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  • Feira de Santana, segunda, 08 de junho de 2026

Wellington Freire

Duas portas para o Dia D

08 de Junho de 2026 | 06h 26
Duas portas para o Dia D
Crédito:National Geographic Brasil

Algumas datas possuem a estranha capacidade de convocar fantasmas. O 6 de junho é uma delas. Todos os anos, quando o calendário alcança esse dia, minha memória não retorna primeiro às praias da Normandia, aos paraquedistas dispersos sobre os campos franceses ou às embarcações que avançavam sob fogo inimigo. Ela retorna aos livros. Aos velhos livros que, ainda na adolescência, me apresentaram aquele acontecimento que mudaria o curso da Segunda Guerra Mundial.

Antes dos arquivos, das monografias acadêmicas e dos debates historiográficos, conheci o Dia D através de duas obras que ocuparam durante décadas um lugar quase obrigatório na biblioteca dos apaixonados por História Militar: O Mais Longo dos Dias, de Cornelius Ryan, e Invasão 44, de Paul Carell. Hoje percebo que aqueles livros eram mais do que simples narrativas de uma batalha. Eram duas portas distintas para o mesmo acontecimento. Duas formas de olhar a mesma praia.

Cornelius Ryan escrevia a partir do lado dos vencedores. Seu livro possui o ritmo de uma epopeia moderna. A narrativa avança por dezenas de personagens, alternando perspectivas, acompanhando generais, marinheiros, pilotos, paraquedistas e soldados comuns. A operação Overlord surge como um gigantesco drama coletivo, uma das grandes empresas militares da história humana.

Ao jovem leitor que eu era, aquelas páginas transmitiam a sensação de estar diante de um momento decisivo da civilização ocidental. O desembarque aparecia como o instante em que a maré da guerra finalmente começava a empurrar o Terceiro Reich em direção ao colapso.

Mas havia o outro livro. Invasão 44, de Paul Carell, contava uma história diferente. Não porque os fatos fossem outros. As praias eram as mesmas. Os tiros eram os mesmos. Os mortos eram os mesmos. O que mudava era o lugar de observação. Ryan observava a Normandia a partir das embarcações que chegavam. Carell observava a mesma Normandia a partir dos bunkers que tentavam resistir.

Nas páginas de Carell surgiam a confusão dos estados-maiores alemães, as hesitações do alto comando, as dificuldades de comunicação, as decisões tomadas tarde demais. O leitor era levado para dentro da máquina militar que tentava impedir a invasão e que, aos poucos, descobria estar diante de uma força impossível de deter.

Hoje sabemos que o livro deve ser lido com cautela. A historiografia posterior revelou limitações importantes em sua interpretação e mostrou como parte da literatura militar alemã do pós-guerra procurou preservar a imagem de eficiência profissional da Wehrmacht. Ainda assim, a obra conserva valor. Ela permite compreender como aquela batalha era percebida pelos homens que ocupavam o lado oposto da linha de fogo.

Talvez sem perceber, aqueles dois livros ensinaram ao adolescente que eu era uma das lições mais importantes da História Militar. Nenhuma batalha possui uma única narrativa. Os acontecimentos são os mesmos. As experiências não.

O soldado que desembarca sob o fogo das metralhadoras está vivendo uma história. O defensor que observa a aproximação das embarcações está vivendo outra. O general que acompanha os relatórios em um quartel distante vive uma terceira. Décadas depois, o historiador tentará reunir esses fragmentos dispersos, como quem recolhe pedaços de um vaso antigo, sabendo que jamais conseguirá reconstruí-lo integralmente.

Talvez seja por isso que a guerra exerce fascínio tão duradouro sobre a memória humana. Ela produz não apenas eventos, mas também narrativas concorrentes. Cada exército constrói suas lembranças. Cada geração reorganiza seus significados. Cada livro acrescenta uma nova camada de interpretação sobre os mesmos acontecimentos.

Passaram-se mais de oitenta anos desde aquele amanhecer de 1944.Muitos dos homens que lutaram na Normandia já desapareceram. Os veteranos transformaram-se em fotografias amareladas. As praias permanecem. Os bunkers permanecem. Os cemitérios permanecem.E permanecem também alguns livros. Ao recordar o 6 de junho, descubro que não me lembro apenas de uma batalha. Lembro-me igualmente do jovem leitor que atravessava aquelas páginas tentando compreender os mecanismos da guerra e da história. De certo modo, ele também pertence agora ao passado.

Os anos passam. Os homens passam. Os exércitos passam. Mas alguns livros continuam de guarda sobre a memória dos mortos. Talvez seja essa a sua mais nobre missão. Não apenas explicar o que aconteceu, mas impedir que o silêncio conquiste definitivamente o terreno onde um dia marcharam os vivos.



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