação da guerra preventiva.
O abandono do acordo nuclear de 2015 já sinalizava o enfraquecimento do
multilateralismo. O ataque durante negociações em andamento consolida a
percepção de que acordos são instrumentos táticos, não compromissos
estruturais.
Clausewitz escreveu que a guerra é a continuação da política
por outros meios. Mas essa fórmula pressupunha que a política precedesse a
guerra, que a moldasse e a contivesse. Quando a força passa a anteceder e
substituir a negociação, a equação se inverte. A política torna-se gestão das
consequências do uso da força; a diplomacia, mecanismo de administração do
dano.
Talvez estejamos diante de algo mais profundo do que uma
crise regional: uma mutação na hierarquia dos instrumentos de poder. Se a
guerra preventiva se normaliza e a soberania se torna relativa, o sistema
internacional retorna a uma lógica anterior à institucionalização pós-1945, uma
lógica em que a estabilidade depende menos de regras compartilhadas e mais da
capacidade de impor custos.
Se isso for verdade, o Oriente Médio não é apenas palco de mais um confronto. É laboratório de uma nova ou antiga ordem internacional, na qual a diplomacia não desaparece, mas perde centralidade. E quando a diplomacia deixa de ser eixo e se torna adereço, a guerra deixa de ser exceção e volta a ser método.