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Wellington Freire

De Pearl Harbor a Diego Garcia: a morte da retaguarda

Wellington Freire - 23 de Março de 2026 | 07h 01
De Pearl Harbor a Diego Garcia: a morte da retaguarda
Foto: Reprodução

O lançamento de mísseis iranianos em direção à remota Diego Garcia, ainda que militarmente ineficaz, representa algo mais profundo do que um erro de cálculo ou um teste de alcance. Trata-se de um gesto inaugural ou, ao menos, emblemático, de uma nova etapa da guerra: aquela em que o impacto psicológico supera o efeito material. Não é o dano que importa, mas a mensagem. Não é a destruição que define o ato, mas o alcance simbólico que ele projeta.

Durante décadas, a análise estratégica operou sob uma distinção clara: capacidade real versus capacidade percebida. A primeira pertence ao domínio da logística, da tecnologia e da doutrina; a segunda, ao da dissuasão. A Guerra Fria foi o grande laboratório dessa tensão. No entanto, o episódio recente desloca esse equilíbrio. O Irã não precisava atingir Diego Garcia. Bastava demonstrar que podia tentar. O gesto, falho no plano operacional, torna-se eficaz no plano cognitivo: ele expande o mapa mental da guerra.

Diego Garcia, nesse sentido, não é apenas uma base. É um símbolo. Uma espécie de “Roma insular” do poder americano, invisível ao grande público, mas central na arquitetura estratégica global. Dali partiram operações decisivas nas guerras do Afeganistão e do Iraque; dali se projeta uma capacidade de ataque que depende justamente de sua distância, de sua invisibilidade e de sua aparente intangibilidade. Atacar, ou simular um ataque, contra esse ponto é, portanto, uma forma de reconfigurar a percepção do que é seguro.

A analogia histórica mais próxima talvez se encontre no teatro do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. Quando a aviação japonesa, sob o comando de Isoroku Yamamoto, atingiu Pearl Harbor em 1941, o objetivo não era apenas neutralizar a frota americana. Era, sobretudo, demonstrar que a distância já não protegia. O ataque redefiniu o espaço da guerra: o território continental e suas extensões deixaram de ser refúgios absolutos. A guerra havia atravessado o oceano.

Mas há uma diferença crucial. Pearl Harbor produziu destruição real e imediata. Diego Garcia, ao contrário, permanece intacta. E, no entanto, o efeito estratégico pode ser comparável em outro registro: o da percepção global. A guerra contemporânea não exige mais o impacto físico para produzir deslocamento psicológico. Ela opera como linguagem — um sistema de sinais em que cada ação, mesmo fracassada, comunica poder, intenção e alcance.

Essa transformação aproxima a guerra de uma forma de semiótica estratégica. Mísseis tornam-se signos; alvos, enunciados; e operações, atos de fala. Quando um projétil cruza milhares de quilômetros, ainda que sem sucesso, ele redesenha o imaginário do conflito. Ele sugere que nenhuma retaguarda é absoluta, que nenhum ponto do sistema está completamente fora de alcance. A invulnerabilidade, que sempre foi um dos pilares da hegemonia, começa a se dissolver não pela destruição, mas pela dúvida.

Há, nesse processo, uma continuidade histórica que remonta às grandes transformações da guerra moderna. A introdução do bombardeio estratégico no século XX já havia deslocado o foco do campo de batalha para o espaço civil e industrial. A lógica era clara: atingir a retaguarda para quebrar a vontade de resistir. Hoje, esse princípio atinge um novo estágio. Não é mais necessário bombardear cidades ou infraestruturas. Basta demonstrar que elas podem ser alcançadas.

A guerra, assim, torna-se uma disputa pela imaginação. O que está em jogo não é apenas quem pode destruir mais, mas quem pode redefinir os limites do possível. Nesse sentido, o episódio de Diego Garcia não deve ser lido como um fracasso iraniano, mas como um experimento estratégico bem-sucedido: ele inscreve no horizonte da guerra a ideia de que até mesmo os pontos mais remotos, aqueles que sustentam silenciosamente o poder global, podem ser visados.

Como em outras épocas de transição, o perigo reside menos no que já aconteceu do que no que agora se tornou pensável. Quando a guerra alcança o invisível, ela deixa de ter fronteiras claras. E, nesse momento, o mundo inteiro passa a ser, ao menos potencialmente, linha de frente.



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