Enquanto multidões desafiam o regime iraniano nas ruas de
Teerã e de cidades periféricas do país, os Estados Unidos capturam o presidente
da Venezuela e declaram o direito de “governar” um Estado soberano até uma
transição considerada segura. À primeira vista, tratam-se de crises distintas,
separadas por geografia, cultura e história. Observadas em conjunto, porém,
elas expõem algo mais profundo: o retorno de uma ordem internacional marcada
pela instabilidade, pela força e pela suspensão seletiva das normas, uma
dinâmica que lembra a chamada “paz armada” que precedeu a eclosão da Primeira
Guerra Mundial.
As grandes rupturas da ordem internacional raramente começam
no centro do sistema. Antes de 1914, não foi Berlim, Londres ou Paris que
detonaram a crise geral, mas episódios periféricos, as crises do Marrocos, nos
confins do império colonial, e as guerras balcânicas, em regiões consideradas
instáveis e secundárias. Ainda assim, esses choques “laterais” foram
suficientes para expor a fragilidade das regras, das alianças e da capacidade
de contenção das grandes potências. Algo semelhante parece ocorrer hoje. À
primeira vista, os protestos que desafiam o regime iraniano e a captura do
presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos pertencem a
universos distintos. Observados em conjunto, porém, revelam um mesmo padrão:
Irã e Venezuela funcionam como elos fracos do sistema internacional, zonas onde
se testam os limites da tolerância global ao uso da força, à exceção jurídica e
à erosão das normas que estruturaram o pós-Guerra Fria.
No Irã, o que se desenrola já não pode ser compreendido como
mais um ciclo de protestos reprimidos pelo aparato estatal. A escala inédita
das manifestações, seu caráter nacional e transversal, atingindo grandes centros
e cidades periféricas, classes médias e regiões historicamente marginalizadas,
e, sobretudo, a ruptura simbólica com a figura do líder supremo indicam algo
mais profundo: uma crise de legitimidade. Essa crise interna se articula a um
contexto externo adverso. O Irã enfrenta isolamento regional, a perda ou
enfraquecimento de aliados estratégicos e pressões militares recentes que
abalaram o prestígio da Guarda Revolucionária, um dos pilares simbólicos do
regime. Estados pressionados simultaneamente por dentro e por fora tendem a
reagir de forma errática, o que amplia a instabilidade sistêmica.
Se o Irã expõe o colapso interno de um regime, a Venezuela
revela o enfraquecimento das regras externas. A captura de um chefe de Estado
em exercício por uma potência estrangeira constitui um evento sem precedentes
recentes. Não se trata apenas de uma operação contra Nicolás Maduro, mas de um
ataque direto ao princípio da soberania regulada por normas. A invocação
explícita da Doutrina Monroe, um artefato do século XIX, sinaliza um retorno a
uma lógica de esferas de influência e tutela direta, incompatível com a
retórica multilateral que marcou a ordem pós-1945. Ao declarar que os Estados
Unidos “governarão” a Venezuela até uma transição considerada segura,
Washington substitui o direito internacional por uma decisão soberana
unilateral. O perigo desse gesto não reside apenas no caso venezuelano, mas no
precedente que ele estabelece. Quando a exceção se torna aceitável, ela deixa
de ser exceção.
Irã e Venezuela também revelam outro fenômeno inquietante: o
esvaziamento prático dos sistemas de alianças. Rússia e China condenam as ações
americanas, mas evitam confrontos diretos. Moscou protesta, mas não protege;
Pequim critica, mas calcula. O padrão se repete: a queda do regime sírio aliado
da Rússia, a vulnerabilidade venezuelana, os ataques sofridos pelo Irã. As
alianças permanecem no discurso, mas falham na dissuasão. Antes de 1914, muitos
tratados tinham exatamente esse caráter: promessas cuja efetividade só seria
testada no momento crítico. Alianças que não dissuadem produzem insegurança, e
a insegurança, por sua vez, estimula apostas mais arriscadas.
Esse cenário é agravado por um traço comum às lideranças
envolvidas: a concentração extrema de poder decisório. Trump, Putin, Khamenei e
Maduro governam sistemas nos quais instituições funcionam como extensões da
vontade pessoal. A política externa assume contornos performáticos, marcada por
retórica maximalista, humilhação simbólica do adversário e decisões rápidas,
pouco filtradas por mecanismos de contenção. A analogia com a diplomacia de
corte do início do século XX é instrutiva. Quando a política internacional se
torna extensão do ego dos governantes, o risco de erros de cálculo cresce
exponencialmente. Talvez o aspecto mais perigoso do momento atual seja a
sensação de que tudo ainda pode ser administrado. Cada crise é absorvida,
relativizada, tratada como excepcional. Nenhuma, até agora, produziu uma guerra
geral. Foi exatamente essa confiança que marcou a Europa da chamada paz armada.
Sistemas internacionais raramente colapsam quando tudo falha de uma vez. Eles
colapsam quando todos acreditam que, apesar dos sinais, o risco ainda é
controlável.
Irã e Venezuela não explicam sozinhos o mundo atual, mas iluminam um padrão inquietante: a volta da força como linguagem legítima da política internacional e da exceção como método recorrente de ação. Como na Europa anterior a 1914, ninguém parece desejar conscientemente uma guerra de grandes proporções. Ainda assim, o acúmulo de crises, precedentes e ambiguidades sugere que o sistema voltou a conviver perigosamente com a instabilidade como norma. A história ensina que essa confiança, quase sempre, cobra um preço alto.
Uma cena surpreendente emergiu da mais recente onda de
protestos no Irã: a publicação, nas redes sociais, de vídeos do príncipe
herdeiro da antiga dinastia real. Reza Pahlevi, filho do último Xá – título do
monarca que governou o país antes da Revolução Islâmica de 1979 –, surgiu em
uma série de gravações posicionando-se como um líder da revolução no exílio.
Seu apelo é direto: convoca a população a persistir na insurreição até a
derrubada completa do regime teocrático. O paralelo histórico é irônico e cheio
de significado. Há menos de meio século, era um líder religioso carismático, o
Aiatolá Khomeini, quem, do exílio na França, dirigia uma campanha implacável
contra o Xá Reza Pahlevi, culminando na fuga do monarca e na instauração da
República Islâmica. Agora, testemunhamos um processo de erosão dessa mesma
revolução, enquanto um Pahlevi, do exílio, tenta reivindicar o papel de símbolo
máximo da alternativa ao regime. A história, parece, não se repete, mas ecoa de
forma perturbadora, abrindo espaço para a remota, porém publicamente evocada,
possibilidade de restauração de dinastias depostas.
A história recente do Oriente Médio demonstra que a queda de
regimes autoritários fortemente centralizados, sobretudo aqueles sustentados
por estruturas militares ideologizadas, tende a produzir mais instabilidade do
que democratização. No Iraque, a deposição de Saddam Hussein em 2003, conduzida
pela intervenção anglo-americana e pela dissolução deliberada do Exército e do
Partido Baath, resultou na desarticulação completa do aparato estatal, criando
um vácuo de poder explorado por milícias sectárias, pela Al-Qaeda no Iraque e,
posteriormente, pelo Estado Islâmico. A ausência de um plano de estabilização
pós-conflito e a lógica da de-Baathificação transformaram uma
derrota militar rápida em um conflito assimétrico prolongado, cujos efeitos
ainda se fazem sentir duas décadas depois.
Na Líbia, a derrubada de Muammar Kadafi em 2011, no contexto
das chamadas Primaveras Árabes e sob cobertura aérea da OTAN, seguiu trajetória
semelhante. A eliminação do líder não foi acompanhada da preservação de instituições
coercitivas nacionais, o que levou à fragmentação do monopólio da força, com o
surgimento de governos paralelos, milícias tribais e grupos jihadistas. O país
converteu-se em um espaço de guerra por procuração, envolvendo potências
regionais e globais, evidenciando os limites da doutrina de “intervenção
humanitária” quando dissociada de um projeto político-institucional de longo
prazo. A Síria oferece um modelo distinto, porém igualmente revelador. A partir
de 2011, o regime de Bashar al-Assad optou pela militarização total da crise,
sustentando-se por meio da lealdade das Forças Armadas, do apoio de milícias
aliadas e da intervenção direta da Rússia e do Irã. O resultado foi a
preservação formal do Estado, mas ao custo de uma soberania fraturada, com áreas
controladas por atores externos e não estatais. Trata-se de um exemplo clássico
de conflito híbrido e congelado, no qual a sobrevivência do regime não
corresponde à restauração da ordem nacional.
O Irã reúne elementos dos três casos, mas em escala mais
complexa. Diferentemente do Iraque de 2003, o país não enfrenta uma intervenção
externa direta; contudo, como na Líbia, observa-se uma erosão interna da
legitimidade do regime. Ao mesmo tempo, à semelhança da Síria, Teerã mantém um
aparato militar altamente politizado, em especial a Guarda Revolucionária
Islâmica, treinado em doutrinas de guerra assimétrica, repressão interna e
projeção regional. Essa capacidade reduz a probabilidade de colapso imediato,
mas aumenta o risco de um processo prolongado de desgaste, com ciclos de
repressão, insurgência difusa e radicalização. Dessa forma, a hipótese mais
plausível não é a de uma transição ordenada nem a de uma restauração monárquica
clássica, mas a de uma crise prolongada de autoridade, capaz de comprometer a
coesão do Estado iraniano e desestabilizar os equilíbrios regionais. Tal
cenário reforça a tese de que o Irã pode tornar-se mais um epicentro da crise
da Nova Ordem Internacional, na qual regimes colapsam ou sobrevivem de forma
disfuncional, enquanto o sistema internacional revela-se incapaz de administrar
transições, conter guerras internas ou evitar a disseminação do caos para além
das fronteiras nacionais.
Portanto, o discurso do príncipe Pahlevi é menos uma solução
e mais um indicador da magnitude da crise de sucessão política que se abre no
Irã. A revolução islâmica, como projeto geracional e ideológico, mostra sinais
de exaustão. No entanto, as instituições coercitivas que ela criou são robustas
e têm interesses vitais a defender. A hipótese de uma transição pacífica para
uma monarquia constitucional ou uma república democrática parece remota face à
história militar recente da região. O diagnóstico aponta para um longo inverno
de turbulência. A alternativa mais realista não está entre a república islâmica
e a monarquia, mas entre diferentes graus de desordem controlada e colapso
violento. O regime pode se manter, cada vez mais autoritário e menos
ideológico, em um estado de conflito latente com sua própria população. Ou pode
rachar, desencadeando uma luta pelo poder dentro do establishment que abriria
as portas para uma desintegração tipo líbia, porém em uma escala geopolítica
infinitamente mais perigosa. A comunidade internacional, fracturada e sem
consenso, mostra-se incapaz de gerir tais transições, como a história recente
prova. O mundo pode, mais uma vez, ser pego de surpresa por um terremoto
geopolítico no Irã, limitando-se a reagir aos destroços, em vez de moldar um
resultado estável. O regresso do Xá, como ideia, é um espelho das aspirações de
ruptura de muitos iranianos. Mas o espectro que verdadeiramente ronda o Irã e a
região é o do vazio de poder e da guerra multifacetada, heranças malditas das
transições traumáticas no Oriente Médio do século XXI.
A crise iraniana não se anuncia como revolução redentora nem como simples continuidade autoritária, mas como um interregno perigoso, no qual o velho perdeu sua legitimidade e o novo é incapaz de nascer. Nesses momentos, a história ensina, não triunfam projetos, mas forças. O retorno simbólico de um Pahlevi não é sinal de restauração, mas de esgotamento: quando o passado é convocado como futuro, é porque o presente entrou em colapso. O verdadeiro espectro que ronda o Irã não é o da monarquia nem o da república islâmica, mas o da dissolução do poder político como princípio ordenador. E quando o poder se fragmenta em sociedades armadas, a violência deixa de ser exceção e se converte em método. O Oriente Médio do século XXI já conhece bem esse roteiro, e o sistema internacional, mais uma vez, parece condenado a assistir à tragédia sem coro, sem catarse e sem saída.
Nos manuais de História da Moderna diplomacia europeia
podemos encontrar duas antigas lições sobre os modos de ordenamento das
relações interestatais. A primeira delas nos assegura que cada século é
dominado por um organismo político que se mostra dotado de poder e ímpeto
intelectual suficiente para moldar todo um sistema de acordo com seus próprios
valores, deixando-o à sua imagem e semelhança. Uma outra nos afiança que a
política de equilíbrio de poder, ao contrário do que muitos parecem
apressadamente crer, não seria a forma natural de relacionamento entre as
nações. Para a maior parte da humanidade e nos períodos mais longos da
História, o império tem sido a forma normal de governo.
A política de poder, costumeiramente, manifesta-se como um
concerto internacional de nações dotado de poderio militar quase equivalente,
resultando em um impasse. Havendo a impossibilidade de um dos membros tornar-se
forte o suficiente para impor-se sobre todos os demais, criando, desta forma,
um império, todas as pretensões agressivas de um dos componentes são refreadas
pela combinação dos demais sócios que podem unir-se formando coalizões. Durante
as guerras napoleônicas, a França pós-revolucionária viu-se frente a três ou
quatro combinações de Estados rivais que abandonaram momentaneamente suas
desavenças particulares para fazer frente a um inimigo considerado como a mais
grave de todas as ameaças. Prússia, Áustria e Rússia czarista e outras
potências menores, que tempos depois travariam guerras particulares entre si,
firmaram pactos de auxílio mútuo visando o equilíbrio de poder na Europa. A
carreira militar de Napoleão se fez na luta prolongada contra uma sucessão de
articulações entre as casas monárquicas do velho continente que desejam
vencê-lo a qualquer custo. A aura de genial condutor de tropas foi por ele
adquirida no desbaratamento sucessivo das coalizões inimigas uma após outra até
ser finalmente vencido pela última, a de 1815, que o conduziu ao exílio em um
promontório rochoso – a ilha de Santa Helena.
O que se anuncia no início do século XXI não é um retorno ao
equilíbrio de poder, mas a normalização da pilhagem geopolítica, na qual
Estados soberanos são tratados como ativos estratégicos, zonas de influência ou
simples obstáculos descartáveis. As três grandes potências militares da
atualidade, aquelas que emergiram como as vencedoras da Guerra Fria, Estados
Unidos, Rússia e China, embora distintos em história, ideologia e linguagem
diplomática, esses atores convergem num mesmo gesto estrutural: a recusa
prática do direito internacional quando este se torna inconveniente. Estamos
assistindo não a uma crise da ordem internacional, mas à sua substituição por
um regime de rapina legitimada. A atual conjuntura geopolítica mundial sugere a
preponderância relações internacionais conduzidas por atores e organismos
estatais inescrupulosos que se arvoram ao direito de tratar regiões ou mesmo
países inteiros como suas propriedades particulares: “ O hemisfério [ocidental]
é nosso”, proclama Donald Trump, ressuscitando, sem pudor, o velho vocabulário
da Doutrina Monroe.
A consequência mais imediata dessa mutação sistêmica é a
corrosão acelerada de todas as instâncias que, desde 1945, pretenderam regular
o uso da força e domesticar a violência interestatal. Organismos multilaterais,
tribunais internacionais e regimes jurídicos de contenção da guerra não são
formalmente abolidos; tornam-se, isto sim, decorativos, acionados seletivamente
como instrumentos retóricos ou descartados sem cerimônia quando se interpõem
aos desígnios das grandes potências. O direito internacional, outrora invocado
ao menos como horizonte normativo, ainda que frequentemente violado, passa a
ser tratado como um expediente contingente, subordinado a narrativas de
segurança, excepcionalismo histórico ou interesse vital. Nesse cenário, a lei
deixa de limitar o poder e passa a orbitá-lo, como uma linguagem acessória,
impotente diante da decisão soberana de quem dispõe da força.
Para os Estados médios e periféricos, particularmente aqueles
situados em regiões de valor estratégico, essa nova ordem não anuncia estabilidade
alguma, mas a reinstalação de uma política internacional pré-jurídica, na qual
soberania e integridade territorial tornam-se concessões revogáveis. A promessa
moderna de um sistema internacional regulado por normas comuns cede lugar a uma
geopolítica de espoliação aberta, em que territórios, populações e recursos
voltam a figurar como prêmios de disputa. Não se trata, portanto, de um mundo
que regressa ao equilíbrio de poder, mas de um que abdica deliberadamente dele
em favor da força desnuda. O que se desenha no horizonte não é uma nova ordem
mundial, mas um interregno brutal, no qual a paz deixa de ser um princípio
organizador e passa a existir apenas como pausa provisória entre atos
sucessivos de rapina legitimada.
Nota de rodapé: ao leitor interessado em aprofundar questões
aqui brevemente mencionadas aconselha-se a iniciar seu estudo a partir do
clássico e incontornável tratado de Henry Kissinger: A Diplomacia das
Grandes Potências. Há uma tradução antiga, publicada pela extinta
editora Francisco Alves; e outra mais recente da Editora Saraiva.
Os oceanos funcionam como corredores de tráfego que
interligam o comércio transnacional e os seus meios de projeção de poder a
longa distância. O mar é devasso, dizia o padre e cronista português seiscentista
Fernando de Oliveira. Ou seja, é uma rota de domínio público, que pode ser utilizada
indistintamente por grupos rivais entre si. Portanto, o controle sobre os mares
é peça fundamental para qualquer projeto de domínio imperialista. E essa
lógica, uma lógica antiga, estrutural e recorrente, ajuda a compreender o
renovado interesse das grandes potências pela Groenlândia, hoje convertida em
gargalo estratégico de um oceano ártico em aquecimento. É nessa lógica que, no
contexto geopolítico do século XXI o mar deixa de ser apenas devasso, um espaço
que não pertence a ninguém; ele passa a ser também militarizado, cartografado,
cercado e disputado.
É nesse novo contexto que o Ártico,
outrora percebido como mera periferia gelada do sistema internacional, vem
sendo rapidamente revalorizado como espaço central de disputa estratégica. O
aquecimento global, ao reduzir o gelo marinho, transforma a região em novo
corredor oceânico, encurtando rotas entre a Ásia, a Europa e a América do Norte,
ao mesmo tempo em que expõe vastas reservas de minerais críticos e
hidrocarbonetos. A Groenlândia, situada entre o Atlântico Norte e o Oceano Ártico,
ocupa posição privilegiada nesse tabuleiro emergente. Não surpreende, portanto,
que os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, tenham passado a
tratar a ilha não apenas como aliado distante, mas como ativo estratégico cujo
controle direto passou a ser publicamente cogitado.
A crescente centralidade do
Ártico expõe, contudo, um limite estrutural do direito internacional
contemporâneo. À medida que o degelo transforma a região em espaço navegável e
militarmente relevante, as normas que regulam a soberania, a circulação e a
exploração de recursos tendem a perder eficácia diante da lógica da segurança e
da projeção de poder. O Ártico passa a operar, assim, como uma zona de indeterminação
jurídica, na qual o controle efetivo precede o reconhecimento formal. É nesse
cenário que a Groenlândia adquire valor decisivo: mais do que território
sujeito a tratados, a ilha converte-se em plataforma estratégica. Ao admitir publicamente
a possibilidade de adquiri-la ou submetê-la a controle direto, o governo Donald
Trump sinalizou que, nesse novo espaço, a exceção começa a se impor como
regra.Mais do que uma excentricidade recente, a leitura da Groenlândia como “porta-aviões
insubmersível” inscreve-se numa lógica militar de longa duração, que remonta à Segunda Guerra
Mundial e se consolida ao longo da Guerra Fria. Sua posição geográfica permite tanto
a defesa antecipada do espaço aéreo norte-atlântico quanto a projeção ofensiva
a grandes distâncias, convertendo a ilha em plataforma estratégica permanente.
O que muda, no século XXI, não é a lógica militar em si, mas a disposição de
explicitá-la politicamente, mesmo à custa da erosão de normas jurídicas
consolidadas.
A disputa em torno da Groenlândia sugere, assim, algo mais profundo do que um episódio isolado ou uma extravagância retórica de ocasião. Ela revela o esgotamento progressivo da promessa liberal de que o direito internacional seria capaz de domesticar a geografia e neutralizar a lógica do poder. No Ártico em degelo, como em outras zonas estratégicas do sistema internacional, o espaço volta a impor suas determinações materiais, e a soberania reaparece não como norma compartilhada, mas como fato consumado. A Groenlândia, nesse sentido, não é apenas um território cobiçado, mas um sinal dos tempos: ali onde o gelo recua, avança também uma ordem internacional menos jurídica, mais crua e, talvez, mais próxima de suas origens trágicas.
Vencida a fase inicial de
circulação de informações fragmentárias e, em muitos casos, deliberadamente
imprecisas sobre a operação conduzida em território venezuelano, alguns
elementos tornam-se inequívocos à luz de uma análise estritamente militar. A
ação empreendida pelas forças armadas dos Estados Unidos não configurou uma invasão
convencional destinada a destruir, de forma sistemática, a capacidade militar
do adversário. Tratou-se, antes, de uma incursão de alta precisão (um raid clássico
de extração de alvo de alto valor) cujo objetivo tático central era a captura
de Nicolás Maduro e de sua esposa. O emprego de meios aéreos, amplamente
explorado nas imagens que circularam nas redes e na mídia internacional, não
teve como finalidade a aniquilação da força inimiga, mas a neutralização
seletiva de sistemas de defesa, postos de comando e frações capazes de
interferir na liberdade de ação da força de assalto. O efeito buscado não foi
estratégico no sentido clássico, mas operacional e imediato: desorganizar
temporariamente o dispositivo defensivo adversário para viabilizar a captura do
alvo designado. Assim, o raid americano na Venezuela tinha por objetivo
não a destruição do dispositivo militar adversário, mas a extração de um alvo
político de altíssimo valor, mediante uma ação breve, precisa e profundamente
dependente da surpresa.
A Operação Absolute Resolve (a
captura de Nicolás Maduro) evidencia o papel singular que unidades de forças
especiais de elite desempenham quando grandes potências empregam a força
militar não para dominar um teatro inteiro, mas para decapitar um centro de
poder adversário em um pacote mínimo de tempo e exposição. No centro dessa operação
esteve a cargo da Delta Force, cuja missão foi penetrar profundamente no
complexo fortificado de Fuerte Tiuna, superar a guarda presidencial venezuelana
e conduzir a detenção física de Nicolás Maduro e de sua esposa. Esse tipo de
ação, caracterizado por infiltração aérea rápida, precisão tática e engenharia
meticulosa de inteligência, distingue-se de operações convencionais pelo
emprego de treinamento intensivo, dados de inteligência de altíssima fidelidade
e coordenação com apoio aéreo e guerra eletrônica, que permitiram às equipes de
Delta reduzir o tempo de exposição no objetivo a poucas dezenas de minutos e sair
com sucesso mesmo diante de resistência adversária organizada. O êxito da ação,
que incluiu elementos de suppression of enemy air defenses e
neutralização de comunicações antes da inserção terrestre, ressalta como raids
de extração modernos dependem tanto da superioridade tecnológica e da integração
conjunta quanto da capacidade única de forçascomo o Delta Force de traduzir planos
audaciosos em resultados táticos concretos, um traço que revelou-se um
componente chave da projeção de poder das principais potências.
Considerada em perspectiva
histórica, a operação conduzida na Venezuela insere-se em uma linhagem bem
definida de ações de comando empregadas por grandes potências como instrumento
de projeção de poder seletiva, nas quais a vitória não se mede pela ocupação
territorial nem pela destruição maciça do inimigo, mas pela obtenção de um efeito
político-estratégico imediato. De Entebbe (resgate de reféns, em 1976), onde a
audácia compensou a distância e o isolamento operacional; passando por Neptune
Spear ( o assasinato de Osama Bin Laden), em que a paciência estratégica e
a supremacia da inteligência permitiram a eliminação de um alvo simbólico
global; até Gothic Serpent ( a fracassada ofensiva na Somália em 1993),
cujo desfecho revelou os limites e riscos inerentes a esse tipo de missão
quando o controle do ambiente tático se perde, observa-se um denominador comum:
o raid é sempre uma aposta calculada na surpresa, na velocidade e na
superioridade qualitativa das forças empregadas.
A Operação Absolute Resolve reafirma
essa lógica ao demonstrar que, mesmo em um cenário saturado de sensores, mídia
instantânea e reações diplomáticas em tempo real, unidades de elite como o Delta
Force continuam a oferecer às lideranças políticas uma opção militar
intermediária, mais incisiva que a dissuasão retórica, menos custosa que a
guerra aberta. Assim, o raid de extração permanece não como anomalia,
mas como ferramenta recorrente do arsenal estratégico das potências, eficaz
quando bem planejada, arriscada por definição, e profundamente reveladora da
forma contemporânea de fazer a guerra. O que se viu na Venezuela, de um ponto de
vista militar, foi uma demonstração de capacidade de poder seletivo.