A morte de Ali Larijani, líder iraniano,no contexto da atual guerra envolvendo Israel e o Irã, não deve ser lida como um episódio tático isolado, mas como a expressão mais recente de uma doutrina consolidada ao longo de décadas: a decapitação seletiva de lideranças como instrumento estruturante de guerra.
Desde os anos 1950, operações conduzidas pelo Mossad e por outras agências israelenses revelam uma notável continuidade estratégica. Em vez de apostar exclusivamente na destruição maciça de forças inimigas, modelo clássico das guerras interestatais do século XX, Israel desenvolveu uma forma distinta de conduzir o conflito: atingir não o corpo do inimigo, mas o seu sistema nervoso. A eliminação de figuras-chave não é mero ato de retaliação; trata-se de um método para desorganizar processos decisórios, interromper cadeias de comando e introduzir incerteza estrutural no adversário.
Essa lógica implica uma reconfiguração profunda da própria ideia de vitória. Não se busca necessariamente a rendição formal do inimigo, mas a sua incapacidade de agir de forma coerente. A guerra deixa de ser decidida no campo de batalha, no choque entre exércitos, e passa a ser travada no plano invisível da inteligência, da vigilância e da precisão cirúrgica.
Nesse sentido, a morte de Larijani insere-se numa sequência que revela padrão: a eliminação sistemática de atores situados no núcleo da tomada de decisões estratégicas iranianas. O alvo não é apenas o indivíduo, mas a função que ele desempenha dentro do Estado. Cada eliminação desloca, ainda que temporariamente, o equilíbrio interno de poder, abrindo espaço para respostas mais erráticas, militarizadas ou fragmentadas.
Há, aqui, um eco histórico que remonta à Antiguidade. Roma, em suas campanhas contra estruturas tribais ou confederações menos centralizadas, frequentemente optava por neutralizar chefes locais como forma de evitar guerras prolongadas. No entanto, há uma diferença crucial: onde Roma alternava entre a eliminação de lideranças e a destruição total, como em Cartago, Israel parece ter refinado uma terceira via, tecnologicamente mediada, na qual a precisão substitui a devastação. O resultado é uma forma de guerra que poderíamos chamar de decapitação permanente: não um ato excepcional, mas um processo contínuo.
Essa transformação coloca em xeque um dos pilares da teoria clássica da guerra. Em Da Guerra, Carl von Clausewitz concebia o conflito como um confronto entre vontades políticas mediado pela batalha decisiva. Mesmo quando elaborou o conceito de “centro de gravidade”, tratava-se ainda de identificar o ponto cuja destruição levaria ao colapso do inimigo — frequentemente seu exército principal ou sua capital.
A prática contemporânea israelense sugere outra possibilidade: o inimigo já não possui um único centro de gravidade, mas uma constelação de nós decisórios. O Estado, sobretudo em regimes complexos como o iraniano, não é uma entidade monolítica, mas uma rede. Nesse contexto, a guerra não consiste em esmagar um centro, mas em erosionar progressivamente os seus nós mais críticos. Estamos, assim, diante de uma transição da guerra industrial para a guerra em rede.
Nessa nova configuração, o campo de batalha é substituído por um espaço difuso, no qual inteligência, tecnologia e infiltração desempenham papel decisivo. A figura do soldado cede lugar à do analista; a manobra militar dá lugar ao rastreamento; e a batalha é substituída pela execução pontual. Trata-se de uma guerra sem frentes definidas, sem declarações formais e, muitas vezes, sem visibilidade pública imediata.
Mas essa precisão traz consigo ambiguidades estratégicas. Se, por um lado, a eliminação de lideranças pode produzir ganhos táticos claros, por outro raramente resulta em colapso imediato do adversário. Regimes ideologicamente estruturados tendem a absorver perdas, substituir quadros e até radicalizar suas posições. A decapitação, nesse sentido, pode gerar tanto desorganização quanto endurecimento.
A morte de Ali Larijani ilustra esse dilema. Ao mesmo tempo em que fragiliza a coordenação estratégica iraniana, também acelera a transferência de poder para setores potencialmente mais militarizados e menos previsíveis. O efeito, portanto, não é linear: trata-se de um jogo de desestabilização controlada, cujos resultados permanecem abertos.
No limite, a doutrina da decapitação coloca uma questão incômoda para a teoria e a prática da guerra contemporânea: é possível vencer um conflito eliminando continuamente seus dirigentes, sem jamais enfrentar plenamente o sistema que os produz?
Israel parece apostar que sim ou, ao menos, que essa é a forma mais eficaz de gerir conflitos prolongados em um ambiente estratégico onde a guerra total se tornou politicamente e economicamente inviável. Se essa aposta representa uma evolução da arte da guerra ou apenas uma adaptação às suas limitações, é uma questão que o desenrolar do conflito com o Irã ajudará a responder.
A declaração de Donald Trump, de que teria “a honra” de “tomar Cuba”, pode soar como improviso retórico ou bravata eleitoral. Mas, à luz da história estratégica, ela revela algo mais profundo: a persistência de uma lógica imperial que os Estados Unidos jamais abandonaram por completo. Cuba não é apenas uma ilha em crise; é, há mais de um século, uma peça estrutural na arquitetura de segurança do hemisfério ocidental.
O precedente é claro. A Guerra Hispano-Americana marcou o momento em que Washington emergiu como potência imperial e projetou sua força para além do continente. Formalmente, Cuba foi “libertada” do domínio espanhol. Na prática, foi submetida a um regime de tutela. A chamada Emenda Platt institucionalizou esse arranjo: garantia aos EUA o direito de intervir nos assuntos internos da ilha e assegurava bases estratégicas entre elas, Guantánamo. Não se tratava de anexação, mas de algo mais sofisticado: controle indireto sob o signo da estabilidade. Essa fórmula, nem colônia, nem soberania plena, define o que poderíamos chamar de geopolítica de protetorado. E é precisamente essa lógica que ressurge, sob novas formas, no contexto atual.
A crise energética cubana não é apenas um colapso administrativo; ela se tornou um instrumento estratégico. Ao bloquear o fluxo de petróleo e agravar a fragilidade da infraestrutura elétrica, os Estados Unidos operam num registro clássico de coerção: não é necessário invadir quando se pode asfixiar. A guerra contemporânea, como já se viu em múltiplos teatros, desloca-se da destruição física para a paralisia sistêmica. O apagão torna-se, assim, uma forma de pressão política. Mas reduzir essa dinâmica a uma disputa bilateral entre Washington e Havana seria um erro analítico. O que está em jogo é mais amplo: a inserção de Cuba no tabuleiro da competição entre grandes potências.
Controlar Cuba, direta ou indiretamente, significa, antes de tudo, negar sua utilização por rivais estratégicos. A proximidade geográfica da ilha com o território continental dos Estados Unidos a transforma em um ponto sensível. Durante a Crise dos Mísseis de Cuba, essa realidade tornou-se dramática: a possibilidade de uma presença militar soviética a poucos quilômetros da Flórida foi percebida como ameaça existencial. A resposta americana foi inequívoca e estabeleceu um princípio duradouro: o Caribe não pode ser militarmente contestado por potências extra-hemisféricas.
Esse princípio permanece ativo, ainda que sob novas configurações. A ascensão da China como potência global e o reposicionamento estratégico da Rússia reacendem, sob outra forma, o problema clássico da negação de acesso. Uma Cuba economicamente colapsada e politicamente isolada torna-se vulnerável à penetração externa, seja por meio de investimentos, seja por cooperação militar. Para Washington, isso representa um risco intolerável.
Nesse sentido, a retórica de Trump não deve ser lida apenas como agressividade circunstancial, mas como expressão de uma doutrina implícita: evitar, a qualquer custo, que o Caribe volte a se tornar uma zona de projeção de poder adversário. Trata-se de uma atualização, em chave contemporânea, da velha lógica da exclusão estratégica hemisférica.
Há aqui uma continuidade notável com a tradição geopolítica norte-americana. Desde o século XIX, o entorno imediato dos Estados Unidos é concebido como espaço de segurança ampliada um cinturão que deve permanecer livre de interferências hostis. Cuba, por sua posição e história, ocupa um lugar central nesse dispositivo. Não é apenas um vizinho problemático; é um potencial vetor de ameaça indireta.
A questão decisiva, contudo, é que os instrumentos mudaram. Se no passado o controle se dava por ocupação militar ou imposição jurídica, hoje ele se exerce por meios mais difusos: sanções, bloqueios energéticos, pressão econômica. A coerção substitui a ocupação; o colapso interno substitui a intervenção direta.
Mas a lógica permanece a mesma. A “tentação de Cuba” não é um impulso novo é a reatualização de um padrão histórico. E, como todo padrão persistente, revela uma verdade incômoda: no sistema internacional, certas geografias não têm o privilégio da neutralidade. E Cuba é uma delas.
Três semanas após o início das operações militares contra o Irã, um velho paradoxo da história da guerra reaparece com nitidez: a maior potência militar do planeta demonstrou superioridade operacional incontestável, mas permanece distante de alcançar um resultado político decisivo. A situação ilustra uma distinção fundamental da teoria estratégica: vencer batalhas não significa vencer a guerra.
Desde os primeiros dias do conflito, os Estados Unidos exibiram sua capacidade militar com clareza. Ataques aéreos de precisão, destruição de bases de mísseis e neutralização de parte da infraestrutura militar iraniana confirmaram a vantagem tecnológica americana. No nível operacional,o nível das campanhas e das batalhas, a superioridade é evidente.
Mas guerras são decididas em outro plano. Como observou o estrategista prussiano Carl von Clausewitz, a guerra é um instrumento político: a vitória só se completa quando a ação militar produz um efeito político capaz de impor a vontade de um lado sobre o outro. É justamente nesse ponto que surgem as dificuldades. Após três semanas de guerra, três fatores ajudam a explicar por que os Estados Unidos ainda não conseguiram transformar sua superioridade militar em vitória estratégica.
O primeiro é a natureza assimétrica do conflito. O Irã não precisa derrotar militarmente os Estados Unidos algo impossível diante da disparidade de forças. Sua estratégia consiste em elevar o custo da guerra. Ao prolongar o conflito, Teerã aposta em desgastar a vontade política de Washington, explorando pressões econômicas, diplomáticas e domésticas.
A história recente mostra que essa lógica pode ser eficaz. Durante a Guerra do Vietnã, os Estados Unidos dominaram a maioria dos confrontos militares, mas não conseguiram quebrar a capacidade de resistência do adversário. Algo semelhante ocorreu na Guerra do Iraque, quando a rápida vitória militar inicial foi seguida por anos de instabilidade. Em guerras assimétricas, o lado mais fraco raramente precisa vencer; basta não perder.
O segundo fator é geográfico. O conflito ocorre em torno de um dos pontos mais sensíveis da economia mundial: o Estreito de Ormuz. Cerca de um quinto do petróleo global passa por esse corredor marítimo. Isso permite ao Irã explorar uma vantagem indireta: mesmo sem enfrentar diretamente a Marinha americana em batalhas convencionais, pode tornar a região perigosa para o comércio marítimo por meio de drones, mísseis antinavio ou minas navais. Em termos estratégicos, perturbar o fluxo energético mundial pode produzir efeitos políticos muito além do campo de batalha.
O terceiro fator é político. Muitas intervenções militares modernas foram planejadas com a expectativa de que choques militares rápidos provocariam o colapso de regimes adversários. Contudo, sistemas políticos fortemente institucionalizados podem sobreviver mesmo a perdas severas. Em alguns casos, a intervenção externa produz o efeito contrário: reforça sentimentos nacionalistas e consolida o poder do regime atacado.
O resultado, após três semanas de guerra, é um quadro de impasse estratégico inicial. Os Estados Unidos mantêm domínio no plano militar convencional, mas ainda não alcançaram os objetivos políticos fundamentais: forçar a capitulação iraniana, provocar mudança de regime ou estabilizar a região.
A dificuldade de transformar superioridade militar em coerção política eficaz é um dos problemas clássicos da estratégia moderna. Ao prolongar o conflito, o Irã tenta deslocar a guerra para um terreno onde tempo, economia global e política doméstica americana possam atuar como fatores decisivos.
Em guerras desse tipo, a questão central deixa de ser quem domina o campo de batalha. A pergunta decisiva passa a ser outra: quem conseguirá suportar por mais tempo os custos da guerra.
No início da Eneida, o herói troiano Eneias não aparece em combate. Ele surge no mar, conduzindo um pequeno grupo de sobreviventes após a destruição de sua cidade. Troia caiu, sua pátria deixou de existir, e os que escaparam vagam pelas águas do Mediterrâneo em busca de um lugar onde possam recomeçar. O grande poema de Virgilio começa, portanto, não com uma vitória militar, mas com uma cena que hoje nos parece surpreendentemente familiar: a de um povo de refugiados.
Essa abertura já indica algo essencial sobre a natureza da epopeia virgiliana. Na tradição antiga, as narrativas heroicas costumam girar em torno de dois grandes movimentos: a viagem e a guerra. A errância pelo mundo e o confronto armado formam as duas faces da experiência épica. A Eneida reúne esses dois elementos em uma mesma trajetória: primeiro a longa peregrinação dos troianos expulsos de sua terra, depois as batalhas travadas na Itália para fundar uma nova pátria.
Mas o herói de Virgílio não se parece inteiramente com os grandes guerreiros da épica grega. Quando pensamos no modelo heroico antigo, a figura que imediatamente surge é a de Aquiles, o protagonista da Ilíada, poema atribuído a Homero. Aquiles luta movido por uma ética da glória individual. O campo de batalha é o lugar onde o guerreiro conquista fama imortal e afirma sua superioridade sobre os outros combatentes. Eneias é um personagem muito diferente.
Logo nos primeiros versos da Eneida, Virgílio define seu protagonista com um epíteto que se tornaria célebre: insignem pietate, “notável pela piedade”. A palavra latina pietas não significa apenas devoção religiosa. Ela designa um conjunto complexo de deveres: respeito pelos deuses, lealdade à família, fidelidade ao destino e responsabilidade para com a comunidade. Eneias é um herói que carrega consigo não apenas a própria ambição, mas a missão histórica de seu povo.
Essa característica aparece repetidamente no poema. Antes de tomar grandes decisões, o líder troiano consulta oráculos, interpreta sinais divinos e dirige preces aos deuses. Sua conduta está constantemente orientada por forças que ultrapassam sua vontade individual. Quando afirma, em certo momento, que não busca a Itália por desejo próprio, mas por imposição do destino, ele reconhece que sua vida está subordinada a um projeto maior.
A guerra que ocupa a segunda metade da Eneida deve ser compreendida à luz desse princípio. Ao chegar à península Itálica, Eneias não inicia imediatamente um conflito armado. Seu primeiro gesto é tentar estabelecer alianças e negociar com os governantes locais. O objetivo inicial é simples: obter um território onde os troianos possam se instalar pacificamente. A guerra começa apenas quando essas tentativas fracassam.
Esse detalhe altera profundamente o sentido das batalhas narradas por Virgílio. Na épica homérica, o combate muitas vezes aparece como a arena natural da honra heroica. Na Eneida, ele surge como uma solução extrema, imposta pelas circunstâncias. Eneias não luta para ampliar sua glória pessoal, mas para garantir a sobrevivência de seu povo e cumprir uma missão histórica: lançar as bases da futura Roma.
Isso não significa que o poema apresente a guerra de maneira simplista ou celebratória. Pelo contrário. À medida que o conflito se intensifica, Virgílio descreve com grande sensibilidade o sofrimento humano provocado pelos combates. Jovens guerreiros morrem, cidades são devastadas e alianças se desfazem em meio à violência.
A epopeia, nesse sentido, possui uma dimensão profundamente ambígua. A fundação de uma civilização exige sacrifícios, perdas e destruição. A glória de Roma nasce de um processo doloroso, marcado por deslocamentos, batalhas e mortes.
Talvez seja por isso que a Eneida continue a nos falar com tanta força. Muito antes de narrar a origem de um império, o poema conta a história de pessoas que perderam sua terra e tentam reconstruir a vida em outro lugar. Homens e mulheres que atravessam mares desconhecidos carregando consigo deuses domésticos, lembranças e esperanças.
Na tradição épica antiga, a guerra costuma ser apresentada como palco da glória individual. Virgílio, porém, oferece uma perspectiva diferente. Seu herói luta não apenas por si mesmo, mas por uma comunidade inteira e por um futuro que ainda não existe.A Ilíada celebra a grandeza do guerreiro. A Eneida narra o destino de um povo em busca de uma pátria.
Entre os poemas breves da lírica latina, poucos possuem a perfeição compacta da Ode 1.5 de Horacio, o célebre poema dedicado a Pirra. Em poucos versos, o poeta constrói uma pequena cena amorosa que, à primeira leitura, parece simples: um jovem abraça a bela mulher em um espaço perfumado, enquanto um observador comenta a situação. Mas, como acontece frequentemente na arte horaciana, essa simplicidade é enganosa. Sob a superfície delicada do poema esconde-se uma arquitetura irônica extremamente sofisticada.
O poema começa com uma pergunta. “Que grácil rapaz, encharcado em líquidos odores, te aperta com rosa abundante sob o antro, ó Pirra?” A cena é quase pictórica: perfumes, flores, juventude e um ambiente que sugere intimidade. O jovem amante aparece envolto em uma atmosfera de sedução e beleza. Tudo indica que estamos diante de mais uma celebração lírica do amor. Mas a pergunta inicial já contém uma pequena fissura. O poeta não pergunta apenas quem é o rapaz: pergunta também para quem Pirra arruma seus cabelos louros com tanta simplicidade. A interrogação introduz um olhar distanciado, quase observador. Não estamos dentro da cena; estamos olhando para ela. Esse deslocamento é fundamental para compreender o poema.
Logo em seguida, o narrador começa a prever o futuro do jovem amante. Ele ainda acredita na fidelidade da mulher e imagina que o amor permanecerá estável. Mas o poeta já sabe que não será assim. “Muitas vezes ele chorará tua fidelidade e os deuses mudados”, diz o verso seguinte. O rapaz, agora feliz e crédulo, em breve descobrirá que os ventos podem mudar. A metáfora que domina a segunda metade do poema é marítima. O jovem, diz Horácio, ainda não conhece “as ondas tornadas ásperas pelos escuros ventos”. O amor, que no momento parece uma calmaria perfumada, será em breve uma tempestade.
Essa imagem não é casual. Para gregos e romanos, o mar era um dos grandes símbolos da incerteza humana. Navegar significava depender de forças invisíveis: ventos, correntes, mudanças súbitas de clima. Era um espaço de risco permanente. Por isso, desde a poesia arcaica grega, o amor muitas vezes foi comparado a uma travessia perigosa. Horácio utiliza essa tradição com elegância e economia. O jovem amante é um marinheiro inexperiente. Ele ainda acredita que o mar permanecerá calmo. O poeta, porém, já conhece aquela rota.
A genialidade da ode aparece no desfecho. Durante quase todo o poema, o narrador parece apenas comentar a cena. Ele observa o rapaz, prevê sua desilusão e sugere que Pirra possui uma natureza mutável. Mas no último movimento do texto ocorre uma revelação inesperada.“Desgraçados daqueles a quem brilhas inexperimentada”, afirma o poeta. E logo acrescenta uma imagem surpreendente: uma parede sagrada mostra, por meio de uma tábua votiva, que ele próprio pendurou ali suas roupas molhadas para o poderoso deus do mar.
Esse gesto era conhecido no mundo antigo. Sobreviventes de naufrágios costumavam dedicar aos deuses marinhos as roupas que haviam usado durante a tempestade. Era um sinal de gratidão por terem escapado da morte. Assim, de forma súbita, compreendemos algo essencial: o observador do poema não é um simples espectador. Ele é um sobrevivente. Em algum momento do passado, o poeta também navegou naquele mesmo mar amoroso e quase naufragou. A relação com Pirra foi, para ele, uma travessia tempestuosa da qual escapou por pouco. As roupas molhadas penduradas no templo são o testemunho silencioso dessa experiência.
A cena inicial ganha então um novo significado. O jovem que abraça Pirra ainda está no início da viagem. Ele é um marinheiro que parte confiante para águas aparentemente tranquilas. O poeta, porém, observa com a serenidade de quem já enfrentou a tempestade.O poema deixa de ser uma simples queixa amorosa e passa a funcionar como um pequeno relato de sobrevivência.
Existe, nessa atitude, algo que lembra a lógica dos veteranos de guerra. O recruta marcha cheio de entusiasmo para sua primeira campanha; o soldado experiente observa com ironia discreta, sabendo que o campo de batalha raramente corresponde às ilusões iniciais. A diferença entre ambos não é de inteligência, mas de experiência. Na ode de Horácio ocorre algo semelhante. O jovem amante acredita na estabilidade do amor; o poeta sabe que os ventos mudam.
Essa consciência confere ao poema um tom muito particular. Não há explosões de ressentimento nem acusações violentas contra Pirra. Há apenas a leve ironia de quem já aprendeu, pela própria experiência, que certos encantos podem ser perigosos. É essa mistura de elegância e lucidez que faz da Ode a Pirra uma pequena obra-prima. Em poucos versos, Horácio constrói uma narrativa completa: a sedução inicial, a tempestade inevitável e o sobrevivente que observa o destino dos novos navegantes.
Como acontece com as melhores peças da lírica antiga, o poema parece simples à primeira vista. Mas sob essa superfície delicada esconde-se uma lição sutil sobre a experiência humana. Alguns aprendem o amor como uma promessa. Outros, como uma travessia. E há aqueles que, depois da tempestade, penduram discretamente suas roupas molhadas no templo, não para lamentar o naufrágio, mas para lembrar que sobreviveram.
Nota: a Ode de Horácio, “ Sobreviver a Pirra”, se encontra reproduzida integralmente em outro texto de minha autoria publicado na edição de hoje do Tribuna Feirense. A tradução foi feita pelo Dr. Frederico Lourenço, professor da Universidade de Coimbra.