Domingo, 30 de janeiro
do ano da graça de 2026, cidade de Salvador, antiga capital de uma possessão
colonial ultramarina. Como o integrante de uma coluna de prisioneiros de guerra
que marchava pelas ruas sendo exibido à população de uma cidade inimiga, você
caminha cabisbaixo e sombrio pelos corredores de um shopping center.
Você se deslocou até
aquela cidade por motivos de ordem laboral e sua presença ali, naquele centro
de compras, é mera imposição circunstancial; exausto, você se deixa cair
pesadamente em uma cadeira e tenta se recompor interiormente enquanto lança
olhares ao redor de si: há muito barulho, desordem, luzes de brilho intenso e
muitas pessoas - jovens e velhos - sentados ao redor de mesas quadradas e
redondas; e sobre elas você vê grandes quantidades de alimentos
industrializados, alimentos ultraprocessados, daqueles potencialmente capazes
de provocarem doenças do trato digestivo em médio prazo. Eles chamam aquele
lugar de praça de alimentação.
Todas as mesas estão
ocupadas e todos os ocupantes comem alegremente.Você olha e se pergunta: porque
tanta gente rindo sob aquelas luzes de lâmpadas potentes? porque tanta gente
rindo enquanto ingere venenos de efeito retaardado? porque tanta alegria? Será
que eles estão comemorando a coroação do Kaiser Guilherme II? Com atraso você
se recorda que o Kaiser foi deposto após os acontecimentos de novembro de 1914
e que se ele se exilou na Dinamarca. Toda essa algazarra, esses sons
desarmoniosos, essa discordante melodia de vozes fere seus ouvidos. Você se ergue com dificuldade,
o peso da angústia dificulta seus movimentos de homem velho, e se afasta dali
com passos lentos. Você percorre os corredores tão amplamente iluminados que
ferem sua sensibilidade ocular.
Os ruídos estão por
toda parte; para onde quer que você olhe há sons discordantes e multidões
caminhando e rindo enquanto levam pacotes nas mãos. Custosamente você consegue
chegar à saída, mas lá fora o quadro é ainda mais desolador: uma multidão se
espreme em um passeio à espera de veículos de transporte de passageiros; ali é
uma espécie de ponto de espera de carros de transporte por aplicativos. Você se
sente como um soldado em um campo de prisioneiros de guerra cercado por arames
farpados; ou como se todos ali - inclusive você - estivessem na outra margem do
rio aguardando a barca de Caronte. Seu veículo chega; você embarca nele para
longe dali; mas antes você lança para a multidão que se espreme naquele passeio
e você se recorda do discurso de Caronte, em um dos cantos de A Divina
Comédia: “Ai de vós, almas malditas. A luz do sol novamente jamais vereis”.
O veículo começa a se
mover lentamente, vencendo com dificuldade o emaranhado humano que se comprime
no passeio. Pela janela, você observa os rostos iluminados pelos celulares,
pela expectativa da corrida aceita, pela ansiedade difusa de quem espera ser
chamado. Ninguém parece perceber ninguém. Não há hostilidade, tampouco
fraternidade. Apenas coexistência.
À medida que o carro
se afasta, o ruído vai diminuindo, como se alguém girasse lentamente o botão de
um rádio mal sintonizado. Ainda assim, os sons permanecem dentro de você,
martelando os tímpanos com ecos tardios. A luz artificial do shopping, mesmo
distante, continua a ferir seus olhos por dentro. Você pisca várias vezes, como
quem tenta se readaptar à penumbra depois de um bombardeio noturno.
É então que lhe
ocorre, com um atraso incômodo, que talvez a metáfora do campo de prisioneiros
não seja inteiramente justa. Ou talvez seja, mas não da forma que você
imaginara. Você não está cercado por inimigos. Está cercado por sobreviventes.
Cada um ali, rindo sob lâmpadas agressivas e ingerindo alimentos de procedência
duvidosa, talvez esteja apenas tentando preencher o vazio de um domingo
qualquer, de uma vida qualquer, em uma época que já não promete sentido algum.
A praça de alimentação
lhe retorna à mente não mais como inferno, mas como trincheira. Um espaço de
ruído constante, excesso visual, luz artificial e comida ultraprocessada, sim,
mas também um lugar onde homens e mulheres descansam as armas invisíveis com as
quais enfrentam seus próprios dias. Não celebram imperadores depostos nem
vitórias militares. Celebram intervalos.
Você se pergunta,
então, se o prisioneiro de guerra é realmente aquele que caminha cabisbaixo
entre vitrines e mesas engorduradas, ou se é aquele que observa tudo isso
incapaz de participar, aprisionado em sua lucidez amarga, em sua memória
histórica, em sua recusa íntima de aceitar o mundo como ele se apresenta.
Talvez, pensa você,
não haja barca alguma esperando na outra margem. Talvez Caronte esteja
desempregado há séculos, esquecido em algum canto da mitologia, enquanto os
vivos inventam seus próprios infernos, e
também suas próprias formas precárias de atravessá-los.
Você fecha os olhos
por um instante, sabendo que isso não é descanso, mas contenção. O prisioneiro
não sonha com fuga nem com resgate. Aprende a existir dentro dos limites
impostos, a carregar consigo o mapa do mundo que perdeu e a avançar sem
esperança, porque até a esperança pode ser uma forma sutil de capitulação.