A história militar é, em larga medida, a história da desigualdade. Raros foram os conflitos travados entre forças equivalentes; quase sempre, um dos lados dispõe de mais homens, mais recursos, mais tecnologia. Diante disso, o lado mais fraco enfrenta uma escolha elementar: submeter-se ou reinventar a própria forma de combater. É nesse ponto que nasce aquilo que, no vocabulário contemporâneo, chamamos de guerra assimétrica.
Em Da Guerra, Carl von Clausewitz não emprega o termo moderno, mas oferece sua chave conceitual: a guerra é a continuação da política por outros meios, e sua forma concreta deriva da relação de forças e dos objetivos políticos. Quando o objetivo é resistir e sobreviver, e os meios são escassos, a guerra tende a abandonar a busca da decisão fulminante e a abraçar o desgaste, a dispersão, a erosão moral do inimigo. A defesa, dizia Clausewitz, é a forma mais forte da guerra, não porque ataque menos, mas porque escolhe quando e onde fazê-lo.
A Espanha ocupada por Napoleão ilustra essa mutação. A guerrilha, palavra que nasce ali, dissolveu o campo de batalha clássico. O soldado imperial, treinado para a manobra e o choque, enfrentou uma sociedade armada, difusa, que recusava a batalha decisiva e preferia a emboscada, o corte de suprimentos, o ataque noturno. O fraco não imitava o forte; negava-lhe o terreno de excelência.
No século XX, essa lógica se expandiu. Da Indochina ao Afeganistão, a guerra assimétrica tornou-se a gramática dos movimentos que enfrentavam impérios ou superpotências. O cálculo é simples: se não posso vencer seu exército, corroerei sua vontade política. A vitória não será militar, mas temporal.
É nesse arco histórico que se insere a doutrina da República Islâmica do Irã. Desde 1979, o regime compreendeu que não poderia competir simetricamente com os Estados Unidos nem com Israel. Sua força aérea é limitada; sua marinha, incapaz de projetar poder global; sua economia, sujeita a sanções. A resposta não foi a resignação, mas a institucionalização da assimetria como política de Estado.
A Guarda Revolucionária Islâmica tornou-se o eixo dessa estratégia. Mais do que uma força armada paralela, ela é um aparelho político-militar destinado a exportar influência por meios indiretos. Sua Força Quds articulou uma rede de milícias e aliados, do Hezbollah no Líbano ao Hamas em Gaza, que funcionam como extensões externas da segurança iraniana. Não se trata apenas de proxies; trata-se de uma arquitetura regional de dissuasão.
O raciocínio é coerente: cercar o adversário com múltiplos focos de pressão, elevar o custo de qualquer ataque direto, fragmentar o teatro de operações. Ao invés de confrontar Israel em campo aberto, criar um “cinturão de fogo”. Ao invés de desafiar a marinha americana no oceano, ameaçar o tráfego no Estreito de Ormuz. Ao invés de competir em caças de quinta geração, investir em mísseis balísticos, drones e saturação de defesas.
Há, porém, um elemento adicional na versão iraniana da guerra assimétrica: sua institucionalização. Diferentemente das guerrilhas clássicas, que emergem de movimentos sociais ou nacionais, aqui o Estado assume formalmente a guerra indireta como instrumento regular de política externa. A assimetria deixa de ser expediente provisório e converte-se em doutrina permanente.
Essa escolha produz efeitos ambíguos. De um lado, compensa fraquezas estruturais e permite projetar poder com custos relativamente baixos. De outro, cristaliza uma dependência da instabilidade. A guerra indireta precisa de zonas cinzentas, de Estados frágeis, de conflitos prolongados. Quando o adversário consegue neutralizar essas redes ou deslocar o confronto para o centro, atacando infraestrutura, liderança e território, a assimetria revela seus limites.
A história ensina que a guerra dos fracos pode humilhar impérios, mas raramente constrói ordens estáveis. Ela é eficaz como negação, menos como fundação. A guerrilha espanhola expulsou Napoleão, mas não criou uma nova arquitetura europeia. Os movimentos insurgentes do século XX conquistaram independências, mas muitas vezes herdaram Estados exaustos pela militarização prolongada.
No caso iraniano, a pergunta decisiva é se a institucionalização da guerra indireta fortaleceu o regime ou o aprisionou numa lógica de confronto permanente. A assimetria, ao prolongar conflitos e multiplicar frentes, também prolonga vulnerabilidades. O fraco aprende a ferir; mas, ao fazê-lo, pode legitimar respostas devastadoras.
Clausewitz advertia que a guerra tem sua própria gramática, mas não sua própria lógica. A lógica permanece política. Quando a política se confunde com a guerra permanente, a assimetria deixa de ser estratégia e se torna destino. E destinos estratégicos, como a história demonstra, raramente são benignos para quem os abraça como única possibilidade.
Nota: ao leitor interessado remeto: CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010; ARON, Raymond. A Paz e a Guerra entre as Nações. Brasilia: UNB Editora, 2002.