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Wellington Freire

Eles Chamam isso de Paz: quando o cessar-fogo é engodo

09 de Abril de 2026 | 15h 03
Eles Chamam isso de Paz: quando o cessar-fogo é engodo

Há na natureza humana uma antiga aspiração: a de que a palavra possa conter a espada. O cessar-fogo, nesse sentido, é o gênero nobre da diplomacia, o momento em que a linguagem, enfim, subjuga a força. Mas as notícias que nos chegam do Oriente Médio nas últimas horas sugerem uma verdade mais sombria e menos confortável: a de que o cessar-fogo, em nosso tempo, tornou-se menos um acordo de paz do que um dispositivo retórico para redistribuir a violência, não para extingui-la.


A primeira notícia, vinda do Pentágono, apresenta-nos a figura quase trágica de Pete Hegseth, secretário de Defesa dos Estados Unidos, ex-comentarista da Fox News, que conduz suas coletivas de imprensa como se fossem monólogos de auditório. "Morte e destruição vindas do céu o dia todo", ele celebra. "Uma vitória militar com V maiúsculo", ele proclama. Há aqui um fenômeno que o crítico literário norte-americano Wayne Booth, em A Retórica da Ficção, chamaria de "narrador não confiável,  aquele cujo discurso, por mais enfático que seja, não se sustenta diante dos fatos que ele mesmo, inadvertidamente, revela. Pois a mesma notícia informa: treze militares americanos mortos, centenas de feridos, um bilhão de dólares por dia em custos, o Estreito de Ormuz fechado, o estoque de urânio enriquecido do Irã intacto sob os escombros, e um Líder Supremo substituído por seu filho, ou seja, a mudança de regime fracassou.


O "V maiúsculo" de Hegseth, assim, revela-se uma letra oca, um significante sem significado. É a vitória como pura performatividade: o que importa não é vencer, mas dizer que se venceu com entonação convincente. O filósofo britânico J. L. Austin, em Como Fazer Coisas com Palavras, distinguia entre enunciados constatativos (que descrevem a realidade) e performativos (que criam uma realidade ao serem pronunciados, como "eu vos declaro marido e mulher"). Hegseth opera inteiramente no registro performativo: ao declarar vitória, tenta instituí-la. O problema, como Austin notaria, é que performativos bem-sucedidos dependem de convenções sociais e circunstâncias adequadas. E as circunstâncias, aqui, recusam-se a cooperar.


É nesse ponto que a segunda notícia irrompe como uma refutação sangrenta de toda a retórica pentagonal. Mal o primeiro-ministro do Paquistão anuncia um cessar-fogo de duas semanas, mediado com pompa, abençoado por Washington, e eis que Israel lança "um ataque relâmpago de 10 minutos" sobre o Líbano. Mais de trezentos mortos. Mais de mil feridos. Um prédio residencial de dez andares no bairro nobre de Tallet el Khayat reduzido a pó. Uma enfermeira do Médicos Sem Fronteiras descreve pacientes chegando com "fragmentos de vidro, metal e entulho alojados em seus corpos". Um jovem percorre a sala de emergência com um celular na mão, mostrando a foto do irmão desaparecido.


O que há de mais profundamente perturbador nesse ataque não é apenas sua violência  é sua intempestividade. Ele ocorre horas depois do anúncio da trégua. Ele surpreende não apenas as vítimas, mas a própria expectativa internacional de que um cessar-fogo significa, minimamente, a suspensão dos bombardeios. O governo israelense, em resposta, afirma que o acordo não incluía o Líbano. Trump, em sua habitual elasticidade semântica, classifica a guerra libanesa como "uma escaramuça à parte".


Eis aí o cerne da questão. O presidente norte-americano, ao mesmo tempo que celebra um cessar-fogo com o Irã, autoriza seu aliado a prosseguir a guerra em outro teatro. A violência não é interrompida; ela é compartimentalizada, gerenciada, redirecionada para uma zona de exceção onde as regras do acordo não se aplicam. O teórico político italiano Giorgio Agamben, em Homo Sacer, mostrou como o estado de exceção, a suspensão da ordem jurídica normal, tornou-se o paradigma oculto da governança contemporânea. O que vemos no Líbano é uma variante geopolítica desse fenômeno: a criação de teatros de exceção, onde a guerra prossegue sob o manto de um cessar-fogo que a excluiu de seu escopo.


Essa estratégia, contudo, ignora uma verdade elementar que a literatura sempre soube melhor do que a ciência política: a violência é recalcitrante à compartimentalização. O romance russo do século XIX, de Tolstói a Dostoiévski, demonstrou exaustivamente que as consequências das ações humanas não respeitam as fronteiras que os agentes tentam lhes impor. Um duelo, um adultério, um assassinato, cada ato irradia em ondas concêntricas que, mais cedo ou mais tarde, alcançam o que se pretendia proteger. No plano internacional, o fechamento do Estreito de Ormuz já elevou o preço da gasolina nos Estados Unidos e ameaça um "choque de preços" nos supermercados americanos. A guerra que Trump iniciou no Irã já retornou à sua própria casa na forma de inflação e descontentamento eleitoral. E o ataque israelense no Líbano, longe de ser uma "escaramuça à parte", é o mesmo conflito que se recusa a caber nos compartimentos que lhe destinam.


Há ainda uma dimensão narrativa que merece atenção. O ataque ao prédio residencial de Beirute, sem aviso prévio, em área até então poupada, ecoa, em escala menor, o ataque à escola em Minab que matou 168 pessoas, 110 delas crianças. Em ambos os casos, a resposta oficial é a mesma: "O Pentágono está investigando". Quase seis semanas depois, nenhuma conclusão. A investigação torna-se, ela própria, um dispositivo retórico: promete transparência no futuro para esvaziar a exigência de responsabilidade no presente.


O filósofo francês Paul Ricœur, em A Memória, a História, o Esquecimento, observou que o trabalho da memória é sempre ameaçado por duas patologias opostas: o esquecimento forçado e a obsessão mnemônica. A guerra contemporânea parece ter inventado uma terceira via: a investigação perpétua, que suspende a memória em um limbo burocrático onde nenhum fato é definitivamente estabelecido e nenhum responsável é definitivamente inocentado ou condenado. As 110 crianças de Minab aguardam, com os mortos do Líbano que ontem se juntaram a elas, que um laudo técnico decida se suas mortes foram acidente, efeito colateral ou crime. Enquanto isso, Hegseth sobe ao pódio e fala em "vitória com V maiúsculo".


Não sei, leitor, que nome dar a esse estado de coisas. Talvez os antigos gregos o reconhecessem como hybris, a arrogância que precede a queda. Cessar-fogos que não cessam fogo. Vitórias que não vencem nada. Investigações que nunca concluem. O "V maiúsculo" de Hegseth, afinal, talvez seja mesmo o mais adequado: não o V de victory, mas o V de vacuum, o vazio retórico no centro de uma guerra que ninguém pode declarar vencida, que ninguém pode conter, e cujos custos, como as 110 crianças de Minab e os 303 mortos de Beirute, não caberão jamais em nenhuma letra, maiúscula ou minúscula.





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