Na história moderna das grandes potências europeias, o
recurso à força constituiu elemento recorrente, embora não exclusivo, das
relações políticas interestatais. Entre a Paz de Westfália, em 1648, e o
encerramento da chamada era das revoluções, em 1848, a diplomacia europeia
organizou-se fundamentalmente em torno do princípio do equilíbrio de poder,
entendido como um sistema flexível de alianças, contenções e acomodações
destinado a impedir a consolidação de uma hegemonia continental duradoura.
Ainda assim, momentos de predominância estratégica não podem
ser ignorados: a Monarquia Hispânica sob Felipe II, a França de Luís XIV e o
império napoleônico representaram tentativas, em graus distintos e com
resultados desiguais, de ruptura desse equilíbrio. Na contemporaneidade, a
política externa da Rússia sob Vladimir Putin insere-se nessa tradição
revisionista, ao empregar a força militar como instrumento de reconfiguração do
status quo europeu, não com vistas à hegemonia continental clássica, mas à
erosão deliberada da ordem política e de segurança estabelecida após o fim da
Guerra Fria.
O colapso da União Soviética, em 1991, não deu origem a um
novo equilíbrio de poder no continente europeu, mas a uma assimetria
estratégica inédita, marcada pela dissolução de um polo sem a correspondente
reconstrução de um sistema inclusivo de segurança coletiva. A expansão gradual
da Organização do Tratado do Atlântico Norte em direção ao Leste, embora
justificada no discurso ocidental como processo defensivo e voluntário, foi
percebida em Moscou como um movimento de cerco estratégico, incompatível com as
premissas clássicas da estabilidade sistêmica.
Nesse contexto, a Ucrânia emergiu como espaço
geopolítico decisivo: não apenas um Estado soberano em processo de afirmação
nacional, mas um território-chave na disputa entre uma ordem europeia baseada
na ampliação da esfera atlântica e uma Rússia empenhada em preservar zonas de
influência consideradas vitais à sua segurança. A guerra, portanto, não resulta
de um desvio irracional ou de uma anomalia histórica, mas da erosão prolongada
de um equilíbrio já frágil, no qual a diplomacia cedeu lugar à lógica da
dissuasão, da coerção e, finalmente, do confronto armado.
A falência desse equilíbrio pós-1991 está ligada menos a
decisões isoladas do que a uma ilusão estrutural compartilhada pelas elites
políticas europeias: a crença de que a superação da bipolaridade significaria,
automaticamente, a superação da lógica do poder. A substituição do equilíbrio
pela expansão normativa, democracia liberal, economia de mercado e
institucionalismo multilateral, ocorreu sem o correspondente reconhecimento de
que grandes potências raramente abdicam de interesses estratégicos vitais em
nome de princípios abstratos. A Europa, ao terceirizar sua segurança aos
Estados Unidos e diluir sua autonomia estratégica no interior da OTAN, renunciou
ao papel histórico de mediadora e reguladora do sistema continental.
Nesse contexto, a Rússia pós-soviética experimentou
simultaneamente declínio material, retração territorial e perda de prestígio
internacional. A década de 1990, longe de inaugurar uma integração equilibrada
de Moscou à ordem europeia, consolidou um sentimento de humilhação estratégica,
agravado pela percepção de que compromissos tácitos haviam sido
desconsiderados. A partir dos anos 2000, sob Putin, esse ressentimento foi
gradualmente convertido em doutrina: reconstrução do Estado, revalorização do
poder militar e disposição crescente para empregar a força como instrumento
legítimo de política externa. A intervenção na Geórgia, a anexação da Crimeia
e, por fim, a guerra na Ucrânia inscrevem-se nessa trajetória.
A Ucrânia, por sua vez, tornou-se o ponto de fratura desse
processo não apenas por sua posição geográfica, mas por seu significado
simbólico e estratégico. Para o Ocidente, sua incorporação à esfera
euro-atlântica representaria a consolidação de uma Europa “inteira e livre”.
Para a Rússia, significaria a perda definitiva de profundidade estratégica, a
ruptura de laços históricos e a confirmação de um cerco geopolítico
irreversível. O conflito, assim, não é apenas territorial, mas civilizacional
no sentido estratégico do termo: envolve concepções incompatíveis de ordem,
segurança e legitimidade.
A guerra em curso expõe, de forma incontornável, a crise da
arquitetura de segurança europeia. A diplomacia preventiva falhou; os mecanismos
multilaterais revelaram-se impotentes; e o continente retornou a uma lógica que
julgava superada. Não se trata, contudo, de um simples retorno ao passado. O
atual cenário combina elementos clássicos, dissuasão, zonas de influência,
balanço de poder, com fatores novos, como a interdependência econômica, a
guerra híbrida e a centralidade da informação. O resultado é um sistema
instável, propenso à escalada e pobre em canais eficazes de acomodação.
Em última instância, a guerra na Ucrânia não representa uma
ruptura com a história europeia, mas sua continuidade mais sombria. O
continente que, após 1945, jurou ter aprendido com a própria devastação, voltou
a confundir estabilidade com negação do poder e paz com expansão normativa. Ao
recusar-se a reconhecer que o equilíbrio sempre foi o verdadeiro fundamento da
ordem europeia, substituiu a prudência estratégica pela ilusão de
irreversibilidade histórica. O resultado não foi a superação do conflito, mas
sua postergação até o momento em que ele retornasse sob formas mais violentas.
A tragédia não reside apenas na guerra em si, mas na
constatação de que ela era evitável apenas no plano retórico. Ignorar as
percepções de segurança de uma grande potência nunca foi receita para a paz;
foi, ao contrário, um convite à reação. Ao marginalizar a Rússia sem integrá-la
a um sistema efetivo de contenção e acomodação, a Europa renunciou ao papel que
historicamente lhe coube: o de administrar rivalidades antes que estas
degenerassem em catástrofe. O continente reaprende, assim, da maneira mais
custosa, uma lição antiga: quando o equilíbrio é abandonado em nome de
promessas abstratas, o vazio deixado por ele é invariavelmente preenchido pela
força.
Se a história ensina algo, é que ordens políticas não colapsam por malícia isolada, mas por cegueira coletiva. A guerra atual não é um acidente, nem uma anomalia moral, mas o sintoma tardio de uma arquitetura de segurança construída sobre pressupostos frágeis e expectativas irrealistas. A Europa, mais uma vez, encontra-se diante de seu dilema recorrente: reconstruir conscientemente um equilíbrio imperfeito, reconhecendo limites, interesses e assimetrias, ou persistir na recusa da realidade estratégica, condenando-se a reviver, sob novas roupagens, os ciclos de violência que marcaram sua própria formação histórica.