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André Pomponet

Celulares

André Pomponet - 29 de Maio de 2026 | 11h 23
Celulares
Foto: iStockGetty/Images

Eram seis, numa praça de alimentação de shopping. Gente de firma. Na mesa, diante deles, os pratos vazios das refeições recém-terminadas. Guardanapos sujos de papel, talheres engordurados. Um ou outro suspirava, denotando saciedade. Mas ninguém lançava aquele olhar preguiçoso para o vazio, de quem relaxa após o almoço. Não: mantinham-se tesos, olhos atentos, cotovelos sobre a mesa, dedos deslizando agilmente sobre a tela do celular.

Em volta, não havia muita diferença: um, displicente, palito na boca, rola enfastiado o feed de rede social; um casal, pratos vazios, distraía-se, silencioso, defronte às telas; mais adiante, um sujeito agitado fisgava a macarronada com grandes garfadas e lançava-a na boca, sem hesitar, o olho vidrado examinando a tela, dedos correndo, nervosos, pelo celular.

Paletó azul-marinho, camisa branca e gravata vermelha: uma personagem jurídica, cabelos bastos desalinhados, gravava mensagens pelo aplicativo, os olhos distraídos percorrendo os restaurantes, os corredores, vasculhando o shopping iluminado sem se fixar em nada. Falava de dinheiro, de contratos, de compra-e-venda.

Ali perto, crianças desafiavam aquela sisudez, divertindo-se com um jogo qualquer no celular, uma musiquinha irritante repetindo-se ad nauseam. Cinco ou seis anos? Por aí. Próximo, um chegava à segunda década de vida, entretido num jogo eletrônico qualquer, jeito sério de menino adulto, o celular entre as mãos respeitosas.

No caixa de um iluminado self service, a moça paramentada, de avental preto, discretamente examinava a tela do celular; quando um cliente entregava a comanda e o cartão, ela efetuava a transação, de soslaio observando o celular, aguardando sabe Deus que mensagem, que novidade. Às vezes, débito e crédito traíam-na, e vice-versa.

Pé apoiado no carrinho da limpeza, farda verde de empresa terceirizada, o sujeito absorvia-se com uns vídeos, um locutor de voz vítrea anunciando desgraças e calamidades em tom de urgência, da mesma urgência das desgraças e calamidades da semana passada, do mês passado, do ano passado.

Andando, fazia-se necessário desviar. Passantes gravando áudios, passantes assistindo vídeos, passantes digitando, passantes ouvindo áudios, passantes gravando vídeos, passantes aguardando com angústia mensagens que se retardavam longos segundos. Todo mundo avançava, ameaçando colisões, cotoveladas, pontapés involuntários, chutes nos calcanhares.

Mais à frente, num café – surpresa! – um sujeito bicava um expresso, olhos atentos a um livro pequeno, que os dedos manuseavam com ansiedade. Nas mesas em torno, água, café e celulares, muito celulares. O que aquela avis rara lia com tanta dedicação, contrastando com tudo?

Um manual novíssimo que ensina detalhes sobre como utilizar o celular...



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