Você é um pedestre e foi com a leitura dos ensaios de Ralph Waldo Emerson que você aprendeu a dominar a arte de caminhar a pé. Seus pés perambulam pelo solo já tão conhecido do campus da Uefs. Ao sair do Museu Casa do Sertão, onde esteve examinando parte do acervo de Eurico Alves, você contempla o céu azulado de uma manhã de outubro de 2025.
A alta
temperatura de primavera, o desconforto térmico e toda aquela excessiva
luminosidade o levam a concluir que se um dia você se tornasse Rei, seria
apenas de um país úmido e chuvoso. Você se desloca de forma quase tão
silenciosa quanto um submarino nuclear de ataque navegando sob o oceano ártico.
Você dirige
seus passos lentos em direção ao novo auditório-teatro da instituição,
equipamento cultural recém entregue à comunidade acadêmica. A sua presença na
biblioteca do Museu, vasculhando arquivos empoeirados, foi apenas a frente
secundária, seu real objetivo, o centro de sua ofensiva se encontra na entrada
do novo prédio a ser inaugurado em breve.
E, lá, uma missão o aguarda, uma tarefa cuja execução exigirá uma grande
soma de energia. Você chega atrasado, a pesquisa documental absorveu muito de
seu tempo e você se perdeu, esquecendo-se de seu compromisso.
Quando você
chega ao objetivo, avista, à distância, o esperado alvo. Lá está ele, o artista
Juraci Dórea; ele está de pé, de costas para você. A seu lado, está a sua
inseparável companheira, Selma Soares; ela usa um chapéu de abas largas,
proteção contra o sol inclemente. Juraci usa um chapéu de pano, ao estilo
daqueles usados por sindicalistas no início do século XX. Ele parece quieto,
seu estado de ânimo natural, e em silêncio contempla algo.
De onde você
se encontra, ele parece, a seus olhos, uma estátua de um gigante; como se algum
devoto houvesse fincado aquela estátua ali com fins devocionais. Em verdade,
assim, de pé e mudo, visto à distância, ele faz recordar a estátua de um
daqueles Moais, da ilha de Páscoa: um gigante silencioso guarnecendo a
paisagem.
Você se
aproxima em silêncio, temendo romper a harmonia do quadro imagético, romper
aquela atmosfera de sortilégio. A professora Selma Soares o avista antes do que
você esperava, ela o recepciona, com sua voz macia; Juraci, envolto na aura de
seriedade que costumeiramente o cerca, aperta sua mão e agradece por sua
presença. Há mais pessoas ali, funcionários da Uefs; o engenheiro-chefe da obra
que está se findando; uma equipe de jardinagem; a reitora da Uefs; o artista
plástico e professor George Lima; Roberval Pereyr, o Vate das Umburanas; e dois
ou três repórteres.
Todos estão ali,
inclusive você, porque Juraci está erguendo diante do novo auditório-teatro uma
escultura. Enquanto os demais observam a escultura tomar forma, você compreende
que, ali, se manifesta algo mais duradouro do que a obra em si: um modo de
estar no mundo. Uma postura que dispensa anúncios e explicações, e que só se
torna visível a quem se aproxima com tempo, atenção e silêncio.
Como um
espião infiltrado em uma área na qual se realizam testes secretos de uma nova
arma, você se afasta da multidão e sem sequer acenar para os presentes, você se
retira para longe, como uma sombra. Furtivamente, você se instala a cerca de
100 metros de distância, sob o abrigo de uma árvore de tronco fino e folhagem
rala. Dali, já de todo esquecido pelo grupo, você observa e cataloga.
Juraci se
movimenta discretamente. Apesar de seus 81 anos de idade, ele mantém a agilidade
e força de ânimo. Como um sacerdote provindo de eras arcaicas, Juraci se
prepara para oficiar um culto, cuja real ancestralidade até mesmo ele parece
desconhecer. Ele distribui ordens e indica posições onde devem ser colocadas as
estacas de madeira de sua escultura.
De longe,
você vê o corpo magro do artista se deslocar de um ponto a outro, enquanto
alguns membros do círculo de pessoas ao redor produzem e captam imagens com
câmeras. O que ele está erguendo, ali, é uma espécie de desdobramento de um
projeto mais amplo e que foi por ele criado no início da década de 1980: o Projeto
Terra, uma premiada intervenção artística que consistiu em expor esculturas
no meio da caatinga: a arte sem público; ou um ritual mágico evocatório, cujo
real significado não foi compreendido.
A óbvia
referência telúrica presente no título de seu projeto artístico remete a
conceituações religiosas de fundamentação pré-histórica: “arrasta-te para tua
Mãe Terra e possa ela livrar-te do Nada”, diz um dos versos do Rig Veda
indiano. A Matter Tellus parece ser um componente fundamental dessa
conceituação estética. O universo artístico de Juraci é fundamentalmente
sertanejo, fincado sobre o solo do sertão e animado por um conceito de
religiosidade arcaica. Essa escultura que ele está erguendo parece uma Stonehenge de paus e couros de boi.
A certa altura, você se afasta
ainda mais. Não há nada a acrescentar. Juraci continua ali, trabalhando em
silêncio, como se o mundo ao redor fosse apenas paisagem. Você observa por
alguns instantes e depois se retira. O que precisava ser visto já foi visto.
Você recolhe seus instrumentos de observação e, cabisbaixo, caminha para longe
dali. Seu modus operandi de espião o permite se retirar discretamente,
quase sem ser notado. Sua atividade de observação preliminar está finda.
Aos 81 anos completos em junho
último, Juraci Dórea Falcão é um artista consagrado. E não apenas ali naquele
ambiente acadêmico no qual ele exerceu a atividade de docência durante anos. A
consagração é nacional. E prova disso está no texto ensaístico longo que o
Jornal Folha de São Paulo a ele dedicou, por volta do primeiro semestre de
2025. O nome de Juraci é pronunciado com reverência nos meios onde circulam
aqueles que produzem e apreciam as elevadas formas das artes plásticas modernas
no Brasil.
Apesar disso, ele continua a ser
aquele mesmo homem alto, magro e de ar sisudo que você conheceu há exatos 31 anos.
Certamente, ele não se recorda disso. O ano era 1994 e você era um estudante de
ensino médio, um adolescente membro do corpo discente do Colégio Assis
Chateaubriand, em Feira de Santana. Por intermédio de Roberval Pereyr, você
convidou o artista para realizar uma palestra para seus colegas adolescentes.
E, ali, foi a primeira vez que
você viu de perto o artista que era, já naqueles dias, um nome consagrado. Você
se recorda dos braços ossudos e das mãos finas dele segurando uma obra sobre
pintores modernos. Ele nos mostrava as gravuras e dissertava sobre elas. Você
se recorda dele saindo da sala, sério, olhos baixos; ele apertou sua mão
molemente e agradeceu de forma um tanto mecânica pelo convite e partiu.
Ele usava uma camisa branca,
folgada e limpa, uma calça tênis surrada, mas também limpa. Seus cabelos eram
escuros, olhos pretos e que pareciam imóveis. E, ao redor dele, como uma
espécie de armadura invisível ao olhar profano, você viu uma dura crosta de
silêncio. E você não pode deixar de pensar: “pela honra do general Ludendorff!
Este homem é rigoroso, sisudo e deve ser um homem obcecado pela beleza; ele é um
igual, ele é um irmão”.
Um general passadista é aquele que comete o grave equívoco de
preparar-se sempre para lutar a guerra anterior. Trata-se de um erro clássico,
recorrente na história militar, e quase sempre fatal. A função precípua do
setor de planejamento operacional das forças armadas de qualquer país - o
Estado-Maior-Geral - é propor soluções para um dos aspectos centrais da
estratégia: identificar a natureza e as características da próxima guerra e
definir os métodos capazes de derrotar o inimigo no menor tempo possível. Essa
discussão é fundamental porque dela deriva a doutrina de emprego da força
militar por parte de um organismo político estatal. Diante disso, impõe-se uma
pergunta incontornável: qual é a atual doutrina militar das forças armadas
norte-americanas e de que maneira ela ajuda a compreender o fim da velha ordem
internacional, recentemente proclamado por Ursula von der Leyen?
A declaração da presidente da Comissão Europeia no Fórum
Econômico Mundial de Davos, segundo a qual a “velha ordem acabou”, não deve ser
interpretada como um gesto retórico isolado ou como mera reação às ameaças do
presidente americano Donald Trump. Ela expressa, antes de tudo, uma confissão
política: a de que a Europa demorou a reconhecer uma transformação profunda e
já em curso no sistema internacional. Quando Von der Leyen fala em “nova
independência europeia”, ela admite implicitamente que os pressupostos
estratégicos do pós-Guerra Fria, previsibilidade, alianças automáticas e
liderança benevolente dos Estados Unidos, deixaram de existir.
Do ponto de vista americano, essa ruptura não é nova. Desde
pelo menos o início da década de 2010, as forças armadas dos Estados Unidos vêm
reformulando sua doutrina em torno da chamada great power competition.
O foco deixou de ser o contraterrorismo e os conflitos assimétricos no Oriente
Médio para concentrar-se na competição estratégica contínua com outros polos de
poder, notadamente China e Rússia. A guerra, nesse novo paradigma, já não é
concebida como um evento excepcional que começa com uma declaração formal e
termina com um armistício. Ela passa a ser permanente, difusa e
multidimensional.
A doutrina militar americana contemporânea, expressa em
conceitos como Multi-Domain Operations, entende o conflito como um
continuum que integra meios militares, econômicos, tecnológicos, informacionais
e diplomáticos. Tarifas, sanções, coerção territorial, controle de cadeias
produtivas, pressão sobre aliados e domínio de espaços estratégicos tornam-se
instrumentos tão relevantes quanto divisões blindadas ou porta-aviões. Não se
trata de um desvio ocasional, mas de uma concepção coerente de poder em um
mundo pós-hegemônico.
É nesse contexto que a Groenlândia adquire centralidade
estratégica. Longe de ser uma excentricidade retórica ou um capricho
presidencial, o interesse americano pela ilha responde a uma lógica geopolítica
clara: controle do Ártico, das novas rotas marítimas, de recursos estratégicos
e da projeção militar em uma região cada vez mais disputada por Rússia e China.
A surpresa europeia diante desse movimento revela menos sobre a
imprevisibilidade americana e mais sobre a persistência de uma mentalidade
estratégica ultrapassada no continente.
A União Europeia, ao que tudo indica, ainda operava segundo
os parâmetros da ordem anterior, na qual divergências entre aliados eram
administradas dentro de limites tácitos e a coerção entre parceiros era
considerada impensável. A reação atônita às ameaças tarifárias, à pressão
territorial e à erosão da confiança transatlântica expõe o atraso europeu em
compreender que a política internacional retornou, de forma explícita, à lógica
do poder.
O paradoxo é evidente: enquanto Washington reorganiza sua
doutrina militar e estratégica para um mundo de competição permanente, Bruxelas
apenas agora começa a verbalizar a necessidade de adaptação. A fala de Von der
Leyen, nesse sentido, marca menos o início de uma nova ordem do que o
reconhecimento tardio de que ela já está em vigor.
A história militar ensinaa que ordens internacionais
raramente colapsam de forma abrupta. Elas se esgotam. Perdem coerência,
previsibilidade e capacidade de produzir estabilidade. Em geral, continuam a
ser invocadas retoricamente muito depois de já terem deixado de operar na
prática. Foi assim com o sistema europeu do século XIX, com a ordem liberal do
entreguerras e, agora, com a arquitetura construída após 1991. O erro recorrente
das elites políticas não é provocar a ruptura, mas insistir na permanência de
um mundo que já não responde aos seus próprios pressupostos.
Nesse sentido, o verdadeiro risco estratégico para a Europa
não reside apenas na assertividade americana, na ascensão chinesa ou no
revisionismo russo, mas na persistência de uma cultura estratégica moldada por
uma ordem que deixou de existir. Preparar-se para defender regras, alianças e
automatismos que já não vinculam os atores centrais do sistema é, no plano estratégico,
uma forma sofisticada de negação da realidade. Estados que não atualizam suas
categorias de análise acabam reagindo a choques sistêmicos com improviso,
moralismo ou apelos normativos, instrumentos insuficientes em um ambiente de
competição aberta.
A nova guerra, como já se delineia, não será precedida por
declarações formais nem obedecerá a fronteiras nítidas entre paz e conflito.
Ela se manifesta por meio de coerção econômica, disputas tecnológicas, pressão
sobre territórios periféricos, instrumentalização de alianças e demonstrações
seletivas de força. Trata-se de uma guerra administrada, prolongada e
deliberadamente ambígua, cujo objetivo não é a vitória decisiva, mas a erosão
gradual da capacidade de decisão do adversário.
Alguns atores compreenderam essa mutação e adaptaram suas
doutrinas, instituições e instrumentos de poder. Outros, presos às lições da
guerra passada, continuam a operar como se o mundo ainda fosse regido por
compromissos tácitos e convergência de interesses entre aliados. A história
sugere que, nesse tipo de transição, a vantagem inicial pertence menos aos que
proclamam novas ordens do que àqueles que, silenciosamente, já aprenderam a
operar na ausência delas.
A nova guerra não será declarada. Ela já começou. E, como quase sempre ocorre, alguns atores chegaram a ela preparados e outros, ainda presos às lições da guerra passada.
Na história moderna das grandes potências europeias, o
recurso à força constituiu elemento recorrente, embora não exclusivo, das
relações políticas interestatais. Entre a Paz de Westfália, em 1648, e o
encerramento da chamada era das revoluções, em 1848, a diplomacia europeia
organizou-se fundamentalmente em torno do princípio do equilíbrio de poder,
entendido como um sistema flexível de alianças, contenções e acomodações
destinado a impedir a consolidação de uma hegemonia continental duradoura.
Ainda assim, momentos de predominância estratégica não podem
ser ignorados: a Monarquia Hispânica sob Felipe II, a França de Luís XIV e o
império napoleônico representaram tentativas, em graus distintos e com
resultados desiguais, de ruptura desse equilíbrio. Na contemporaneidade, a
política externa da Rússia sob Vladimir Putin insere-se nessa tradição
revisionista, ao empregar a força militar como instrumento de reconfiguração do
status quo europeu, não com vistas à hegemonia continental clássica, mas à
erosão deliberada da ordem política e de segurança estabelecida após o fim da
Guerra Fria.
O colapso da União Soviética, em 1991, não deu origem a um
novo equilíbrio de poder no continente europeu, mas a uma assimetria
estratégica inédita, marcada pela dissolução de um polo sem a correspondente
reconstrução de um sistema inclusivo de segurança coletiva. A expansão gradual
da Organização do Tratado do Atlântico Norte em direção ao Leste, embora
justificada no discurso ocidental como processo defensivo e voluntário, foi
percebida em Moscou como um movimento de cerco estratégico, incompatível com as
premissas clássicas da estabilidade sistêmica.
Nesse contexto, a Ucrânia emergiu como espaço
geopolítico decisivo: não apenas um Estado soberano em processo de afirmação
nacional, mas um território-chave na disputa entre uma ordem europeia baseada
na ampliação da esfera atlântica e uma Rússia empenhada em preservar zonas de
influência consideradas vitais à sua segurança. A guerra, portanto, não resulta
de um desvio irracional ou de uma anomalia histórica, mas da erosão prolongada
de um equilíbrio já frágil, no qual a diplomacia cedeu lugar à lógica da
dissuasão, da coerção e, finalmente, do confronto armado.
A falência desse equilíbrio pós-1991 está ligada menos a
decisões isoladas do que a uma ilusão estrutural compartilhada pelas elites
políticas europeias: a crença de que a superação da bipolaridade significaria,
automaticamente, a superação da lógica do poder. A substituição do equilíbrio
pela expansão normativa, democracia liberal, economia de mercado e
institucionalismo multilateral, ocorreu sem o correspondente reconhecimento de
que grandes potências raramente abdicam de interesses estratégicos vitais em
nome de princípios abstratos. A Europa, ao terceirizar sua segurança aos
Estados Unidos e diluir sua autonomia estratégica no interior da OTAN, renunciou
ao papel histórico de mediadora e reguladora do sistema continental.
Nesse contexto, a Rússia pós-soviética experimentou
simultaneamente declínio material, retração territorial e perda de prestígio
internacional. A década de 1990, longe de inaugurar uma integração equilibrada
de Moscou à ordem europeia, consolidou um sentimento de humilhação estratégica,
agravado pela percepção de que compromissos tácitos haviam sido
desconsiderados. A partir dos anos 2000, sob Putin, esse ressentimento foi
gradualmente convertido em doutrina: reconstrução do Estado, revalorização do
poder militar e disposição crescente para empregar a força como instrumento
legítimo de política externa. A intervenção na Geórgia, a anexação da Crimeia
e, por fim, a guerra na Ucrânia inscrevem-se nessa trajetória.
A Ucrânia, por sua vez, tornou-se o ponto de fratura desse
processo não apenas por sua posição geográfica, mas por seu significado
simbólico e estratégico. Para o Ocidente, sua incorporação à esfera
euro-atlântica representaria a consolidação de uma Europa “inteira e livre”.
Para a Rússia, significaria a perda definitiva de profundidade estratégica, a
ruptura de laços históricos e a confirmação de um cerco geopolítico
irreversível. O conflito, assim, não é apenas territorial, mas civilizacional
no sentido estratégico do termo: envolve concepções incompatíveis de ordem,
segurança e legitimidade.
A guerra em curso expõe, de forma incontornável, a crise da
arquitetura de segurança europeia. A diplomacia preventiva falhou; os mecanismos
multilaterais revelaram-se impotentes; e o continente retornou a uma lógica que
julgava superada. Não se trata, contudo, de um simples retorno ao passado. O
atual cenário combina elementos clássicos, dissuasão, zonas de influência,
balanço de poder, com fatores novos, como a interdependência econômica, a
guerra híbrida e a centralidade da informação. O resultado é um sistema
instável, propenso à escalada e pobre em canais eficazes de acomodação.
Em última instância, a guerra na Ucrânia não representa uma
ruptura com a história europeia, mas sua continuidade mais sombria. O
continente que, após 1945, jurou ter aprendido com a própria devastação, voltou
a confundir estabilidade com negação do poder e paz com expansão normativa. Ao
recusar-se a reconhecer que o equilíbrio sempre foi o verdadeiro fundamento da
ordem europeia, substituiu a prudência estratégica pela ilusão de
irreversibilidade histórica. O resultado não foi a superação do conflito, mas
sua postergação até o momento em que ele retornasse sob formas mais violentas.
A tragédia não reside apenas na guerra em si, mas na
constatação de que ela era evitável apenas no plano retórico. Ignorar as
percepções de segurança de uma grande potência nunca foi receita para a paz;
foi, ao contrário, um convite à reação. Ao marginalizar a Rússia sem integrá-la
a um sistema efetivo de contenção e acomodação, a Europa renunciou ao papel que
historicamente lhe coube: o de administrar rivalidades antes que estas
degenerassem em catástrofe. O continente reaprende, assim, da maneira mais
custosa, uma lição antiga: quando o equilíbrio é abandonado em nome de
promessas abstratas, o vazio deixado por ele é invariavelmente preenchido pela
força.
Se a história ensina algo, é que ordens políticas não colapsam por malícia isolada, mas por cegueira coletiva. A guerra atual não é um acidente, nem uma anomalia moral, mas o sintoma tardio de uma arquitetura de segurança construída sobre pressupostos frágeis e expectativas irrealistas. A Europa, mais uma vez, encontra-se diante de seu dilema recorrente: reconstruir conscientemente um equilíbrio imperfeito, reconhecendo limites, interesses e assimetrias, ou persistir na recusa da realidade estratégica, condenando-se a reviver, sob novas roupagens, os ciclos de violência que marcaram sua própria formação histórica.
A História é mestra da vida, ensinava Heródoto de
Halicarnasso, e o historiador é uma espécie de profeta com os olhos voltados
para trás. Não prevê datas nem eventos, mas reconhece padrões, recorrências e
ilusões persistentes. O tempo histórico não se repete mecanicamente, mas
rima. E as rimas que hoje se acumulam no horizonte são difíceis de
ignorar. Como nuvens carregadas antes da tempestade, tensões se adensam
enquanto conceitos estratégicos outrora tratados como verdades consolidadas
revelam fissuras profundas diante de uma audiência global atônita.
Após o fim da Guerra Fria, difundiu-se no Ocidente a
confortável crença de que os grandes conflitos entre potências haviam sido
definitivamente superados. A expansão do liberalismo político, a globalização
econômica e a proliferação de instituições multilaterais alimentaram a
convicção de que a interdependência tornaria a guerra não apenas indesejável,
mas improvável. Esse otimismo, porém, tinha menos de conclusão histórica e mais
de autoengano estratégico. O que se viveu nas últimas décadas parece ter sido
não o “fim da História”, mas um interlúdio raro, e talvez irrepetível, entre
ciclos mais longos de rivalidade.
O atual rearranjo de poder no sistema internacional guarda
paralelos inquietantes com a chamada Paz Armada que antecedeu 1914. À
semelhança daquele período, assistimos a uma corrida armamentista acelerada,
hoje marcada por arsenais nucleares, capacidades cibernéticas e armamentos
hipersônicos, ao endurecimento de alianças, à reabilitação aberta do
nacionalismo e à multiplicação de crises periféricas usadas como testes de
força. A diferença crucial é conhecida: a dissuasão nuclear torna uma guerra
total improvável. Mas convém não confundir improbabilidade com impossibilidade.
A dissuasão não elimina o conflito; apenas o fragmenta, o desloca e o normaliza
sob formas indiretas, híbridas e regionalizadas. A ausência de uma guerra
mundial não equivale, em absoluto, à existência de paz.
O eco é ainda mais antigo. Tucídides identificou no medo de
Esparta diante da ascensão de Atenas o fator estrutural que tornou a Guerra do
Peloponeso quase inevitável. A chamada “armadilha de Tucídides”, popularizada
por analistas contemporâneos, ajuda a compreender a rivalidade sino-americana
ao expor o papel do medo, da desconfiança e da percepção de declínio relativo.
Tomá-la como determinismo, porém, seria um erro grave. Estruturas pressionam,
mas não absolvem. São as decisões políticas, frequentemente tomadas sob ilusões
de controle ou arrogância estratégica, que transformam tensões administráveis
em conflitos abertos.
O que se desenha hoje é o retorno explícito de práticas que
muitos preferiram acreditar superadas. Zonas de influência voltam a ser
reivindicadas sem pudor. Os Estados Unidos buscam preservar sua primazia global
e suas redes de alianças; a China afirma-se como potência revisionista no
Indo-Pacífico, tendo Taiwan como linha vermelha; a Rússia procura reconstruir
sua área de influência no espaço pós-soviético, com a Ucrânia como peça
central. Trata-se menos de um desvio ocasional e mais de um ressurgimento
imperialista do sistema internacional, fenômeno que o discurso
normativo insiste em negar, mas que a prática estratégica confirma diariamente.
Esse processo expõe a hipocrisia crescente de conceitos
centrais da retórica contemporânea. A chamada “ordem internacional baseada em
regras” subsiste, cada vez mais, como linguagem moral aplicada de forma
seletiva, dependente da correlação de forças e da conveniência política. O
direito internacional não desapareceu, mas tornou-se instrumento assimétrico. O
multilateralismo sobrevive, porém frequentemente esvaziado. Sanções econômicas
são apresentadas como alternativa civilizada à guerra, embora produzam efeitos
sistêmicos duradouros: aprofundam rivalidades, aceleram o desacoplamento
econômico e reforçam a lógica de blocos antagônicos. As crises regionais
funcionam como termômetros desse mundo em transição.
A guerra na Ucrânia desmontou de vez a fantasia de um cenário
pós-militar, recolocando o poder bélico convencional no centro da política
internacional. Taiwan configura um potencial ponto de ruptura sistêmica. Na
América Latina, a instabilidade venezuelana, as tensões diplomáticas regionais
e a crescente presença estratégica de potências extra-hemisféricas indicam que
o continente está longe de ser uma zona neutra. Como em outros momentos
históricos, as grandes rupturas raramente começam no centro do sistema: são
precedidas por conflitos localizados que testam limites, sondam reações e
redefinem linhas vermelhas.
As implicações desse cenário são claras, ainda que desconfortáveis. Caminhamos para um mundo marcado pela normalização da guerra limitada, pela aceitação tácita de esferas de influência e pela erosão progressiva do universalismo liberal que estruturou a ordem do pós-1945. Não se trata de anunciar catástrofes iminentes, mas de reconhecer que o vocabulário moral do último meio século já não descreve com fidelidade a realidade estratégica contemporânea. O papel do historiador, nesse contexto, não é o de profeta apocalíptico nem o de guardião de ilusões reconfortantes. Cabe-lhe advertir. A História não condena os homens à repetição mecânica, mas pune severamente a amnésia. Ignorar padrões recorrentes em momentos de transição e rearranjo de poder não é sinal de progresso, é, quase sempre, o primeiro passo para revivê-los sob novas e perigosas formas.
A operação dos Estados Unidos na Venezuela não é um incidente
isolado, mas um marco na redefinição das zonas de influência no Hemisfério
Ocidental, projetando uma nova era de competição global. O Brasil, maior
potência da América do Sul, enfrenta uma tríplice tensão: proteger sua
soberania, liderar regionalmente e negociar com potências globais cada vez mais
assertivas. Para tanto, é necessário desenvolver uma dissuasão híbrida, que
combine política externa, defesa estratégica e resiliência econômica, sem se
submeter a pressões externas ou replicar práticas intervencionistas.
A captura de Nicolás Maduro por forças americanas evoca
recorrências históricas que remontam à Doutrina Monroe, concebida em 1823,
quando o Brasil consolidava-se como Estado independente, e ao Corolário
Roosevelt, com sua política do “grande porrete”, que institucionalizou a
intervenção militar americana na região. Ao longo da história, o Brasil navegou
entre resistência à interferência externa e colaboração estratégica com
potências hegemônicas, seja durante a Guerra Fria, seja na integração econômica
do MERCOSUL, construindo uma memória de prudência e equilíbrio que torna a
situação atual singular. A ação americana em Caracas projeta um precedente que
combina força militar, pressão política e narrativa de legitimidade global,
ameaçando o equilíbrio tradicional da região.
O conceito de segurança hemisférica, tradicionalmente
associado à presença militar, precisa ser repensado diante de ameaças híbridas
que incluem fluxos migratórios descontrolados, tráfico de armas e ataques
cibernéticos, exigindo respostas multidimensionais. O Brasil tem reforçado suas
fronteiras com a Venezuela e a Colômbia, integrando Exército, Marinha e
Aeronáutica em exercícios de interceptação e vigilância, mas a experiência
histórica demonstra que tanques e navios não bastam. A integração de
inteligência, a cooperação regional e a coordenação com órgãos civis são
fundamentais para dissuadir crises sem gerar escaladas desnecessárias. O
historiador militar Clausewitz já advertia que “a guerra é a continuação da
política por outros meios”, e, no caso brasileiro, a dissuasão deve incorporar
política econômica, diplomacia e narrativa estratégica, além da força física.
A operação em Caracas revela que a hegemonia americana combina
ação militar com pressão econômica e política. Para o Brasil, isso se traduz em
vulnerabilidades indiretas, que vão desde possíveis sanções e monitoramento
eleitoral até interferência em decisões judiciais e ameaças cibernéticas. Essa
realidade exige resiliência híbrida, articulando diversificação econômica para
reduzir dependência de potências externas, diplomacia ativa e multilateral para
reforçar autonomia regional, e fortalecimento tecnológico e cibernético para
garantir a proteção de infraestrutura crítica. Trata-se não de neutralidade
passiva, mas de protagonismo estratégico, construindo uma soberania prática e
operacional, e não apenas simbólica.
Além das implicações regionais, a operação americana projeta
efeitos globais. Rússia e China podem interpretar o precedente como
justificativa para ações em suas respectivas esferas de influência, como Taiwan
e Ucrânia, e a narrativa de “direito de intervir para proteger interesses
estratégicos” ameaça normas internacionais, corroendo o multilateralismo
tradicional. Para o Brasil, essa nova configuração multipolar exige
flexibilidade diplomática, combinando pragmatismo, liderança regional e
capacidade de mediação entre blocos globais em disputa. A história demonstra
que países médios que ignoram a multipolaridade correm risco de isolamento ou
coerção externa, e que a prudência estratégica é uma forma de poder em si.
A segurança hemisférica brasileira não se define apenas por
força militar. É, antes, uma questão de autonomia estratégica, sustentada por
política externa inteligente, resiliência econômica e capacidade de mediar
conflitos regionais. A operação americana na Venezuela não representa apenas um
risco; oferece ao Brasil a oportunidade de reafirmar sua liderança regional,
desenvolver dissuasão híbrida e consolidar uma política externa independente,
capaz de proteger seus interesses sem replicar práticas intervencionistas
externas. Em suma, a nova ordem hemisférica exige do Brasil não apenas força,
mas visão estratégica, sofisticação política e disciplina histórica, atributos
que determinarão se a região será protagonista de seu próprio destino ou mero
palco de disputas entre grandes potências.