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Wellington Freire

A Guerra que Cresce Sozinha: Lições Não Aprendidas do Vietnã

26 de Março de 2026 | 07h 35
A Guerra que Cresce Sozinha: Lições Não Aprendidas do Vietnã

Há momentos na história em que o poder militar deixa de ser instrumento da estratégia e passa a substituí-la. É nesse ponto que a guerra entra em sua fase mais perigosa, não a da derrota iminente, mas a da vitória sem direção. O movimento recente dos Estados Unidos no Oriente Médio, com o envio de tropas aerotransportadas e a consideração de uma operação terrestre contra o Irã, carrega precisamente esse sinal: a escalada precede o pensamento.

A combinação de ultimatos diplomáticos com reforços militares sugere não uma estratégia dual coerente, mas uma hesitação estrutural. Pressiona-se pela paz enquanto se prepara a guerra. A mensagem não é ambiguidade calculada mas sim  indecisão operacional convertida em ação. E essa lógica não é nova. Ela possui um precedente histórico claro e inquietante: o envolvimento progressivo dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

No Vietnã, a escalada não começou com uma decisão estratégica definitiva, mas com uma sequência de incrementos táticos. Conselheiros militares tornaram-se contingentes. Contingentes tornaram-se divisões. Bombardeios limitados transformaram-se em campanhas sistemáticas. Em cada etapa, a justificativa era a mesma: criar condições melhores para negociação ou estabilização. O resultado, contudo, foi outro, a guerra adquiriu sua própria lógica, independente das intenções políticas iniciais.

O que se observa agora guarda uma semelhança estrutural. O envio de forças de resposta rápida, como a 82ª Divisão Aerotransportada, não representa ainda uma invasão em larga escala. Mas tampouco é neutro. Trata-se de um instrumento concebido para intervenções rápidas, que, uma vez acionado, cria pressões internas por emprego efetivo. Tropas mobilizadas exigem missão; missão exige expansão de objetivos; e objetivos ampliados exigem novos meios. A escalada, uma vez iniciada, raramente se detém por decisão voluntária.

No Vietnã, essa dinâmica foi agravada por um erro de percepção fundamental: a crença de que superioridade tecnológica e capacidade de mobilização poderiam compensar a ausência de um objetivo político claro. Cada incremento militar era visto como um passo em direção à resolução do conflito. Na prática, cada passo aprofundava o compromisso, sem aproximar o desfecho.

Hoje, o risco se repete sob novas formas. A possível tomada de pontos estratégicos, como centros logísticos ou energéticos, pode produzir ganhos táticos imediatos. Mas a pergunta essencial permanece sem resposta: o que vem depois? A história demonstra que a captura de um objetivo não encerra uma guerra quando o adversário mantém capacidade de resistência e, sobretudo, vontade política de continuar lutando.

Outro paralelo crucial com o Vietnã reside na ilusão da guerra limitada. Em teoria, operações cirúrgicas e intervenções pontuais permitiriam controlar a intensidade do conflito. Na prática, o inimigo redefine constantemente o campo de batalha. No Sudeste Asiático, isso significou guerrilha, dispersão e prolongamento. No Oriente Médio, pode significar ataques assimétricos, pressão sobre rotas energéticas e expansão regional indireta. Em ambos os casos, a potência superior descobre que não controla o ritmo da guerra.

Há ainda um elemento psicológico que aproxima os dois contextos: a dificuldade de recuo. No Vietnã, cada novo envio de tropas tornava politicamente mais custoso admitir erro. A escalada não era apenas militar; era também simbólica. Recuar significava reconhecer que o sacrifício anterior fora em vão. Assim, a guerra prolongou-se além de qualquer racionalidade estratégica inicial.

O cenário atual contém esse mesmo risco latente. Uma vez comprometidas forças terrestres, a lógica da credibilidade entra em jogo. Não se trata mais apenas de vencer, mas de não parecer derrotado. E essa distinção, sutil, mas decisiva, é frequentemente o que aprisiona grandes potências em conflitos prolongados.

O problema central, portanto, não é a capacidade militar dos Estados Unidos. Essa permanece incontestável. O problema é a ausência de um nexo claro entre meios e fins. No Vietnã, esse nexo nunca foi plenamente definido. E quando uma guerra não sabe exatamente o que busca, qualquer vitória se torna provisória  e qualquer retirada, inevitável.

A história não se repete mecanicamente, mas oferece padrões. O mais perigoso deles é a crença de que desta vez será diferente apenas porque os meios são mais avançados. No entanto, a lógica da escalada indecisa permanece a mesma. E, como no passado, o verdadeiro campo de batalha não é apenas o território disputado, mas a própria capacidade de definir o sentido da guerra. Sem isso, cada reforço é apenas mais um passo em direção a um conflito que cresce, não porque foi planejado, mas porque já não pode ser facilmente interrompido.



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