Data de 26 anos atrás a Lei Federal 10.098, que estabelece
normas gerais e critérios básicos para promover a acessibilidade de pessoas com
deficiência ou mobilidade reduzida. A legislação exige, por exemplo, que vias
públicas, parques e calçadas sejam projetados para garantir o trânsito seguro
de todos. Em edifícios (públicos ou privados de uso coletivo), impõe rotas
acessíveis, rampas, corrimãos e sanitários adaptados.
O conceito e a concepção de produtos, ambientes e serviços
deve ser pensado para uso sem necessidade de adaptação posterior. Os
sistemas de transporte coletivo e a frota de veículos precisam ser acessíveis,
incluindo adaptação de embarque e desembarque. Prevê também mecanismos de
comunicação acessíveis, que permitam às pessoas com deficiência usufruir de
serviços de radiodifusão, televisão e tecnologia da informação. Os municípios
brasileiros já deveriam estar totalmente adaptados a essas regras.
Feira de Santana possui aproximadamente 41 habitantes
com algum tipo de deficiência, segundo dados do IBGE. Estima-se que existam
cerca de 7.700 a 7.900 pessoas com limitações visuais severas, ou cegueira,
nesta cidade. Aqui, houve avanços, ao longo dessas duas décadas e meia. Mas
alguns problemas requerem a atenção do poder público. Esta semana, o excelente
repórter Paulo José, consagrado profissional do rádio, que faz brilhante
trabalho no programa Acorda Cidade, ouviu várias pessoas com deficiência
visual, sobre o tema. Foram diversas as reclamações de obstáculos enfrentados
para se locomoverem nesta cidade.
A movimentada avenida Presidente Dutra, por exemplo, não é
provida de piso tátil em uma área que abriga vários órgãos públicos, segundo um
dos entrevistados, David Júnior. "Se tiver um pedacinho (de piso tátil), é
lá em frente ao Colégio Gastão. Buscamos uma linha-guia, um pé de muro, um
meio-fio para a gente se locomover. O poder público poderia fazer por nós para
a gente ter uma melhor qualidade”, disse ele ao radialista.
Tendo perdido a visão há pouco mais de três anos, o conhecido
músico feirense Nunes Natureza relatou que os passeios são difíceis de andar:
"Às vezes tem carros que ficam estacionados, buraco e até corrente”.
À reportagem, um outro entrevistado, José Osmar
Carvalho informou que ofício elaborado pelo Movimento Feira Inclusiva teria
sido entregue às secretarias de Mobilidade Urbana (Semob) e Desenvolvimento
Urbano (Sedur), solicitando melhorias de acessibilidade para os deficientes
visuais:
Instalação e padronização de piso tátil; implantação de
semáforos sonoros; adequação das calçadas para eliminar obstáculos; ajuste da
posição de placas e mobiliário urbano; maior fiscalização do cumprimento das
normas de acessibilidade.
"Fizeram o Projeto Centro mas não pensaram no
deficiente”, ele lamenta, ao mencionar "piso tátil mal feito, colado nas
paredes das lojas, barraqueiro que instala seu equipamento sobre o piso
especial, buracos que criam poça d'água quando chove". Falta, segundo
argumenta, um trabalho para educar as pessoas "a saber respeitar um piso
tátil”. Disse que conversou com o prefeito Zé Ronaldo, sobre os
problemas.
O Acorda Cidade ouviu órgãos municipais, mas as respostas foram pouco objetivas. A pasta de Mobilidade informou que a lei municipal proibindo que motorista de ônibus atue também como cobrador está "em análise" no Tribunal de Justiça da Bahia. Garantiu "inspeções regulares nas garagens das empresas do transporte coletivo para verificar as condições de funcionamento dos elevadores de acessibilidade dos ônibus". Por sua vez, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano disse não ter recebido ofício do Movimento Feira Inclusiva.
Não resta dúvida de que Feira de Santana tem sérias e
múltiplas dificuldades, no que diz respeito à mobilidade de seus cidadãos
deficientes, não apenas os visuais, mas também os que possuem outras
limitações. É preciso que o Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência
(CMPCD) assuma a dianteira das reivindicações, se aproxime da Câmara de
Vereadores e busque contato com o Poder Executivo.
O prefeito Zé Ronaldo é um gestor sensível a este segmento da população, tem boa vontade para discutir as carências existentes e possíveis soluções. A cidade deve se desenvolver de maneira sustentável, buscando eliminar barreiras para a inclusão.
Em julho do ano passado, a Polícia Federal deflagrou uma operação, com mandados de busca e apreensão, na Prefeitura de Serra Preta, município localizado na região de Feira de Santana e que guarda uma curiosidade: um dos seus distritos, o Bravo, é maior que a sede. Denominada "Bandeira Livre", a ação teve como foco fraudes envolvendo concessão irregular de autorizações para vaga de táxi. Servidores públicos são suspeitos de operar o esquema. A PF também fez "visitas" às residências deste pessoal, à caça de provas.
Até aqui, não se sabe quem foi denunciado à Justiça, os prejuízos tributários e outras repercussões da operação junto ao Ministério Público e à própria Polícia Federal. À época, a gestão municipal, sob o comando do prefeito Franklin Leite, emitiu uma nota dizendo que colaboraria com as investigações. A PF informou naquele momento que, em Serra Preta, alvarás de taxistas eram concedidos a quem não atuava na profissão.
Os contemplados conseguiam isenção de tributos federais e estaduais na compra de carros novos - Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto sobre Propriedades de Veículos Automotores (IPVA) e Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS). O sujeito tem um desconto de até 30% na concessionária ao usar o registro de taxista. Um negócio e tanto.
Trago este tema à coluna, embora sem informações atualizadas deste processo, para chamar a atenção das autoridades a alguns detalhes. A Polícia Federal disse que, em 2023, a prefeitura de Serra Preta possuía 100 permissões de táxi ativas. Apurou que a maioria de seus responsáveis não exercia a atividade e ainda tinha vínculos empregatícios em outras áreas. O município, com aproximadamente 18 mil habitantes, deveria contar com cerca de 18 táxis, uma vez que a média nacional é de um taxista para cada mil moradores.
O bom portal do jornalista Jair Onofre, Bahia na Política, divulga hoje que o prefeito de Serra Preta assinou decreto, no final de abril, determinando o cancelamento de nada menos que 325 autorizações de "veículos de aluguel destinados ao serviço de transporte individual de passageiros, incluindo a modalidade táxi no município".
Os permissionários foram convocados por meio de edital para recadastramento e vistoria no prazo de 14 de julho e 15 de agosto de 2025 e o expressivo número não atendeu ao chamado. Observe-se que, naquela estimativa, lá da época da investigação pela PF, seriam 100 táxis cadastrados. Agora, somente considerando os registros cancelados, são 325 permissões gerais envolvendo o transporte individual de passageiros, no que se inclui este serviço.
Recentemente, o Governo Federal lançou o "Move Brasil Táxi e Aplicativos". O programa disponibiliza até R$ 30 bilhões, em crédito, para financiar a compra de carros novos com taxas de juros reduzidas (abaixo do mercado), carência de até seis meses para pagar a primeira parcela e prazo de até 72 meses para quitação.
Com tanto dinheiro em jogo, é bem provável que prefeitos inescrupulosos abram a cancela para a boiada passar, ou seja, legalize inscrições de falsos taxistas, certamente seus cabos eleitorais e apaniguados, para que estes possam gozar dos privilégios concedidos com recursos do contribuinte.
Somos nós, os cidadãos, que bancamos estes benefícios. Nada mais justo que as gestões municipais tenham um mínimo de vergonha e evitem entregar essas isenções por meio de fraudes tão simples de serem detectadas.
A pequena e simpática Serra Preta foi apenas uma amostragem, ponta do iceberg. O problema ali verificado acontece em dezenas de outras cidades da Bahia. Quanto menor a praça, mais propícia é para a fraude, pela ausência de órgãos fiscalizadores. A prática precisa e deve ser combatida em outros lugares.
Se os prefeitos quiserem, sem muito esforço, administrativamente mesmo, podem impedir o desvio dos recursos. Acossado pela Polícia Federal, o que fez o chefe do Executivo de Serra Preta? Convocou vistoria e recadastramento. Detectou na hora o assustador, impressionante, absurdo número de mais de 300 permissões de transporte individual de passageiros sob suspeita, visto que os seus responsáveis não comapreceram. Foram cassadas - antes tarde do que nunca.
Sabemos que, especialmente a elite no Sudeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil, critica de forma áspera a concessão do Bolsa Família pela União. Embora também contemple as populações dessas regiões mais abastadas financeiramente, o programa, principal política pública governamental no combate à pobreza, atende em maior número a nordestinos e nortistas.
Paulistas, cariocas, mineiros, paranaenses, catarinenses, gaúchos, goianos, etc, entendem o auxílio como algo pernicioso, que vicia o cidadão à preguiça, induzindo-o a evitar o emprego formal, para não perder 680 reais, em média, que recebe mensalmente do Governo. Aqui também, no Nordeste, segmentos economicamente mais favorecidos corroboram com este pensamento e torcem para acabar o benefício.
O apresentador da TV Globo, Luciano Huck, que já ensaiou ingressar na política, nos últimos dias causou polêmica ao afirmar, durante um fórum, em São Paulo, que Bolsa Família desestimula população pobre a procurar emprego: "O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que as famílias queiram sair do Bolsa Família. Na verdade, elas criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda e proteção social ad aeternum [eternamente]".
O entendimento de Huck, no entanto, não está ancorado em estudo algum. Pelo menos, ele não apresentou nenhuma fundamentação. Sua opinião foi contestada tecnicamente, logo em seguida, por análises de órgãos especializados. Em reportagem publicada no portal UOL, a opinião do apresentador é contrariada pelos dados levantados por diversos órgãos.
FGV: TRANSFERÊNCIAS DE RENDA NÃO DESESTIMULAM O TRABALHO
Estudos da Fundação Getúlio Vargas em parceria com as universidades norte-americanas de Stanford e Columbia, publicado no início deste mês, revelam que cerca de 61% dos beneficiários de 2014 deixaram o programa, até 2025, saídas observadas principalmente nas faixas entre 15 e 17 anos (71,2%), e entre 11 e 14 anos (60,8%).
Mais da metade deixou o programa nos últimos 10 anos. O Bolsa Família teria elevado a ocupação em quase 5%, aumentando produtividade e oferta de trabalho. "Nossas conclusões desafiam a visão canônica de que as transferências de renda desestimulam o trabalho", afirma a FGV.
BANCO MUNDIAL: BENEFICIÁRIOS TEM MAIOR PARTICIPAÇÃO NO MERCADO
De acordo com o UOL, outro estudo reforça que beneficiários não ficam permanentemente no programa. O Banco Mundial acompanhou famílias entre 2012 e 2019 e concluiu que 23% se mantiveram menos de três anos recebendo o auxílio, enquanto 40% ficaram mais de sete anos.
Apontou também maior participação no mercado entre os assistidos - adultos com 70% de chance de estar na força de trabalho e 57% de probabilidade de estarem empregados, superando os não beneficiários.
O Banco Mundial classificou benefício como "uma das políticas sociais mais eficientes do mundo, consumindo cerca de 0,5% do PIB e reduzindo a pobreza extrema no Brasil em 28% (em 2017).
IPEA: DESEMPREGO CAIU ENTRE OS MAIS POBRES
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) observa que o desemprego caiu entre mais pobres. A taxa recuou 4,3 pontos percentuais entre os 20% mais pobres da população entre 2019 e 2023. Nesse grupo, a renda real do trabalho cresceu, em média, 9,5% ao ano — alta acumulada de 43,6% em quatro anos.
O órgão relaciona isso ao crescimento do emprego formal e da renda entre beneficiários do Bolsa Família: "Ajuda a reduzir subemprego. O benefício médio de R$ 680 dá às famílias margem para recusar vagas extremamente precárias e buscar empregos melhores".
FMI: BOLSA FAMÍLIA NÃO REDUZ PARTICIPAÇÃO DA MULHER NA FORÇA DE TRABALHO
Em estudo publicado em fevereiro deste ano, o FMI chegou à conclusão de que a transferência de renda para as mulheres ajuda-as a custear transporte e educação dos filhos, facilitando-lhes a busca por emprego. A propósito, mulheres chefiam 84% das famílias atendidas pelo programa. "O Bolsa Família parece não reduzir sistematicamente a participação delas na força de trabalho, exceto entre mulheres com crianças de até 6 anos", afirma o relatório.
O UOL traz dados do Ministério do Desenvolvimento Social segundo os quais 2,06 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família entre janeiro e outubro do ano passado, enquanto 1,31 milhão saíram do programa após ultrapassarem limite de renda exigido e 24,7 mil solicitaram desligamento voluntário. Entre os principais motivos, conquista de emprego formal, aumento salarial e abertura de pequenos negócios.
PROGRAMA REDUZ MORTES E INTERNAÇÕES
Os estudos divulgados ainda apontam "impacto positivo na saúde pública". Relatório da Fiocruz, publicado no ano passado na revista científica The Lancet Public Health, aponta que o Bolsa Família teria evitado 8,2 milhões de internações e 713 mil mortes entre 2004 e 2019, queda de 31% nas hospitalizações e de 25% na mortalidade.
PROGRAMA IMPULSIONA EDUCAÇÃO E FAZ PAÍS ATINGIR SEU MAIOR IDH
E nesta terça-feira, a imprensa nacional divulgou estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) que indicam o Bolsa Família fez o Brasil atingir o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da história, crescendo de 0,744, em 2012, para 0,805 entre 2021 e 2024. A escala de pontuação vai de 0 a 1.
A exigência de matrícula e frequência escolar para que os pais tenham direito ao benefício impulsionou o avanço na educação, o indicador que mais influencia neste crescimento.
NÚMEROS NÃO DEIXAM DÚVIDAS SOBRE RELEVÂNCIA DO BENEFÍCIO
O Bolsa Família fortalece, inegavelmente, a quem está no poder, colocando-o em vantagem perante adversários menos esclarecidos diante das urnas. Esta ideia é tão forte que candidato teme, como o diabo à cruz, ter seu nome associado à proposta de acabar o auxílio.
É improvável que um postulante ao cargo de presidente da República defenda um dia o fim do benefício. Pelo contrário: a cada eleição os presidenciáveis prometem manter o programa e até meios de ampliá-lo.
Todavia, em um país de tamanhas desigualdades, onde a pobreza extrema alcança índices bem maiores que os apresentados na propaganda governamental, o programa, mantido com sacrifício pelo contribuinte - e não por político algum - surge como algo capaz de atenuar a fome, de sustentar a esperança daqueles que realmente desejam continuar lutando para sair da dependência do programa assistencial e poder viver de seus próprios esforços.
Há gente preguiçosa, sim, desviando a finalidade dos recursos que recebe, mas isto não pode diminuir a importância do benefício, algo que os estudos parecem não deixar dúvidas. Todos estes números aqui apresentados não apenas desmentem Luciano Huck, mas transmitem a sensação de que o programa, de fato, tem relevância.
Envolvidos no maior escândalo de que se tem notícia no Estado, neste segmento, os dois cartórios especializados em registro de imóveis, 1º e 2º Ofícios, em Feira de Santana, continuam sob intervenção, pelo Tribunal de Justiça da Bahia. A Operação Sinete, realizada pela Polícia Civil, revelou a manipulação de documentos e certidões para apropriação ilegal de propriedades e resultou na prisão do empresário do ramo imobiliário e construção civil, ex-presidente da Câmara Municipal, Oyama de Figueiredo, dentre outras pessoas.
Três responsáveis pelos cartórios, denominados delegatários, foram alvo de medidas judiciais, incluindo monitoramento por tornozeleira eletrônica e proibição de acesso aos seus locais de trabalho. O Ministério Público da Bahia dividiu a organização criminosa nos núcleos empresarial, cartorário e armado. Os cartórios eram responsáveis por legalizar as fraudes através de falsificação de registros públicos, adulteração de matrículas e retificações irregulares de áreas. Uma bandalheira.
A 2ª Vara Criminal e a Corregedoria do TJB mantém em segredo de justiça este processo, o que impede a identificação de cada servidor e servidora envolvidos. Sabe-se que os cartórios sofreram, além do afastamento de delegatários das funções públicas, correição extraordinária (fiscalizações profundas coordenadas pelo Judiciário). Uma das serventias extrajudiciais recebeu pena máxima de perda de delegação.
O cancelamento de matrículas e registros imobiliários adulterados é a esperança de quem sonha em reaver as propriedades que lhes foram usurpadas. A fraude envolve muitos milhões de reais, enriquecimento ilícito de alguns e danos econômicos severos para as pessoas que perderam ilegalmente suas posses.
A Câmara de Feira de Santana - triste coincidência, o principal envolvido no golpe é um ex-vereador - promoveu dias atrás uma audiência pública para "debater e buscar soluções para os graves problemas cartorários que vêm prejudicando diretamente os pequenos construtores e despachantes no Município. A ideia foi do vereador Jorge Oliveira (PRD). Uma das propostas apresentadas no evento é a formação de uma comissão para "discutir a fundo o assunto".
O autor do requerimento pedindo a realização do encontro no Legislativo disse que lojas de material de construção estão sendo afetadas, até mesmo fechando as portas, enquanto obras se encontram paralisadas, pela falta de documentação que deve ser emitida por parte dos cartórios. O problema, ele diz, impacta na economia da cidade.
PROBLEMAS EXISTEM HÁ DÉCADAS, DIZ INTERVENTOR
À frente do cartório do 1º Ofício de Registro de Imóveis e Hipotecas de Feira de Santana há pouco mais de cinco meses, o interventor do órgão, Marcelo Bertucci, disse na audiência pública ter identificado que "os problemas a serem resolvidos existem há décadas, a exemplo dos imóveis clandestinos”. Ele comemorou que a região da Lagoa Grande, que engloba os bairros Ponto Central, Caseb, Parque Getúlio Vargas e Santo Antônio dos Prazeres, será contemplada com programas de regularização fundiária, a titulação de posse. A medida ocorrerá até o fim do mês e está sendo organizada pela Prefeitura.
Interventora do 2º Ofício, Andrea Pignatti considera que Feira de Santana vive uma situação desconfortável: “Como registradores de imóveis que somos, saber que os cartórios, que tem função social, estão envolvidos em uma situação dessa magnitude, é muito complicado”. Ela observou que há "problemas recorrentes" a exemplo da retificação de área e da ausência de emissão de uma certidão de limites, atestando que os imóveis se confrontam entre si. Outra questão a ser tratada, acrescentou, é a existência de propriedades localizadas em condomínios de lotes, cujas casas foram ampliadas e, por esse motivo, não se consegue a averbação da construção.
OAB DEFENDE UNIFICAÇÃO
A Ordem dos Advogados do Brasil também está interessada em uma solução para a crise dos cartórios em Feira de Santana. O secretário geral da instituição, Fabiano Vilas Boas, informou que reuniões estão sendo realizadas e o objetivo é "dialogar" com todas as partes envolvidas. Defendeu a "unificação dos atendimentos cartorários" e anunciou a disposição de levar a discussão ao Tribunal de Justiça, que controla essas organizações.
CERTIDÃO DE LIMITES
O diretor do Diretor do Departamento de Administração Tributária (DAT) da Fazenda Municipal, Luiz Carlos Matos, disse que a Secretaria fazia a emissão de certidões de limites, embora não houvesse, de forma expressa, essa determinação, na lei federal nº 6.105/1973, de registros públicos. Ele lamentou que a Sefaz não esteja mais cuidando dessa demanda. "Tivemos que parar muitos lançamentos tributários e a arrecadação do Município caiu". Atualmente a emissão deste tipo de certidão é responsabilidade de outra pasta, a de Desenvolvimento Urbano.
"Flávio é ingênuo demais para ser presidente", escreveu ontem, com poderosa dose de ironia, em sua coluna neste portal, o excelente jornalista e economista André Pomponet – não estranhe o sobrenome. É assim mesmo, e não, "Pamponet", de origem francesa, mais comum no Brasil. Hoje, muito provavelmente em contraponto, o igualmente experiente e grande articulista e jornalista Batista Cruz, registrou, aqui: "Brasília é a terra dos ingênuos porque todos recebem dinheiro e são gravados".
André é um prestigiado colunista permanente deste site,
escreve, três vezes por semana, sobre os mais variados temas. Gosta muito dos
dados estatísticos, extraídos das pesquisas e tem feito um bom retrato social
"da Feira de Santana". Trata também, e com a mesma eficiência, das
questões políticas latentes, como esta mais recente, envolvendo o banqueiro
Daniel Vorcaro, preso por aplicar golpe bilionário no país.
O colunista disse com outras palavras que Flávio Bolsonaro
está desclassificado, ou desqualificado, como queiram, para ser presidente do
Brasil, depois do escândalo em que se envolveu. Ele, realmente, decidiu ir
comer farelos no mesmo prato de Daniel Vorcaro, sob o singelo pretexto de que
nada mais se tratou de "um filho que buscava patrocínio para o filme do
pai".
Batista também é da casa, um dos fundadores do jornal Tribuna
Feirense, 26 anos atrás. O irmão do saudoso jornalista e professor Anchieta
Nery não escreve ainda com a regularidade que desejamos, neste veículo onde ele
não é, obviamente, visto como um convidado, por toda sua história entre nós.
Promete, e vamos cobrar, aparecer mais vezes, com a sua caneta inteligente e
afiada.
Ele diz, em seu artigo, que a esquerda também estaria fazendo
parte deste "banquete de Thyestes" e relembra escândalos outros, como
o do INSS, descontos indevidos dos aposentados, Petrolão e Mensalão, nos quais
as digitais da esquerda, incluindo do presidente Lula, estariam indelevelmente
registradas.
De algum modo, ele deseja minimizar as responsabilidades de
Flávio neste imbróglio, uma missão absolutamente inglória. Acerta, porém, no
cerne: de fato, o senador não é o único "ingênuo demais" para ser
presidente, em Brasília, um lugar cheio de gente direita, de esquerda e de
centro a fazer inveja a Keyzer Söse.
A Tribuna tem história de valorização da pluralidade
opinativa e assim deveria ser exercido o jornalismo em todo lugar. Parece ser a
maneira mais ética e justa de oferecer ao leitor a diversidade de ideias e de
análises, para ajudá-lo a melhor formar o seu entendimento sobre os fatos, partindo
do pressuposto de que todos temos o direito de interpretar e de divergir.
Ninguém é senhor da verdade.
O "efeito Master", guardadas as devidas proporções,
o caso "Lehman Brothers" brasileiro, parece mesmo ter seus tentáculos por toda parte. Por enquanto,
não há sossego, na direita, esquerda ou centro da política brasileira, nem em
qualquer dos poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário. Evidentemente,
alguns estão sendo atingidos com maior força e o senador Flávio Bolsonaro é
quem mais corre perigo, neste momento.
As gravações que foram reveladas, expondo conversas nada
insuspeitas entre o filho do ex-presidente e o banqueiro, são mesmo uma bomba
de alto teor explosivo, em torno da captação de receita para bancar ou
patrocinar o tal filme bibliográfico de Bolsonaro pai. Está tudo muito confuso,
pro lado do senador.
Começou errado ao pedir, ou aceitar, oferta do sujeito,
possivelmente ignorando – ou deixando de obter – as necessárias referências no
mercado. Depois foi pilhado em outro "ato falho", negando, quando um
jornalista lhe perguntou, que houvesse recebido dinheiro do Master.
Patrocínio secreto, sigiloso, para filme, principalmente para
biografar uma personalidade política, é algo simplesmente terrível. Orçar os
custos em um valor duas vezes maior que o comum, no mercado cinematográfico
nacional, é mais uma pérola. A empresa responsável pela produção afirmar que
não recebeu um centavo sequer dos primeiros R$ 60 milhões liberados... minha
nossa, que péssimo! A grana estar sendo
administrada por um fundo no Texas, Estados Unidos, "controlado por
aliados de Bolsonaro", outra piada de mau gosto.
E, para alimentar ainda mais as chamas deste incêndio, pro
seu lado, o senador visitou o Daniel Vorcaro depois de preso, sob liberdade
condicional e com tornozeleira eletrônica. Ora, alguém nestas condições a gente
visita quando se trata de familiar, ou olhe lá, amigo de longas datas. Fora
disso, é submeter-se a riscos de imagem que filme algum pode justificar.
O envolvimento mais ruidoso com o banqueiro, até aqui, é
"privilégio" de Flávio e de seu colega senador, e aliado, Ciro
Nogueira (PP-PI), o "destinatário central" de vantagens indevidas.
Estes dois tentam escapar das magmas do Vesúvio brasileiro, mas "não está
sendo fácil", como na canção romântica escrita por Roberto Carlos e
lindamente interpretada por Kátia, em meados da década de 80.
Isto não significa que a esquerda esteja completamente à
margem da encrenca, seja em Brasília ou na Bahia. O caso parece longe de
terminar e uma delação premiada, que se cogita, pode acrescentar ingredientes
inesperados, contra e a favor de figurões. Neste estado, aliás, há três
personagens muito conhecidos e frequentemente mencionados no noticiário sob ligações
suspeitas, diretamente ou não, com Vorcaro.
Na esquerda, o ex-governador e atual ministro de Lula, Rui
Costa; e o ex-governador, atual senador e líder do governo petista na Casa,
Jaques Wagner. Na direita baiana, o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. Quem
está acompanhando o caso, sabe do que estou falando e, para não alongar o texto,
não vou entrar em detalhes.
A direita vem sendo alvejada, competentemente, pelo Intercept
Brasil, um órgão de comunicação progressista, de linha editorial aparentemente
contrária a pautas conservadoras. Foi este veículo que descobriu as ligações
perigosas de Flávio com o Master. Nenhuma queixa contra o veículo, é bom que se
diga.
"Não quer que seja divulgado, não deixe que o fato
aconteça", aconselhou, por décadas, Edval Souza, lendário radialista de
grande sucesso em Feira de Santana. Bom seria, para o melhor esclarecimento do
eleitor, que a esquerda também fosse "premiada" com o pente fino e o
poder investigativo de um Intercept Brasil politicamente às avessas.