Flávio Bolsonaro, coitado, deu mais uma demonstração de ingenuidade. Serviu de laranja para Donald Trump anunciar que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) serão considerados pelo governo norte-americano grupos terroristas. A medida é um pretexto para os Estados Unidos realizarem operações militares no Brasil, caso lhes seja conveniente, além de aplicar um amplo leque de sanções a empresas brasileiras e ao sistema financeiro. Intrépido patriota, o senador vai ficar decepcionado quando perceber o tiro no próprio pé.
Há tempos os acólitos de Jair Bolsonaro, o “mito”, reivindicavam a medida. Houve, inclusive, ampla comemoração quando foi anunciada. Exatamente como ocorreu quando Donald Trump decretou o “tarifaço” que penalizou as empresas brasileiras. Foi preciso muita negociação para reverter parte da taxação. Apesar da ruidosa comemoração da claque patriótica, houve prejuízos e demissões. No Brasil, diga-se.
As facções criminosas – CV e PCC – são nocivas e devem ser combatidas com o rigor da lei. Ninguém em sã consciência defende o contrário. São criminosas, mas não terroristas, é bom atentar para a distinção, especificada em lei no Brasil. Trump alega terrorismo justamente para dispor de ampla margem de manobra para intervir em assuntos brasileiros. No fundo, sua finalidade nem é combater CV e PCC, mas usá-los como pretexto.
O apoio da claque do “mito” veio bem a calhar a Trump. Isso o respalda, porque significa que muita gente no país – boa parte mentecaptos, vá lá – concorda com a interferência. Os patriotas que pelejaram pela medida, aliás, sequer estão preocupados com CV e PCC. Estiveram no poder e nunca os combateram efetivamente. Querem, no fundo, um cenário de terra arrasada que lhes permita voltar ao poder, inclusive com a força, se as urnas não os ajudarem.
Engraçado é que arreganham os dentes para o CV e o PCC, mas mantém um silêncio muito suspeito sobre uma chaga da mesma dimensão na segurança pública: as milícias que se alastram feito epidemia pelo Brasil todo. Por que será, hein? O que é que explica as milícias fora do discurso do combate ao crime organizado? O silêncio ressoa com ensurdecedora eloquência.
Talvez o ingênuo Flávio Bolsonaro e os acólitos do “mito” não saibam, mas a decretação do PCC e do CV como grupos terroristas produz efeitos amplos, que vão muito além das eventuais chacinas nas favelas. Caso tenham juízo, ouvirão especialistas, porque os impactos alcançam inclusive a economia. Mas imagino que, na lá na frente, atribuirão tudo ao petê, esquecendo as celebrações esfuziantes que fizeram...
Eram seis, numa praça de alimentação de shopping. Gente de firma. Na mesa, diante deles, os pratos vazios das refeições recém-terminadas. Guardanapos sujos de papel, talheres engordurados. Um ou outro suspirava, denotando saciedade. Mas ninguém lançava aquele olhar preguiçoso para o vazio, de quem relaxa após o almoço. Não: mantinham-se tesos, olhos atentos, cotovelos sobre a mesa, dedos deslizando agilmente sobre a tela do celular.
Em volta, não havia muita diferença: um, displicente, palito
na boca, rola enfastiado o feed de rede social; um casal, pratos vazios,
distraía-se, silencioso, defronte às telas; mais adiante, um sujeito agitado
fisgava a macarronada com grandes garfadas e lançava-a na boca, sem hesitar, o
olho vidrado examinando a tela, dedos correndo, nervosos, pelo celular.
Paletó azul-marinho, camisa branca e gravata vermelha: uma
personagem jurídica, cabelos bastos desalinhados, gravava mensagens pelo
aplicativo, os olhos distraídos percorrendo os restaurantes, os corredores,
vasculhando o shopping iluminado sem se fixar em nada. Falava de dinheiro, de
contratos, de compra-e-venda.
Ali perto, crianças desafiavam aquela sisudez, divertindo-se
com um jogo qualquer no celular, uma musiquinha irritante repetindo-se ad
nauseam. Cinco ou seis anos? Por aí. Próximo, um chegava à segunda década
de vida, entretido num jogo eletrônico qualquer, jeito sério de menino adulto,
o celular entre as mãos respeitosas.
No caixa de um iluminado self service, a moça
paramentada, de avental preto, discretamente examinava a tela do celular;
quando um cliente entregava a comanda e o cartão, ela efetuava a transação, de
soslaio observando o celular, aguardando sabe Deus que mensagem, que novidade.
Às vezes, débito e crédito traíam-na, e vice-versa.
Pé apoiado no carrinho da limpeza, farda verde de empresa
terceirizada, o sujeito absorvia-se com uns vídeos, um locutor de voz vítrea
anunciando desgraças e calamidades em tom de urgência, da mesma urgência das
desgraças e calamidades da semana passada, do mês passado, do ano passado.
Andando, fazia-se necessário desviar. Passantes gravando
áudios, passantes assistindo vídeos, passantes digitando, passantes ouvindo
áudios, passantes gravando vídeos, passantes aguardando com angústia mensagens
que se retardavam longos segundos. Todo mundo avançava, ameaçando colisões,
cotoveladas, pontapés involuntários, chutes nos calcanhares.
Mais à frente, num café – surpresa! – um sujeito bicava um
expresso, olhos atentos a um livro pequeno, que os dedos manuseavam com
ansiedade. Nas mesas em torno, água, café e celulares, muito celulares. O que
aquela avis rara lia com tanta dedicação, contrastando com tudo?
Um manual novíssimo que ensina detalhes sobre como utilizar o
celular...
Confesso que surpreendeu a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que reduz a carga horária dos trabalhadores para 40 horas e extingue o regime 6x1. Nesses aziagos tempos para o trabalhador, a medida representa um inesperado avanço civilizatório. A elevada simpatia popular pela medida, a pressão exercida pelas redes sociais e as eleições que se aproximam ajudaram a acelerar a discussão e a aprovação da proposta.
Por enquanto, a aprovação aconteceu na Câmara dos Deputados, com votação esmagadora. Até o Centrão e – mais ainda – a extrema-direita renderam-se, após diversas tentativas de sabotar a proposta. No Senado – acredita-se – também não deve haver grande resistência, embora se preveja o mesmo deplorável espetáculo da extrema-direita histriônica.
Quem dispõe de apenas um dia de folga por semana, sujeita-se a longas jornadas e a intermináveis deslocamentos para o trabalho não vive propriamente. Apenas sobrevive. Sobretudo porque, quase sempre, esse regime está associado a baixos salários. Dois dias de folga na semana – sendo um deles aos domingos – resgata muito da dignidade do trabalhador.
Ao longo da última década o cenário para o trabalhador brasileiro foi funesto. Começou com a grande crise econômica de 2015/1016, passou pela contrarreforma trabalhista de Michel Temer, piorou no desgoverno de Jair Bolsonaro, o “mito”, desaguando na contrarreforma previdenciária, na trágica pandemia da Covid-19 e em anos consecutivos de estagnação ou crescimento muito baixo.
Após a longa série de infortúnios, finalmente aprova-se uma medida que resgata, em alguma medida, a dignidade de quem trabalha, como se disse. Afinal, a “modernização” da legislação trabalhista prometida em 2017 traduziu-se apenas em mais longas jornadas laborais, achatamento salarial, precarização das relações de trabalho e elevação do adoecimento de quem trabalha.
Mas é bom lembrar que a conquista foi pontual. Não há nada que sinalize, para o longo prazo, novos avanços. Basta analisar – mesmo que muito por alto – o perfil de quem representa a população no Congresso Nacional. Tudo indica que, em outubro, deve vir coisa ainda pior. Na melhor das hipóteses, permanecerá a mesma bandalheira. Sem mobilização, portanto, não virão novos avanços.
Note-se que mesmo o governo só comprou a briga pela redução da escala 6x1 muito recentemente. Embarcou na ideia oportunamente, quando o rebuliço nas redes sociais já era grande. Mas pelo menos comprou a ideia. Grande parte dos deputados se limitou a prever grandes desgraças, mas se acovardou na hora da votação, conforme o resultado mostrou...
Durante muito tempo o Centro de Abastecimento foi um dos pilares do dinamismo comercial no centro da Feira de Santana. O movimentado entreposto atraía muita gente da zona rural e dos municípios próximos, que não deixavam de visitar becos, ruas e avenidas do agitado comércio da Princesa do Sertão. Sobretudo às segundas-feiras e aos sábados, o centro feirense ganhava vida, com gente que chegava de diversos destinos.
Neste século XXI, abandonado, o Centro de Abastecimento entrou em decadência e perdeu frequentadores; o comércio de bairro se fortaleceu e empreendimentos comerciais, como shoppings, conquistaram a clientela que, antigamente, tinha como opção exclusiva o centro da Princesa do Sertão. A expansão imobiliária, por sua vez, levou milhares a migrar para fora do Anel de Contorno, distantes do centro.
A soma destes fenômenos deixou o centro da Feira de Santana mais vazio. É muito comum ver as placas de “Aluga-se” e “Vende-se” desbotando-se, imóveis comerciais deteriorando-se e artérias vazias de passantes durante boa parte do dia. Dificuldades de deslocamento – congestionamentos, transporte coletivo precário – somam-se ao rol das mazelas.
Porém, o anúncio do prefeito José Ronaldo de Carvalho (UB), de que pretende desapropriar imóveis no entorno da prefeitura para instalar, ali, o Centro Administrativo do município, traz esperanças de revitalização para a região. Anunciou-se ampla desapropriação, que alcança as avenidas Getúlio Vargas e Senhor dos Passos e a rua J.J. Seabra. Note-se, todavia, que não foram estabelecidos prazos.
A Feira de Santana cresceu muito nas últimas décadas e a gestão administrativa não acompanhou essa expansão. Dispersos por inúmeros imóveis, os órgãos da prefeitura funcionam de maneira atomizada. A aproximação física é fundamental, com potencial de gerar sinergia administrativa e, sobretudo, oferecer aos cidadãos serviços de maneira racional e organizada, sobretudo àqueles que não tem intimidade com o universo digital.
Os impactos diretos e indiretos sobre o movimento no centro da cidade também são óbvios. Para lá afluirão os funcionários públicos e a população em busca de serviços; como desdobramento natural, vai se constituir e fortalecer uma teia de prestação de serviços secundários para esses públicos, produzindo externalidades positivas para o centro da Feira de Santana.
A iniciativa soma-se às reformas realizadas no projeto Novo Centro, que substituiu pisos, alargou calçadas, melhorou a iluminação e ofereceu condições para a humanização do centro da Princesa do Sertão. Faltaram iniciativas complementares, como trazer a prefeitura, de fato, para o coração comercial da Feira de Santana, por exemplo.
É bom lembrar que, no centro da Feira de Santana, residem hoje apenas 6.658 pessoas, distribuídas por 4.215 domicílios recenseados. Esta população é pouco superior a 1% da quantidade de feirenses contabilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Censo 2022.
Quando se concretizar, a implantação do Centro Administrativo vai figurar entre as mais importantes realizações da atual gestão municipal.
A sempre congestionada Avenida Canal é uma das vias essenciais de circulação na Feira de Santana. Começa na Avenida José Falcão, nas imediações das Baraúnas e do Minadouro, espichando-se tortuosa até a Rua Tomé de Souza, no bairro Rua Nova. O trecho entre o antigo Posto Moura – no acesso ao Sobradinho – até o Centro de Abastecimento costuma ser terrivelmente congestionado, mesmo nas horas de fluxo menos intenso.
A via abriga oficinas mecânicas, lojas de autopeças, borracharias, postos de combustíveis e o Centro de Abastecimento. Também abriga o Canal que lhe dá nome e que escoa um fluxo abominável, cujo odor é insuportável. Parte dos esgotos feirenses e da água das chuvas escoa por lá, encorpando-se em época de trovoadas ou chuvas mais intensas.
Quem vive naquelas cercanias enfrenta muitas adversidades. O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, traz números sobre uma comunidade que existe por lá há muito tempo: a Favela da Avenida do Canal, com seus 863 domicílios que se espremem à margem do canal e de estreitas vielas contíguas: as ruas Natal, Platina e Acácia. Quem não conhece, confunde-a com a Rua Nova.
Na localidade, residem 1.871 pessoas e a quantidade de moradores por quilômetro quadrado impressiona: 17,9 mil. Os pardos (47,8%), e os pretos (43,4%) constituem mais de 90% da população. O índice de pessoas alfabetizadas alcança praticamente 90% dos residentes. Para cada 100 mulheres residentes existem 90 homens, revela o censo.
Há indicadores positivos em relação à comunidade: coleta de lixo, acesso a água encanada, iluminação pública e banheiros de uso exclusivo são quase universais; a conexão à rede de esgoto ultrapassa os 96% de domicílios. Todo o entorno conta com vias pavimentadas, segundo o levantamento do IBGE.
Por outro lado, lá não existem estabelecimentos de saúde ou educação. Também quase não existem árvores: cerca de 80% das vias não têm árvores e as que tem contam com, no máximo, duas árvores. Outro drama é o acesso ao transporte coletivo: quase 99% dos domicílios não dispõem de pontos de ônibus no entorno.
Quem tem dificuldades de locomoção pena nas ruas da comunidade: quase 80% das calçadas oferecem obstáculos para os transeuntes. Rampas para cadeirantes não existem (80%) ou não há informação declarada (20%). Até calçada é luxo: pouco mais de 20% dos domicílios não dispõem do equipamento.
Os números revelam que há muito a avançar em qualidade de vida. Se por um lado há serviços públicos quase universalizados, por outro os moradores não dispõem do essencial para uma vida mais confortável. Note-se que a Favela da Avenida do Canal localiza-se quase no centro da Feira de Santana, bem distante das castigadas periferias feirenses.
Por fim, é bom ressaltar que, embora conhecida popularmente como Avenida de Canal, o logradouro oficialmente possui um nome muito mais pomposo, aderente às homenagens às grandes personalidades da História: Avenida Padre José de Anchieta...