Você se encontra sentado no banco
traseiro do veículo, passando seus
pensamentos em revista, e é com certa dificuldade que você consegue decifrar os
sons que parecem provir de tão longe: “
escute filho - diz o cara com aspecto de limpador de chaminés -, o endereço é
esse, chegamos”. Você desce em silêncio, insatisfeito com o aspecto rude do
condutor e com seus modos nada corteses. Você olha ao redor, a rua está deserta
àquela hora do dia, início de uma tarde
de novembro de 2025. Você permanece imóvel observando a ausência de
movimentação e de sons. A rua Alto do Paraná é muito silenciosa, quase como uma
necrópole antiga; não se vê habitantes locais transitando e tudo imerso na imobilidade. Você se vira e olha
detidamente a casa diante da qual você se encontra. Ela é ampla e se espraia por uma enorme faixa
de terreno que serve como jardim da residência; seu muro é relativamente baixo
e as paredes dele se encontram parcialmente cobertos por um tipo de azulejo e
algumas discretas gravuras com ares de pinturas rupestres. Junto delas vê-se um
nome, uma assinatura: Nanja. Você está
diante da casa do poeta Antonio
Brasileiro.
Você já esteve ali muitas vezes
antes. Mas suas visitas anteriores quase sempre se deram sob a proteção da
noite. Essa é, provavelmente, a segunda ou terceira vez que você pode
contemplar a construção sob a luz diurna, e o efeito é profundamente diferente:
à luz do sol, a casa revela-se não apenas como abrigo ou moradia, mas como a
sede administrativa de um reino invisível, um território cujo poder se exerce
silenciosamente, através da presença e da forma. As muralhas, que à noite
pareciam apenas sombras, agora se erguem com dignidade concreta, testemunhas
silenciosas da história de um homem. As paredes daquele muro pertencem à sede
administrativa de um império.
Desde 1972 ali acontece uma reunião
noturna que congrega um grupo seleto de escritores ou de admiradores das belas
letras. Embora ao longo dos anos a composição desse grupo tenha sofrido
alterações das mais diversas, a reunião continua tendo como seu condutor e
líder espiritual, o proprietário da casa onde ela se realiza. Embora não tenha
sido esse seu intento inicial, você se viu arrastado para o epicentro de um
ritual quase religioso. O modo como aqueles homens se comportam ali lembra em
tudo uma celebração mágico-ritualística; eles comem e bebem, elogiam o sabor do
vinho - quando este se mostra digno disto -, discorrem sobre a
contemporaneidade e seus temas assombrosos, discutem entre si, traçam planos
que não resistem ao dissipar dos vapores do vinho; e eles nunca sorriem, mas
gargalham sinistramente. Estar ali entre eles fez nascer em você o desejo de
escrita, de registro interpretativo daquela experiência, como um etnólogo
realizando anotações em uma sociedade desconhecida.
Há uma mangueira antiga no jardim da
casa de Antônio Brasileiro e você a vê todas as noites de quinta-feira. As
raízes emergem do chão como colunas, sustentando uma copa que parece o teto de
uma basílica vegetal. Debaixo dela, o ar é sempre mais denso, como se a própria
luz hesitasse antes de tocar o solo. Essa velha mangueira faz você se recordar
da árvore Yggdrasil, dos mitos escandinavos; Ali, toda semana, há mais de meio
século, se realiza uma cerimônia que não figura em nenhuma agenda oficial da
cultura brasileira: o Império das Mangueiras,
tertúlia literária, ritual de amizade e culto da palavra. Ali não há
regras escritas, mas há hierarquia. Há liberdade de fala, mas também um código
tácito de respeito e silêncio. O vinho é o sacramento: circula entre os
presentes como se fosse o sangue do verbo, mas você não bebe álcool, você
apenas observa e escuta.
Eles são poucos, e nem sempre fiéis
na presença. À sua direita, quase sempre, repousa o médico César Oliveira,
cronista de talento, homem de conversa precisa e humor constante. Um pouco
adiante, sentado atrás da mesa de madeira sólida, está Roberval Pereyr, o Vate
das Umburanas, responsável pela condução da maior parte dos números da revista Hera.
Ao seu lado costuma se acomodar o advogado Antônio Carlos, atento e discreto,
ele se mantém em silêncio quase todo o tempo. Em algumas noites, o juiz Nunes
aparece: apesar dos mais de sessenta anos, é homem de grande jovialidade; o
corte moderno do cabelo e o riso alto e estrepitoso, riso de quem sabe viver,
rompem o silêncio com naturalidade. Outros surgem mais raramente. Juraci Dórea
e sua esposa, Selma Soares, passam de tempos em tempos, como visitantes de uma
antiga corte. O erudito professor Brian Kibbuuka é presença ainda mais
excepcional. Mais recentemente, integraram-se ao círculo o professor Trazíbulo
Henrique e o músico Léo Brasileiro. Há também dois jovens de pouco mais de
vinte anos, Lucas e Dudu, iniciados que observam tudo com a atenção dos que
sabem estar diante de uma tradição maior do que eles. Fechando o círculo,
permanecem dois membros da família do anfitrião: Nanja, pintora de talento
silencioso, e Tom Brasileiro, professor universitário e cultivador de métodos
socráticos de condução de diálogos. No centro de todos eles, como sacerdote,
oficiando um culto antigo, Antônio Brasileiro.
Talvez seja isso o império das
Mangueiras: uma ficção que se torna realidade pela força do verbo. E talvez seja esse, também, o sentido último
deste texto: compreender como um homem do sertão construiu, com a matéria invisível
da linguagem, um reino que atravessa o tempo - feito de livros, de discípulos,
de conversas e de silêncios. Sob a
mangueira, o vinho já se esgota, os convivas se levantam - “amanhã acordo cedo,
tenho que ir,” diz o advogado Antônio Carlos.
A noite avança, e o Imperador recolhe-se ao seu trono discreto. Ficam no
ar as últimas frases, como brasas que ainda iluminam. Enquanto você se levanta, totalmente sóbrio
em meio aos quase trôpegos - você pensa no
que aprendeu ali: que biografar é um ato de convivência e que, diante de
um mestre como Antônio Brasileiro, todo gesto de escrita é também um gesto de
reverência. O império que ele construiu não se ergueu de mármore nem de poder
material, mas de palavras bem ditas e silêncios bem guardados.
Dessa maneira, o
Império das Mangueiras estabelece sua própria diplomacia: a diplomacia da
recusa. Não se trata de rejeitar o mundo, mas de impedir que ele invada e
destrua aquilo que nele é mais frágil: a nitidez da forma. Por isso, não há
embaixadas. Não há convocações. O reino não busca alianças porque sabe que sua
força não está na ampliação, e sim na coesão. Antônio Brasileiro,
diferentemente de Pedro, o Grande, não procura se ver refletido nos espelhos do
Ocidente. Ele se basta. Ou, mais precisamente: basta-se naquilo que é
essencial, o domínio exato do verbo e o governo interior. Assim, a inversão da
metáfora imperial revela sua verdade mais profunda: no Império das Mangueiras,
o gesto político é um gesto estético. A contenção é uma forma de poder. O
silêncio é uma forma de presença. E o isolamento não é fuga, mas cultivo, uma
horticultura espiritual praticada à sombra de uma árvore que, como a Yggdrasil, sustenta não apenas raízes, mas
um mundo inteiro.
Domingo, 30 de janeiro
do ano da graça de 2026, cidade de Salvador, antiga capital de uma possessão
colonial ultramarina. Como o integrante de uma coluna de prisioneiros de guerra
que marchava pelas ruas sendo exibido à população de uma cidade inimiga, você
caminha cabisbaixo e sombrio pelos corredores de um shopping center.
Você se deslocou até
aquela cidade por motivos de ordem laboral e sua presença ali, naquele centro
de compras, é mera imposição circunstancial; exausto, você se deixa cair
pesadamente em uma cadeira e tenta se recompor interiormente enquanto lança
olhares ao redor de si: há muito barulho, desordem, luzes de brilho intenso e
muitas pessoas - jovens e velhos - sentados ao redor de mesas quadradas e
redondas; e sobre elas você vê grandes quantidades de alimentos
industrializados, alimentos ultraprocessados, daqueles potencialmente capazes
de provocarem doenças do trato digestivo em médio prazo. Eles chamam aquele
lugar de praça de alimentação.
Todas as mesas estão
ocupadas e todos os ocupantes comem alegremente.Você olha e se pergunta: porque
tanta gente rindo sob aquelas luzes de lâmpadas potentes? porque tanta gente
rindo enquanto ingere venenos de efeito retaardado? porque tanta alegria? Será
que eles estão comemorando a coroação do Kaiser Guilherme II? Com atraso você
se recorda que o Kaiser foi deposto após os acontecimentos de novembro de 1914
e que se ele se exilou na Dinamarca. Toda essa algazarra, esses sons
desarmoniosos, essa discordante melodia de vozes fere seus ouvidos. Você se ergue com dificuldade,
o peso da angústia dificulta seus movimentos de homem velho, e se afasta dali
com passos lentos. Você percorre os corredores tão amplamente iluminados que
ferem sua sensibilidade ocular.
Os ruídos estão por
toda parte; para onde quer que você olhe há sons discordantes e multidões
caminhando e rindo enquanto levam pacotes nas mãos. Custosamente você consegue
chegar à saída, mas lá fora o quadro é ainda mais desolador: uma multidão se
espreme em um passeio à espera de veículos de transporte de passageiros; ali é
uma espécie de ponto de espera de carros de transporte por aplicativos. Você se
sente como um soldado em um campo de prisioneiros de guerra cercado por arames
farpados; ou como se todos ali - inclusive você - estivessem na outra margem do
rio aguardando a barca de Caronte. Seu veículo chega; você embarca nele para
longe dali; mas antes você lança para a multidão que se espreme naquele passeio
e você se recorda do discurso de Caronte, em um dos cantos de A Divina
Comédia: “Ai de vós, almas malditas. A luz do sol novamente jamais vereis”.
O veículo começa a se
mover lentamente, vencendo com dificuldade o emaranhado humano que se comprime
no passeio. Pela janela, você observa os rostos iluminados pelos celulares,
pela expectativa da corrida aceita, pela ansiedade difusa de quem espera ser
chamado. Ninguém parece perceber ninguém. Não há hostilidade, tampouco
fraternidade. Apenas coexistência.
À medida que o carro
se afasta, o ruído vai diminuindo, como se alguém girasse lentamente o botão de
um rádio mal sintonizado. Ainda assim, os sons permanecem dentro de você,
martelando os tímpanos com ecos tardios. A luz artificial do shopping, mesmo
distante, continua a ferir seus olhos por dentro. Você pisca várias vezes, como
quem tenta se readaptar à penumbra depois de um bombardeio noturno.
É então que lhe
ocorre, com um atraso incômodo, que talvez a metáfora do campo de prisioneiros
não seja inteiramente justa. Ou talvez seja, mas não da forma que você
imaginara. Você não está cercado por inimigos. Está cercado por sobreviventes.
Cada um ali, rindo sob lâmpadas agressivas e ingerindo alimentos de procedência
duvidosa, talvez esteja apenas tentando preencher o vazio de um domingo
qualquer, de uma vida qualquer, em uma época que já não promete sentido algum.
A praça de alimentação
lhe retorna à mente não mais como inferno, mas como trincheira. Um espaço de
ruído constante, excesso visual, luz artificial e comida ultraprocessada, sim,
mas também um lugar onde homens e mulheres descansam as armas invisíveis com as
quais enfrentam seus próprios dias. Não celebram imperadores depostos nem
vitórias militares. Celebram intervalos.
Você se pergunta,
então, se o prisioneiro de guerra é realmente aquele que caminha cabisbaixo
entre vitrines e mesas engorduradas, ou se é aquele que observa tudo isso
incapaz de participar, aprisionado em sua lucidez amarga, em sua memória
histórica, em sua recusa íntima de aceitar o mundo como ele se apresenta.
Talvez, pensa você,
não haja barca alguma esperando na outra margem. Talvez Caronte esteja
desempregado há séculos, esquecido em algum canto da mitologia, enquanto os
vivos inventam seus próprios infernos, e
também suas próprias formas precárias de atravessá-los.
Você fecha os olhos
por um instante, sabendo que isso não é descanso, mas contenção. O prisioneiro
não sonha com fuga nem com resgate. Aprende a existir dentro dos limites
impostos, a carregar consigo o mapa do mundo que perdeu e a avançar sem
esperança, porque até a esperança pode ser uma forma sutil de capitulação.
Às vésperas de completar quatro
anos, a guerra da Ucrânia corre o risco de ser interpretada de forma
excessivamente restrita: como um conflito regional, centrado em fronteiras
terrestres, identidades nacionais e equilíbrio militar no Leste Europeu. Essa
leitura, embora não errada, é insuficiente. Os acontecimentos recentes, como a
revelação feita hoje de que veículos espaciais russos interceptaram
comunicações de satélites europeus, indicam que a Ucrânia é apenas uma das frentes
visíveis de um conflito muito mais amplo, sistêmico e multidimensional.
Desde 2022, Moscou deixou claro que não enfrenta apenas Kiev,
mas o arranjo estratégico que emergiu após 1991. A guerra convencional no
Donbass e no sul da Ucrânia convive com uma guerra híbrida que inclui sabotagem
de cabos submarinos, ataques cibernéticos, pressão energética, desinformação e,
agora, operações de reconhecimento agressivo no espaço. O objetivo não é apenas
vencer batalhas no terreno, mas testar, revelar e explorar vulnerabilidades
estruturais das sociedades ocidentais, especialmente aquelas altamente
dependentes de infraestruturas tecnológicas integradas.
Nesse sentido, a interceptação de satélites civis e
governamentais europeus não é um detalhe técnico, mas um sintoma. Satélites de
comunicação, navegação e observação são hoje o equivalente funcional das
antigas rotas marítimas: por eles passam dados, fluxos financeiros, comando
militar, logística comercial e sincronização de mercados. Interferir nesses
sistemas é paralisar, ainda que temporariamente, economias inteiras, exatamente
como o bloqueio naval fazia no século XIX e início do XX.
É aqui que o pensamento do capitão Alfred Thayer Mahan
retorna com força inesperada. Para Mahan, o domínio do mar não significava
apenas superioridade naval, mas controle das rotas por onde circulam comércio,
riqueza e poder político. Quem controla os “caminhos do mundo” molda a ordem
internacional. No século XXI, esses caminhos não são apenas marítimos: são
também orbitais, digitais e informacionais. O espaço tornou-se uma extensão
lógica do mar, um novo “oceano estratégico” onde se decide quem vê, quem
comunica, quem coordena e quem permanece funcional em situação de crise.
A Rússia parece ter compreendido isso com clareza. Ao monitorar
satélites europeus, muitos deles civis, lançados em outra era tecnológica, sem
criptografia robusta, Moscou não precisa destruí-los para obter vantagem
estratégica. Basta mapear padrões de uso, identificar dependências, localizar
estações terrestres e conhecer os elos fracos do sistema. Trata-se de dissuasão
por vulnerabilidade, não por destruição aberta. Uma lógica profundamente
mahaniana, adaptada à era espacial e integrada ao conceito russo de guerra
híbrida permanente.
Os Estados Unidos, por sua vez, continuam apostando na
preservação da superioridade global por meio do controle combinado do mar, do
ar, do espaço e do ciberespaço. A doutrina americana parte do pressuposto de
que a manutenção das rotas abertas, marítimas, digitais e espaciais, é condição
essencial para a estabilidade da ordem liberal internacional. Não por acaso,
Washington investe pesadamente em resiliência espacial, constelações
redundantes de satélites, alianças tecnológicas e proteção de cabos submarinos.
O problema é que essa estratégia, ao depender de redes altamente complexas,
também cria novos pontos de fragilidade exploráveis por adversários.
A China, por sua vez, observa e aprende. Pequim não está
diretamente envolvida na guerra da Ucrânia, mas extrai dela lições estratégicas
fundamentais. Seu investimento simultâneo em marinha de águas azuis, controle
de portos estratégicos, rotas da Iniciativa do Cinturão e Rota, e capacidades
espaciais e cibernéticas revela uma compreensão sofisticada da guerra
contemporânea como disputa por conectividade. Para a China, assim como para
Mahan, o poder não reside apenas na força militar direta, mas na capacidade de
garantir, ou negar, o fluxo contínuo de comércio, energia, dados e
comunicações.
Essa ampliação do campo de batalha ajuda a responder a uma
pergunta central: a guerra da Ucrânia é, em essência, uma disputa por rotas? Em
grande medida, sim; mas não apenas por rotas físicas tradicionais. O
Mar Negro, os corredores energéticos, o acesso ao Mediterrâneo e ao Ártico
continuam centrais. Contudo, a disputa atual envolve também rotas invisíveis:
dados, sinais, comunicações e sincronização global. Controlá-las é tão decisivo
quanto controlar estreitos marítimos no passado.
A Ucrânia, portanto, não é o centro do conflito global, mas
sua superfície mais visível. O que está em jogo é a capacidade de Estados e
blocos de garantir o funcionamento contínuo das infraestruturas que sustentam o
mundo contemporâneo. Satélites, cabos, portos, estreitos, redes energéticas e
sistemas digitais formam um único ecossistema estratégico. Atacá-lo, mesmo sem
bombas, é fazer guerra.
Ignorar essa realidade é insistir numa distinção entre guerra
e paz que já não corresponde ao mundo em que vivemos. Como no tempo de Mahan, o
controle das rotas continua sendo o coração da estratégia. Apenas mudaram os
oceanos, e aqueles que não perceberem isso correm o risco de perder uma guerra
que já começou.
*Nota: o que faço é apenas um esboço de discussão. Para o
leitor que deseja aprofundar o tema sugiro como ponto de partida: PARET, Peter
(org). Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Bibliex editora,
2000. 2 volumes. Recomendo especial atenção ao segundo volume.
A tentação de enxergar nessa
aproximação o embrião de uma coalizão militar comparável à OTAN é grande, mas
enganosa. A relação sino-russa se assemelha menos a uma aliança operacional
integrada e mais a um tipo histórico específico: alianças definidas pelo
inimigo comum, não por planejamento estratégico conjunto. Nesse sentido, o
paralelo mais instrutivo não é com os Aliados da Segunda Guerra, mas com o eixo
Roma-Berlim-Tóquio.
O Eixo, frequentemente tratado de
forma caricatural, nunca foi uma aliança militar no sentido pleno. Alemanha,
Itália e Japão compartilhavam antagonistas, sobretudo as potências anglo-saxãs,
mas não elaboraram planos operacionais conjuntos, não criaram um comando
integrado, nem coordenaram campanhas militares. Cada guerra foi travada em seu
próprio teatro, segundo prioridades nacionais distintas. A unidade era política
e ideológica; a guerra, fragmentada.
A parceria entre China e Rússia
segue lógica semelhante. Há cooperação diplomática, intercâmbio econômico
intenso e exercícios militares conjuntos cuidadosamente encenados. Mas não há
evidência de planejamento operacional compartilhado, nem compromissos automáticos
de defesa mútua. A guerra da Ucrânia permanece um empreendimento exclusivamente
russo. Um eventual conflito em Taiwan seria, da mesma forma, uma decisão
soberana chinesa.
Essa ausência de integração não é um
defeito acidental — é um componente estrutural da relação. Pequim evita, de
forma consistente, qualquer arranjo que limite sua liberdade estratégica. Não
há tratado que imponha um casus foederis, nem disposição chinesa de se
deixar arrastar para conflitos alheios. Moscou, por sua vez, precisa mais da
China do que a China precisa da Rússia, o que torna a simetria da aliança
apenas aparente.
Nesse sentido, trata-se menos de uma
coalizão militar do que de uma aliança negativa: uma convergência
destinada a bloquear iniciativas americanas e a enfraquecer a ordem liberal
liderada pelos EUA, sem a pretensão de substituí-la por um sistema alternativo
coerente. China e Rússia não constroem uma nova arquitetura de segurança
conjunta; elas corroem a existente.
A retórica do “grande plano” evocada
por Xi Jinping deve ser lida com cautela. Para a China, planejamento significa
previsibilidade econômica, acesso energético seguro e margem de manobra
geopolítica, não necessariamente coordenação bélica profunda. Para a Rússia,
isolada por sanções e dependente do comércio asiático, a parceria funciona como
linha de sobrevivência estratégica.
Assim como no Eixo histórico, a
força dessa aliança reside justamente em sua ambiguidade. Ao evitar a
integração militar plena, China e Rússia maximizam benefícios e minimizam
riscos. Não marcham juntas, mas caminham na mesma direção, ao menos enquanto seus
interesses convergirem. A estabilidade celebrada por Putin, portanto, não é a
do sistema internacional, mas a de uma relação construída para desafiar sem se
comprometer, resistir sem se fundir e contestar sem planejar a guerra em comum.
A persistir o atual ritmo de expansão da mancha urbana de Feira de Santana, uma parcela significativa de sua zona rural tende a desaparecer ou a ser convertida em mera extensão periférica da cidade. O que se observa não é um crescimento orgânico ou planejado, mas um avanço acelerado, fragmentário e frequentemente predatório, impulsionado pela valorização imobiliária e pela lógica especulativa que passou a orientar o uso do solo urbano nas últimas décadas.
O crescimento quase vertiginoso do mercado imobiliário, sobretudo a partir dos anos 2010, produziu uma expansão que, em diversas áreas, dissolveu por completo a fronteira entre o urbano e o rural. O resultado não se limita à ocupação desordenada do território: trata-se de um processo mais profundo, que envolve o apagamento progressivo da memória social, a descaracterização da paisagem histórica e a ruptura de modos tradicionais de existência que, por séculos, estruturaram a vida local.
Fatores de ordem local, como os elevados índices de violência urbana e o enfraquecimento da capacidade reguladora do Estado, articulam-se a dinâmicas globais, entre elas a mercantilização extrema do espaço urbano e o medo como princípio organizador da vida social. Dessa combinação emerge o crescente interesse das classes médias por formas de habitação fechadas, planejadas e cercadas por muros: os condomínios residenciais. O problema central reside no fato de que as áreas mais bem localizadas da cidade já se encontram amplamente ocupadas. A expansão, portanto, avança inexoravelmente sobre a zona rural.
Nesse contexto, toda a região que outrora delimitava os entornos do Distrito de Jaíba encontra-se sob ameaça concreta de desaparecer enquanto espaço rural dotado de identidade própria. Complexos de condomínios, muitos deles interligados a ponto de configurarem bairros inteiros, surgiram em poucos anos, alterando de forma irreversível a paisagem. Áreas que, há menos de quinze anos, abrigavam a Lagoa da Berreca e os pequenos cursos d’água que nela desaguavam foram aterradas, loteadas e incorporadas ao tecido urbano, sem que se tenha produzido um debate público proporcional à gravidade da transformação.
Situação semelhante se verifica no entorno da Avenida Nóide Cerqueira. Suas antigas estradas vicinais, que conduziam a áreas de cultivo, pastagens e pequenos núcleos rurais, encontram-se hoje sob domínio quase absoluto da especulação imobiliária. O que resiste são pontos isolados, verdadeiros redutos de uma paisagem em vias de extinção, pertencentes em alguns casos a famílias antigas que ainda preservam um modo de vida semi-rural, cada vez mais pressionado pelo avanço da cidade.
O caso de Jaíba, embora emblemático, não é isolado. São José, por exemplo, tornou-se praticamente um prolongamento do subúrbio feirense. Mesmo sem apresentar, até o momento, grande concentração de condomínios de classe média, sua paisagem rural foi profundamente alterada. A substituição de práticas tradicionais por usos urbanos do solo produz efeitos que ultrapassam o plano material e alcançam a esfera simbólica. Desaparecem, junto com a paisagem, formas de sociabilidade, saberes práticos, mitos, festas, narrativas e instrumentos de uma cultura imaterial forjada ao longo de séculos.
Esse processo representa mais do que uma simples mudança de uso do território. Trata-se da erosão de um universo simbólico que conferia sentido à experiência histórica de amplos segmentos da população. Em médio prazo, corre-se o risco de perder não apenas referências espaciais, mas também modos específicos de perceber, interpretar e habitar o mundo.
Desde seus primórdios, Feira de Santana integrou-se à chamada civilização do couro. Situada estrategicamente em rotas de circulação do gado, a cidade formou-se a partir de uma base eminentemente rural. O primeiro colono português a estabelecer moradia fixa nas terras que hoje compõem o município, João Batista Teixeira Viegas, no século XVII, dedicava-se à pecuária. Associados às origens da cidade estão o gado, as fazendas, os caminhos de boiadas, a paisagem aberta e todo o complexo simbólico que deles deriva.
Ignorar esse dado histórico significa romper com a própria identidade de Feira de Santana. A expansão urbana não é, em si, um problema; o problema é quando ela se faz à custa da supressão da memória, da homogeneização do espaço e da conversão do território em mercadoria desprovida de história. Preservar o rural, nesse sentido, não é um gesto nostálgico, mas um ato de responsabilidade histórica e cultural diante das gerações futuras.
Ao permitir que a expansão urbana apague esses vestígios, a cidade pratica uma forma de autossabotagem histórica. Não se trata de defender um rural idealizado ou de rejeitar o crescimento urbano, mas de denunciar um modelo de desenvolvimento que confunde progresso com destruição e modernização com esquecimento. Uma cidade que elimina suas raízes, em nome do lucro imediato, compromete não apenas sua memória, mas também sua capacidade de projetar um futuro que não seja mera repetição de desigualdades e vazios simbólicos.
Resta
perguntar:
Que cidade Feira de Santana pretende ser?
Uma cidade que cresce
eliminando sua história?
Que chama de progresso aquilo que
apaga suas origens?
Que aceita trocar memória por muro,
paisagem por condomínio e identidade por valorização imobiliária?
Ou uma cidade capaz de reconhecer que, sem passado preservado, todo futuro é apenas uma expansão sem sentido?