Há um instante, raríssimo, brutal, quase metafísico, em que a guerra tecnológica se rompe e deixa ver o seu núcleo arcaico. Esse instante é o da ejeção. Até ali, o piloto é extensão da máquina: sensores, velocidade, invisibilidade, cálculo. Um operador de sistemas no ápice da técnica. Mas, no momento em que o caça é atingido, tudo colapsa. O que resta não é o império da tecnologia mas, sim, o corpo.
A ejeção é uma regressão histórica em frações de segundo. O piloto que, instantes antes, habitava o domínio abstrato da guerra aérea, satélites, guerra eletrônica, superioridade espectral, tudo é lançado de volta à condição primordial do guerreiro isolado. Ele cai. E, ao cair, atravessa milênios. O céu deixa de ser espaço estratégico e volta a ser abismo. O solo inimigo deixa de ser “teatro de operações” e se torna aquilo que sempre foi: território hostil, onde o indivíduo está só, caçado, vulnerável. É nesse ponto que a guerra contemporânea reencontra a Ilíada.
O piloto abatido é, estruturalmente, um herói homérico: separado de sua formação, arrancado da ordem coletiva, exposto à contingência absoluta. Como os guerreiros de Homero, ele depende agora não da máquina, mas de sua astúcia, resistência e, sobretudo, da fortuna, esse elemento incalculável que Carl von Clausewitz identificou como constitutivo da guerra. A tecnologia pode reduzir probabilidades; não pode abolir o acaso. A figura do piloto abatido condensa, portanto, uma contradição fundamental: ele é o produto máximo da guerra moderna e, simultaneamente, sua ruína mais antiga.
Poucos casos ilustram essa tragédia com tanta nitidez quanto o de John McCain. Em 1967, então tenente aviador, foi abatido sobre Hanói durante a Guerra do Vietnã. Seu avião, como tantos outros, representava o auge do poder aéreo americano; sua queda, porém, o lançou numa experiência que nada tinha de tecnológica: fraturas, captura, anos de cativeiro, tortura, isolamento. McCain não foi apenas derrubado, ele foi despojado. Despojado da velocidade, da altitude, da proteção, da cadeia de comando. Restou-lhe o que resta a todo guerreiro abatido desde a Antiguidade: o corpo ferido e a consciência de estar atrás das linhas inimigas, onde a guerra deixa de ser operação e passa a ser destino.
É aqui que a dimensão trágica se impõe com toda a sua força. Na épica, o herói isolado enfrenta o inimigo visível; na guerra moderna, ele enfrenta algo mais difuso: a possibilidade constante de captura, o tempo dilatado da espera, a incerteza radical. O piloto abatido não luta apenas contra soldados, luta contra o espaço, contra o silêncio, contra a própria duração. Cada minuto no solo inimigo é uma intensificação da tragédia. E há ainda um elemento decisivo: a inversão do poder.
No ar, o piloto é soberano. No solo, é presa. A assimetria é absoluta. Aquele que dominava o campo de batalha torna-se objeto de busca, tanto por seus compatriotas quanto por seus inimigos. Ele é, simultaneamente, sujeito e prêmio. Sua sobrevivência deixa de ser apenas uma questão pessoal e passa a ter valor estratégico, simbólico, político. É por isso que a figura do piloto abatido ocupa um lugar tão central na imaginação militar contemporânea. Ele encarna o ponto em que a guerra deixa de ser sistema e volta a ser experiência.
Se deslocarmos o olhar para a tradição latina, o contraste se torna ainda mais eloquente. Em Eneida, de Virgílio, o herói já não é apenas o guerreiro isolado, mas o portador de uma missão histórica, integrado a um projeto coletivo, Roma, o império, o destino. A guerra, aqui, tende à ordem, à teleologia. Mas o piloto abatido rompe essa lógica. No momento da queda, não há império, não há missão, não há teleologia. Há apenas a contingência nua. O herói virgiliano, orientado pelo futuro, dissolve-se; o herói homérico, exposto ao presente absoluto, reaparece.
É como se, no coração da guerra mais tecnologicamente avançada da história, persistisse uma verdade arcaica: nenhuma máquina é capaz de abolir a condição trágica do combatente.E talvez seja esse o ponto mais perturbador.
Porque, em última instância, a guerra contemporânea promete o contrário. Promete controle, precisão, distância. Promete uma guerra sem corpo. O piloto, elevado a quilômetros de altitude, parece ter transcendido a vulnerabilidade que definiu o guerreiro ao longo dos séculos.
Mas a ejeção desfaz essa ilusão.Ela revela que toda guerra, por mais tecnológica que seja, contém um momento de queda, literal e simbólico, em que o indivíduo é devolvido à sua condição essencial. Nesse instante, não há satélite que o proteja, não há algoritmo que o salve. Há apenas o terreno inimigo, o tempo que se arrasta e a esperança, sempre incerta, de resgate.
O piloto abatido é, assim, a figura trágica por excelência da guerra moderna: aquele que, tendo tocado o ápice da técnica, é lançado de volta ao abismo da história.
A afirmação pode soar provocativa e, de fato, deve soar. Pois
aquilo que se convencionou chamar de teoria moderna da guerra, sistematizada
por pensadores como Carl von Clausewitz, repousa sobre um pressuposto que a
tradição bíblica já havia intuído em forma rudimentar: a guerra não é apenas
choque de forças, mas organização normativa da violência. E é
precisamente nesse ponto que o Pentateuco, especialmente em Levítico e
Deuteronômio, se revela não apenas como texto religioso, mas como um dos mais
antigos sistemas de regulação da conduta coletiva em situação de conflito.
Longe de ser um conjunto disperso de mandamentos morais ou
rituais, as chamadas ordenações mosaicas compõem uma arquitetura disciplinar
que abrange todos os aspectos da vida inclusive, e de modo decisivo, a guerra.
O que está em jogo não é apenas a relação do homem com o sagrado, mas a
formação de um corpo coletivo capaz de agir de forma coordenada, previsível e,
sobretudo, controlada em contextos de violência organizada. Em outras palavras:
trata-se da construção de uma ética operacional da guerra.
Levítico, frequentemente lido como um código de pureza
ritual, desempenha, nesse sentido, uma função que ultrapassa o domínio
religioso. Ao regulamentar minuciosamente o comportamento individual, o que se
come, com quem se convive, como se purifica o corpo, ele produz um tipo humano
específico: disciplinado, obediente, integrado a uma ordem maior. Essa
disciplina não é um fim em si mesma; ela é condição de possibilidade para
qualquer ação coletiva eficaz. Um exército não se faz apenas com armas, mas com
corpos treinados para obedecer. E, no mundo mosaico, essa obediência é
internalizada como dever religioso.
Deuteronômio, por sua vez, explicita ainda mais essa dimensão
normativa ao vincular diretamente conduta e resultado militar. A vitória não
depende apenas de estratégia ou superioridade numérica, mas da adesão rigorosa
às prescrições divinas. A desobediência não é apenas pecado, é falha
operacional. Aqui, a guerra é concebida como extensão de um sistema
jurídico-religioso que regula tanto o campo de batalha quanto a vida cotidiana.
Não há separação entre esfera civil e militar, entre moral e estratégia: tudo
se encontra submetido a uma mesma lógica normativa.
É nesse ponto que o modelo mosaico revela sua singularidade.
Enquanto outras sociedades do Antigo Oriente Próximo concebiam a guerra como
atividade legitimada pelos deuses, mas conduzida por homens segundo critérios
pragmáticos, o sistema hebraico propõe algo mais radical: a subordinação
integral da prática militar a um código de origem divina. Não se trata
apenas de lutar com a bênção de Deus, mas de lutar segundo regras que Ele
próprio teria estabelecido. A guerra deixa de ser apenas permitida, ela passa a
ser regulamentada em seus mínimos detalhes por uma instância transcendente.
Essa regulamentação produz efeitos concretos. Em primeiro
lugar, estabelece limites, ainda que paradoxais, para a violência. Ao definir o
que pode e o que não pode ser feito, o código mosaico introduz uma forma de
controle sobre a destruição, impedindo que ela se torne completamente
arbitrária. Em segundo lugar, cria um mecanismo de coesão interna: todos os
combatentes compartilham não apenas objetivos, mas normas comuns, cuja violação
implica consequências não apenas sociais, mas teológicas. Por fim, e talvez
mais importante, transforma a guerra em um campo de prova moral: vencer ou
perder passa a ser interpretado como sinal de fidelidade ou desvio em relação à
ordem divina.
Essa fusão entre norma e combate antecipa, em forma arcaica,
uma intuição que a teoria militar moderna desenvolveria séculos depois: a de
que a eficácia de uma força armada depende menos de sua capacidade destrutiva
do que de sua organização interna. Carl von Clausewitz diria que a
guerra é continuação da política por outros meios; o Pentateuco sugere algo ainda
mais abrangente: a guerra é continuação da lei, ou, mais precisamente, da
obediência à lei, por meios violentos.
Mas há um custo nessa concepção. Ao submeter a guerra a um
código de origem divina, o sistema mosaico não apenas disciplina a violência, ele
a legitima de forma absoluta. Se as regras vêm de Deus, sua aplicação torna-se
incontestável. A obediência deixa de ser escolha e passa a ser imperativo. E,
nesse contexto, a distinção entre ordem e destruição se torna perigosamente
tênue: aquilo que é regulamentado como dever pode, ao mesmo tempo, operar como
justificativa para atos extremos.
É por isso que ler Levítico e Deuteronômio apenas como textos
religiosos é perder de vista sua dimensão mais inquietante. Eles são, ao mesmo
tempo, códigos de santidade e manuais de conduta em um mundo onde a guerra é
permanente possibilidade. São dispositivos que moldam corpos, regulam ações e
definem os termos sob os quais a violência pode ser exercida. E, ao fazê-lo,
inauguram uma tradição na qual o poder não se limita a ordenar — ele normatiza,
disciplina e legitima.
Muito antes de a guerra ser pensada como fenômeno político ou
estratégico, ela já havia sido inscrita no coração da lei. E, nesse sentido, a
provocação inicial deixa de ser exagero e se torna constatação histórica: antes
de Clausewitz, houve Moisés, e com ele, a primeira tentativa de transformar a
guerra em um sistema regulado pela norma.
Ao leitor interessado em aprofundar o tema aqui apenas
esboçado, remeto a duas obras, uma delas de minha autoria: Freire, Wellington.
As Ordenações Mosaicas. (disponível na internet em PDF); De Vaux, Roland. As
Instituições de Israel no Antigo Testamento.
Lido fora de sua moldura devocional, o texto revela uma
arquitetura implacável: uma gramática de poder que organiza a vida inteira sob
o signo da obediência e da destruição. Ali, bênção e maldição não são
categorias espirituais abstratas; são instrumentos de engenharia social e
política, operadores de um sistema que antecipa, em forma arcaica, aquilo que a
modernidade chamaria de guerra total.
A estrutura é simples e precisamente por isso, devastadora.
Se obedecer, o povo será elevado: vencerá seus inimigos, prosperará na terra,
multiplicará sua descendência, dominará o espaço e o tempo. Se desobedecer, o
colapso será igualmente total: fome, doença, derrota militar, esterilidade,
exílio, desintegração social. Não há meio-termo. Não há zona neutra. O mundo é
reorganizado em torno de um binarismo absoluto, no qual a existência coletiva
depende de uma adesão integral à ordem divina.
O que está em jogo aqui não é apenas a vitória em batalha,
mas a própria possibilidade de viver. A bênção funciona como uma infraestrutura
invisível de poder: garante colheitas, estabilidade, superioridade estratégica.
A maldição, por sua vez, não se limita a punir, ela desestrutura. Atua sobre o
corpo, tornando-o vulnerável; sobre a terra, tornando-a estéril; sobre a
descendência, interrompendo a continuidade; sobre a memória, condenando o povo
ao esquecimento. Trata-se de um ataque sistêmico, que não visa apenas derrotar
um inimigo, mas dissolver sua condição de existência.
Nesse sentido, Deuteronômio 28 opera como um manual de guerra
total simbólica. A guerra aqui não é apenas contra exércitos adversários, mas
contra a própria vida quando esta se desvia da norma estabelecida. A lógica é
abrangente: tudo pode ser convertido em campo de batalha. A chuva ou sua
ausência, a saúde ou a doença, a fertilidade ou a esterilidade, todos os elementos
da realidade são mobilizados como instrumentos de um conflito permanente entre
fidelidade e ruptura.
É precisamente essa totalidade que aproxima o texto das
formas mais extremas de violência pensadas na história. A guerra total, em seu
sentido moderno, implica mobilização integral de recursos e destruição
sistemática do inimigo em todas as suas dimensões. Em Deuteronômio 28,
encontramos uma protoforma dessa lógica: não se combate apenas o adversário
externo, mas qualquer possibilidade de desvio interno. O inimigo deixa de ser
apenas o outro, passa a ser também o próprio povo quando este se afasta da
ordem divina.
Essa interiorização do conflito é um dos elementos mais
sofisticados, e mais inquietantes, do texto. A ameaça não vem apenas de fora,
mas de dentro. A maldição transforma o mundo em um ambiente hostil, um cerco
invisível em que todas as variáveis operam contra o sujeito. A derrota militar
é apenas uma das manifestações de um colapso mais amplo, que envolve economia,
biologia, psicologia coletiva. A guerra, aqui, não tem fronteiras definidas:
ela se infiltra na vida cotidiana, convertendo cada aspecto da existência em
potencial campo de punição.
Ao mesmo tempo, o texto cumpre uma função disciplinadora
decisiva. Ao estabelecer um sistema tão abrangente de recompensas e punições,
ele produz coesão, obediência e vigilância permanente. A bênção não é apenas
promessa; é mecanismo de adesão. A maldição não é apenas ameaça; é instrumento
de controle. O resultado é uma comunidade que internaliza a lógica do conflito,
regulando-se a si mesma sob o espectro constante da destruição.
Mas há um ponto ainda mais radical. A maldição descrita em
Deuteronômio 28 não visa apenas a derrota momentânea, ela projeta a
possibilidade de aniquilação completa. Quando a fome devora o corpo, quando a
terra deixa de produzir, quando a descendência é interrompida, o que está em
jogo é algo mais profundo do que a perda de poder: é o desaparecimento.
Trata-se de uma forma de aniquilação social, cultural e ontológica, na qual o
grupo deixa de existir não apenas como força política, mas como realidade
histórica.
Nesse aspecto, o texto bíblico não oculta sua dureza. Ao contrário, a sistematiza. A violência não é episódica, mas estrutural; não é exceção, mas princípio organizador. E é justamente por isso que Deuteronômio 28 permanece como um dos documentos mais perturbadores da tradição ocidental: porque nele a guerra ultrapassa o campo de batalha e se instala no coração da existência. Não se trata apenas de vencer ou perder. Trata-se de existir ou deixar de existir.
Os leitores que acompanham meus ensaios publicados diariamente neste órgão de imprensa estão cientes de minha predileção, resultado de um demorado processo de especialização acadêmica, pelo estudo da História Militar. A cada dia publico análises de guerras contemporâneas. Nos próximos três dias minha atenção incidirá sobre uma temática acerca da qual já publiquei dois livros: aspectos militares do Antigo e Novo Testamento. Boa leitura a todos!
Bismarck dizia que “os tolos dizem que aprendem com a experiência; eu prefiro aprender com a experiência dos outros”. A história militar, em larga medida, é o registro de erros conceituais recorrentes; e poucos são tão persistentes quanto a crença de que guerras complexas podem ser resolvidas por um único golpe decisivo. Em momentos de tensão, estrategistas são seduzidos pela promessa de simplificação: identificar o ponto nodal, concentrar força e encerrar o conflito com um gesto cirúrgico. É precisamente essa ilusão que hoje se projeta sobre a pequena ilha de Kharg, no Golfo Pérsico.
Há ecos históricos claros e também inquietantes. Em 1941, sob a égide de Adolf Hitler, a Alemanha lançou a Operação Mercúrio, a primeira grande invasão aerotransportada da história, contra a ilha de Creta. A lógica parecia irrefutável: ao capturar aquele ponto estratégico, o Mediterrâneo oriental se tornaria mais seguro para o Eixo, a Grã-Bretanha perderia uma base vital e o teatro balcânico seria estabilizado com rapidez. A doutrina do Schwerpunkt, a concentração de forças sobre o ponto decisivo, parecia atingir ali sua forma mais pura. Mas Creta ensinou uma lição brutal: o ponto decisivo raramente é decisivo por si só.
A vitória alemã foi, do ponto de vista tático, inegável. A ilha caiu. No entanto, o custo foi devastador. As forças aerotransportadas, uma das mais inovadoras capacidades da Wehrmacht, sofreram perdas tão severas que Hitler proibiu novas operações desse tipo em larga escala. Em termos operacionais, a Alemanha venceu; em termos estratégicos, amputou uma de suas próprias possibilidades futuras. Creta foi, assim, uma vitória que estreitou o horizonte da guerra alemã.
Kharg apresenta uma tentação análoga, ainda que em um ambiente histórico radicalmente distinto. Não se trata mais de paraquedistas sobre pistas improvisadas, mas da combinação de poder naval, aéreo e eventual ocupação anfíbia. A lógica, porém, permanece a mesma: atingir a jugular econômica do adversário. Por Kharg escoa a maior parte do petróleo iraniano; capturá-la sugeriria, à primeira vista, a possibilidade de desorganizar todo o sistema inimigo com um único movimento.
Mas toda analogia histórica é imperfeita e é justamente nessa imperfeição que reside seu valor. Se Creta ocorreu no contexto de uma guerra industrial clássica, Kharg se insere em um ambiente saturado por tecnologias assimétricas, interdependência econômica global e capacidade de escalada difusa. Ainda assim, a estrutura do erro permanece reconhecível.Capturar Kharg não encerraria a guerra, apenas a transformaria.
A própria admissão de que seria necessário “ficar lá por um tempo” revela o núcleo do problema estratégico. Toda blitz bem-sucedida carrega em si a obrigação da permanência. E permanência, em território hostil e isolado, é apenas outro nome para vulnerabilidade crescente. A história oferece exemplos eloquentes desse erro: em 1954, em Dien Bien Phu, uma posição fixa em território inimigo, concebida como ponto de controle, converteu-se em armadilha fatal à medida que o cerco se fechava e o custo de sustentação se tornava insustentável.
Kharg, contudo, seria ainda mais implacável. Não se trata apenas de defender uma posição contra forças convencionais, mas de sustentá-la sob constante ameaça de mísseis balísticos, enxames de drones e interdição naval contínua. Em um ambiente assim, o custo da ocupação não cresce de forma linear, ele se expande exponencialmente. Mais do que difícil de defender, Kharg tende a se tornar estruturalmente indefensável no longo prazo.
Há, ademais, um elemento que aprofunda o problema: Kharg não é apenas um ponto militar, mas um nó logístico de relevância sistêmica. Sua captura ou neutralização prolongada não afetaria apenas o adversário imediato, mas reverberaria no mercado global de energia. Como em Creta, o objetivo tático contém em si consequências estratégicas que ultrapassam o teatro de operações mas, no caso contemporâneo, essas consequências são amplificadas pela interdependência global.
O erro, portanto, não é apenas operacional. É, antes de tudo, cognitivo. Trata-se da tentativa recorrente de reduzir sistemas complexos a pontos únicos de decisão, como se a guerra pudesse ser resolvida por um gesto de precisão cirúrgica. Mas sistemas complexos reagem. Eles absorvem o choque, redistribuem tensões e deslocam o conflito para novos domínios, frequentemente mais difusos e mais custosos.
O que Creta demonstrou, e Kharg ameaça repetir, é que o inimigo não desaparece quando perde um ponto estratégico. Ele se adapta. E, ao fazê-lo, transforma a vitória inicial em um problema prolongado. A conquista, longe de encerrar a guerra, inaugura uma fase mais instável, mais cara e mais imprevisível.
No limite, a lição assume contornos trágicos, dignos de Tucídides: não são as batalhas que decidem as guerras, mas as cadeias de efeitos que elas desencadeiam. muitas vezes irreversíveis. Creta foi conquistada e, ainda assim, contribuiu para empobrecer o próprio instrumento de guerra que a venceu. Kharg, se tomada, poderá repetir essa lógica implacável: uma vitória formal que inaugura um processo de desgaste estrutural. A história não apenas oferece o mapa; ela registra, com severidade quase clínica, o destino daqueles que, seduzidos pela ilusão do golpe decisivo, confundem êxito imediato com solução estratégica e descobrem, tarde demais, que vencer um ponto não é vencer uma guerra.
Nota: Recomendo ao leitor interessado duas obras: Beevor, Anthony. Creta. Rio de Janeiro, Record: 2008; Keegan, John. Dien Bien Phu. Rio de Janeiro, Reenes editora, 1979