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Wellington Freire

Vencer sem vencer: o cálculo sombrio da estratégia iraniana

Wellington Freire - 06 de Março de 2026 | 10h 28
Vencer sem vencer: o cálculo sombrio da estratégia iraniana
Foto: Reprodução

Há guerras travadas para vencer. Outras, para não perder. O Irã parece pertencer à segunda categoria. Observando os primeiros dias do conflito atual, pode parecer que a balança militar pesa esmagadoramente contra Teerã.

A supremacia aérea de Estados Unidos e Israel é evidente; as defesas antiaéreas iranianas foram duramente atingidas; bases e infraestruturas sofrem ataques constantes. No plano estritamente militar convencional, o desequilíbrio é evidente.

Mas a história das guerras ensina que desigualdade militar não determina, automaticamente, o resultado político. A doutrina estratégica iraniana parece partir, justamente, dessa premissa.

Seu objetivo não é derrotar os adversários em campo aberto, algo praticamente impossível diante da superioridade tecnológica americana e israelense. O objetivo é outro: sobreviver tempo suficiente para tornar a guerra cara demais para quem a iniciou.

Essa lógica não é nova. O Vietnã do Norte aplicou-a, com disciplina implacável, contra os Estados Unidos. Washington possuía superioridade absoluta em aviação, tecnologia e poder de fogo.

Ainda assim, o regime de Hanói não buscava vencer batalhas decisivas, no sentido clássico. Seu cálculo era mais frio: resistir, dispersar forças, absorver perdas e prolongar o conflito até que o custo político se tornasse insustentável para o adversário. Em outras palavras, transformar a superioridade militar do inimigo em um problema político.

Algo semelhante ocorreu nas insurgências que enfrentaram os Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Durante duas décadas, forças americanas dominaram os céus, o espaço eletrônico e a tecnologia militar. Mesmo assim, insurgentes com recursos incomparavelmente menores conseguiram manter o conflito vivo  e caro  por anos. A estratégia iraniana parece ecoar esse mesmo princípio.

Um dos pilares dessa lógica é a dispersão dos meios militares. Diferentemente de exércitos convencionais, que dependem de grandes bases ou centros industriais facilmente identificáveis, o Irã construiu, ao longo de décadas, uma arquitetura militar fragmentada. Lançadores móveis de mísseis, depósitos subterrâneos, redes logísticas descentralizadas e produção distribuída dificultam a destruição completa de sua capacidade ofensiva.

A geografia também joga a favor dessa estratégia. O território iraniano é vasto,  três vezes o tamanho da França,  com montanhas, desertos e cidades densas, que oferecem inúmeras possibilidades de ocultação. Mas, talvez, o elemento mais visível dessa doutrina seja a aposta em armamentos relativamente baratos e produzidos em massa, como os drones de ataque.

Aqui, surge uma das ironias da guerra contemporânea: sistemas relativamente simples podem impor custos gigantescos a adversários tecnologicamente superiores. Um drone de algumas dezenas de milhares de dólares pode obrigar o uso de um interceptor que custa milhões.

A matemática estratégica torna-se assimétrica. Essa lógica, saturar defesas caras com ataques baratos, já foi observada na guerra entre Rússia e Ucrânia, e aparece, novamente, no conflito atual.

Outro componente essencial da estratégia iraniana está fora de suas fronteiras. Ao longo de décadas, Teerã construiu uma rede de aliados e parceiros armados na região: Hezbollah, no Líbano; milícias, no Iraque; houthis, no Iêmen. Esses atores ampliam o campo de batalha e fragmentam a atenção do adversário. Em vez de uma guerra concentrada em um único front, surge um sistema de conflitos interligados, onde ataques podem surgir em diferentes pontos do Oriente Médio.

Para potências militares acostumadas a campanhas rápidas e decisivas, esse tipo de guerra representa um desafio, particularmente, difícil. A superioridade tecnológica resolve batalhas, mas nem sempre resolve o problema político fundamental: quando e como encerrar o conflito.

No fundo, a estratégia iraniana parece apostar em uma lição recorrente da história militar: a vitória não depende apenas da força disponível, mas da capacidade de suportar o desgaste.

Napoleão descobriu isso na Rússia. Os Estados Unidos aprenderam no Vietnã. E, novamente, no Afeganistão. Guerras assim raramente terminam com desfiles triunfais. Elas terminam quando um dos lados conclui que continuar lutando deixou de fazer sentido.

Se essa é, de fato, a aposta de Teerã, então, a pergunta central do conflito atual, talvez, não seja militar, mas política: quem está mais preparado para suportar o tempo da guerra?



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