O deslocamento recente de tropas americanas ao Oriente Médio, incluindo elementos da 82ª Divisão Aerotransportada e unidades expedicionárias do Corpo de Fuzileiros Navais, recoloca no centro do debate estratégico um dilema clássico: a diferença entre tomar um objetivo e sustentá-lo sob pressão contínua. No caso da ilha de Kharg, essa distinção deixa de ser teórica e assume contornos operacionais imediatos.
A configuração das forças mobilizadas sugere um roteiro militar relativamente claro. De um lado, os paraquedistas da 82ª, concebidos como força de resposta rápida, capazes de projeção em poucas horas, poderiam cumprir o papel de vanguarda: garantir pontos-chave, neutralizar defesas iniciais e, sobretudo, assegurar uma cabeça de ponte aérea. De outro, os fuzileiros navais, embarcados em grupos anfíbios, constituem o núcleo de ocupação e consolidação do terreno.
Essa combinação não é acidental. Ela remete a uma lógica operacional consolidada ao longo do século XX: primeiro, a inserção rápida de tropas leves para desorganizar o inimigo; depois, o desembarque de forças mais robustas, com apoio logístico e capacidade de permanência. A possibilidade de um desembarque anfíbio, seja por helicópteros, aeronaves ou embarcações de assalto, reforça essa leitura. Trata-se de uma operação que, no papel, privilegia velocidade, surpresa e concentração de força em um ponto decisivo.
No entanto, a aparente clareza tática esbarra em um problema estrutural. Kharg não é apenas um alvo isolado: é um nó logístico inserido em um ambiente altamente hostil. Localizada a curta distância do território continental iraniano, a ilha está ao alcance de mísseis, drones e artilharia. Isso significa que qualquer força ocupante, por mais eficiente que seja na fase inicial da operação, passaria imediatamente a operar sob ameaça constante.
É nesse ponto que emerge o paradoxo. A tomada da ilha, especialmente com o emprego combinado de paraquedistas e fuzileiros, poderia, de fato, ocorrer em questão de horas ou poucos dias. A superioridade tecnológica e a capacidade de coordenação das forças americanas tornam esse cenário plausível. O desafio real começa depois: manter Kharg.
Sustentar uma posição insular exige mais do que poder de fogo. Exige linhas de suprimento seguras, fluxo contínuo de combustível, munição, alimentos e reforços. No caso do Golfo Pérsico, essas linhas passam inevitavelmente por gargalos estratégicos como o Estreito de Hormuz, uma das vias marítimas mais sensíveis do mundo. Qualquer tentativa de interdição, mineração ou ataque assimétrico pode comprometer a logística da operação.
Além disso, há a vulnerabilidade inerente ao próprio conceito de ocupação insular. Diferentemente de campanhas continentais, onde a profundidade territorial permite manobra e recuo, uma ilha impõe limites rígidos: espaço reduzido, exposição permanente e dificuldade de dispersão. Em Kharg, isso se traduz na necessidade de proteger simultaneamente infraestrutura crítica, pistas de pouso e posições defensivas, tudo sob vigilância e alcance do inimigo.
A história militar oferece paralelos eloquentes. Diversas campanhas insulares demonstraram que o sucesso inicial não garante estabilidade posterior. A conquista pode ser rápida; a manutenção, prolongada e custosa. No caso iraniano, esse custo não se limitaria ao campo militar. A ocupação de Kharg configuraria uma escalada significativa, com potencial de ampliar o conflito para além da ilha, envolvendo atores regionais, milícias aliadas e até impactos diretos no mercado global de energia.
Há ainda um elemento político incontornável. Operações desse tipo não ocorrem no vazio estratégico: elas são observadas, interpretadas e respondidas. A presença de paraquedistas e fuzileiros navais não apenas prepara o terreno para uma ação militar; ela também sinaliza intenção, cria pressão e redefine o cálculo do adversário. Nesse sentido, o envio dessas tropas pode funcionar tanto como prelúdio de uma operação quanto como instrumento de coerção.
O ponto central, portanto, não está na capacidade de tomar Kharg, mas na viabilidade de transformá-la em ativo estratégico duradouro. Uma ocupação bem-sucedida exigiria superioridade aérea e naval contínua, resiliência logística e disposição política para absorver custos, inclusive humanos derivados de inevitáveis listas de baixas, ao longo do tempo. Sem esses elementos, a ilha corre o risco de se tornar um objetivo efêmero: conquistado com rapidez, mas progressivamente erodido pela pressão adversária.
Kharg sintetiza, assim, uma tensão fundamental da guerra contemporânea. Em um ambiente marcado por tecnologias avançadas e operações de alta precisão, persiste um problema antigo: o controle do território. E, como tantas vezes na história miitar recente, a diferença entre vitória e impasse não está no momento da conquista, mas na capacidade de sustentar o que foi conquistado.
Há momentos na história em que o poder militar deixa de ser instrumento da estratégia e passa a substituí-la. É nesse ponto que a guerra entra em sua fase mais perigosa, não a da derrota iminente, mas a da vitória sem direção. O movimento recente dos Estados Unidos no Oriente Médio, com o envio de tropas aerotransportadas e a consideração de uma operação terrestre contra o Irã, carrega precisamente esse sinal: a escalada precede o pensamento.
A combinação de ultimatos diplomáticos com reforços militares sugere não uma estratégia dual coerente, mas uma hesitação estrutural. Pressiona-se pela paz enquanto se prepara a guerra. A mensagem não é ambiguidade calculada mas sim indecisão operacional convertida em ação. E essa lógica não é nova. Ela possui um precedente histórico claro e inquietante: o envolvimento progressivo dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.
No Vietnã, a escalada não começou com uma decisão estratégica definitiva, mas com uma sequência de incrementos táticos. Conselheiros militares tornaram-se contingentes. Contingentes tornaram-se divisões. Bombardeios limitados transformaram-se em campanhas sistemáticas. Em cada etapa, a justificativa era a mesma: criar condições melhores para negociação ou estabilização. O resultado, contudo, foi outro, a guerra adquiriu sua própria lógica, independente das intenções políticas iniciais.
O que se observa agora guarda uma semelhança estrutural. O envio de forças de resposta rápida, como a 82ª Divisão Aerotransportada, não representa ainda uma invasão em larga escala. Mas tampouco é neutro. Trata-se de um instrumento concebido para intervenções rápidas, que, uma vez acionado, cria pressões internas por emprego efetivo. Tropas mobilizadas exigem missão; missão exige expansão de objetivos; e objetivos ampliados exigem novos meios. A escalada, uma vez iniciada, raramente se detém por decisão voluntária.
No Vietnã, essa dinâmica foi agravada por um erro de percepção fundamental: a crença de que superioridade tecnológica e capacidade de mobilização poderiam compensar a ausência de um objetivo político claro. Cada incremento militar era visto como um passo em direção à resolução do conflito. Na prática, cada passo aprofundava o compromisso, sem aproximar o desfecho.
Hoje, o risco se repete sob novas formas. A possível tomada de pontos estratégicos, como centros logísticos ou energéticos, pode produzir ganhos táticos imediatos. Mas a pergunta essencial permanece sem resposta: o que vem depois? A história demonstra que a captura de um objetivo não encerra uma guerra quando o adversário mantém capacidade de resistência e, sobretudo, vontade política de continuar lutando.
Outro paralelo crucial com o Vietnã reside na ilusão da guerra limitada. Em teoria, operações cirúrgicas e intervenções pontuais permitiriam controlar a intensidade do conflito. Na prática, o inimigo redefine constantemente o campo de batalha. No Sudeste Asiático, isso significou guerrilha, dispersão e prolongamento. No Oriente Médio, pode significar ataques assimétricos, pressão sobre rotas energéticas e expansão regional indireta. Em ambos os casos, a potência superior descobre que não controla o ritmo da guerra.
Há ainda um elemento psicológico que aproxima os dois contextos: a dificuldade de recuo. No Vietnã, cada novo envio de tropas tornava politicamente mais custoso admitir erro. A escalada não era apenas militar; era também simbólica. Recuar significava reconhecer que o sacrifício anterior fora em vão. Assim, a guerra prolongou-se além de qualquer racionalidade estratégica inicial.
O cenário atual contém esse mesmo risco latente. Uma vez comprometidas forças terrestres, a lógica da credibilidade entra em jogo. Não se trata mais apenas de vencer, mas de não parecer derrotado. E essa distinção, sutil, mas decisiva, é frequentemente o que aprisiona grandes potências em conflitos prolongados.
O problema central, portanto, não é a capacidade militar dos Estados Unidos. Essa permanece incontestável. O problema é a ausência de um nexo claro entre meios e fins. No Vietnã, esse nexo nunca foi plenamente definido. E quando uma guerra não sabe exatamente o que busca, qualquer vitória se torna provisória e qualquer retirada, inevitável.
A história não se repete mecanicamente, mas oferece padrões. O mais perigoso deles é a crença de que desta vez será diferente apenas porque os meios são mais avançados. No entanto, a lógica da escalada indecisa permanece a mesma. E, como no passado, o verdadeiro campo de batalha não é apenas o território disputado, mas a própria capacidade de definir o sentido da guerra. Sem isso, cada reforço é apenas mais um passo em direção a um conflito que cresce, não porque foi planejado, mas porque já não pode ser facilmente interrompido.
Ontem, este jornal publicou um artigo do competente colunista André Pomponet trazendo um dado que deveria nos inquietar mais do que inquieta: segundo o censo do IBGE, cerca de 25% das casas em Feira de Santana encontram-se vazias. Não se trata de um detalhe estatístico, trata-se de um sintoma. E, como todo sintoma urbano, aponta para uma transformação mais profunda, silenciosa e, talvez, irreversível. A cidade não cresce apenas: ela se desloca.
Na década de 1970, quando foi construído o conjunto Feira I, fora do anel de contorno, a população lhe deu um nome revelador: “Cidade Nova”. O batismo popular captava algo essencial, a percepção de que o centro vital da cidade não é fixo, mas móvel. Hoje, esse mesmo movimento parece repetir-se, com maior intensidade e velocidade, em direção a regiões como a Avenida Noide Cerqueira, o Papagaio e o SIM. Ali, ergue-se uma nova centralidade, planejada, protegida, homogênea. Mas toda nova centralidade cobra um preço: ela esvazia outra.
O fenômeno que presenciamos não é apenas expansão urbana; é redistribuição de presença. A proliferação de condomínios fechados, impulsionada pelo medo, sobretudo o medo da violência, reorganiza o tecido social. As classes médias e altas migram para espaços murados, onde a cidade é filtrada, vigiada, controlada. O que fica para trás não é apenas um estoque de imóveis desocupados, mas uma paisagem social rarefeita. Casas vazias não são apenas estruturas inertes: são sinais de retirada.
E a retirada, na história das cidades, raramente é neutra. Ela inaugura processos. O primeiro deles é a perda de densidade humana, menos gente circulando, menos comércio ativo, menos vigilância informal. Em seguida, vem a degradação progressiva: imóveis abandonados deterioram-se, atividades ilícitas encontram abrigo, e a percepção de insegurança se retroalimenta. Forma-se, assim, um ciclo de abandono.
O entorno da estação rodoviária já oferece um vislumbre desse destino possível: áreas que, outrora, eram zonas de passagem e vitalidade convertem-se em espaços marcados pela marginalidade e pelo estigma. O termo “cracolândia”, ainda que impreciso e carregado, indica algo real: a transformação de vazios urbanos em territórios de exceção social. A questão central, portanto, não é apenas quantas casas estão vazias, mas o que esses vazios produzem.
A cidade moderna, ao contrário da cidade antiga, não teme crescer teme concentrar. Por isso, ela se expande horizontalmente, criando novos polos e abandonando antigos. Mas esse modelo gera uma tensão estrutural: de um lado, enclaves de ordem e previsibilidade; de outro, zonas de indeterminação crescente. A oposição entre a “cidade nova” e a “cidade esvaziada” não é apenas espacial é simbólica. Uma representa o desejo de controle; a outra, o risco do abandono.
Há, aqui, um paralelo histórico que não deve ser ignorado. Grandes centros urbanos ao longo do século XX, de Detroit a São Paulo, experimentaram processos semelhantes: deslocamento de elites, esvaziamento de áreas centrais, surgimento de bolsões de degradação. Em todos esses casos, o resultado foi o mesmo: a fragmentação da cidade enquanto experiência comum. Uma cidade fragmentada é, em última instância, uma cidade politicamente enfraquecida.
Porque a cidade não é apenas um espaço físico é um pacto tácito de convivência. Quando parcelas significativas da população se retiram para espaços autossuficientes, esse pacto se rompe. O espaço público perde centralidade, e com ele perde-se também a ideia de pertencimento compartilhado. Feira de Santana encontra-se, ao que tudo indica, nesse limiar.
A pergunta que se impõe não é se a cidade continuará a crescer, isso é inevitável. A pergunta é se ela conseguirá evitar que seu crescimento produza desertos internos. Porque os vazios urbanos não permanecem vazios por muito tempo: eles são ocupados, redefinidos, apropriados, nem sempre pelas forças que a cidade desejaria. Ignorar esses vazios é permitir que eles se tornem destino. E talvez o verdadeiro desafio da cidade moderna não seja construir o novo, mas impedir que o antigo se transforme em ruína social.
Foi em algum momento do início dos anos 1990 que li um ensaio de Ralph Waldo Emerson no qual ele sugeria que as bibliotecas se assemelham a uma grande floresta habitada por gigantes aprisionados. A imagem nunca me abandonou. Há, de fato, algo de sortilégio nesse ajuntamento de volumes: como se as mais altas formas do espírito humano, vozes, ideias, visões, tivessem sido capturadas e comprimidas em papel, aguardando o gesto ritual de quem ousa libertá-las. Abrir um livro é, nesse sentido, romper um selo antigo. É ouvir, em primeira pessoa, aqueles que a morte não conseguiu silenciar.
Mas nem toda biblioteca é templo. Há bibliotecas que são depósitos, necrotérios do pensamento. Outras são vitrines, organizadas mais para serem vistas do que lidas. Algumas, mais raras, são arenas: nelas, livros incompatíveis coexistem em tensão, como exércitos acampados antes da batalha. E há, ainda, aquelas que são órgãos, sim, órgãos, de uma vida interior: não apenas armazenam, mas metabolizam. Entrar numa biblioteca é penetrar numa espécie de caverna ritual onde cada volume arde como um fóssil incandescente: resto de mundos extintos que, no entanto, continuam a irradiar sentido.
A biblioteca pessoal, sobretudo, não é neutra. Ela se forma por camadas, sedimentações de escolhas, obsessões, acasos e fidelidades. Ali estão os livros sublinhados até a exaustão, os abandonados na página vinte, os que foram comprados como promessa e jamais cumpridos. Cada exemplar guarda não apenas um texto, mas um vestígio de relação: o que consolou, o que inquietou, o que feriu. Não se trata de um catálogo, mas de um arquivo de afetos.
Ler é, antes de tudo, submeter-se à alteridade. É permitir que vozes estranhas se instalem em nós, às vezes como hóspedes, às vezes como invasores. Mas a biblioteca revela algo ainda mais profundo: não apenas o que lemos, mas o que escolhemos manter por perto, aquilo que desejamos que continue a nos habitar. Uma estante pode denunciar reverência à tradição, inquietação vanguardista, disciplina filosófica ou abandono lírico. Pode, sobretudo, expor tensões: entre o impulso crítico e a nostalgia, entre o rigor e o delírio. O biógrafo atento sabe disso. Diante de uma biblioteca, ele não lê apenas livros; ele lê escolhas.
Por isso, toda biblioteca é um mapa. Um mapa de tensões, de fidelidades, de fraturas. Nela se inscreve uma identidade que raramente se declara em voz alta. Os livros que alguém guarda e, com frequência, aqueles que nunca termina, são indícios de combates íntimos, de zonas interditas, de perguntas que não cessam. Nesse sentido, a biblioteca funciona como uma tomografia simbólica: revela não apenas o que um indivíduo pensou, mas o que o constituiu.E, no entanto, há algo de inquietante em cidades que não compreendem isso.
Em Feira de Santana, temos hoje uma biblioteca municipal renovada, reerguida em sua materialidade, mas ainda desabitada em seu espírito. O edifício existe; o rito, não. Falta-lhe aquilo que nenhuma política pública parece saber instituir: a reverência. Livros não sobrevivem apenas de orçamento, mas de culto. Sem leitores, uma biblioteca não é mais do que uma arquitetura ociosa, um templo sem sacerdotes. Talvez seja preciso dizer isso sem ironia: ler é um ato litúrgico.
Abrir um livro exige uma disposição semelhante à do antigo oficiante que sobe os degraus de uma pirâmide em Tenochtitlán. Há ali um chamado, uma convocação ao sacrifício, não de corpos, mas de distrações, de superficialidades, de pressas. Ler implica oferecer tempo, atenção, silêncio. E, em troca, recebe-se algo que nenhuma outra prática concede com a mesma intensidade: a possibilidade de ser outro sem deixar de ser si mesmo.
Talvez falte à nossa cidade justamente essa pedagogia do sagrado. Não a sacralização vazia dos objetos, mas o reconhecimento, exigente, quase ascético, de que certas experiências não se consomem: habitam-se. Martin Heidegger lembrava que só se constrói verdadeiramente aquilo que se habita. Construir, nesse sentido, não é erguer paredes, mas instaurar um modo de presença; é demorar-se, insistir, deixar-se transformar pelo espaço que, em contrapartida, passa a nos formar. Uma biblioteca que não é habitada jamais chega a ser construída, ainda que suas paredes sejam novas, seu acervo atualizado, sua arquitetura impecável. Permanecerá como um invólucro sem ontologia, uma forma sem enraizamento. Habitar uma biblioteca, portanto, é mais do que frequentá-la: é permitir que ela se torne uma extensão da vida interior, um lugar onde o tempo deixa de ser cronológico para tornar-se denso, onde a leitura deixa de ser atividade para tornar-se condição. Só então o edifício se cumpre, quando deixa de ser espaço e passa a ser morada.
Porque, no fim, uma biblioteca não é um equipamento cultural, nem um ornamento urbano destinado a figurar em relatórios administrativos. É uma instância de revelação, ou não é nada. Uma autobiografia involuntária, uma confissão sem retórica, onde se depositam, à revelia do próprio sujeito, as camadas mais profundas de sua formação. E uma cidade que não habita suas bibliotecas. que não se curva diante delas com a gravidade que se reserva ao que realmente importa, abdica silenciosamente de sua própria inteligibilidade. Não se trata apenas de não ler livros; trata-se de não produzir espírito. O que resta, então, é apenas superfície: circulação sem densidade, informação sem assimilação, cultura sem interioridade. Uma biblioteca vazia não é um problema de gestão é um sintoma. E, como todo sintoma persistente, denuncia algo mais grave: a recusa coletiva em habitar aquilo que poderia, enfim, nos construir.
O lançamento de mísseis iranianos em direção à remota Diego Garcia, ainda que militarmente ineficaz, representa algo mais profundo do que um erro de cálculo ou um teste de alcance. Trata-se de um gesto inaugural ou, ao menos, emblemático, de uma nova etapa da guerra: aquela em que o impacto psicológico supera o efeito material. Não é o dano que importa, mas a mensagem. Não é a destruição que define o ato, mas o alcance simbólico que ele projeta.
Durante décadas, a análise estratégica operou sob uma distinção clara: capacidade real versus capacidade percebida. A primeira pertence ao domínio da logística, da tecnologia e da doutrina; a segunda, ao da dissuasão. A Guerra Fria foi o grande laboratório dessa tensão. No entanto, o episódio recente desloca esse equilíbrio. O Irã não precisava atingir Diego Garcia. Bastava demonstrar que podia tentar. O gesto, falho no plano operacional, torna-se eficaz no plano cognitivo: ele expande o mapa mental da guerra.
Diego Garcia, nesse sentido, não é apenas uma base. É um símbolo. Uma espécie de “Roma insular” do poder americano, invisível ao grande público, mas central na arquitetura estratégica global. Dali partiram operações decisivas nas guerras do Afeganistão e do Iraque; dali se projeta uma capacidade de ataque que depende justamente de sua distância, de sua invisibilidade e de sua aparente intangibilidade. Atacar, ou simular um ataque, contra esse ponto é, portanto, uma forma de reconfigurar a percepção do que é seguro.
A analogia histórica mais próxima talvez se encontre no teatro do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. Quando a aviação japonesa, sob o comando de Isoroku Yamamoto, atingiu Pearl Harbor em 1941, o objetivo não era apenas neutralizar a frota americana. Era, sobretudo, demonstrar que a distância já não protegia. O ataque redefiniu o espaço da guerra: o território continental e suas extensões deixaram de ser refúgios absolutos. A guerra havia atravessado o oceano.
Mas há uma diferença crucial. Pearl Harbor produziu destruição real e imediata. Diego Garcia, ao contrário, permanece intacta. E, no entanto, o efeito estratégico pode ser comparável em outro registro: o da percepção global. A guerra contemporânea não exige mais o impacto físico para produzir deslocamento psicológico. Ela opera como linguagem — um sistema de sinais em que cada ação, mesmo fracassada, comunica poder, intenção e alcance.
Essa transformação aproxima a guerra de uma forma de semiótica estratégica. Mísseis tornam-se signos; alvos, enunciados; e operações, atos de fala. Quando um projétil cruza milhares de quilômetros, ainda que sem sucesso, ele redesenha o imaginário do conflito. Ele sugere que nenhuma retaguarda é absoluta, que nenhum ponto do sistema está completamente fora de alcance. A invulnerabilidade, que sempre foi um dos pilares da hegemonia, começa a se dissolver não pela destruição, mas pela dúvida.
Há, nesse processo, uma continuidade histórica que remonta às grandes transformações da guerra moderna. A introdução do bombardeio estratégico no século XX já havia deslocado o foco do campo de batalha para o espaço civil e industrial. A lógica era clara: atingir a retaguarda para quebrar a vontade de resistir. Hoje, esse princípio atinge um novo estágio. Não é mais necessário bombardear cidades ou infraestruturas. Basta demonstrar que elas podem ser alcançadas.
A guerra, assim, torna-se uma disputa pela imaginação. O que está em jogo não é apenas quem pode destruir mais, mas quem pode redefinir os limites do possível. Nesse sentido, o episódio de Diego Garcia não deve ser lido como um fracasso iraniano, mas como um experimento estratégico bem-sucedido: ele inscreve no horizonte da guerra a ideia de que até mesmo os pontos mais remotos, aqueles que sustentam silenciosamente o poder global, podem ser visados.
Como em outras épocas de transição, o perigo reside menos no que já aconteceu do que no que agora se tornou pensável. Quando a guerra alcança o invisível, ela deixa de ter fronteiras claras. E, nesse momento, o mundo inteiro passa a ser, ao menos potencialmente, linha de frente.