Quando Winston Churchill chamou o Mediterrâneo de “o flácido baixo-ventre do Eixo”, não fazia apenas descrição geográfica. Enunciava uma estratégia: evitar o confronto frontal e golpear as margens vulneráveis do adversário. A pergunta que se impõe hoje é inevitável: os ataques americanos à Venezuela de Nicolás Maduro e ao Irã de Ali Khamenei podem ser lidos como algo semelhante, não apenas ações pontuais contra regimes específicos, mas golpes dirigidos às periferias da influência chinesa? A hipótese não é descabida, conforme tentarei demonstrar.
A China expandiu sua presença econômica e diplomática na América Latina e no Oriente Médio nas últimas duas décadas com notável pragmatismo. Energia venezuelana, petróleo iraniano, acordos de infraestrutura, créditos bilaterais, não se trata de alianças militares formais, mas de uma rede de dependências funcionais. Pequim não construiu um bloco ideológico; construiu corredores de fluxo. Se assim é, atacar Caracas e Teerã não seria apenas pressionar governos hostis a Washington, mas tensionar nós periféricos de uma arquitetura estratégica chinesa ainda em consolidação.
Mas aqui é preciso rigor conceitual. Nem Venezuela nem Irã são equivalentes ao “coração industrial” de uma potência rival. Não são Berlim em 1943. São, no máximo, pontos de apoio, plataformas energéticas e diplomáticas. A China não possui com eles compromissos de defesa mútua, tampouco depende existencialmente de sua sobrevivência política. O vínculo é utilitário.
É justamente isso que torna esses espaços vulneráveis. A grande potência estabelecida, os Estados Unidos, detém capacidade expedicionária global. Pode projetar força rapidamente em teatros distantes, demonstrando que nenhum alinhamento periférico está imune à sua ação. Não se trata apenas de derrubar um regime; trata-se de sinalizar que redes alternativas de poder continuam sujeitas à primazia americana.
Nesse sentido, os ataques operam como pedagogia estratégica. Mostram aos parceiros de Pequim que o custo de alinhamento pode ser elevado. Reafirmam que, apesar da retórica multipolar, a capacidade coercitiva imediata ainda pertence a Washington.
Mas há outro lado. Se fosse de fato um ataque ao “baixo-ventre” chinês, esperar-se-ia reação mais contundente de Pequim. O que se observa é contenção. Protestos diplomáticos, apelos à estabilidade, nenhuma escalada militar. Isso revela algo essencial: para a China, essas áreas são importantes, mas não vitais.
O núcleo estratégico chinês está no Indo-Pacífico. É ali que se concentra a modernização naval, a capacidade de negação de área, a pressão sobre Taiwan. É ali que Pequim aceitaria risco maior. América Latina e Oriente Médio compõem um cinturão de interesses energéticos e comerciais, não um perímetro existencial.
Essa diferença de hierarquia estratégica explica a aparente inércia chinesa. Não se trata de fraqueza, mas de seleção de prioridades. Envolver-se militarmente para defender Caracas ou Teerã significaria deslocar foco do teatro central e arriscar confronto direto com os EUA em terreno escolhido por Washington.
Há também cálculo mais sutil. Ao não reagir de forma simétrica, a China preserva sua narrativa de não-intervenção e evita legitimar a lógica de blocos militares rígidos. Enquanto os EUA operam pela projeção imediata de poder, Pequim aposta na erosão estrutural de longo prazo: comércio, infraestrutura, tecnologia, interdependência.
Isso não invalida a leitura de que Washington atua nas bordas do sistema chinês. Mas talvez o objetivo americano não seja cortar o “baixo-ventre” de um império emergente e sim lembrar ao mundo que o centro do sistema ainda possui alcance global.
Há, contudo, risco inerente nessa estratégia. Golpear periferias pode produzir instabilidade que transcende o cálculo original. Mercados energéticos reagem, alianças se reconfiguram, ressentimentos se acumulam. A demonstração de força pode reforçar a percepção, em terceiros países, de que dependem excessivamente de um sistema coercitivo.
A metáfora de Churchill ilumina, mas também engana. O Mediterrâneo era corredor logístico crucial para a Alemanha. Venezuela e Irã são peças relevantes, mas substituíveis, no tabuleiro chinês. Não são seu coração industrial nem seu flanco indefeso são extensões de uma estratégia mais ampla.
Talvez estejamos menos diante de um ataque ao “baixo-ventre” do eixo sino-periférico e mais diante de uma reafirmação da capacidade americana de agir onde quiser. Uma potência consolidada mostrando que ainda pode escolher o campo de batalha.
A questão decisiva não é se Washington atinge periferias chinesas. É se isso altera o equilíbrio estrutural de poder. Até agora, a resposta parece ser que não. A China observa, ajusta e preserva seu foco central.
No fim, o verdadeiro confronto não está em Caracas nem em Teerã. Está no Pacífico. O resto pode ser teatro estratégico, importante, ruidoso, mas não decisivo. E talvez seja essa a diferença fundamental entre um império que ainda opera globalmente e outro que ascende calculando cada movimento.