A movimentação militar dos Estados Unidos no Oriente Médio nas últimas semanas não é fruto de improviso nem simples retórica intimidatória. A chegada de um destróier equipado com o sistema Aegis ao porto vulnerável de Eilat, em Israel, o deslocamento de grupos de porta-aviões, a concentração de centenas de mísseis de cruzeiro Tomahawk, o envio de caças de quinta geração e o reforço de sistemas antimísseis de alta e baixa altitude compõem um desenho estratégico claro e coerente. Trata-se de coerção militar em seu sentido clássico, uma política que busca moldar o comportamento do adversário não pelo uso imediato da força, mas pela ameaça crível de que ela será empregada caso a negociação fracasse.
Esse método não é novo. No século XIX, as grandes potências recorreram à chamada diplomacia do canhonaço, projetando poder naval diante de portos estratégicos para arrancar concessões sem necessariamente disparar um tiro. O princípio era simples: tornar o custo da resistência maior do que o da acomodação. O canhoneiro ancorado diante da cidade não era apenas um meio de combate, mas um instrumento de comunicação política. No século XXI, os cascos de aço deram lugar a destróieres antimísseis, bombardeiros furtivos e arsenais de precisão capazes de paralisar infraestruturas críticas em poucas horas, mas a lógica subjacente permanece surpreendentemente semelhante.
A estratégia adotada por Donald Trump dialoga diretamente com essa tradição. Durante seu primeiro mandato, entre 2018 e 2020, o presidente batizou sua política contra o Irã de “maximum pressure”, combinando sanções econômicas severas com demonstrações seletivas de força, como o assassinato do general Qassem Soleimani. O objetivo não era a guerra total, mas a coerção: pressionar Teerã a renegociar o acordo nuclear sob termos mais favoráveis a Washington, aceitando restrições mais amplas ao seu programa balístico e à sua atuação regional.
O que se observa agora é uma versão ampliada, mais explícita e mais militarizada dessa lógica. Trump abandonou rapidamente a retórica moral que ensaiara no início da crise, quando ameaçou o regime iraniano em nome da repressão a manifestantes. O discurso de direitos humanos cedeu lugar ao vocabulário cru da estratégia: “todas as opções estão sobre a mesa”, ativos militares são posicionados em sequência lógica, aliados regionais, sobretudo Israel, passam a ser incorporados diretamente ao tabuleiro operacional. A política externa deixa de ser justificada por valores e passa a ser estruturada pela demonstração de capacidade.
Esse deslocamento retórico é revelador. A coerção militar eficaz, como formulada por Thomas Schelling durante a Guerra Fria, depende menos da intenção declarada de lutar e mais da capacidade demonstrada de fazê-lo. Não se trata de convencer o adversário de que a guerra é desejada, mas de que ela é possível, plausível e custosa. Cada navio atracado, cada esquadrão deslocado, cada sistema antimísseis ativado envia sinais cuidadosamente calculados, tanto ao inimigo quanto aos aliados e ao público doméstico.
A coerção, porém, é sempre um jogo de risco. Para funcionar, a ameaça precisa ser suficientemente crível para forçar concessões, mas não tão intensa a ponto de empurrar o adversário para uma reação desesperada. A linha que separa dissuasão de preparação deliberada para o uso da força é historicamente tênue. Em 1914, as grandes potências europeias também acreditavam estar apenas dissuadindo rivais por meio de mobilizações, exercícios e demonstrações de poder. O resultado foi uma guerra que ninguém planejou nos termos em que ocorreu.
No caso iraniano, o dilema é ainda mais complexo. Os Estados Unidos detêm ampla superioridade militar convencional, e a experiência recente mostrou a vulnerabilidade das defesas aéreas iranianas diante de forças tecnologicamente avançadas. Mas o Irã não precisa vencer uma guerra para causar danos estratégicos significativos. Basta elevar o custo do conflito: interromper o tráfego no estreito de Hormuz, saturar defesas com mísseis balísticos e drones, estimular ataques indiretos por meio de aliados regionais ou arrastar o confronto para uma escalada prolongada e economicamente disruptiva.
Nesse contexto, a coerção deixa de ser um instrumento cirúrgico e passa a flertar com a imprevisibilidade sistêmica. Quanto mais forças são deslocadas, maior a tentação de empregá-las; quanto mais sinais são enviados, maior o risco de interpretação equivocada. A diplomacia do canhoneiro sempre carregou esse paradoxo: sua eficácia depende justamente da disposição de cruzar o limiar que ela afirma querer evitar.
A coerção militar nunca desapareceu; apenas se sofisticou. O que muda agora é o ambiente estratégico: um sistema internacional fragmentado, cadeias energéticas vulneráveis, alianças tensionadas e uma potência hegemônica que voltou a apostar no poder militar como linguagem central da política externa. Resta saber se essa demonstração de força produzirá negociações, ou se, como tantas vezes na história, acabará produzindo a guerra que pretendia impedir.
A mais recente troca de declarações entre Estados Unidos e
Irã, marcada por ultimatos, advertências de “guerra total” e imagens de frotas
navais em deslocamento, revela menos sobre uma decisão militar iminente e mais
sobre uma transformação profunda no modo como os conflitos contemporâneos são
conduzidos. Antes que os mísseis falem, é a linguagem que já entrou em guerra.
E, nesse processo, a ameaça deixa de ser um instrumento da política para se
tornar o seu substituto.
Ao afirmar que “o tempo está se esgotando” e prometer um
ataque “muito pior” caso Teerã não aceite um novo acordo, o presidente dos
Estados Unidos abandona deliberadamente o vocabulário clássico da diplomacia
coercitiva e adota uma retórica de ultimato final. A resposta iraniana, por sua
vez, não opera no registro da dissuasão gradual: “qualquer ação militar será
considerada o início de uma guerra”, com retaliação “imediata, abrangente e sem
precedentes”. Não há, aqui, espaço para escaladas controladas, concessões
parciais ou ambiguidades estratégicas. O conflito é apresentado como absoluto
desde o primeiro enunciado.
Esse tipo de linguagem não é um excesso ocasional nem
simples retórica eleitoral. Trata-se de um processo de securitização extrema,
no qual o adversário deixa de ser um oponente político e passa a encarnar uma
ameaça existencial. Quando isso ocorre, a política, entendida como campo da
negociação, da reversibilidade e do cálculo racional, é, progressivamente,
esvaziada. A exceção se normaliza. A ameaça constante passa a ocupar o lugar do
debate, da diplomacia e da mediação.
Os sinais desse deslocamento são evidentes. O envio de uma
frota naval americana “por precaução” ilustra com clareza essa lógica. Não se
trata apenas de um movimento militar, mas de um gesto simbólico cuidadosamente
publicizado. A frota existe tanto para navegar quanto para ser vista, comentada
e transformada em mensagem política. A força deixa de ser silenciosa; ela
precisa ser exibida, antecipada, narrada. A ameaça, aqui, vale mais do que o
uso efetivo da força.
O mesmo ocorre com a recente entrega de milhares de drones
ao Exército iraniano. Esses sistemas, cada vez mais centrais nos conflitos
contemporâneos, funcionam menos como armas imediatas e mais como sinais
estratégicos. São instrumentos de comunicação política: demonstram capacidade,
disposição e alcance, mesmo quando permanecem no solo. O armamento se converte
em linguagem, e a linguagem em mecanismo de pressão contínua.
Talvez o aspecto mais revelador desse processo seja o fato
de que os ataques passam a ser narrados antes de acontecerem. Trump relembra
bombardeios passados e anuncia destruições futuras com riqueza de detalhes.
Autoridades iranianas descrevem respostas “sem precedentes” e “abrangentes” sem
que um único disparo tenha ocorrido. A guerra é antecipada no discurso,
ensaiada simbolicamente, como se sua verbalização já fosse parte do conflito. O
anúncio se torna quase tão importante quanto a ação.
Nesse ambiente, a ameaça perde seu caráter excepcional.
Historicamente, a retórica de destruição total era reservada a momentos
extremos, nos quais todas as alternativas haviam se esgotado. Hoje, ela se
transforma em linguagem ordinária da política externa. A repetição contínua de
advertências apocalípticas produz um efeito paradoxal: quanto mais se ameaça,
menos espaço resta para recuar. Cada declaração pública cria compromissos
simbólicos difíceis de desfazer sem custos internos severos.
É nesse contexto que o apelo russo por “moderação” ganha
relevância analítica. Ao alertar para o risco de “desestabilização do sistema
de segurança em toda a região”, Moscou não atua como mediadora moral, mas como
defensora de uma lógica quase anacrônica: a da ordem internacional como sistema
administrável, baseado em contenção e previsibilidade. Enquanto Washington e
Teerã operam no registro da ameaça absoluta, a Rússia tenta reinscrever o
conflito na gramática da estabilidade estratégica.?
O problema central é que, quando a ameaça substitui a
política, o conflito tende a se tornar autorreferente. A linguagem da guerra
passa a produzir suas próprias condições de possibilidade. Frotas, drones e
ultimatos deixam de ser meios para alcançar um acordo e passam a funcionar como
fins em si mesmos, alimentando uma espiral discursiva da qual é cada vez mais
difícil escapar.
A guerra entre Estados Unidos e Irã pode ou não ocorrer. Mas
um dado já se impõe com clareza inquietante: a guerra ainda não começou, porém
a linguagem da guerra total já venceu. E, uma vez naturalizada, essa linguagem
costuma gerar exatamente o tipo de caos que todos afirmam querer evitar.
Em 02 de Setembro de 1812 Napoleão, a frente de suas tropas, penetra nos subúrbios de Moscou e depara com uma cidade quase que inteiramente vazia; a capital do inimigo foi abandonada e o Imperador francês marchou mais de um milhar de quilómetros para um encontro com o vazio; quase tão triste quanto uma batalha perdida, só mesmo uma batalha ganha, como nos ensina o general Arthur Wesley. Setembro de 2025, o inverno recuou, dando espaço ao lento avanço de uma primavera ainda destituída de poder de imposição; um leve vento frio, último resquício de dias de inverno, ainda sopra. Sem olhar para a esquerda ou para a direita, com olhos fixos no chão sujo de uma cidade imunda, você caminha lentamente sabendo que debaixo do sol nada é glorioso. Você já não é mais um jovem, aqueles dias de outrora, quando a juventude queimava nas suas faces, ficaram para trás. Mas você possui energia e ânimo para os incessantes combates, por isso avança cabisbaixo e envolto numa aura de silêncio, como um cavalo gordo trotando nas estradas da Polônia. Você conhece todas essas ruas feias e de nomes sonoros e vazios; saindo da rua Investigador Bandeira você entra na rua Humaitá e, finalmente, como um chanceler de uma paisagem imaginária, você para e se posiciona na entrada da rua Bartolomeu de Gusmão.
Você levanta os olhos e observa: olhos planos e sem emoção, espiando, enxergam uma longa via que segue reta. Há 31 anos você faz esse mesmo percurso indo em direção ao mesmo lugar. Quando tudo começou, em algum momento de 1994, você era jovem e vagava sem rumo dando coices pelas ruas de sua cidade; naqueles dias você desperdiçava tempo e, de forma inconsciente, acreditava na imortalidade. Mas estando ali parado no início da Bartolomeu de Gusmão, você percebe que 31 anos se passaram e você perdeu o tiro de largada da corrida; ninguém lhe disse quando era hora de começar a correr. Você olha ao redor da via pública que você conhece tão bem; tudo por ali parece envolta na mesma feiura quase inconstitucional. Apenas você envelheceu e, sem fôlego, olha para a longa estrada à sua frente. Napoleão viu uma cidade vazia e anteviu a certeza do desastroso fim; mas você vê ali o início de uma longa marcha. A Rua Bartolomeu de Gusmão é longa, deserta, feia e com ares insalubres Ela funciona como um corredor de tráfego a ligar o Sobradinho e o Jardim Cruzeiro ao conjunto Habitacional Morada das árvores e ao Campo Limpo.
Percorrer essa via tão familiar não traz prazer, mas apesar disso você se desloca sem pressa e alcança os limites da área-alvo de sua incursão. Você vira à esquerda e se vê dentro dos limites iniciais de um novo bairro. Você caminha em ziguezague até visualizar uma placa numa esquina: Rua E. Você segue o traçado irregular da via até finalmente se deparar com o objetivo final de seu deslocamento: a casa de número 53. Ela está muito mudada atualmente, sofreu uma reforma que modernizou sua fachada exterior deixando-a com ares de modernidade arquitetônica. Você frequenta esta casa faz 31 anos; talvez seja melhor dito: você frequenta um cômodo desta casa faz 31 anos: a biblioteca do homem que ali vive, o poeta Roberval Pereyr, o Vate das Umburanas. E eis que ele surge, coloca parte de seu tronco para fora da janela da sala e lança sobre você a mesma piada de três décadas atrás. Apesar da piada infame, com passos hesitantes, você adentra o interior da habitação. No hall de entrada dois cachorros de tamanho reduzido produzem intenso ruído; você sente pouca estima por animais domésticos, por isso tenta se desvencilhar dos inoportunos anfitriões enquanto se aproxima da porta de madeira que serve de entrada.
Você entra, atravessa a sala e se senta no chão da biblioteca; você repete o mesmo gesto ao longo de 31 anos: cruza as pernas em posição de lótus, coloca suas mãos sobre as pernas e concentra todo o seu ser na audição dos sons que passam a preencher o ambiente empoeirado. Roberval, sentado sobre uma cadeira que um dia já foi chamada de confortável, inicia uma longa peroração. Desta feita, estamos ali reunidos para darmos início a um projeto editorial. Biografar, neste caso, é um ato de escuta radical: a tentativa de ouvir o silêncio que o poeta soube nomear. Escrever uma biografia foi uma decisão que resultou de uma constatação antiga, a saber: a necessidade de conclusão de um percurso existencial; uma forma de finalizar um ciclo, de devolver, sob forma inteiramente transformada, aquilo que foi absorvido ao longo de décadas de exposição direta à radiação que emana do centro daquela biblioteca. Como um peregrino que esteve ausente, percorrendo uma trilha-caminho na qual obteve a iniciação, você retorna para comunicar à sua comunidade aquilo que viu e vivenciou.
Essa caminhada pelas ruas de Feira é também a travessia interior do biógrafo: cada rua leva à biblioteca do Vate, e cada livro, à escuta de um silêncio que precisa ser interrogado com o mesmo rigor com que o historiador interroga suas fontes. É nesse ponto que o testemunho encontra o método, e a devoção cede lugar à crítica. Caminhei por essas ruas por trinta e um anos. Às vezes penso que o caminho até a biblioteca de Roberval é o percurso da própria biografia: o itinerário da escuta. Cada passo é uma tentativa de ouvir melhor, o outro, o Vate, o silêncio. É sob essa tensão que se ergue a tese que sustenta este livro: Roberval Pereyr é o Vate das Umburanas - aquele que, ao inscrever o verbo no solo do sertão, converte o silêncio em linguagem e o árido em claridade. Biografar um mestre ainda em pleno ofício é arriscar-se a ferir o sagrado.
É falar onde antes se devia apenas ouvir. A proximidade, esse dom e perigo, exige do biógrafo uma ética da distância: amar o biografado, mas não idolatrá-lo; compreender o homem, sem dissolver o mito. O rigor crítico é aqui uma forma de lealdade, não de frieza. Roberval Pereyr é o Vate das Umburanas. Esta não é uma designação meramente geográfica ou folclórica. O termo "vate" aqui recupera seu sentido arcaico e pleno: não um simples poeta, mas um vates, um profeta laico, um visionário cuja linguagem é instrumento de revelação. E "Umburanas" não é um simples endereço biográfico, mas a matriz cosmogônica de seu verbo. Este prólogo é, portanto, a escuta inicial dessa voz telúrica. É o único modo de honrar a complexidade do vate e a integridade de sua obra: examinando a forja da palavra sem extinguir o fogo sagrado que a anima.
É nesta encruzilhada - entre a admiração e o rigor, entre a intimidade e o tribunal da forma - que este texto se ergue, como uma longa marcha em direção ao centro radiante e silencioso de onde emana o verbo do Vate Roberval Pereyr.
A nova Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos,
publicada pelo Departamento de Guerra no segundo mandato de Donald Trump, marca
mais do que uma inflexão de política externa: ela explicita uma mudança de
época. Ao proclamar que o Hemisfério Ocidental é área de interesse vital dos
EUA “do Ártico à América do Sul” e ao ameaçar o uso da força contra países que
não cooperem com seus objetivos, Washington não inaugura uma doutrina,
ressuscita uma antiga. Trata-se de um retorno explícito à Doutrina Monroe,
agora reformulada no que o próprio documento chama, sem pudor, de “Corolário
Trump”.
A Doutrina Monroe, anunciada em 1823, afirmava que o
continente americano não deveria ser objeto de novas intervenções europeias. Na
virada do século XX, Theodore Roosevelt acrescentou seu famoso corolário: os
Estados Unidos se reservavam o direito de intervir militarmente nos países
latino-americanos sempre que julgassem que a “ordem” ou a “estabilidade”
estivessem ameaçadas. Era o nascimento do intervencionismo preventivo no
hemisfério, legitimado pelo argumento da civilização, da dívida ou da
segurança. A estratégia atual ecoa esse passado com inquietante clareza. A
diferença é que, se no início do século XX o discurso era civilizatório e no
pós-1945 foi liberal-institucional, agora o verniz desapareceu. O documento
abandona a retórica da promoção da democracia e dos direitos humanos e assume
uma linguagem abertamente coercitiva, ancorada na força militar, na dissuasão
direta e na noção de soberania hierarquizada.
O Hemisfério Ocidental reaparece como zona de influência
exclusiva, não como espaço de cooperação. Países que não colaborarem no combate
ao narcotráfico ou que permitirem a presença econômica, política ou tecnológica
da China e da Rússia passam a ser tratados como ameaças potenciais. A
estratégia legitima ações militares “focadas e decisivas” e cita, como
precedente virtuoso, a operação que resultou na deposição de Nicolás Maduro na
Venezuela. A mensagem é inequívoca: a força deixa de ser último recurso e se
converte em instrumento regular de gestão regional. Esse deslocamento revela a
passagem de uma hegemonia que se pretendia “benevolente” para uma hegemonia
coercitiva explícita.
Durante décadas, os Estados Unidos combinaram poder militar
com instituições multilaterais, alianças e normas que mascaravam a assimetria
real. Agora, a própria estratégia reconhece que não busca consenso, mas
obediência funcional. Cooperação, quando existe, é definida como alinhamento;
divergência passa a ser vista como hostilidade. A América Latina, nesse
contexto, reaparece como aquilo que sempre foi nos momentos de retração liberal
americana: um espaço de exceção jurídica. O direito internacional, a soberania
e os fóruns multilaterais tornam-se condicionais quando colidem com interesses
estratégicos definidos em Washington. O narcotráfico cumpre aqui o papel que o
comunismo desempenhou no século XX: um inimigo difuso, transnacional e
moralmente absoluto, capaz de justificar intervenções sem declaração formal de
guerra.
O aspecto mais revelador do documento, contudo, é sua
coerência histórica. Ao mesmo tempo em que propõe “delegar” a contenção da
Rússia à OTAN e da Coreia do Norte a aliados asiáticos, os EUA concentram seus
próprios recursos no controle hemisférico e no cerco estratégico à China. A
lógica é clássica: assegurar o entorno imediato antes de administrar o
equilíbrio global. Não por acaso, o texto enfatiza o Canal do Panamá, o Caribe,
a Groenlândia e o Golfo das Américas, os mesmos pontos geoestratégicos centrais
do pensamento naval de Alfred Thayer Mahan no final do século XIX. O que muda
não é a lógica do poder, mas sua franqueza. A ordem liberal internacional, já
corroída por crises internas e guerras periféricas, dá lugar a uma ordem
declaradamente hierárquica, na qual zonas de influência voltam a ser
reconhecidas como legítimas.
Ao chamar essa política de “Corolário Trump”, o próprio governo admite que não está inovando, mas reivindicando uma tradição imperial americana, agora adaptada a um mundo multipolar. A grande ironia é que, ao agir assim, Washington contribui para aquilo que diz querer evitar. Ao tratar a América Latina como quintal estratégico e não como conjunto de Estados soberanos, empurra governos e elites regionais para a busca de contrapesos externos. Ao normalizar a coerção, legitima a coordenação estratégica entre China e Rússia. E ao substituir a diplomacia pela ameaça, acelera a fragmentação da ordem internacional que construiu após 1945. O século XXI, afinal, não caminha para a superação do século XIX. Ele o reencena, dessa vez agora com tecnologia avançada, linguagem direta e menos ilusões.
Donald Trump diz que não quer usar a
força, ele quer apenas a Groenlândia. A frase, dita em Davos com o desassombro
de quem pede um café, deveria ser lida com atenção histórica: poucas vezes, na
política internacional, a força foi tão claramente pressuposta justamente
quando se afirma que ela não será usada.
Enquanto o presidente americano
discursava sobre “um grande e belo pedaço de gelo”, os Estados Unidos
deslocavam porta-aviões, caças, reabastecedores e sistemas antimísseis para
cercar o Irã. De um lado, o Ártico apresentado como objeto de negociação civilizada;
de outro, o Oriente Médio tratado como teatro natural da guerra. A aparência de
dispersão estratégica esconde, na verdade, uma coerência brutal.
A Groenlândia não é um capricho
exótico e, sim, um território. E o
retorno explícito da centralidade do território é um dos sinais mais claros de
que a ordem liberal pós-1945 entrou em colapso. Durante décadas, acreditou-se,
ou fingiu-se acreditar, que mercados,
instituições multilaterais e normas jurídicas haviam domesticado a velha
política das grandes potências. Trump não compartilha dessa ilusão. Ao
reivindicar a Groenlândia, ele afirma algo que sempre foi verdade, mas
raramente dito de forma tão crua: espaço físico, rotas marítimas, controle
aéreo e posições geográficas continuam sendo a base do poder.
O argumento de que “apenas os EUA
podem proteger” a ilha não é novo. É a reedição do velho léxico imperial do
século XIX, quando potências se arrogavam o direito de tutelar territórios e
povos considerados incapazes de se defender. A diferença é que agora o tutelado
é um membro fundador da Otan. A humilhação pública da Europa não é um efeito
colateral; é parte do método. Ao reduzir aliados à condição de dependentes
ingratos, Trump reorganiza hierarquias sem precisar disparar um tiro.
No Oriente Médio, o tom muda, mas a
lógica permanece. Ali, não se fala em negociação imobiliária, mas em segurança,
contenção e estabilidade. A mobilização militar em curso contra o Irã segue um
roteiro conhecido: pressão externa combinada à exploração de tensões internas,
com a retórica da libertação sempre pronta para ser acionada. A história
recente recomenda ceticismo. Derrubar regimes é fácil; construir ordens
políticas estáveis mostrou-se sistematicamente além da capacidade, ou do
interesse, das potências interventoras.
Groenlândia e Irã são, portanto,
dois tabuleiros da mesma partida. No Ártico, Trump testa até onde pode ir sem
usar força aberta, normalizando a ideia de aquisição territorial entre aliados.
No Golfo, prepara a força para que ela não precise ser usada, ou, se for, que
seja rapidamente decisiva. Em ambos os casos, o alvo último não é apenas
regional. Trata-se de conter Rússia e China em todos os eixos possíveis: no
gelo, no deserto, no mar.
A Europa assiste a tudo com
perplexidade e indignação moral, mas pouca capacidade de reação. A Otan,
apresentada como aliança entre iguais, revela-se cada vez mais um protetorado
assimétrico. O Artigo 5º vira fetiche jurídico; a proteção real depende da vontade
política de Washington. Trump apenas verbaliza o que seus antecessores
preferiram disfarçar sob linguagem diplomática.
Nada disso é improviso ou loucura. É
regressão consciente a uma política internacional sem verniz, onde ameaça,
escárnio e demonstração de força voltam a ser instrumentos legítimos. Quando
Trump diz que “não quer usar a força”, o que realmente afirma é que ela já está
lá, visível no horizonte, implícita na negociação, silenciosa nos radares
desligados dos porta-aviões.
Um pedaço de gelo no Ártico e um mar
de fogo no Oriente Médio parecem temas desconexos apenas para quem ainda
acredita que vivemos em um mundo governado por regras. Para quem observa a
história de longa duração,um historiador experiente, trata-se apenas do retorno do normal:
impérios não pedem; tomam. Quando dizem que não precisam usar a força, é porque
já a colocaram sobre a mesa.