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Wellington Freire

Tomar Kharg, perder a guerra

Wellington Freire - 02 de Abril de 2026 | 14h 50
Tomar Kharg, perder a guerra
Foto: Reprodução

Bismarck dizia que “os tolos dizem que aprendem com a experiência; eu prefiro aprender com a experiência dos outros”. A história militar, em larga medida, é o registro de erros conceituais recorrentes; e poucos são tão persistentes quanto a crença de que guerras complexas podem ser resolvidas por um único golpe decisivo. Em momentos de tensão, estrategistas são seduzidos pela promessa de simplificação: identificar o ponto nodal, concentrar força e encerrar o conflito com um gesto cirúrgico. É precisamente essa ilusão que hoje se projeta sobre a pequena ilha de Kharg, no Golfo Pérsico.

Há ecos históricos claros e também inquietantes. Em 1941, sob a égide de Adolf Hitler, a Alemanha lançou a Operação Mercúrio, a primeira grande invasão aerotransportada da história, contra a ilha de Creta. A lógica parecia irrefutável: ao capturar aquele ponto estratégico, o Mediterrâneo oriental se tornaria mais seguro para o Eixo, a Grã-Bretanha perderia uma base vital e o teatro balcânico seria estabilizado com rapidez. A doutrina do Schwerpunkt, a concentração de forças sobre o ponto decisivo, parecia atingir ali sua forma mais pura. Mas Creta ensinou uma lição brutal: o ponto decisivo raramente é decisivo por si só.

A vitória alemã foi, do ponto de vista tático, inegável. A ilha caiu. No entanto, o custo foi devastador. As forças aerotransportadas,  uma das mais inovadoras capacidades da Wehrmacht, sofreram perdas tão severas que Hitler proibiu novas operações desse tipo em larga escala. Em termos operacionais, a Alemanha venceu; em termos estratégicos, amputou uma de suas próprias possibilidades futuras. Creta foi, assim, uma vitória que estreitou o horizonte da guerra alemã.

Kharg apresenta uma tentação análoga, ainda que em um ambiente histórico radicalmente distinto. Não se trata mais de paraquedistas sobre pistas improvisadas, mas da combinação de poder naval, aéreo e eventual ocupação anfíbia. A lógica, porém, permanece a mesma: atingir a jugular econômica do adversário. Por Kharg escoa a maior parte do petróleo iraniano; capturá-la sugeriria, à primeira vista, a possibilidade de desorganizar todo o sistema inimigo com um único movimento.

Mas toda analogia histórica é imperfeita  e é justamente nessa imperfeição que reside seu valor. Se Creta ocorreu no contexto de uma guerra industrial clássica, Kharg se insere em um ambiente saturado por tecnologias assimétricas, interdependência econômica global e capacidade de escalada difusa. Ainda assim, a estrutura do erro permanece reconhecível.Capturar Kharg não encerraria a guerra, apenas a transformaria.

A própria admissão de que seria necessário “ficar lá por um tempo” revela o núcleo do problema estratégico. Toda blitz bem-sucedida carrega em si a obrigação da permanência. E permanência, em território hostil e isolado, é apenas outro nome para vulnerabilidade crescente. A história oferece exemplos eloquentes desse erro: em 1954, em Dien Bien Phu, uma posição fixa em território inimigo, concebida como ponto de controle, converteu-se em armadilha fatal à medida que o cerco se fechava e o custo de sustentação se tornava insustentável.

Kharg, contudo, seria ainda mais implacável. Não se trata apenas de defender uma posição contra forças convencionais, mas de sustentá-la sob constante ameaça de mísseis balísticos, enxames de drones e interdição naval contínua. Em um ambiente assim, o custo da ocupação não cresce de forma linear, ele se expande exponencialmente. Mais do que difícil de defender, Kharg tende a se tornar estruturalmente indefensável no longo prazo.

Há, ademais, um elemento que aprofunda o problema: Kharg não é apenas um ponto militar, mas um nó logístico de relevância sistêmica. Sua captura ou neutralização prolongada não afetaria apenas o adversário imediato, mas reverberaria no mercado global de energia. Como em Creta, o objetivo tático contém em si consequências estratégicas que ultrapassam o teatro de operações  mas, no caso contemporâneo, essas consequências são amplificadas pela interdependência global.

O erro, portanto, não é apenas operacional. É, antes de tudo, cognitivo. Trata-se da tentativa recorrente de reduzir sistemas complexos a pontos únicos de decisão, como se a guerra pudesse ser resolvida por um gesto de precisão cirúrgica. Mas sistemas complexos reagem. Eles absorvem o choque, redistribuem tensões e deslocam o conflito para novos domínios, frequentemente mais difusos e mais custosos.

O que Creta demonstrou, e Kharg ameaça repetir, é que o inimigo não desaparece quando perde um ponto estratégico. Ele se adapta. E, ao fazê-lo, transforma a vitória inicial em um problema prolongado. A conquista, longe de encerrar a guerra, inaugura uma fase mais instável, mais cara e mais imprevisível.

No limite, a lição assume contornos trágicos, dignos de Tucídides: não são as batalhas que decidem as guerras, mas as cadeias de efeitos que elas desencadeiam. muitas vezes irreversíveis. Creta foi conquistada  e, ainda assim, contribuiu para empobrecer o próprio instrumento de guerra que a venceu. Kharg, se tomada, poderá repetir essa lógica implacável: uma vitória formal que inaugura um processo de desgaste estrutural. A história não apenas oferece o mapa; ela registra, com severidade quase clínica, o destino daqueles que, seduzidos pela ilusão do golpe decisivo, confundem êxito imediato com solução estratégica  e descobrem, tarde demais, que vencer um ponto não é vencer uma guerra.

Nota: Recomendo ao leitor interessado duas obras: Beevor, Anthony. Creta. Rio de Janeiro, Record: 2008;  Keegan, John. Dien Bien Phu. Rio de Janeiro, Reenes editora, 1979



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